sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Velharias (43)

Partida em três para ser mais digerível, a última. Na altura, o exorcismo de todos os demónios; mais tarde, motivo de vergonha. O melhor para o fim?


I

Sete da manhã. Sete horas de luz dourada. Não há dois amanheceres iguais. A alma, enevoada, um tango, pungente, imersa em luz, paira algures muito longe daqui; o tempo enganou-se: recordo, por agora.

Retomo os tempos do V "Zombie", do C, do S, dos graffiters ganzados cá da terra; um sonho feito de memórias: a R, o fixe, passagens de ano em que tentámos morrer, garrafas de Dom Pérignon e charros de duas pontas, Air e as K&D Sessions, pulseirinhas de linha, a casa das palmeiras atrás da estação, mais fixe, a imagem destituída de conteúdo; o ser é um simples objecto; Goebbels de peluche! Bolinhas azuis, insufláveis... mesas da Altamira onde as nossas mães podiam muito bem ter snifado coca há 20 anos atrás, o Lux, a casa azul, a C, ou não, outra; a suite 1010 no Meliá junto à Gare do Oriente, os almoços nas Amoreiras, o C', o F, APPA! Jimi Hendrix... lembro-me de All that Jazz e de Jim Morrison, o espectador é um animal agonizante; Catchi, o Art e os que cá estiveram antes do Art; JP: são só nomes: Köw! — Zoinks, que marcava o seu território com tags floreados em caixas de electricidade; o azul, mais R, Sew!ed R, outra que desapareceu assim como o próprio, e as noites que passámos deitados sobre as pedras, a ver as estrelas...


Quero ser, mas não sei o quê, nem como, nem com quem. Mas não faz mal: vêm lá tardes passadas a fumar à janela, que hábito o meu, este, querer perpetuar os momentos fazendo deles hábitos — Ah! a primeira vez é tudo o que realmente importa, mas, afinal, que é uma primeira vez? Pink Floyd? Vodka e bolachinhas? A repetição do conhecido é uma farsa, uma única vez não é nada; — Passadas a fumar à janela, puta, gandulo, diziam eles, a fumar à janela, sim, ou porque não no meu quarto, a ouvir Lamb; — As tardes na esplanada das Palmeiras, a fazer balões com pastilhas de morango e cereja, à espera de mais um SMS; — Noites de Parménides em vãos de escada, prédios alheios; a vontade, deslegitimada, apelando a Epicuro, ye!, epicuristas, nós, com um dry martini pela frente, dry martini decorado com uma cereja, não com limão, como sempre, mas com uma cereja, como a R. Não sou só hábitos: vivo muito mais pelas quebras que me imponho; sou assim, talvez; não interessa: o tempo dos graffitis já passou; fora de moda, runas e mocas de spray substituídas por cogumelos mágicos, por alienação pura e simples; mais vale esquecer o tempo que passa e acordar noutro sonho; parece que sim, que existe um Deus — A fábrica de sonhos, mais uma noite no Lux, eles continuam a ser eles, eu é que já não sei se ainda sou eu; vou morrendo, melhor, vou-me matando, que não é a morte que me mata; morro de distâncias e lembranças, de pulseiras de linha, amarelas, azuis, cor-de-rosa, de cherry cola, de fitas e fotos; — As férias terão morrido igualmente, o Éter fica, fica e fixa as memórias, lá longe; e quero voltar, quero ver-te, R, e à I evil, a arquitonta, o nazismo l33t feito tertúlia, umas partidas de blitz porque não há mais que fazer, nada, só pensar, penso no que sou, as leviandades cometem-se e pronto: pudera eu ser assim, com alguém, ou não ser eu; poderei ser mais alguém? Alguém que tento enterrar sem sucesso? Queria poder ser alguém, do passado, do presente, de tempos ainda por vir, provavelmente só posso aspirar a esse futuro desconhecido; limito-me a ter fé, plastifico, oh, sim! — Como? Uma coleira cor-de-rosa com picos? Oh minha menina... — Mais um dry martini, cigarros e pastilhas, mais uns minutos perdidos, não as palavras. As palavras estragam tudo, pensar estraga tudo, só o silêncio sob o céu estrelado, só eu, comigo, um olhar, tão próximo, és tu, sou eu, não interessa. Enrolo a pastilha e desapareço.

