quarta-feira, 29 de junho de 2016








domingo, 26 de junho de 2016

Terras Gauda — O Rosal '2015

Para fechar o ciclo das mini-férias, fica o reparo sobre este Rías Baixas, produzido pelas Bodegas Terras Gauda.

No vale d'O Rosal, a Primavera e Verão de 2015 foram dos mais quentes dos últimos anos. Depois, as chuvas do princípio de Setembro atenuaram a seca, ajudando as vides a completar a maturação da fruta, o que antecipou a vindima face ao habitual e resultou numa colheita considerada "muito boa" pela entidade reguladora.

Desta vez, o lote consistiu em 70% de Albariño, 18% de Caiño Blanco e 12% de Loureiro. Após uma primeira maceração, os mostos lágrima de cada variedade fermentaram em estreme, a baixa temperatura, por acção de leveduras autóctones, em depósitos de inox. O vinho foi estabilizado pelo frio e filtrado antes de engarrafado, em Dezembro de 2015.

O Caíño, que não conhecia, merece um parêntesis. Originário da Galiza, resultado provável do cruzamento de Albariño com Azal tinto, apresenta cachos pequenos, ciclo longo e maturação tardia. Ademais, é sensível e pouco produtivo, mas, dizem, tem como característica especial a capacidade de dar vinhos invulgarmente loquazes na expressão do solo onde cresceu, por isso, mau grado não ser popular, manteve certo interesse.

Bebido com umas vieiras salteadas em manteiga, só com sal e pimenta, que me calharam mesmo bem e que foram muito amiguinhas do feijão verde e das batatas assadas com casca que a S me garantiu que lhes devia juntar no prato, como convenceu!

Ananás, banana, maracujá, mais um toque de flor de laranjeira e algo verde e aromático, talvez louro e lima — é um vinho de contrastes: essencialmente tropical, mas tropical delicado, contido, tanto na intensidade como na doçura, está também intensamente fresco e tenso, com finíssima agulha a espalhar-se pela boca com um "punch" de acidez limonada que se prolonga. Ao mesmo tempo, tem aquele toque encorpado, vagamente cremoso, característico do Alvarinho.

No princípio, parece só bonzinho, nada de especial. Mas entranha-se depressa. Talvez pelo perfil aromático, dá a ideia de ter calhado uma coisa porreira, a milímetros de outra que podia perfeitamente ter saído bem vulgar. No entanto, colheita após colheita, têm resultado sempre coisas porreiras. E isso não pode ser coincidência.

Engarrafado há pouco mais de meio ano, está já perfeitamente integrado — para beber jovem.

A qualidade dos vinhos impressiona face à dimensão do projecto: em 1990, o produtor encheu 37000 garrafas com o resultado da sua primeira colheita; deste 2015, que não é o único vinho do portefólio da casa, abri a garrafa nº 165845 de 915000 produzidas.

12€.

17

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Fiuza — Cabernet Sauvignon '2014

Vinho Regional do Tejo, produzido e engarrafado por Fiuza & Bright. As uvas provêm da região de Almeirim e Santarém, coligindo o produtor a localização das suas propriedades no seguinte mapa.

Fermentou em cubas de inox, a 25°C, com maceração prolongada e subsequente estágio, de 8 meses, em barricas de carvalho francês e americano, novas e usadas. Da colheita de 2014, resultaram 100000 garrafas.

Cabernet simples e muitíssimo correcto, mostra-se intenso na fruta, tendencialmente vermelha, e possuidor de carácter varietal (vegetal) suficente para, mesmo às cegas, se lhe perceber facilmente a origem.

Um toque tostado transmite-lhe interesse adicional e teve potência e persistência suficientes para aguentar a companhia de um bife com pimenta verde, sem tibiezas.

Pareceu-me daqueles vinhos que é fácil subvalorizar por não se mostrarem "especiais" em nada, mas cujo maior valor consiste na simplicidade, na coesão, na versatilidade, na facilidade em agradar. E disso, ele tem de sobra.

5€.

16

segunda-feira, 20 de junho de 2016



sábado, 18 de junho de 2016

Borges — Quinta de Simaens '2014

Ainda outro branco do Norte, abatido à beira do riacho de que já vos falei. O acto do seu consumo foi singularmente parco de notas. Citando: "fresco e ligeiro, bananeiro — dito assim, quase remete ao mundo do futebol",

seguido de "tenho cada vez mais firme a convicção de que bebida e natureza ligam maviosamente. Dito isto, se alguma vez tiver de ser um freak sem terra, procurarei, obviamente, ser um dos do campo, onde as agruras são temperadas com uma beleza que na cidade não há".

Nessa noite, fomos até um lugar com wifi e baloiços. E que momento, quando aguém não muito longe de nós se pôs a ouvir Joaquín Sabina, alto, a começar logo nesta!

Mas lembro-me perfeitamente do vinho e continuo sem muito que dizer. Um magro harmónico, simples e limpo, que aromaticamente remeteu ao verde, quando frio, e se tropicalizou com o subir da temperatura.

