quarta-feira, 5 de julho de 2017

Um post sobre quatro whiskies

"There is no bad whiskey. There are only some whiskeys that aren't as good as others." — Raymond Chandler



Andava a pensar, faz já algum tempo, em deixar aqui qualquer coisa sobre os whiskies que abati, em casa, nos últimos dois meses (ou isso). E agora proporcionou-se! :)

Adquiri o gosto pelo whisky muito antes de pelo vinho, mas nunca o cultivei da mesma forma, por motivos vários. A juntar à espectacularidade do vinho, a cultura do meio onde cresci, o mercado — que inclui, mas não se limita ao preço —, considerando o facto de não gostar de água a acompanhar comida, a saúde...

De qualquer forma, acabam sempre por cair aqui uma ou duas garrafitas de whisky por mês. Embora não explore muito, achei que o reparo podia ter interesse: ultrapassada há vários anos a fase da pretensa utilidade, digo, da comida, este blog tem sido vinho, xadrez, vinho, filmes, vinho, vinho, o ocasional passeio mudo, vinho...

E uma vez ocorreu-me incluir gajas, mas a S. convenceu-me de que não era boa ideia. Não por ela, obviamente a primeira a não se comparar a um mapa de bits, mas para não vulgarizar as coisas. De facto, se gajas, como? Ou melhor, até onde? E qual seria o próximo passo? Futebol?

Dito isto, segue um punhado de impressões acerca dos últimos quatro whiskies que abri e usei em ambiente doméstico, que acabaram por ser os únicos dignos de nota a cruzar-me as goelas nos últimos tempos. Quatro "single malt" relativamente simples e jovens — não sou foodie, drinkie, gourmand ou coisa que o valha: a exploração é incidental.



Glenmorangie, 10 anos. Envelhecido em cascos de Bourbon, é a proposta de base da destilaria Glenmorangie, de Tain, povoação do condado de Ross-shire, nas Highlands escocesas. Destas quatro, foi a primeira garrafa que comprei e também a que acabei primeiro, de tal forma que, quando fui por ela, para a fotografia de grupo, já tinha ido — restava o tubo. Apontei a seu respeito ser "fodidamente etéreo, com 43% de volume, mas suave, o calor do álcool pouco pica, comparativamente. Baunilha, toffee e tal, mas frutado, frutado na medida em que um whisky poderá sê-lo: frutado, não cerealífero". A observação vale o que vale, mas o whisky é bom, encorpado e possuidor de um toque "salgado" que encontro sempre muito agradável.

Glenfiddich, 12 anos. Também é o produto de base da marca, feito na destilaria que lhe dá o nome, em Dufftown, Speyside. Dourado, mais escuro que o Glenmorangie — caramelo? mais caramelo? — mas também mais magro. Para além dos aromas normais, de whisky, faz lembrar mel, flores e pêras. Mas apesar de "só" ter 40% de volume, mostra mais o calor do álcool, será o que mais queima dos aqui presentes. Apesar de ser um whisky redondo e universal, feito para agradar à maior quantidade possível de consumidores, acho-o bastante raçudo e gosto disso.

Glen Moray, Port Cask Finish. Este vem da destilaria Glen Moray, que fica à beira do rio Lossie, em Elgin, Speyside, e não traz indicação de idade, ou seja, é relativamente novo e salientar esse facto não seria uma boa estratégia de marketing. Após o seu envelhecimento "normal", passa 8 meses em cascos onde já repousou Porto Cruz, tawny. Tem cor rosada, muito bonita, e é razoavelmente intenso e persistente — mas não tão cheio de si como o Glenmorangie nem tão fogoso como o Glenfiddich. Cheira muito a baunilha doce e a qualquer coisa que, de facto, remete aos frutos vermelhos, enfiados no fundo de uma tigela de flocos de aveia.

Cardhu, 18 anos. Outro Speyside, este de Archiestown, Moray. A marca pertence ao grupo Diageo, que causou controvérsia em 2003, ao começar a comercializar uma mistura de vários whiskies de malte sob a designação "pure malt", mantendo o nome e a imagem do seu "single malt", cuja produção, entretanto, interrompera. Tal ratice foi fortemente contestada e o "malte de mistura" ganhou uma imagem diferente do "single malt" autêntico, tendo a destilaria de Cardhu voltado a produzir "single malt" a partir de 2006 — fonte. Ora, este é "single malt", não "pure malt" e, a meu ver, muito bom: longo, redondinho e razoavelmente complexo, a juntar à base expectável, frutada, um toque de fumo e pastelaria / especiarias "doces". Sem dúvida, o mais suave, o menos ardente dos presentes.

Gostando de todos, não o faço como se de filhos se tratassem: prefiro uns aos outros. Globalmente, e sem grande surpresa, tendo em conta o preço, o Cardhu é o que encontro mais agradável, apenas um furo acima do Glenmorangie por via da suavidade (termo que não é tabu numa nota de prova, mas...) e dois acima do Glenfiddich, que apesar do "sharp burn" na boca (outro termo que não encontra equivalente nas notas de prova de espirituosas em português, apesar de ser comum em inglês, independentemente da respeitabilidade das fontes) acaba por ser melhor compra que o Glenmorangie face aos 10/15€ de diferença entre eles. O Glen Moray, que, pelo que vi na net, "lá fora" está no mesmo escalão de preço que os dois "Glen" supra, consegue obter-se "cá dentro" algo mais barato, a 15-20€, o que o torna uma espécie de favorito para o dia a dia.