segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Passadouro '2006

Douro DOC da Quinta do Passadouro — Vale de Mendiz — Pinhão. O rótulo merece ser referido: é dos mais bonitos e originais que alguma vez vi. Cada colheita traz o desenho de um bicho diferente, e com este '2006 vem um belo escaravelho rinoceronte.

Touriga Nacional, Tinta Roriz e Touriga Franca; lagares e barricas.

Cor fechada. Fruta vermelha e negra, vibrante de madurez mas de alguma forma distante, como que desbotada. Curioso. Toque de almíscar e vegetal seco. E madeira. Bastante madeira. Sabor firme, bem mais intenso que persistente, onde se percebe um ligeiro descompasso entre o álcool, a acidez e os taninos. Fiel ao estilo da casa, é um vinho robusto. Que promete, mas precisa de tempo para se encontrar.


12€.

16



Coitado daquele que escreve quando as palavras o abandonam.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Três sais aromatizados

Sais aromatizados. Fáceis de fazer e sempre bons de ter por perto. Especialmente úteis naqueles dias em que a vontade de comer uns nacos de carne bem temperados suplanta a de caprichar na cozinha. Ou quando quem tem de cozinhar é piço.

Estes temperos têm a vantagem de se poderem guardar durante algum tempo: o prazo de validade de cada mistura é definido pelo do seu ingrediente mais perecível.




Da esquerda para a direita:

1. De inspiração italiana. Se estivesse bêbedo na hora de o baptizar, chamar-lhe-ia Sal "Provenzano".

Sal q.b.
2 tomates secos
1 colher (de sopa) de cogumelos porcini (Boletus edulis), secos
2 colheres (de chá) de alho em pó
2 colheres (de chá) de orégãos em folha
1 ½ colheres (de chá) de manjericão
1 colher (de chá) de estragão
1 colher (de chá) de tomilho
¾ de colher (de chá) de pimenta preta em grão
1 folha de louro.

Trituram-se os tomates, os cogumelos, o louro e a pimenta. Isto é, os ingredientes que não vêm da loja em pó ou partes miudinhas. Adicionam-se os demais condimentos. E o sal, de tal forma que o seu volume seja idêntico ao do conjunto dos temperos utilizados. Mistura-se tudo com uma colher. Devagarinho, para não se promover a separação por fases.


2. O bom sal "Marante".

1 tomate seco
1 ½ colheres (de sopa) de alho em pó
1 colher (de sopa) de pimentão doce
1 colher (de sopa) de salsa
2 colheres (de chá) de tomilho
1 ½ colher (de chá) de alecrim
1 colher (de chá) de pimenta preta em grão
1 colher (de chá) de pimenta verde em grão
½ colher (de chá) de pimenta branca moída
5 malaguetas vermelhas secas

Prepara-se de forma igual ao anterior. Contudo, o volume de sal a utilizar desta vez é 1,25x o do conjunto dos temperos.


3. De inspiração indiana. Modelo "Bollywood".

2 colheres (de sopa) de alho em pó
1 colher (de sopa) de gengibre em pó
1 colher (de sopa) de caril
1 colher (de chá) de pimentão doce
1 colher (de chá) de açafrão das índias
½ colher (de chá) de cominhos em pó
¼ de colher (de chá) de canela em pó
5 malaguetas secas
5 grãos de pimenta da jamaica
3 botões de cravo da índia
1 folha de louro

Neste caso, o volume de sal a utilizar é igual a 1,5x o dos temperos.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Quinta do Cardo '2004

De aromas e sabores, a configuração habitual: frutos negros, mornos, um pouco pesados, também em compota, e fumo/tosta de madeira q.b.. No mais, apresentou-se polido, embora portador de alguma estrutura e bastante acidez, com persistência razoável. Surgiram notas de cacau amargo que se foram adensando com o tempo de abertura e que, junto com as notas de barrica já mencionadas, a dada altura, se revelaram demasiado intensas para a fruta que acompanhavam. Foi servido a uma temperatura ligeiramente superior à recomendada, talvez por isso tenha parecido mais mole e pesado que na realidade será. No entanto, nunca deixou de se revelar um bom vinho, perfeitamente capaz de se bater com os pratos que acompanhou.