Agradável, apesar de não possuir grande presença ou expressividade. Se o ano em garrafa poderá ter feito bem ao Ribeiro do post anterior, suavizando-o, com este poderá ter acontecido o contrário, dado que fica a ideia de que o esmaeceu.

A Quinta de Simaens, sita nas imediações de Felgueiras e que inclui 40ha de vinha com uma média de idades de 15 anos, implantada em solo argilo-xistoso, pertence à Soc. dos Vinhos Borges.

As uvas, Alvarinho, Avesso e Loureiro, fizeram maceração pelicular, em câmara frigorífica, antes de prensadas. Após a prensagem, o mosto foi arrefecido e decantado, fermentando depois a 12-14ºC. No final da fermentação, o vinho foi trasfegado e iniciou o estágio sobre as borras finas, que se prolongou 4 meses.

4€.

14,5

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Viña Costeira '2014

Outro branco lá de cima, desta vez proveniente das terras baixas que existem do outro lado da serra, este é o vinho bandeira de Viña Costeira, cooperativa vitivinícola do Ribeiro, com adega em Ribadavia, Ourense.

Foi obtido a partir de razoável variedade de castas, sobretudo Treixadura e Torrontés, mas também Albariño, Godello, Loureira e outras, provenientes de vinhedos assentes em terrenos graníticos, repartidos entre várias localidades, no vale formado pelo rio Minho e seus afluentes Avia e Arnoia.

Após prensagem pneumática, os mostos das distintas variedades e proveniências fermentaram em separado, sendo os lotes elaborados após breve estágio dos vinhos novos sobre as borras; antes de engarrafado, teve direito a estabilização pelo frio: a grosso modo, arrefecimento brusco, para acelerar a insolubilização e precipitação dos sais de ácido tartárico, sobretudo bitartarato de potássio.

Servido a 8/10ºC, começou muito floral e algumas dessas flores eram rosas. Depois adquiriu tons mais comuns, essencialmente frutos de caroço com toque tropical. Tendencialmente ligeiro, persistiu moderadamente, sempre com considerável suavidade.

Fresco e bem balanceado, pareceu-me mais redondo e menos raçudo que a maioria dos seus congéneres da região dos Vinhos Verdes — se é que são mesmo congéneres e não, simplesmente, vizinhos. . . Em todo o caso, e apesar de ter gostado, de tal forma que a garrafa foi consumida, sem ajuda, de uma só vez, não encontrei nele nada de particularmente marcante.

A zona de produção da D.O. Ribeiro está situada na parte meridional da Galiza, na borda noroeste da província de Ourense — estas coisas percebem-se melhor num mapa. O clima, húmido e temperado, tende a ser mais ameno que no Minho e Rías Baixas pela protecção que as montanhas proporcionam face à influência do Atlântico.

6€.

15,5

segunda-feira, 13 de junho de 2016


O castelo de Castro Laboreiro está completamente destacado do povoado, no alto de um monte, 1033 metros acima do nível do mar. Não se sabe se originalmente foi edificado por Mouros, Romanos, ou no séc. X, a mando do rei de Leão, mas existe consenso sobre a sua conquista por D. Afonso Henriques, em 1141.

Arrasado durante a invasão Leonesa de 1212, foi recontruído por D. Dinis no final do séc XIII, altura em que terá tomado a feição definitiva, com dois recintos muralhados: no topo, o centro militar do conjunto, e a Sul, um outro, maior, que serviria para recolher gado e bens, em épocas de invasão.


Apesar da evolução das artes da guerra, manteve o interesse militar durante séculos, de tal forma que foi artilhado pela última vez em 1801, aquando da Guerra Peninsular.

Uma curiosidade: foi completamente destruído por uma explosão na manhã de 18/11/1659, quando um raio caiu no seu paiol. Outra: entre 1766 e 1778, foi utilizado como calabouço para alguns daqueles que se recusavam a apresentar os seus filhos recenseados ao serviço militar — terão passado por lá 400 pessoas.


Com a paz, foi desguarnecido e abandonado. Depois, parcialmente desmontado, as pedras reutilizadas em construções na vila. No século XX, foi classificado como Monumento Nacional pelo Decreto nº 33:587, de 27/3/1944.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Adega do Sossego '2014

A Adega do Sossego é um restaurante de cozinha tradicional, situado no lugar do Peso, freguesia de Paderne, perto das Termas de Melgaço, de onde vem uma água gasocarbónica que não conhecia e muito me agradou, óptima alternativa à das Pedras, na hora de acompanhar o café. Mas isso são outros quinhentos, que não é de água que aqui se trata, mas de vinho.

E o citado restaurante tem vinho, não só dos outros, mas também de produção própria: um espumante, um tinto feito a partir da casta Vinhão e um branco tranquilo, este varietal Alvarinho, sobre o qual pouco encontrei escrito, certamente dado a produção ser inteiramente escoada no restaurante e a nível local, e que, testado, correspondeu e até superou as expectativas.

