sábado, 31 de março de 2018

Lavradores de Feitoria — Três Bagos, Reserva '2013

Criada no ano 2000, a Lavradores de Feitoria, é uma espécie de cooperativa que resultou da união de 15 proprietários de quintas distribuídas pelo Douro, repartidas pelas suas três sub-regiões. Este foi o primeiro "Três Bagos Reserva" lançado no mercado, ligeiro upgrade face ao que talvez fosse o vinho-bandeira da casa, e levou 90 pontos da Wine Spectator logo no primeiro ano em que saiu para o mercado. Começava a desenhar-se uma tendência!

Na sua elaboração, foram utilizadas uvas das castas Tinta Roriz, Touriga Nacional e Touriga Franca, provenientes de cepas moderadamente velhas, com mais de 30 anos. Metade do lote final estagiou em inox e a outra metade em madeira, durante onze meses: desse, metade evoluiu em barricas de carvalho francês, novas, e o restante em barricas de segundo ano.

A caminho dos cinco anos de idade — não é segredo que existem pressões económicas, de mercado, que levam os vinicultores a ter certa pressa em lançar os seus vinhos no mercado, bem como a fazê-lo todos os anos, e que o comprador, caso se limite a comprar e consumir as novidades, dificilmente vai apanhar tintos no ponto — pareceu-me num muito bom momento, talvez o melhor a que possa almejar no decorrer da sua vida.

Robusto, apesar de não propriamente "full bodied", encontrei-o firme e cheio de sabor. Sem explodir, mostrou boa fruta vermelha, junto com o toque campestre, de mato baixo, que com um pouco de boa vontade conseguiremos reduzir a "esteva", típico do Douro, com toque de baunilha e fumado, em jeito de tempero. O paladar, seco, apresentou boa acidez e taninos arredondados — lendo o que outros escreveram ao prová-lo mais novo, sou levado a crer que por efeito do tempo em garrafa. Com a oxigenação advinda do passar do tempo no copo, especiarias e um ligeiro vincar das marcas da permanência em madeira. Final razoável, a dar para o longo. Bom!

9€.

16

quarta-feira, 28 de março de 2018

Tons de Duorum '2016

Duorum, projecto cujo nome é um termo latino que significa "de dois" e ao mesmo tempo remete por similaridade a "Douro", surgiu em Janeiro de 2007, a partir da vontade de dois reconhecidos enólogos nacionais, João Portugal Ramos e José Maria Soares Franco, de desenvolver uma parceria vinícola exclusivamente dedicada ao Douro.

Este vinho, tinto de entrada da casa, consiste num lote composto por 50% de Touriga Franca, 30% de Touriga Nacional e 20% de Tinta Roriz, de cepas implantadas em terreno xistoso, a cerca de 400 metros de altitude, na Quinta de Castelo Melhor, propriedade localizada à beira da espectacular EN 222, pouco antes da cortada para a localidade que lhe empresta o nome, quando se segue no sentido de V.N. de Foz Côa para Almendra. O mosto, de uvas desengaçadas, sofre uma maceração a frio antes de fermentar em cubas de inox, sendo parte do produto final estagiado, seis meses, em barricas de carvalho francês de segundo e terceiro ano.

Provado, não me pareceu diferir muito dos seus predecessores, que, apesar de aqui nunca terem sido comentados, já me vieram parar à mesa umas quantas vezes: aromas e sabores limpos e jovens, de projecção mediana, mas suficiente face ao corpo do líquido, é um vinho simples, com especial incidência na fruta silvestre, mais vermelha que preta, completada por um toque floral típico, certamente trazido ao conjunto pelas Tourigas, e um tempero de barrica que se revela sob a forma de muito ligeiro abaunilhado. Macio e equilibrado (acidez mediana, 13% de teor alcoólico), está pronto a beber e não será expectável que dure muitos anos.

Nestes vinhos de grande tiragem, é desejável a definição de um perfil que vá de encontro às expectativas do público-alvo, e que se consiga manter esse perfil, traço comum e característico, que cimenta a imagem de uma marca ao longo do tempo, não obstante as diferenças entre edições que, ditadas pela natureza, acabam por reforçar o carácter do produto enquanto coisa única. Afinal é vinho, não refrigerante gaseificado com sabor a noz-de-cola. Muitas vezes, encontrar esse perfil "para manter" pode demorar tempo, o que aparentemente não aconteceu aqui. Provavelmente, tendo em conta o produto final, ainda bem.

A garrafa foi enviada pelo produtor, que recomenda um PVP de 4,49€.

15,5

domingo, 25 de março de 2018


Mysteriously enough, not only is there a large number of particles in the visible universe, but the basic laws themselves display large numbers. According to modern physics, there are four fundamental interactions between particles: the electromagnetic, the gravitational, the strong, and the weak.

