segunda-feira, 30 de abril de 2018

Quinta dos Termos — Trincadeira, Reserva '2010

Mais um tinto da Quinta dos Termos — falei aqui sobre uma data deles em finais do ano passado. No caso, um monovarietal Trincadeira da colheita de 2010, logo com quase oito anos.

O contra-rótulo diz: "Quando o ano vitícola corre de feição, a Trincadeira origina vinhos surpreendentes na Beira interior. Foi o que aconteceu na colheita de 2010, em que as uvas amadureceram de forma muito equilibrada. Uma vinificação minimalista e um breve estágio em barricas de carvalho deram-lhe o toque necessário para nos decidir engarrafá-lo estreme."

Começou meio porquito, a cheirar a suor, mas um ligeiro arejamento limpou-o e, em vez de estragado, mostrou-se um tinto muito interessante, ainda sem sinais de cansaço — imagino, no entanto, que se aproxime do limiar do plateau — aludindo à "lei da maturidade" de Clive Coates, que diz que um vinho permanecerá na sua fase ideal de consumo por tanto tempo quanto o que demorou a maturar, até atingir essa mesma fase.

Algo circunspecto, foi fácil apontar-lhe, acusá-lo de ser algo monolítico, na altura da prova, que não foi prova, mas abate de uma garrafa inteira, a empurrar daqueles hambúrgueres "Angus", do Pingo Doce, preparados, diz o YouTube, a la Gordon Ramsay Mas esses são os exageros do momento, abundantes no caderninho negro do álcool.

Ficou apontado, e lembro-me, de lhe ter apanhado muita fruta silvestre, indiferenciada, misturada e transformada, mais preta que vermelha ou roxa, e essencialmente em licor. Com ela, flores amarelas e um toque resinoso, vegetal, a fazer lembrar lenho verde. Barrica, assim, ainda? Talvez. E aquele travo "porco" de que já falei, provavelmente Brettanomyces em quantidade mesmo muito moderada.

Na boca, paladar morno, de toque macio, com reminiscências tácteis de veludo e xisto bem embrulhadas naquilo a que chamei "acidez redonda" — digo, acidez apenas suficiente para cortar o ardor e perfeitamente ligada. Algum corpo, di-lo-ia "médio mais", com certa densidade, mas não objectivamente "gordo", "pesado", nem nada que se parecesse, e um final bastante persistente.

Enfim, um vinho de boa concentração, com substância bastante para ser interessante, mas também contido e equilibrado na medida em que a finura, a leveza, o fácil apareceram a contrabalançar o intenso, o pesado, o sério, o fechado.

Sem ser divino, foi daqueles que deixaram impressão.

7€.

16,5

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Filmes (86)




É um filme turco, passado na Turquia. Uns polícias encontram, literalmente, um alçapão para o Inferno. E metem-se lá dentro. Mas os gajos lá de baixo não querem saber muito da autoridade do Erdogan...

terça-feira, 24 de abril de 2018

Abadía Retuerta — Selección Especial '2002

Outra relíquia! Este é o vinho mais conhecido de Abadía Retuerta, produtor baseado junto da localidade de Sardón de Duero — Valladolid.

Esta grande propriedade, que "abriu" tal como agora a conhecemos em 1996, inclui cerca de 710 ha de terras, dos quais 210 ha estão ocupados por vinhedos, divididos por diferentes parcelas, todas elas plantadas entre 1991 e 1994. Existe lá, de facto, uma antiga abadia Cisterciense que data do século XII.

No entanto, o foco da produção agrícola das terras que a envolviam nunca foi o vinho, mais tubérculos e cereais — a "Finca Retuerta" acaba adquirida por uma empresa de sementes, a Prodes, em 1920, e, consta, não tinha uma única cepa plantada no final dos anos 70.

Em 1990, a farmacêutica Sandoz, hoje parte do grupo Novartis, toma controlo da propriedade (movimentações de capital entre badochas, vale mesmo a pena investigar porquê?) e resolve valorizar a sua componente vínica, primeiro — afinal, a parte oriental da propriedade está a apenas 10 Km de Vega Sicilia... — e turística, com a construção de hotel e restaurante, depois.