No copo, cor palha, ainda clarinha. Abriu discreto, talvez por estar um pouco mais fresco que o recomendável, repleto de flor de camomila e aquilo que me pareceu raspa de limão, mas depois cresceu e transfigurou-se em laranja doce e sua casca. Gordito na boca, com toque mineral e muito bom compromisso entre frescor e untuosidade, terminou bastante persistente e sem qualquer nota doce, apesar do sugerido pelos aromas.

E se com peixes grelhados não me surpreendeu que se portasse bem, achei realmente notável como manteve a forma e complementou, sem quaisquer problemas, os sabores fortes e a gordura de parceiros à partida bem mais complicados, como o pequeno almoço do "dia seguinte", com queijo Abondance em pão de cereais ancestrais, do Pingo Doce, e Schwarzwälder Schinken com melão.

Em suma, apesar de simples, é um vinho bonito, em estilo "unoaked", que prima pelo equilíbrio e é compatível com muitas comidas!

7€.

16

terça-feira, 7 de junho de 2016

Anselmo Mendes — Alvarinho Contacto '2013

Outro vinho lá de cima :)

Diferente q.b. e talvez um pouco melhor que o seu antecessor de 2009, quando bebido com menos meio ano de garrafa, está um Alvarinho porreiro, fresco e limpo, com boa profundidade, algum volume e muito equilíbrio.

Abriu floral e foi evoluindo para pêras e drupas, primeiro de polpa branca, depois mais amarelada, em crescendo de complexidade, sobre um curioso "salgadinho" de fundo que encontrei deveras interessante. Algo tropical, também. . .

Face a tudo isto, foi com certa pena que constatei que, de alguma forma, acabou por me deixar a ideia de lhe ter faltado um golpe de asa, alguma característica, por assim dizer, fracturante, que o tornasse único dentro do bom.

O produtor informa que as uvas provêm exclusivamente de Monção e Melgaço, de vinhas com idades que variam entre os 10 e os 32 anos, plantadas em solos graníticos, "com elevado teor de pedra rolada", junto ao rio Minho.

A fermentação foi precedida de curta maceração pelicular e sucedida por um estágio de duração não inferior a 4 meses, em pequenos depósitos de inox, sobre borras finas.

10€.

16,5

domingo, 5 de junho de 2016












sexta-feira, 3 de junho de 2016

Adega de Ponte de Lima — Loureiro, Colheita Seleccionada '2014

Estabelecemos a base numa casinha de madeira montes de fixe, ao lado de um regato, qual versão soft do lugar onde se desenrola a maior parte do relatado no grande "Big Sur", de Kerouac.

Passámos o tempo a passear pelos trilhos.

Aproveitei para beber produtos locais. Mas em vez de apenas Alvarinho — que mais que a casta bandeira do Alto Minho, é algo de facto ominpresente, sobretudo nos entornos de Monção e Melgaço — resolvi variar.

Aconteceu o primeiro escolhido ser um Loureiro, casta originária do vale do rio Lima, muito produtiva e ainda bastamente subvalorizada, da Adega Cooperativa de Ponte de Lima.

A respeito do seu método de elaboração, refere o produtor que as uvas, desengaçadas e esmagadas à entrada na adega, maceraram em contacto com as películas, antes de prensadas.

O mosto foi então decantado e iniciada a fermentação alcoólica. Por fim, o vinho foi filtrado, estabilizado e novamente filtrado, antes do engarrafamento.

Bebi-o bem fresco e na rua, ou melhor, no bosque, em balão relativamente magro, como aqueles que usualmente recomendam para Riesling seco.

Muito sucintamente: Cor palha. Simples e muito vivo, com limonados, banana e um melado silvestre de flores que diria amarelas.

Tem agulha, acidez vincada, crocante mesmo, e um final envolvente, de comprimento médio, em tons de caramelo, mas que não fica doce e limpa a boca.

Feito para ser bebido jovem, provavelmente piorará com a permanência em garrafa. Mas, no imediato, ainda muito fresco, pareceu-me o derradeiro vinho para sushi.

5€.

15,5

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Filmes (71)






Adaptação de "O Processo", de Kafka, realizada por Orson Welles em 1962. Logo no princípio do filme, o narrador introduz a história:




Before the law, there stands a guard. A man comes from the country, begging admittance to the law. But the guard cannot admit him. May he hope to enter at a later time? That is possible, said the guard."




By the guard's permission, the man sits by the side of the door, and there he waits. For years, he waits. Everything he has, he gives away in the hope of bribing the guard, who never fails to say to him "I take what you give me only so that you will not feel that you left something undone".




And now, before he dies, all he's experienced condenses into one question, a question he's never asked. He beckons the guard. Says the guard, "You are insatiable! What is it now?" Says the man, "Every man strives to attain the law. How is it then that in all these years, no one else has ever come here, seeking admittance?"




His hearing has failed, so the guard yells into his ear. "Nobody else but you could ever have obtained admittance. No one else could enter this door! This door was intended only for you! And now, I'm going to close it."