terça-feira, 18 de abril de 2017

Filmes (79)



"I have existed from the morning of the world and I shall exist until the last star falls from the night. Although I have taken the form of Gaius Caligula, I am all men as I am no man and therefore I am a God."

sábado, 15 de abril de 2017

Domini Plus '2011

A colheita de 2011 na Quinta de Mós, propriedade da José Mª da Fonseca no Douro, rendeu 5800 litros deste vinho, engarrafado em Abril de 2014.

68% Touriga Francesa, 22% Tinta Roriz e 10% Touriga Nacional; estagiou 23 meses em madeira nova.

Inicialmente fechado de aroma, melhora tomado algum ar: frutos negros, barrica fina, flores e cola "Dragão". Vaga percepção de doçura. Longo, concentrado; elegante na forma como distribui coisas grandes.

Algo monolítico, é certo, mas muito polido, tem tudo o que se espera de um vinho de gama alta, oriundo de um produtor de referência, que começa a estar realmente pronto a ser bebido.

E agradou, de tal maneira que uma das notas rabiscadas aquando da prova até diz "delicioso". Mas não houve entre nós click que justificasse maiores observações.

Coisas da alma! Se da dele, se da minha, não sei.

35€.

17,5

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Velharias (42)

Tento cristalizar em termos perceptíveis este meu momento. Apesar de ter fumado bastante, sinto-me sóbrio e desperto, o que, perante o espelho, não deixa de surpreender: é uma pobre figura aquela que me enfrenta de olhar fixo, sem pestanejar, os músculos da face meio paralisados numa expressão idiota.

Consigo raciocinar com clareza e escrever depressa, mais depressa do que o costume. Mas não chega. Gostava de escrever coisas que penso com destreza tal que o acto de registar não interferisse com o filme, mas temo que tal seja impossível. Registar também é uma tarefa.

Com a corrente de ideias perturbada pelo abrandamento que lhe é imposto pelo acto de registar, há sempre algo que se perde, e consigo a própria corrente. Fica imortalizado um esboço sem graça, nunca nada parecido com o que pretendia representar. Mas insisto em fazê-lo, não que tenha ilusões seja relativamente a produzir pepitas de sabedoria ou a alguma vez vir a conseguir registar algo para o qual não possuo uma linguagem completa e que se transforma e me leva consigo para onde eu não estava, por caminhos que não creio que fosse trilhar, assim que escrito ou dito. A auto-referência é só um de muitos desses demónios. 


Ei-la! Não era onde queria ir e voltar atrás não é permitido, por via da artificialidade. Já não é eu e onde estava a ir: projecção futura e momento presente, mas sim uma recordação revisitada. Por curiosidade, elaboremos sobre isso. Se por vezes o filme flui ligeiro, outras preocupam-me coisas mais pesadas.

E eu, babado ao espelho, antes de me desviar pelas linhas supra, estava ou estive algo atormentado com algo recorrente, que me acompanha não importa quão para trás olhe: acho que dependo de pessoas. A rapidez com que me farto da solidão relativa de quando me isolo dos outros leva-me a pensar que não suportaria viver absolutamente só.

Mesmo assim, evito frequentemente essas pessoas com quem tanto gosto de interagir. Porquê, não sei ao certo. Talvez por medo de não acompanhar as suas expectativas, embora não consiga ver qualquer bom motivo pelo qual havia de me forçar a isso. Ademais, é natural que o indivíduo julgue aquilo que vai conhecendo e de forma alguma isso o transforma automaticamente num inimigo.


Eu também o faço. Ao comprar bananas, escolho um conjunto de frutos que nunca antes tinha visto na vida em função de um julgamento imediato e baseado numa banana ideal, que nunca toquei ou comi, mas que ajuda a diferenciar uma "boa" banana de uma "má" banana. Ao conhecer a Joana, amiga de conhecidos que nunca antes tinha visto na vida, é natural que a avalie, por menos importante que esse juízo ou a própria Joana sejam no curso da minha vida: duas semanas depois do cia em que a conheci, encontrando casualmente a Joana na rua, já não é uma gaja sem nome, relativamente magra e loira, como tantas outras, que esteve durante uns segundos no meu campo de visão, mas sim a Joana, amiga do Mário que me vende haxixe, a Joana relativamente magra e loira que às vezes fala mais alto que o aconselhado pela situação e se escangalha a rir com coisas sem jeito nenhum.

Olá Joana. Olá Jorge. E cada um julgou e continuou a sua vida.

Parece-me, pois, algo injusto o tratamento que tantas vezes reservo àqueles que não são eu. Aparecer, não posso evitar. Mas podia, talvez, tentar contrariar o azedume que me tinge uma vez minado pela desconfiança. Podia tentar racionalizá-la. Podia, pelo menos, não a alimentar. Sei que o facto de alguém achar ou esperar algo de mim não implica sempre, necessariamente, que seja um antagonista, infiltrado ou declarado, mas opto por nunca dar o benefício da dúvida. Houvesse algum acontecimento traumático no passado a que pudesse agarrar-me como desculpa, poderia estar descansado, confortar-me-ia a pena de mim mesmo a esse respeito e recomeçaria o jogo. Mas não. Serei estúpido?

Estúpido ou mau? Ah! Sendo mau, é natural que pertença ao inferno, tanto que já lá esteja. Sim, que depender é um inferno e eu acabo por depender de tudo. Qualquer merda me magoa. E pensar "grow a pair, fag" não ajuda, magoa mais. Bah. Teria Kierkegaard razão quando afirmava ser a "doença mortal" o desepero? Porque não a falsa consciência de vida que nos leva tanto a ignorar que vivemos para a morte?