Os solos são heterogéneos, com areia, argila e cascalho nas partes mais próximas do rio Duero/Douro, a cerca de 640 metros de altitude, e pedra calcária nos altos, que atingem os 850 metros sobre o nível do mar. O clima é continental, com grandes amplitudes térmicas e tendencialmente seco, mas estando o produtor fora da DO Ribera del Duero — todos os seus vinhos saem sob a denominação de Vino de la Tierra de Castilla y León — utiliza rega gota-a-gota quando necessário.

O vinho, bem, este ainda vivia. Muito mais escuro que o "Riserva Ducale" e muito menos atijolado também, trouxe consigo frutos pretos no limite da madurez, em compota e em licor, tabaco, especiarias indefinidas, mas quentes, e cacau. Na boca, mostrou uma redondez consentânea com o carácter "quente" dos seus aromas. A acidez está bem integrada e os taninos, finos, perfeitamente cobertos. O fim de boca pode considerar-se longo. Como não há post que não inclua esta informação, aí fica: lote de Tempranillo, Merlot e Cabernet Sauvignon provenientes das várias parcelas da quinta, estagia "de 16 a 22 meses", diz o produtor, em barricas francesas e americanas.

Enfim, este e o vinho do post anterior, dois velhos senhores que ainda mexem! Mas se o italiano, apesar de reter alguma dignidade, não conseguiu esconder estar com os pés para a cova, neste ainda perdura aquela fase bonita da maturidade plácida e elegante... Mas não nos enganemos: também não é para guardar.

As garrafas de 75cl das colheitas mais recentes custam à volta de 25€, mas o produtor ainda vende este 2002, a 58€. A oferta do produtor na sua loja virtual vai, aliás, até 1995!

16,5

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Ruffino — Riserva Ducale '2001

O blog é um monstro sedento de tempo, disponibilidade e energia! O blog converte vida interior em cangalhadas para outros verem e a análise do tráfego por ele gerado conjura a partir do éter, do aparente nada, satisfação para o ego. No fim, nada sobre nada. Não, exagero. Muito pouco sobre muito pouco, a tender para nada — assim é mais correcto.

Mas apesar de o seu dono saber disso, tanto que o escreve, o blog ainda vive: de tal maneira que é nele, para ele, e para mim também, através dele, que escrevo isto. E não se preocupe o monstrinho com a queda nas listas de agregadores e motores de busca que os períodos de fome consigo trazem: estou decidido a actualizá-lo e, junto com o meu tempo e alma, terá também o vinho a que o habituei. Simplesmente, desta vez, que empurre com ele um bocadito escangalhado de meta-análise.

Para começar, umas notas a respeito da minha última garrafa (originalmente eram três) da colheita de 2001 de Ruffino "Riserva Ducale". O produtor é dos mais conhecidos de Itália e este Chianti Classico é talvez o seu vinho-bandeira, embora não o absoluto topo de gama. A gama "Riserva Ducale" existe desde 1927, nomeada em homenagem ao duque de Aosta, presumo que o segundo, que em 1890 tornou a então jovem casa Ruffino fornecedor oficial da família real italiana, contam que depois de ter atravessado os Alpes, numa viagem que não terá sido das mais simples e/ou suaves, especificamente para provar estes já na altura afamados vinhos, pétalas no galho preto e molhado que então era a produção de Chianti — que, salvo algumas honrosas exepções, continuou a ser um vinho horrível até bem dentro do século XX.

80% Sangiovese e 20% Merlot e Cabernet Sauvignon, este tinto estagiou durante dois anos em madeira, inox e cimento. Não me surpreendeu que ainda estivesse vivo porque a última garrafa aberta, há cerca de meio ano atrás, estava num momento muito bonito. Assim, pelo contrário, surpreendeu-me encontrá-lo muito mais velhinho e cansado do que aquilo que esperava.

Mas perfeitamente bebível e ainda bom. De cor granada, acastanhada, surgiu muito terciário, com aromas a terra, licor de cereja e café. Talvez uma ponta de volátil. Na boca, mostrou acidez ainda capaz de fazer salivar e, mau grado o "meio" um pouco magro, taninos... — eis um vinho, literalmente, taninoso até à morte! Some-se a isto um final razoável e temos um tinto velho que ainda mexe, apesar de, naturalmente, se encontrar já em decadência. Considerando o que os utilizadores do Cellartracker dizem dele, talvez não tenha sido, apesar de tudo, uma má garrafa.