The electromagnet interaction holds atoms together, governs the propagation of light and radio waves, causes chemical reactions, and prevents us from walking through walls and sinking through the floor. In an atom, electrons, with their negative electric charges, are prevented from flying off because of their attraction to the positive charges carried by protons located in the nucleus. The gravitational interaction keeps us from flying off into space, holds planetary systems and galaxies together, and controls the expansion of the universe. The strong interaction holds the nucleus of the atom together, the weak causes certain radioactive nuclei to disintegrate. Although of fundamental importance in nature's design, the strong and weak interactions do not appear to play a role in any phenomenon at the human scale. As we saw earlier, all four interactions play crucial roles in stellar burning.

As the names strong and weak suggest, one interaction is considerably stronger than the electromagnetic interaction, the other considerably weaker. But most dramatically, the gravitational force is far, farf weaker than the other three. The electric force between two protons is stronger then the gravitational attraction by the enormous ratio of 1 to about 10^38, another absurdly large number.

ironically, we are normally most aware of gravity, by far the most feeble force in nature. Although the gravitational attraction between any two atoms is fantastically small, every atom in our bodies is attracted to every atom in the earth, and the force adds up. In this example, the incredibly large number of particles involved compensates for the incredible weakness of gravity. In contrast, the electric force between two particles is attractive or repulsive according to the signs of the electric charges involved. A lump of everyday matter contains almost exactly an equal number of electron and protons, so the electric force between two such lumps almost cancels out.

Anthony Zee, "Fearful Symmetry: The Search for Beauty in Modern Physics"
Princeton University Press, 2016

quinta-feira, 22 de março de 2018

Cistus '2014

Com o seu último representante a ser um exemplar da colheita de 2007, aqui partilhado em Agosto de 2010, convenhamos que os "colheita" da Quinta do Vale da Perdiz, de Torre de Moncorvo, têm sido vinhos muito mais bebidos que falados por estas bandas. O que não lhes faz jus, dado que constituem propostas de excelente qualidade para o preço que custam — tendencialmente simples, mas que oferecem sempre "algo mais" que apenas a correcção esperada.

Este tinto, que caminha para os quatro anos de idade, continua sem evidenciar sinais de cansaço, muito pelo contrário. Em primeiro plano, fruta, silvestre, misturada e por conseguinte indefinida, mas atraente, boa, tendencialmente negra, mau grado algum toque de acidez "vermelha" que o nariz teimasse em apontar, e com ela, mato e barrica, mais que simples "overtones", por vezes a quererem sugerir camadas.

A acidez, mais vincada que o habitual nos tintos do Douro da sua gama de preços, e a estrutura bem definida, com taninos ainda vivos, confirmaram a ideia de vinho robusto, capaz de aguentar mais uns anos em garrafa. Fim de boca médio +.

Acompanhou entrecosto grelhado e pão: coisas simples.

4€.

15,5


segunda-feira, 19 de março de 2018

Evel '2014

Feito com fruta das vinhas localizadas nas quintas das Carvalhas, dos Aciprestes e do Cidrô, localizadas no Pinhão, vale do Tua e S. João da Pesqueira, respectivamente, é uma das propostas de entrada de gama da Real Cª Velha, que representa, também, uma das mais antigas e reconhecidas marcas de vinho portuguesas, registada em 1913. A título de curiosidade, o nome "Evel" não tem significado para além daquele que resulta da leitura do seu anagrama, leve, a fazer alusão a uma das características organolépticas que o produtor sempre pretendeu que definisse o seu estilo.

Bastante concentrado e elegante, revela substância, estrutura e um frescor que não me lembro de encontrar nas suas edições anteriores que experimentei. Tem boa fruta, tendencialmente vermelha, ameixa e cereja amarga, especiarias com toque apimentado, ligeiro verdor e, com o passar do tempo no copo, tabaco e chocolate. Termina médio/longo. Não me pareceu desmerecer os 90 pontos que levou da Wine Spectator e, para o preço, está extraordinário.

Tornou-se relativamente comum encontrar vinhos classificados com 90 ou mais pontos por publicações de referência, a menos de 5€ por garrafa, nas prateleiras dos supermercados. E é interessante como, se em alguns casos, essa classificação, por "excessiva", parece recurso de marketing, noutros aparenta servir como uma luva ao que está dentro da garrafa. A isto não será alheia a evolução, expectável, das práticas enológicas... e isto, se calhar, vai obrigar-nos, a nós que brincamos aos opinion makers e aos opinion makers que brincam às provas, a redifinir a bitola. Não digo que, à imagem do que tem vindo a acontecer com o Elo no xadrez, exista inflacção no rating: prefiro acreditar no aumento da qualidade. Gostos à parte, não digo que um "90" de há uma dúzia de anos atrás fosse necessariamente melhor que um "90" de agora: espero, simplesmente, que caminhemos para novos "100", com tudo o que possa vir atrás.

4€.

