segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Quinta Vale D. Maria ’2010

Foi aberto em casa do T, para acompanhar um almoço vegetariano: salada com falsa maionese de abacate, lentilhas vermelhas em molho masala, com espinafres, tipo isto, acompanhadas de arroz jasmim, e uma mousse de chocolate preto que achei muito engraçada quando levada à boca junto com o molho de abacate supra, sem misturar. A resposta à pergunta "mas com esta comida, porquê tinto, seu burro?", sem dúvida pertinente, é que nenhum dos presentes, excepto eu, bebe vinho, de tal forma que não havia nenhum branco fresco e, dos tintos existentes, era este ou um daqueles "reserva" do Continente que se encontram eternamente em promoção.

Imaginem agora o meu esforço para me portar bem, imaginem-me a dizer àqueles simpáticos velhotes que "só para mim não, não vale a pena" e eles a replicarem que estivesse à vontade, que "não vale a pena ficar aí, que ninguém a bebe" e "mas bebe, bebe toda"! Alguém lhe tinha escrito um três, a esferográfica, por cima do zero original do rótulo; não sei nem perguntei porquê.

E foi assim que, sem decantar, me apareceu no copo um tinto sério, escuro e muito integrado, de excelente volume e estrutura compacta, com taninos ainda jovens. Um pouco mudo, no entanto, mau grado a densidade e força que deixava entrever; para cúmulo, a fruta e os tostados que iam despontando não tardavam a ser oprimidos pela intensa componente especiada do prato principal. A solução foi beber o menos possível até à sobremesa, onde, mau grado o conjunto continuar um pouco preso, finalmente senti harmonia.

Foi sozinho e já bem depois da refeição que mostrou o melhor de si, com as arestas a arredondar e o aroma como que a concentrar-se: andava eu com o que dele sobrara pelo quintal, a fotografar gatos, quando comecei a notar a fruta mais viva, com nuances límpidas, de groselha e mirtilo, que antes não estavam lá, as especiarias mais fragrantes, mais envolventes, e o café, nota dominante no fim de boca, mais alegre, com pontuais laivos de chocolate, a fazer lembrar um bom moca.

Acabei a tarde com a S, a não encontrar a entrada para a escombreira de uma mina. Já de noite, um som estranho, alto e arrastado, que a princípio suspeitámos advir do funcionamento de algum tipo de bomba, mas que provavelmente seria o ressonar de um animal que não chegámos a ver: parou quando nos parecia termos chegado à sua origem, imediatamente seguido do barulho de algo a mover-se pelo alto do que resta das paredes do convento arruinado de Sacaparte.

De acordo com ficha técnica que o produtor disponibiliza no seu sítio da internet, este tinto é "um blend de 41 castas diferentes", procedentes de vinhas com mais de 60 anos. As uvas foram "pisadas em lagares de 1 a 3 dias antes da fermentação, e vinificadas depois durante 7 a 10 dias" e os vinhos daí resultantes fizeram a fermentação maloláctica e posterior estágio, de 21 meses, em barricas de carvalho francês, "sendo os diferentes lotes obtidos de cada fermentação mantidos completamente separados até à composição do lote final, cerca de um mês antes do engarrafamento", que foi feito em Julho de 2012.

O PVP ronda os 35/40€.

17,5