Nunca por muito tempo. Regresso, sempre, ao mesmo destino. Outra noite passada em casa. Mas esta podia ser diferente, como há dois anos, em Praga, quando eu e o F quisemos conhecer o underground da cidade, ou aquela putinha que tanto se parecia com a C, tão insistente, tão ciosa do seu trabalho que chego a pensar se realmente lhe estaria a dar algum prazer quando violei a diligência comum de nunca beijar uma prostituta, e nunca o tinha feito, mas que raio, também nunca tinha estado com nenhuma; beijos tão longos, tão molhados, ficam na memória e não há nada a fazer para o evitar; só nós e o mar na parede daquele quarto de sofás vermelhos onde se ouvia um qualquer ídolo pop dos anos 80 entrecortado pelo ruído dos automóveis lá fora; uma noite de conto de fadas; tive de delinear um algoritmo para ir conseguindo fumar a ganza com a N a empurrar-me contra as costas do sofá, um algoritmo; ela queria mais beijos, que a abraçasse; ainda tinha o charro aceso na mão, tinha que lhe largar a boca, descendo para o pescoço, parando só no início do peito, altura em que me voltava ligeiramente e dava mais uns bafos, só assim conseguia, mas que puta, parecia tanto a C que lho disse, em inglês, e ou não percebeu ou não quis saber, que continuámos; a certa altura dei quatro bafos seguidos, tinha que aproveitar o máximo da white widow, e lá murmurei isto é que é bom, em português, a curtir feito um doido com uma putinha eslava a ganza é que era boa: ainda me rio com essa tirada, merecia entrar num filme; e agora aqui estou, a lembrar-me de algoritmos, a ver pornografia na web, imagino-me puta enquanto assisto a um broche temperado com o ruído frio do último noticiário da noite; — Não é que seja gay, mas por vezes sinto-me curioso quanto a um bom broche, vejo como ela se contrai quando engole aqueles vinte centímetros de carne, tão grande que quase asfixia de prazer com os pequenos jactos mornos a escorrer-lhe pela garganta abaixo, Fotis nada no sangue dos amantes degolados na volta de ceias reclinadas em leitos de marfim, quero-me no lugar dela, ridículo na pequenez de quem se esfrega nu e gelado como o ar lá fora, sinto-me cada vez mais puta, digo quem me dera ser ela quando uma mão vinda do nada me toca ao de leve no ombro, é o meu amigo J, não o ouvi entrar, já nem sequer me lembrava da chave que lhe entreguei no verão passado e agora comigo, nu e a esfregar-me, está tudo bem, não é nada que eu nunca tenha visto e contorno a cadeira, toco-lhe no peito, então estavas mesmo a falar a sério, querias ser ela, é justo, eu posso ajudar-te a experimentar e nisto seguro-lhe suavemente o pénis, não te acanhes, quero isto tanto como tu, sabe tão bem, não quero, não posso fazê-lo parar porque está tudo bem, posso confiar em ti, serei teu se assim o desejares, querido, e ele desabotoa as calças que caem no chão no momento em que me chego para ele que tira os boxers, revelando