Custou à volta de 20€, back in the time, e continua a ser esse o preço das colheitas mais recentes.

Há quem ache que classificar vinhos velhos é veadagem, mas velho não é morto e o numerozinho da qualidade tem razão de ser, pelo menos para mim. Pelo que 14,5

domingo, 15 de abril de 2018

Barbeito — Rainwater Reserva, 5 Anos

Mais de um ano volvido sobre a publicação das primeiras notas a respeito de um Madeira, aqui deixo o segundo.

Este Barbeito "Rainwater Reserva" é um Madeira meio seco, lote de vinhos produzidos a partir das castas Tinta Negra (80%) e Verdelho, de vinhas das zonas do Estreito de Câmara de Lobos e Prazeres, estagiados em Canteiro durante 5 anos, em cascos antigos de carvalho francês. Foi filtrado antes do engarrafamento, pelo que não requer decantação.

O rótulo inclui uma explicação do termo que define o estilo deste vinho: a designação Rainwater remonta ao século XVIII. A história mais comum conta que, na altura, os cascos eram deixados na praia de calhau antes do embarque. Conta-se que os cascos foram deixados na praia durante muito tempo e como chovia muito a madeira acabou por absorver a água, estilo que agradou ao comprador.

De cor dourada, trouxe consigo fruta cristalizada, pêssegos ou damascos, frescos e em calda, baunilha, mel e caramelo, figos e frutos secos. Ou, melhor dito, cheiro a vinho da Madeira, com a dose certa de alegria e finura, e também já com alguma complexidade, não obstante tratar-se de uma proposta de entrada de gama (ou quase). Elegante, persiste razoavelmente.

O extra de acidez confere-lhe um brilho que o aproxima mais de um Xerez Amontillado que de um Porto Tawny. E como tal, acaba por também ir bem com queijo, azeitonas e tapas, do porco ao polvo.

10€.

16,5

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Recorrente, a discussão sobre o blog de vinhos como veículo do desocupado que troca o seu muito tempo livre e torpe engenho – gato – por uma data de boas garrafas à borla – lebre.

Normalmente, apontam o dedo acusador os visitantes desses mesmos blogs ou utilizadores de fóruns ou grupos de redes sociais dedicados ao tema. Não há nada de estranho nisso: é gente do vinho na net que acusa de coisas outra gente do vinho na net.

Pessoalmente, e não tenciono com estas linhas responder a alguém, dado que o "puto" é demasiado pequeno para essas coisas e assim pretende manter-se, não sei quantos convites para eventos recebi desde algures em 2008. Certamente muitas dezenas, talvez mais. Nunca fui a uma única. Nunca ponderei seriamente ir a uma única.

Quanto ao vinho à borla, sim, já recebi algum, já me obriguei a provar algum que recebi sem ter pedido e jamais compraria, já me obriguei a tentar entendê-lo e, em alguns casos menos inspiradores, quase a garimpar para ter algo a dizer. Mesmo que no final a opinião publicada não fosse positiva.

Ah, tantas vezes é mais aborrecido ter de beber o que não se escolheu e ter de escrever sobre ele, num intervalo de tempo que, mesmo não sendo forçado por uma qualquer cláusula contratual, acaba por ter os seus limites pressupostos por um sentimento de decência face às expectativas de quem enviou e que também incomoda quando não se consegue!

Ora, se ele existir, e acredito piamente que exista, tenho pena do dissimulado que se obriga a procurar interesse onde não o encontra naturalmente, por umas hipóteses de aumentar a sua rede de contactos e/ou umas garrafas de vinho à borla! Se ele existir, espero que me leia e fique também com pena de si mesmo.

E que cresça qualquer coisa e passe a fazer, nem que seja só um pouco mais, aquilo que realmente quer. Que esta vida é só uma e não dura nada...

