quarta-feira, 18 de abril de 2018

Ruffino — Riserva Ducale '2001

O blog é um monstro sedento de tempo, disponibilidade e energia! O blog converte vida interior em cangalhadas para outros verem e a análise do tráfego por ele gerado conjura a partir do éter, do aparente nada, satisfação para o ego. No fim, nada sobre nada. Não, exagero. Muito pouco sobre muito pouco, a tender para nada — assim é mais correcto.

Mas apesar de o seu dono saber disso, tanto que o escreve, o blog ainda vive: de tal maneira que é nele, para ele, e para mim também, através dele, que escrevo isto. E não se preocupe o monstrinho com a queda nas listas de agregadores e motores de busca que os períodos de fome consigo trazem: estou decidido a actualizá-lo e, junto com o meu tempo e alma, terá também o vinho a que o habituei. Simplesmente, desta vez, que empurre com ele um bocadito escangalhado de meta-análise.

Para começar, umas notas a respeito da minha última garrafa (originalmente eram três) da colheita de 2001 de Ruffino "Riserva Ducale". O produtor é dos mais conhecidos de Itália e este Chianti Classico é talvez o seu vinho-bandeira, embora não o absoluto topo de gama. A gama "Riserva Ducale" existe desde 1927, nomeada em homenagem ao duque de Aosta, presumo que o segundo, que em 1890 tornou a então jovem casa Ruffino fornecedor oficial da família real italiana, contam que depois de ter atravessado os Alpes, numa viagem que não terá sido das mais simples e/ou suaves, especificamente para provar estes já na altura afamados vinhos, pétalas no galho preto e molhado que então era a produção de Chianti — que, salvo algumas honrosas exepções, continuou a ser um vinho horrível até bem dentro do século XX.

80% Sangiovese e 20% Merlot e Cabernet Sauvignon, este tinto estagiou durante dois anos em madeira, inox e cimento. Não me surpreendeu que ainda estivesse vivo porque a última garrafa aberta, há cerca de meio ano atrás, estava num momento muito bonito. Assim, pelo contrário, surpreendeu-me encontrá-lo muito mais velhinho e cansado do que aquilo que esperava.

Mas perfeitamente bebível e ainda bom. De cor granada, acastanhada, surgiu muito terciário, com aromas a terra, licor de cereja e café. Talvez uma ponta de volátil. Na boca, mostrou acidez ainda capaz de fazer salivar e, mau grado o "meio" um pouco magro, taninos... — eis um vinho, literalmente, taninoso até à morte! Some-se a isto um final razoável e temos um tinto velho que ainda mexe, apesar de, naturalmente, se encontrar já em decadência. Considerando o que os utilizadores do Cellartracker dizem dele, talvez não tenha sido, apesar de tudo, uma má garrafa.

Custou à volta de 20€, back in the time, e continua a ser esse o preço das colheitas mais recentes.

Há quem ache que classificar vinhos velhos é veadagem, mas velho não é morto e o numerozinho da qualidade tem razão de ser, pelo menos para mim. Pelo que 14,5