uma pila ainda flácida mas em franco crescimento, tocar a ponta com os lábios é diferente de alguma outra coisa que tenha experimentado e não sem hesitar abocanho-o, a ele que cresce dentro de mim à medida que vou chupando até me tocar o fundo da boca, ai que já não cabe quando me puxa pelos cabelos e o engulo todo, sufoco como ela, como tanto queria, o fel ácido que imaginava mais doce, sinto pela primeira vez o prazer dor de que tanto ouvi falar, não consigo parar e sufoco porque não me vinha há duas semanas, puta, diz-me ele enquanto se compõe, puta, nada mal para uma primeira vez, passa lá por casa no sábado que vais divertir-te pumbas, mas J, não sabia que eras gay, e a Mó, rapaz, sou bi, a Mó não se importa desde que a vá comendo quando quer, passa lá por casa, onze da noite deve estar bem e está mesmo, chego um pouco antes da hora, luzes apagadas da casa que me parece deserta quando toco e pouco depois sou saudado por uma voz familiar, estão todos muito contentes por eu ter vindo, que bom, que felicidade, é uma orgia, o clube dos bons meninos bi da pequena cidade onde os mortos descem a grande avenida em direcção aos peixes cinzentos que nadam naquele caldo de frustração e de onde saíram alguns dos que hoje me esperam; mas alto, há regras, sim, passarei pelo ritual de iniciação, todo nu ainda no patamar da escada e aquele pequeno saco de desporto contendo apenas umas peças de lingerie vermelha que me apresso a enfiar, mesmo que não compreenda o motivo do soutien, admito que as cuequinhas de renda me cativam, as meias enormes e tão transparentes quanto necessário, por fim entro e deparo com umas poucas de caras conhecidas e insuspeitas, estão mortos de satisfação por me terem entre eles, os safados, acabam de jogar às cartas e começam a despir-se, puta, estás pronta, mas claro que estou, ok pessoal toca a usar a puta que engole o P, F e os outros, o pop de uma garrafa de plástico que se abre, um gel que me refresca o esfíncter, estarei a arder, imagino o fim do mundo, em fogo, na cidade dos peixes e dos pássaros, alguém me enfia um dedo, porra, assim não, tira lá o anel, T, em vão que aqui só se ouve a cascata por onde caem peixes atrás de peixes em busca da felicidade vermelha que jamais encontrarão no traço ténue de uma lua quase morta, e outro dedo, e outro... concentro-me no pénis que tenho na boca, mas sinto outro a entrar-me por trás, até ao fundo, com toda a violência e não me vou desiludir por isso chego-me para trás, quero viver, brincar, dançar e é precisamente o que faço para satisfazer as duas trancas que tenho em mim, cascatas mornas que já não são de fel, vão-se revezando e ao cabo de uma hora terei servido todos... que formam um círculo à minha volta, afogo-me no leite da vida, nu no chão gelado, a casa desintegra-se à voz que me diz foste admitido, irmão Jorge, agora podes voltar para casa, dorme, até amanhã.