14/1/2002

domingo, 9 de abril de 2017

Terra D'Alter — Alfrocheiro '2014 e '2015

Abertos na mesma noite que o do post anterior, estes Alfrocheiro da Terras D'Alter apareceram muito mais focados e intensos que ele. Definitivamente, não pertencem à mesma liga.


Ora, estes são dois vinhos jovens, cheios de fruta. Em ambos me pareceu a amora a nota dominante, gulosa, super sugestiva, acompanhada no 2014 de cereja negra, vestígios de terra, sangue e algum chocolate, e no 2015, ameixa, especiarias quentes e vegetal seco.


De volume e persistência apenas medianos, ambos assentam boa parte da sua capacidade de impactar em acidez afirmativa e sabor sumarento. Sem arder ou amargar, o de 2015 está algo capitoso, menos redondo que o seu predecessor.

São vinhos de prazer imediato que parecem, no entanto, poder vir a beneficiar de algum tempo em garrafa. Será?

5€, cada.

16, ambos.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Château La Grange d' Orléan '2012

Tal como este Haut-Landon, que foi trazido do mesmo supermercado, o vinho de que trata o presente é um Blaye-côtes-de-bordeaux engarrafado por SAS Robin, que o Guide Hachette des vins et champagnes introduz assim:

Jean-François Réaud a repris en 1983 le vignoble du grand-père, créé en 1904 sous le nom de Domaine du Grand Moulin; il l'a largement restructuré et modernisé, et lui a donné le nom plus flatteur de "château".

Constituem o lote 70% de Merlot, 20% de Cabernet Sauvignon e Franc, e 10% de Malbec, provenientes da vinhas de Annette Venancy, de Saint-Androny.

Savory, não fruit forward, com tabaco e especiarias em evidência.

Fresco e equilibrado, é "médio menos" em termos de presença, apenas firme o suficiente para não se desvanecer no nada . . . Agradável, mas sem grande história.

Embora Bordéus bom e barato não seja miragem, há que garimpar muito e a maior parte do que fica na peneira é cascalho.

Acompanhou cubos de pá de porco, estufada no slow cooker durante 12h, mais coisa menos coisa.  Mesmo no tempo quente, um prato que me sabe sempre bem.

4€.

14,5

segunda-feira, 3 de abril de 2017


Donner - Milic

1. d4, Nf6 2. c4, g6 3. g3, Bg7 4. Bg2, d5 5. cxd5, Nxd5 6. e4, Nb4 7. a3, N4c6 8.d5, Nd4 9. Nc3, c6 10. Nge2

After 10.Be3, White would have had a greater advantage.

10. ..., Bg4 11. O-O, Nxe2+ 12. Nxe2, O-O (12. ..., Qc8!) 13. h3, Bd7 14. Nc3, e6!

Black's last is an excellent move. The passed pawn is weak if anything, but I wanted to win, which would have been well-nigh impossible after a general exchange in the centre.

15. d6!??, e5! 16. Be3, Be6 17. Qd3, Nd7 18. f4, Nb6 19. Rf2!, f5?

Milic failed to understand the position. he should not relinquish files and squares surrounding the passed pawn on d6. With f6 he could have closed the position, condemning White to impotence. Now he ended up in a lost position.

20. fxe5, Bxe5 21. Bf4, Bxf4 22. Rxf4, fxe4 23. Rxf8+, Qxf8 24. Nxe4, Qg7 25. Nc5!, Bd5 26. Bxd5+, Nxd5 27. Re1!, b6


28. d7!, Qf7 29. Qe4, Rf8 30. Ne6, Qxd7

Too bad he did not play Nf6. When I asked him, he came up with some absurd line. Obviously, he hadn't noticed that White would have emerged a piece up with 31.d8=N!!

31. Nxf8, Kxf8 32. Qe6, Qc7 33. Qe8+, Kg7 34. Qe5+, Qxe5 35. Rxe5

Decent players resign in such a position. Black did not and managed a draw, of which I am so ashamed that I will not give the rest of the game. Et le pion noir dit au pion blanc. "Donner:"

It was not the first time this happened to me. My repeated failures (until recently) against Wijnans were due to the same phenomenon. Always reaching winning positions, never winning. And the second game of my match against Euwe, in which I gave a pawn away in a drawn position, was something similar.

I love all positions. Give me a difficult positional game, I'll play it. Give me a bad position, I'll defend it. Openings, endgames, complicated positions and dull, drawn positions, I love them all and will give them my best efforts. But totally winning positions I cannot stand. There are other players in Holland who suffer from the same pathetic phenomenon, notably Van den Berg and Barendregt, who, as a result, are not really taken seriously and of whom it is mockingly said: "Just give a pawn away and you're sure to win." It is much better, in fact, to play an objectively less correct game but to be able to win once you've got a winning position, as is the case with Cortlever and Prins, for example.

And that is why I am writing all this under the heading "On the justice of chess". For it is indeed the strongest who will win: not the one who is objectively the best thinker, but the one who is the most tenacious fighter, as is also the case in life.

Club Magazine DD, Jul/Set 1950


Publicado pela New in Chess, "The King" é a tradução inglesa do clássico de 1987 "De Koning", uma antologia de artigos escritos pelo grande J.H. Donner, organizada por Tim Krabbé e Max Pam.