quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Velharias (41)

É numa das nossas visitas mensais à mamã, na parvónia, que acabamos a falar do Barrocal e respectivo "gado", como se referia aos que lá viviam um velho conhecido da família.

Há doze anos atrás, o Barrocal estava bem mais cheio de calhaus e vazio de pessoas que agora, o que fazia dele um lugar porreiro para fumar ganza e apreciar a natureza.

Ora, existia lá uma tasca onde eu fazia questão de ir quase todos os dias, quando, por qualquer motivo, me demorava na casa paterna. Era a "Locomotiva" um sítio simples, com café de máquina e água das Pedras, verdadeira, onde podia estar sem ter de me esforçar por me portar bem.

Certo dia de neura, de café tomado naquela que então me pareceu a mais miserável das tascas, não obstante ser um dos meus lugares de eleição, registei as seguintes linhas:

Acabo de tomar café na mais miserável das tascas, naquela parte de Castelo Branco a que chamam Barrocal. Acabo de tomar café na mais miserável das tascas e, contudo, tenho bem assente que não gosto de tascas, e que não gostam de mim nas tascas, e que não preciso de as frequentar. Mas qualquer tasca é boa de mais para mim. Qualquer tasca é boa de mais para mim e ninguém o sabe excepto eu. E não gostam de mim naquela tasca, nem em qualquer outra, certamente porque sou um estranho, um alienígena de aspecto bizarro e olhar alterado, que não encaixa em lugar nenhum. Sou um insulto ambulante. Sou a pior forma de pedantismo. Sou a vaidade burra plasmada num rapazinho com horror às moscas e que insiste em pedir dois pires de tamanhos diferentes com a mesma chávena de café. Um elemento patológico. Um deslocado. Uma caricatura. Um freak. Um anormal.

Entro, mais uma vez, na tasca. Três trabalhadores da CP, fardados, o dono da casa e o respectivo filho, que não deve ter mais de catorze ou quinze anos, mas já trabalha. Sento-me e sou abordado pelo pequeno. "O que deseja?" Não tomarei o que quiser, mas o que desejar. Pêlo do mesmo cão, a dose, o kit de sempre. E o rapaz volta pouco depois com uma chávena de café ordinário, um bocadito queimado, assente em dois pires de tamanho distinto, sobrepostos, porque assim é que deve ser. Mas pergunta-me, como sempre, se quero um copo. E eu quero, de facto, um copo. Um copo para a água com gás.

Não consigo esconder o nojo das moscas, que são algumas, sempre, e em que todos (presumo!) fingem não reparar. E não procuro sequer esconder os meus olhos que faz tempo não dormem, os meus olhos estáticos, injectados de sono e Valium e haxixe. Tiro a carteira, quase com nojo de a depositar sobre esta mesinha de aparência inócua mas presumivelmente imunda, onde mal me atrevo a tocar, só de pensar em quem ali terá estado antes, no que ali se terá derramado e nos panos que terão usado para a limpar. E que raiva . . . UAU! Que MEDO, medo de que descubram o nojo que tenho, mas acima de tudo, de mim próprio, que afinal não sou respeitável, que sou o menos respeitável de todos eles, e que me odeiem ainda mais por isso!

E apesar de tudo o mais aqui emanar um cheiro pútrido, adocicado, enjoativo, a restos de queijo bolorento e vinho derramado, é sobre mim que as moscas teimam em investir. Tento, em vão, espantá-las com a ponta do cigarro, com o jornal que alguém abandonou na mesa, com a carteira, com as mãos. Assim, como poderia pretender passar despercebido? Até as moscas reparam. Até as moscas sabem e parece que se unem para cair sobre mim. O miúdo sai, senta-se lá fora, à porta. O tasqueiro continua a sua conversa com os operários, todos eles completamente à vontade.

Falam de política, de economia, de mulheres. Quatro homens encostados a um pequeno balcão, entregues a uma indolência quase lasciva. Deixo cair a minha atenção sobre a massa informe que representam, qual escultura triste, vagamente animada. Falam com a segurança de um saber simples, mistura curiosa de senso comum com as paixões de cada. Olhos baixos, ouço-os falar, dizer merda — entretêm-se em horário de expediente.

Agora as saudades da moda são do Antigo Regime. Parece que as pessoas esqueceram os cravos que outrora aplaudiram. Sá Carneiro, um D. Sebastião morto: depois dele, o barco não mais parou de meter água. Antes, era necessária uma ordem. Deus, família, Fátima e o Benfica é que eram. Pita que levantasse a garipa, levava. Mas o vento mudou e muitos desses mesmos homens bons aplaudiram os comunistas, que finalmente havia liberdade! Quando a cena deu o berro, viraram, quase todos, centristas moderados. Foram-se aguentando as coisas universalmente fixes, Fátima e o Benfica, e mais o segundo que a primeira...

Não faz diferença. Estou na tasca porque quero, ou então porque não mereço mais. E todos aqueles sacos de tripas que me odeiam e de quem me rio em silêncio acabam por ser bem melhores do que eu. Porque têm as suas vidas, gente que os respeita, gente que gosta deles, gente, até, que depende deles. Muitos terão nascido em condições precárias e toda a vida caminhado na corda bamba, sobre um precipício terrível, mas foram e vão seguindo em frente, sem olhar para baixo. Pelo menos até que caiam, vão vivendo. E até ver, nenhum destes que aqui vejo terá caído realmente. E eu, a quem proporcionaram, desde bem cedo, uma sólida ponte de ferro para que pudesse atravessar sem perigo, abeiro-me da balaustrada, inclino-me perigosamente e vacilo — toda a vida olhei para baixo, empoleirado num corrimão, toda a vida tive tanto desprezo como medo do abismo, toda a vida fui um cabrão ainda menos que hedonista, cheiinho, pior que de medo, de preguiça de viver, uma alma completamente entregue à lei do menor esforço!

Quão desprezível me sinto perante estas ideias que me perpassam a alma, ou o que resta dela, e que talvez nem alma seja, mas um espelho, mais um, de um intelecto retorcido . . . E os meus "companheiros" de café, em pleno turno, felizes, relaxados! Que fiz eu para me poder ver, sequer, remotamente semelhante a eles? Consola-me que, no fim, vamos todos morrer. E se não sou ninguém para aspirar a morrer como eles, o facto é que aí, pelo menos aí, as hipóteses de igualdade entre os homens aumentam . . . Mas só aí, caralho! Ah, Deus deve, de facto, nutrir um amor especial pelos estúpidos! Pudera! Se esses nunca tentaram matá-Lo!

Suspiro. Balcão, pago e saio. Como sempre, o tasqueiro mostra uma boa educação simples, mas irrepreensível, que só me faz sentir pior. Chego a casa com vontade de escrever; creio que isso diz tudo. Merda. Nesta triste vida, como uma simples ida ao café pode ser má.

16/7/2004