Rua abaixo, chove, nunca mais acaba, folhas amarelas e poças de água borbulhante em festas intermináveis nos doze salões de mármore polido, outrora o palácio dos peixes antes do grande engano em que se viram forçados a fugir para o fundo do passeio e feitos em pedra pela ignorância de quem por eles passa todos os dias em néon fumegante como os carros, ruído metálico, passa por mim, à curva, todos de camisa brilhante e alguém que caminha à minha frente, não quero nadar com eles por causa do frio, devia afrouxar o passo, não posso, perseguem-me duas garotas, azuis como a chuva, talvez tenham chamado quando passei por elas, fugi, aceleram comigo, semáforos, também eles de fumo, paro, ando, com mais ninguém, um rafeiro, ladra, não é para mim, e se abrandasse, passariam por mim, talvez me falassem, esta gente só quer sexo, penso eu, e afrouxo o passo, elas não, mais próximas, quase me tocam, qual fantasma da noite também ele azul dos cigarros mal fumados na janela escura das penas que me fiz passar quando só pensava em ti, azul, molhado, como elas, abordam-me, talvez seja a carteira, bem me avisaram, não é só para os outros, não é a carteira, é mesmo sexo, a morena pede-me lume, calha bem, em noites apagadas, curioso, já aqui estive, vamos para casa, vivem perto, vizinhas, que conveniente, entro, pois, só podia, o prédio não me é estranho, sim, mora aqui a T', a loira, subimos, vivem mesmo num cubículo por baixo da casa da T', ouve-se, o H
, a voz lá em cima, este buraco, todo azul e negro, vodka, não preciso mas aceito, fresca, não dizemos nada, à espera, e logo duas, que sorte esfuma-se em noites molhadas e escorre pelas luzes lá fora, parece demasiado simples, se tenho preservativo, obrigado T, bem me disseste que podia vir a ser útil, só está frio, tem a vagina gelada como uma garrafa de champanhe, e a outra a fumar um charuto, observa, interessada, que não sei os seus nomes nem elas o meu, um nome será decerto importante, pois chamo-me Zé, prefiro ser Zé a ter que lhes perguntar os nomes, acabamos e trocam, esta não fuma charuto, diz que lhe matou o pai, esse que terá morrido sozinho por aí, podre, de espírito carcomido por décadas de falsos amores, à sombra das árvores quando ainda chorava a filha que agora me observa, se desinteressa e liga o televisor, a preto e branco: não sei de onde vem o azul molhado como o lá de fora, nem pergunto, nunca se sabe o que andará a tramar esta gente, adormeço acordado, esta cansou-se, tapamo-nos e acordo com uma garota ao meu lado, num caixote esteira dentro do cubículo azul que não conheço, e negro, com a voz de uma T' furiosa por alguns ovos se terem partido à volta do supermercado, ou talvez ainda estivesse a dormir, e assim continuei, esperava que deixasse de ser azul com o dia, mas não mudou, ela levanta-se, deixo-me ficar tapado por um único lençol branco, e negro, volto a acordar com pontapés da morena, não posso sair, quero voltar para casa, não me deixam, mas vestem-me bem e lavam-me, estariam à minha espera, certamente, desconfiado quando entra uma visita, com que me deixam a sós, um belíssimo corpo de loira destituída de beleza, nada de especial, quando avança para mim e insista que lhe morda, já não desconfio desta gente que me exige pinar com uma loira, esmaga-me com as mamas, a vaca, vou vingar-me em beijos melados, depois mordo-a, esperava que fosse mais mole, deste tamanho, mas não muito mal, a textura agrada-me quando aperto mais, é esta loira que grita sem se tentar afastar quando o sangue começa a correr, deixo-a encolhida a um canto do quarto, as outras duas só podem ter ido ao bar lá bem no cimo do monte, para lá das sebes bem aparadas que terei de saltar em busca do calor amarelo daquele cubo de dança que não passa de um violino e meia dúzia de copos abandonados pelo chão iluminado de mil falsos sóis que me revelam sem surpresa as ossadas dos amigos de infância incrustadas no betão, já aqui vivi e continuo a sonhar com este morto meio podre que teima não me deixar em paz, e elas a beber a um canto, vodka, como sempre, não me perguntam pela amiga, essa loira a que só desejo um cancro, com quem casaria se a soubesse cancerosa, devo achar as garotas com cancro coisa sexy, mas isso pouco importa, tenho a minha vida e deixo as vizinhas da T', que nem as deve conhecer, quando as deixar voltarei para casa, agora só saio para a tarde que brilha, muito quente, horrível, pela porta baixa desemboca no muro branco, muro de quinta, volto.