16,5

sexta-feira, 16 de março de 2018

Filmes (85)






Tommy e Austin, pai e filho, são médicos-legistas numa pequena cidade do interior dos EUA. Numa noite igual a tantas outras, recebem o corpo de uma rapariga não identificada, removida da cave de uma família assassinada sob circunstâncias bizarras. Mas, com o avançar da autópsia, vão-se apercebendo de que algo não bate certo.




Uma canção que se repete curiosamente na rádio. Telefones que deixam de funcionar. Sangue espalhado onde não devia. Gavetas frigoríficas abertas. O gato da morgue que sai mortalmente ferido de dentro de um respiradouro. O corpo da desconhecida: imaculado por fora, todo fodido por dentro.




Eventualmente, apuram que a rapariga não é deste tempo, mas uma presumível bruxa, torturada com requintes de crueldade e deixada por morta, nos idos do século XVII. Mas a língua cortada, o dente arrancado e forçado boca abaixo, o veneno, os pulsos e tornozelos quebrados, a pele lacerada com marcas ritualísticas, as entranhas queimadas e cortadas, a fogueira... em vez de matarem uma bruxa, criaram-na a partir de uma inocente.




E agora ela ressuscita um bocadinho cada vez que mata, coisa que passou os últimos séculos a fazer, sempre que ia sendo "encontrada"... E um dia será capaz de se levantar, e aí caminhará sobre a Terra, marchando inexorevalmente sobre o sangue e as entranhas dos hoje considerados justos, para glória suprema de Satanás!! Enfim, o filme não vai tão longe... Em todo o caso, no presente, apesar da mobilidade ainda reduzida, a rapariga é resistente, decidida e cheia de recursos. O seu bom gosto musical é outro "plus", mas isso será tema para um próximo post.

terça-feira, 13 de março de 2018

Beyra — Riesling '2016

Produzido por Rui Madeira, um Riesling da Beira Interior!

Proveniente de Vermiosa, Figueira de Castelo Rodrigo, fermentou e estagiou em inox, com "bâtonnage", até ao engarrafamento: 6650 garrafas que se encheram no final de Janeiro de 2017.

Foi com queijo "Braz", da Covilhã, com manchego velho,  deste, e com o mítico patê "La Charra", de Ciudad Rodrigo. A uni-los, pão "grande", com sementes, do Lidl.

Inicialmente muito frio e por conseguinte pouco expressivo, cresceu com o passar do tempo no copo e trouxe consigo banana, physalis e aromas lácteos, a fazer lembrar iogurte.

Redondinho, de textura amanteigada, com a acidez e a projecção do sabor a mostrarem-se mais no final (bastante persistente) que no ataque.

Uma curiosidade interessante!

9€.

16

sábado, 10 de março de 2018

Grego — Garnacha Centenaria '2015

Feito com uvas de diversas parcelas, não especificadas pelo produtor, que se presumem muito velhas, pretende ser um Garnacha de montanha "low cost", produzido nos limites da denominação "Vinos de Madrid".

Sem mais delongas, até porque este espécime não apresenta predicados que o justifiquem, a prova:

Cor rubi, escura, de opacidade mediana. O aroma surgiu dominado por frutos vermelhos — nenhum em concreto — e suas guloseimas, com toque de flores e algo que inicialmente me pareceu lácteo, ou talvez barrica, mas que acabou por me parece um pontinho verde, vegetal.

Sem grande estrutura, e também sem esconder que dela ainda há algo por amaciar, acabou por se mostrar bastante fresco para os seus 14,5% de álcool, com sabor agradável, de persistência mediana, marcado por ligeiro amargor, típico, ou talvez melhor dizendo, comum, mas de que gosto.

Apesar de bem feito, falta-lhe a profundidade, a concentração e até a alegria que fazem um grande garnacha de montanha. As limitações começam logo na matéria prima, ponto final. Mas deixa perceber, por alto, o que é um vinho do género. E para o preço, não está mal.

6,50€.

15,5

domingo, 4 de março de 2018

Quinta de Chocapalha '2011

A Quinta de Chocapalha é uma propriedade que data do sec. XVI, situada próximo da Aldeia Galega da Merceana.

Este é o tinto básico da casa, composto na colheita de 2011 por 45% de Touriga Nacional, 20% de Tinta Roriz, 15% de Touriga Franca, de 10% Castelão e 10% de Alicante Bouschet, fermentado em lagares e estagiado durante 18 meses em carvalho francês.

Um vinho que surpreendeu.

Eminentemente generoso na fruta madura, escura, preta mesmo, com toques de flores e caramelo, chocolate e café, tostados e apimentados, mostrou-se jovem, complexo e concentrado, de estrutura rica e flexível, cheia de substância, mas substância alegre, de trato fácil, sem exageros.

Longo e equilibrado q.b, provavelmente no ponto óptimo de consumo, foi, enfim, uma maravilha de beber.

Acompanhou uma feijoada de javali, deliciosa, que levou, entre outras coisas, fritada do Mercadona, grelos de couve e courgette espiralizada.

8€.

17