Custou 10€ (no restaurante da Lurdes, em Castelo Bom). No comércio, o preço deverá rondar os 3-4€.

15

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Cartuxa '2004

Alentejano de Évora, lote de Aragonez, Trincadeira, Alfrocheiro e Castelão, estagiado em madeira e na garrafa (pois!), elaborado pela Adega Cartuxa.

Fruta madura — mas um tanto apagada — envolvida por notas de vegetal seco e especiarias, tosta e chocolate amargo. Talvez vagas insinuações animais.

O arejamento trouxe-lhe cacau, couro e folha de tabaco.

Corpo mediano em volume e comprimento, de acidez ligeira e taninos um pouco secos. Sem grande substância, o que acabou por fazer sobressair certo calorzinho alcoólico — tão típico como incomodativo.

Um exemplar da colheita de 2003 que bebi há tempos pareceu-me bastante melhor. Agora se é questão de vinho ou de garrafa...

16€.

14,5

sábado, 19 de dezembro de 2009

Metablogando com nojo. . .

Certa vez alguém perguntou num fórum o que é que os donos dos [eno]blogues poderiam fazer de modo a tornarem os seus espaços mais interessantes. Já na altura a questão de os [eno]blogues portugueses serem ou não uma caca era mais ou menos recorrente, situação que se manteve até hoje e tem acidez e taninos suficientes para perdurar por muitos e bons anos, provavelmente enquanto os visados existirem. De qualquer forma, e porque não é o facto per se de tal discussão existir que me mete nojo, consideremos aquilo que acabei de escrever uma espécie de aparte e avancemos. . . na altura, a minha resposta foi mais ou menos esta:


Falta sempre alguma coisa, mas mais a uns que a outros.

Pessoalmente, e de entre os muitos bons que por aí andam, acho este modelar:

http://oenologic.blogspot.com


Mas

it takes a life to get a life

como a do Sr. Iverson!

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Se estão à cata de ideias para melhorar o vosso, aqui ficam algumas, a bold e tudo:

1. Mais precisão no que dizem: por incrível que pareça, há sempre pessoas que acreditam naquilo que lhes damos a ler e nós não queremos enganá-las, pois não? :)


2. Revisão, revisão, revisão!

A falta de uma revisão cuidada torna mau o que é medíocre e mediocriza o que, de outra forma, seria regular! Por norma, os porreirinhos, quase bons, bonzinhos e daí para cima não se esquecem de rever, tanto quanto necessário, o que escreveram.


3. Atitude mais receptiva; menos peito inchado.

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Mas livrem-se igualmente de falsas humildades, da sofisticação de plástico e, mais importante ainda, nunca se mostrem falsamente blasé! Se forem ou estiverem molengos e indiferentes, escrevam como tal. Se forem moços simples, não tentem parecer da roda da Mrs. Hilton mãe da parizita. Se se sentirem brigões, amargurados, serenos, inseguros, desinteressados, argutos ... o que for, escrevam como tal. Escrevam o que vos vai na alma sem tentarem modelar [modelar, huh? também meti lá em cima, quando falei do blog do sr. Iverson! já viram? heh? a mesma palavra com diferentes funções? que engraçado, huh?] a vossa alma ao meio que querem que vos aceite porque não só não vos vai aceitar como vão fazer uma figurinha do piorio sem sequer terem estado a ser vós próprios e a fazer o que vos deu na real gana terão estado a representar para nada, & that sucks! :)

... nunca se armem deliberadamente em parvos como eu fiz, só para dar o exemplo, ali em cima, entre parêntesis rectos;

... fujam das auto-referências: evitem que os vossos textos/blogue se transformem em cobriços de rabito na boca...

... à medida que vão escrevendo, em caso de dúvida linguística, dicionário. Tentem não inventar demasiadas palavras, também, ou vai sempre haver pessoal mais sisudo a achar que só poderão dizer melda, no matter what...

... não tentem fazer os vossos textos soar analíticos, impessoais e cheios de autoridade, a la jornalista de craveira, antes de saberem escrever muito bem.

E vivam o mais que puderem, vinho e o resto!