Ao bar que está sempre aberto e onde só vou quando durmo, desperta-me o gelo dos teus gritos distantes e estou com outra, não acredito que seja um sonho, a menos que os mortos, chego ao bar dia após dia e estão lá todos, são sempre os mesmos, aqueles que procuro pelas ruas desertas em tardes muito quentes, só gajas... por toda a parte, esta é nova, talvez a tenha visto no autocarro que sobe a grande avenida, de cabelos anelados tosse e despenteia a juba, interessante, é engraçada e parece doente, interessante, posso sair na mesma paragem que ela, a uma distância razoável, fiquei obcecado por aqueles anéis de mel limpo de onde sai o grande cão negro nos entardeceres mais sombrios, naqueles em que morrem os avós, quero saber onde vai, entra numa mercearia e compra um melão, chamo os pássaros e as sombras que se levantam do mar nas noites em que alguém lhes atira moedas e bolos do alto de uma falésia para que a raptem pois quero comê-la, partilhá-la com alguns amigos, e é isso que acontece, na velha casa de campo do M, de nada adiantaria tentar explicar-lhe que fora raptada pelos pássaros em troca de protecção para as suas crias, essas que são constantemente devoradas pela serpente negra que combatemos e financiamos secretamente, de nada adiantaria tentar convencê-la por meio de algum strip-poker forjado, ela não pode ser nossa, muito menos minha, os longos cabelos anelados remexidos pela apatia do desespero, mas agora está comigo no grande quarto da torre, o M toca piano, toca tão bem, toca o que vê enquanto o Ricardo negoceia o pagamento com o chefe dos pássaros, meu amor, quero tratar-te bem, vamos jantar fora, muito longe daqui, vestidos como príncipes, gozar a última noite de loucura já que nada podemos esperar da manhã, mais cinzenta que os gritos mudos dos peixes ao aperceberem-se de que nadam para lado nenhum no rio de pedras imaginado diferente e por isso mesmo muito mais aquário, pisados pela primeira alma que lhes mostra o caminho de nada em troca da dor com que se contorcem em agonias imensas, a loira persegue-me, temo que para me matar, persegue-me há dias sem que a veja, sinta, inimigo invisível à espera de outra oportunidade, não será hoje, jantamos fora, jantamos todos, quando saímos da velha casa em ruínas para comer estás em pânico, minha menina, paralisada, ainda bem, tens medo de nós, ou de mim que apenas uso o grupo para dissolver o mal que represento, tal como o grupo usou os pássaros para te ter, um pouco de gloss cor-de-laranja doce, jantamos no encanto da derrota, dos amigos afastados por conveniências e más palavras, como os deuses, em silêncio pesa-me na alma a tua família que há dias te procura sem cessar, coitados, e tu estás doente, interessante... comemos e voltamos para o palácio que algum antepassado de M edificou sobre as estrelas, aqui estou a salvo da loira, ela teme os nossos imensos canhões de nove milímetros, aqui só contamos nós, minha menina, e o piano que te toca por mim quando passas para os outros que exigem a sua parte, por mim tudo bem, deixo-te com estes celerados e lavo-me em rosas na gruta distante onde os antigos se juntavam aos judeus e jejuavam até à morte em busca da iluminação, ou talvez de nada e por esse imenso ridículo de pureza se deixassem morrer, na virtude da estupidez, minha menina, embora prefira viver sem ela, custa-me emprestar-te, que chatice, e foi precisamente para isso que te trouxe comigo.