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Lidl — Vino Nobile di Montepulciano '2012

Tanto quanto sei, este 2012 é o mais recente Vino Nobile di Montepulciano "genérico" do Lidl. O contra-rótulo di-o engarrafado por EGT: Via del Palazzone, 4, 53040 Cetona, morada que confere com a da sede da Barbanera Vini, que, de facto, inclui no seu catálogo propostas desta D.O., provenientes da zona de Valiano — isto se for mesmo um produto da casa, e não uma coisa de négociant, à francesa. O código QR da banda que a entidade reguladora coloca nas garrafas não funcionou.

No copo, mesmo pondo de parte os pontinhos adicionais que vale o diferente, a fuga do mais comum, não se portou mal. O nariz pareceu-me pequeno em termos de projecção, mas razoavelmente amplo no que toca a diversidade de aromas sugeridos... Cassis, cereja, alguma ameixa, almiscarados, alcaçuz, canela, vagas notas oxidativas e outros aromas que tipicamente associo a evolução em barril grande, de madeira velha. Pode ser filme meu!

Na boca, entrada um pouco agressiva, virada para a acidez, corpo entre o delgado e o médio, com certa alegria, taninos que, apesar de numa primeira análise parecerem apenas ligeiramente acima do residual, foram já suficientes para que um tinto de 2012 ainda esteja bem vivo em 2018, algum volume, alguma firmeza na concentração dos sabores transmitidos, mais uma vez por via da acidez e que me pareceram "muito Sangiovese", sem que tal constitua surpresa, e um final entre o curto e o mediano, talvez a pender mais para o segundo porque aceitável face à constituição global do corpo de líquido deglutido. Não falei do álcool porque não dei por ele.

2012 foi uma colheita excepcional na região, mas este vinho não encantou. Na verdade, fez-me lembrar um Chianti "mainstream", daqueles de supermercado, que não brilham nem comprometem, com alguma garrafa. Surgiu quatro anos depois deste e, a acreditar no que ficou registado — porque a memória se esbate — não terá deixado uma impressão muito diferente.

5€.

15

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Adega de Pegões — Cinquentenário '2008

Este tinto foi criado com o objectivo de celebrar os 50 anos da Cooperativa Agrícola de Santo Isidro de Pegões, constituída por Alvará de 7 de Março de 1958, assente em terras anteriormente doadas (em 1937) por José Rovisco Pais aos Hospitais Civis de Lisboa. Hoje em dia, o produtor é dos mais consistentes de Portugal, tanto no volume de vinho produzido como na sua relação qualidade-preço.

Feito a partir de Syrah, Castelão, Cabernet Sauvignon e Trincadeira, estagiou, um ano, em meias pipas de carvalho.

Denso e intenso, mostrou predominância de fruta escura, como amora silvestre, ameixa e groselha negra, com o carácter de basta madurez — e alguma compota — que costuma marcar os bons tintos das areias de Palmela. Com ela, tostados e fumados de barrica . . . nem vincados nem discretos . . . enfim, em retrato comum — é esta muito imprecisa terminologia a que me parece melhor descrever o que me mostrou. Algumas especiarias, algum vegetal . . . Embora presente, muito vago o toque melado do Castelão.

Na boca, volume e estrutura. Digo: não sendo um monstro, pareceu-me pesar qualquer coisa. O paladar, seco. A acidez, mediana, vá, suficiente, com os taninos a surgirem já redondos. Persistiu bastante longamente, com um pós-gosto que trouxe consigo notas de café e chocolate.

É um bom vinho, sem dúvida, mas não está a anos-luz do "Colheita Seleccionada", digamos, comum, da casa, e custou quase três vezes mais.

Acompanhou um misto de naquitos de vaca e porco, salteados em óleo de sésamo e azeite, acompanhados de courgette grelhada e quinoa com agaricus frescos, shiitake maduro, orelha-de-judas reidratada e pimento vermelho. À sobremesa, por via das dúvidas, veio uma tábua de queijos com a qual a sua prestação não me fez voltar atrás no anteriormente dito.

12€.

16

terça-feira, 3 de abril de 2018

Grimes — Visions



It's hard to understand
Cause when you're really by yourself
It's hard to find someone to hold your hand


#3, Oblivion