Ah, que chorrilho de asneiras! Talvez alguma das dicas dadas possa ter a sua validade, que merda, tenho de acreditar o mínimo naquilo que defendo. . . Mas que valor poderá ter um blogue objectivamente mais interessante se ninguém lhe ligar nenhuma? É que, como a experiência me tem vindo a mostrar, nenhuma destas dicas de aparência saudável tem a menor influência no crescimento de um blogue. Para que um blogue possa crescer (visitas) e o seu autor ganhar influência, a receita é outra — felizmente bem mais simples. . .

Auto-promoção! Auto-promoção! Auto-promoção!

Não importa que um blogue consista num conjunto de alarvidades horríveis de desconhecimento e desatenção, escritas num estilo que aparente tentar emular o discurso de um atrasado mental, desde que o seu dono consiga ser espertalhão e saiba chegar-se à frente. Abrir-se a comentários e, acima de tudo, comentar. Nem que apenas para dizer «olá! gostei muito do teu blogue! olha, também tenho um, vamos trocar links?» . . . ou ainda menos. Aderir a tantos agregadores quanto possível e participar em todas as suas iniciativas. Ter contas no Facebook e no Twitter, também no Youtube, Stickam e Suicidegirls, e mantê-las actualizadas como se não houvesse amanhã — o que não é difícil: a regra de ouro é colocar uma novidade por dia numa das facetas da nossa existência virtual e a partir daí alimentar as outras todas (o poder da hiperligação). Participar em fóruns, engraxando as pessoas certas. Aceitar todos os convites para provas, júris ou festas privadas, mesmo que suspeitemos no-los terem mandado por engano ou sobranceria . . . aparecer, falar com tudo e todos sem qualquer medo de poder estar a ser um chato do piorio e, como nos fóruns, identificar dois ou três elementos-chave e puxar-lhes o lustro, sorriso nos olhos e uma meia mesura. E, claro, aceitar amostras. . . ou melhor, bater-se a amostras. Sempre de coisas fantabulásticas, divinais — vinhos porreiros — ou apenas boas, mas num momento infeliz — chamar a merda por outro nome, com açúcar por cima. Porque na verdade pouco ou nada importa a quem produz ou vende que em vez de crítica se impinja publireportagem aos leitores — um meio promocional é um meio promocional e quase grátis é quase grátis.

Enfim, poderá o segredo fundamental do sucesso ser algo tão simples como pura e simplesmente não ter vergonha? Pode. E pensando bem, surpreendente é que só a meio caminho dos trinta anos eu me tenha apercebido disso. . . :|

As imagens oferecidas, tudo coisinhas muito bonitas, capazes de fazer os sonhos de qualquer enochato(a), foram tiradas sem permissão de outros sítios da web e destinam-se a tentar atenuar o sofrimento dos pobres tolos que se dispuseram a ler este gordo e inútil bloco de texto até ao fim.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Burmester — Reserva '2006

touriga nacional, touriga franca, tinta roriz.


cor intensa. rubi.

cheiro agradável. tem baunilha. tosta. feno seco. menta. terra. mas sobretudo fruta. negra. madura, sumarenta.

mais tarde, especiarias. cacau em crescendo.

sabor concentrado. nem doce nem amargo. fresco. volumoso, mas nada pesado. um pouco taninoso. longo.

conjunto coeso. raçudo. fino, apesar de algumas arestas. talvez apure com o tempo. dois anos, não mais.


13€

17


wheek . . . not in the mood for wine right now, sorry.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Altano '2007

Bom dia, anjinhos!

Hoje o dono dormiu mal, sabiam? Foi o vento!

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Então o vinho:

Entrada de gama da Symington. 75% Tinta Roriz, 25% Touriga Franca. Fermentado a baixa temperatura em cubas de inox com bombas de remontagem. Aproximadamente 80% do lote final passou 4 meses em barricas usadas de carvalho francês e americano. 13% vol..

Fino mas expressivo, com amora silvestre e cereja, flores, ligeiro mentol, um chapisco de verniz, resquícios de ferro — ferrugem, sangue. Ligeiro no estilo, é macio e equilibrado, sem ponta de rusticidade. E muito mais vibrante que o de 2006.

É tão fácil gostar dele!, é como gostar das flores.

2,70€.