Por vezes a alma enfrenta dificuldades destas, acreditar ou não acreditar que se encontra a beleza onde os outros a deixam esquecida, e é isto que encontro, os pormenores que não duram o suficiente, cristalizados para sempre na mente do monge louco; no fundo, actos de pureza; garota, tu ou o gatinho que apanhei no jardim do mal, ou da droga, e que quis levar para casa, certo dia, decerto há muito tempo, sim, mas para sempre comigo ou quando me fugiste no lago, no deles, e nunca mais te encontrei porque me me odiavas, fugiste, sim, gatinho, como as garotas do meu desencanto, todas elas desamores até me fazerem esquecer de como se ama, foi merecido, pois agora vivam com isso, artsie chicks, lá no alto, onde há um parque com árvores milenares, não preciso de me justificar.

Precisamente para isto. Empoleirado na tua vassoura mágica atravesso o deserto, subo o monte sagrado, desço a grande avenida em direcção ao negro mate que me aguarda num misto de raiva e ansiedade — para isto, minha menina. Arma-te com este tank-top vermelho, jeans, com esta parede branca de alabastro, desgastada pelo tempo e por quantas outras como tu. Não te iludas, querida, isto é tudo o que alguma vez me permitiria querer de ti, e já o tenho, e mais. Mas ainda me sinto culpado por lhes ter contado, resigno-me agora a engolir em seco, sentado no meu canto enquanto vos oiço lá em cima nos arf plim arf poing arf poinnnng... tlim tlim ka-laaaa puuuunnn... (etc) de circunstância com que aquele maldito piano jurou brindar-me até à hora da minha morte — E a cada novo acorde explodem momentos dentro da minha cabeça, ou aquilo que chamo ao piano-raiva-parede-tu, a quantos mais pianos e paredes, a estes quadros vistos-julgados que apenas duram um instante e depois se evaporam até nunca mais, sempre no meu canto, agora a fumar, indiferente às vozes que chamam lá de cima. Umas chamam, outras limitam-se a soltar uns yadda-yaddas incompreensíveis. Algumas perguntam coisas bem estranhas, como o porquê desta arte ou todas as outras artes de quaisquer outros tempos-lugares, e procuro manter-me acordado sem responder — são todos doidos — e procuro vencer esta confusão indescritível que me assalta como tudo o que faço!deixo acontecer quando pergunto porquê. Quando me pergunto porquê. E de pouco me serve tentar descobrir um pouco mais de mim ou do mundo, porque para mim o mundo é isto e tudo o que se encontrar lá fora — Se porventura existir — Talvez a seu tempo, e só talvez — Não, não me deixarei escravizar por uma simples possibilidade — Embora tudo leve a crer que na verdade me é indiferente — Que sim — Não interessa, pelo menos por agora — Se bem que este agora já dure há algum tempo.

Acho que ainda não vivi o suficiente para compreender as verdades dos grandes, maiores, o que me deixa por vezes a arder de raiva, tanto que me vejo levado a afrontá-los convidando-me straight into their worlds, como fiz contigo, piano — Or shall I say lifes? — Um convidado incómodo pois há coisas que jamais deveriam ser vistas, como se não tivessem o direito de existir, em nome do vosso conforto sabiamente disfarçado de moral; o puto sempre foi um estafermo mas todos lhe chamam "bom menino" — e sei que não poder chegar ao pé de mim e dizer "desaparece, tu não existes" é para alguns deles como viver dentro de um balão de borracha que dá a impressão de poder rebentar a qualquer momento enquanto teima em manter-se intacto quaisquer que sejam os esforços empreendidos pelo pobre prisioneiro plastificado por uma força superior à sua; é como quando tento escrever e ao invés de me libertar apenas me perco e continuo, sempre à superfície — faaaancy! — enquanto o meu demónio me grita constantemente aos ouvidos "Sê ovelha!" — Seja como for, não valeria a pena procurar águas mais profundas — Já me bastam os tormentos que este nó na cabeça me traz, e cheira tudo tão mal aqui, a um adocicado desagradável de restos de champanhe e tabaco mentolado — Como o emanado por aqueles torrões de resina podre que certa vez apanhei e meti num frasco quando passámos de automóvel por um pinhal qualquer no regresso da Corunha e que guardei durante meses ou anos até a minha mãe os deitar fora por estarem tão podres — Mas para mim ainda estavam bons e além do mais guardadinhos dentro do frasco não incomodavam ninguém excepto a ti, minha cabra paranóica — Todos os dias eu abria o frasco e os cheirava, e pareciam-me bem, pareciam, naquela altura, talvez já me tivesse adivinhado e só estivesse a guardar-me para paradas maiores, noutra altura sempre adiada por isto ou por aquilo — Talvez agora, qual constante ir morrendo — Porque a profundidade-conceito é outra invenção do homem — Como tudo o mais, excepto a Morte. — Que chatice. Trouxe-te comigo precisamente para isto e agora nenhum de nós se está a divertir. Nada mesmo. E sou eu o culpado. Sou sempre eu o culpado.