domingo, 2 de julho de 2017

Um post sobre quatro azeites

Não sou um entendido em vinhos, limito-me a partilhar aqui uma ou outra experiência do quotidiano. Mesmo assim, de vez em quando, há entidades que entendem poder este espaço contribuir para a divulgação dos seus produtos.

Coisa que não me podia desagradar, embora o meu interesse em ser mais que apenas ainda outro apreciador que partilha algo sobre o que come e bebe, quando apetece, seja zero.

Dito isto, é a segunda vez na história deste blogue que me enviam um azeite. E se não me considero um entendido em vinhos, então em azeites...

Mas uso e gosto. Gostamos. Fazemos questão de ter sempre bom azeite cá por casa. E acontece até já ter participado numa prova, coisa complicada e da qual, creio, não retive muito.

Tal como no vinho, se a prova, o entendimento, tem muito que se lhe diga, o acto de provar é simples: verte-se uma porção de 10 ou 15ml de cada um dos azeites para dentro de seu copinho, copinhos esses que "profissionalmente" são escuros, azuis, de modo a que a cor não influencie o resultado, aquece-se com as mãos para libertar tantos voláteis quanto possível, cheira-se e leva-se à boca.

Não se deglute, dizem eles, mas tomam-se notas, se for caso disso, e um bocadinho de maçã verde, com ou sem água a empurrar, entre espécimes, para limpar o palato.

Importa notar a intensidade, por assim dizer, a força do azeite, e a sua harmonia também. O cheiro, mais verde ou mais maduro, que faz lembrar? Atentar à textura, ao "peso" do fluido. Sentir o doce, o amargo, o picante. E ter atenção à questão do ácido, que o sabor do azeite não denuncia a sua acidez, mesmo que ela esteja lá.

Ora, em vez de uma nota de prova isolada e de maior detalhe, que não sei até que ponto poderia ser fiável, fiável no sentido de "honesta consigo própria", pareceu-me mais interessante comparar os azeites que tinha em casa, sendo o mais sucinto possível nas suas descrições.

Quatro azeites, dois alentejanos e dois transmontanos. Todos "virgem extra", extraídos a frio e com acidez máxima de 0,2%, à excepção do "Rosmaninho" do rótulo com letras vermelhas, que tem 0,5%.




Por ordem, houve então:

Casa de Santa Vitória "Gourmet". Produzido na Herdade da Malhada, Sta. Vitória, Beja. Cobrançosa, Cordovil, Picual e Galega. Muito redondo, com toque levíssimo de maçã e verdor apenas residual, pareceu-me o mais maduro dos quatro. Pungência zero. Mas se é equilibrado na suavidade, também poderá haver quem o acuse de "blandness".

Rosmaninho, letras verdes. Produzido pela Coop. de Olivicultores de Valpaços, a partir de azeitonas Madural, Cobrançosa e Verdeal. Aroma mais intenso que o do Santa Vitória e mais verde também, com menos finura nas notas frutadas, mas, globalmente, mais raça. Levíssimo amargor, que cai bem.

Rosmaninho, letras vermelhas. De acordo com o contra-rótulo, mesmo lote e processo de extracção do anterior. E pareceu-me igual a ele. Ou quase, mas um quase que não me convenceu e, em todo o caso, não saberia traduzir por palavras. Sendo os azeites mais subtis no paladar que os vinhos, é expectável que seja também mais difícil apontar as diferenças entre eles, a menos que se tenha muita prática ou se seja algum tipo de sobredotado.

Oliveira Ramos "Premium". Um azeite da marca João Portugal Ramos. As azeitonas, Cobrançosa e Picual, da região de Estremoz. Equilibradíssimo, mas talvez o mais frutado dos quatro presentes, ou, melhor dito, o com mais sabor. Sugere, de facto, o verdor vegetal e a maçã indicados na nota de prova que o acompanhava.

Em prova sem vencedores nem vencidos claros, por muito pouco, gostei mais do Oliveira Ramos e do Rosmaninho "verde", que me pareceram os mais aromáticos, tanto em força como em complexidade, sem que isso lhes tenha custado finura.

Mas, sem tretas, são todos bons, muito bons. De tal forma que, se por algum capricho de um deus subitamente focado em mim, tivesse de me servir apenas de um deles para o resto da vida, a gratidão teria de continuar lá e não sentiria qualquer diferença.

Andava a pensar, faz já algum tempo, em deixar aqui qualquer coisa sobre os whiskies que abati, em casa, nos últimos dois meses (ou isso). Acho que agora é que vai ser! :)