16

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& now for something completely different,

mas que porra, deambulando pela net, já várias vezes aconteceu ter aterrado em sítios de alguém que teve a ideia de ilustrar aquilo que queria dizer com fotos tiradas aqui do blogue, sempre sem qualquer menção à origem das ditas;

ora, se as fotos até são petiscáveis mas quem as tira continua a não merecer um olá, uma hiperligação ou, pelo menos, uma pobre referência — a culpa não é minha! foi o gajo do Puto que Bebe! — começa a tornar-se difícil fugir à questão: será que gostam assim tão pouco do que escrevo?

e se assim é, porque insistem em voltar aqui?

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Quinta dos Roques — Reserva '2003

Sita entre Mangualde e Nelas, no lugar de Abrunhosa do Mato, a Quinta dos Roques é hoje em dia considerada um dos produtores de referência do Dão.

Este vinho foi obtido a partir de uvas das castas Touriga Nacional (50%), Alfrocheiro (20%), Tinta Roriz (20%), Jaen (5%) e Tinto Cão. Estagiou durante 14 meses em barricas de carvalho francês, novas e de segundo ano.

Flores e frutos vermelhos, barrica suave, terra e cogumelos. Coalescem num conjunto sóbrio e fino. De bom porte, untuoso, com taninos miúdos, firmes e numerosos. Longo e mais redondo que o habitual nos vinhos da região, porventura devido a 2003 ter tido aquele Verão tão quente...

Embora ainda seja um vinho bastante jovem, que não está no ponto nem nada que se pareça, que é bem capaz de continuar a evoluir no bom sentido durante os próximos dez anos, o facto é que já dá uma prova francamente agradável.

25€.

17



P.S.

Pede comida. Coisas com garra. Porco!

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Quarto Dado (Dado '2004)

O primeiro Dado data de 2000. Como continuo demasiado preguiçoso para me dar ao trabalho de articular um texto que dê conta do essencial acerca das circunstâncias que rodeiam este vinho, vou antes tentar fazer um boneco. Ora bem:


Em 2004, o vinho do Dão — 55% do lote final — proveniente de cepas velhas das Quintas de Saes e Pellada, composto em cerca de metade por Touriga Nacional e no mais por uma mistura de castas tradicionais da região, foi vinificado em lagares e fez a fermentação maloláctica em cascos de carvalho francês, onde viria a estagiar durante 18 meses. O do Douro, composição típica da zona — Tourigas Franca e Nacional, Tintas Roriz e Amarela, etc. — proveniente de vinhas com mais de 60 anos, também fez a fermentação alcoólica em lagares e a maloláctica em carvalho francês, tendo estagiado durante 15 meses. Encheram-se 5600 garrafas.

Das quais comprei uma recentemente, há menos de meio ano. Decantei o vinho aproximadamente 2h antes de o provar e servir a 16ºC.

Rubi, escuro mas não opaco. Mesmo após decantado, começou um tanto tímido: basicamente, fruta e madeira. Mas quando se começou a soltar, revelou-se uma festa para os sentidos. As flores da Touriga Nacional. . . mato, caruma. . . folhas frescas de pinheiro. Especiarias . . . cominhos. . . chá. Tudo tão fresco, tão limpo, tão arrumado. Força e firmeza, uma estrutura magnífica, suavidade e persistência — tudo na medida certa. Ah, então é assim um vinho dito preciso! E apesar da clareza com que se iam deixando adivinhar as mais e mais nuances olfactivas que surgiam, apesar da limpidez da fruta em crescendo com o tempo de exposição — que framboesas! — o binómio suavidade/densidade do conjunto nunca permitiu que este se tornasse óbvio — e a isto chama-se austeridade.

Dizem eles que «a ideia era criar o vinho ideal, associar a elegância e longevidade do Dão à concentração e estrutura do Douro». Perfeitamente materializada, acrescentaria eu.

35€.

18,5
Antes de vos dar mais do mesmo, aqui deixo uma citação em jeito de resposta (sou preguiçoso) a certos curiosos zumbidos que mais uma vez aparentam ter encontrado eco na nossa fatia de blogosfera.


«I'm all for blogs and blogging. (I'm writing this, ain't I?) But I'm not blind to the limitations and the flaws of the blogosphere — its superficiality, its emphasis on opinion over reporting, its echolalia, its tendency to reinforce rather than challenge ideological extremism and segregation. Now, all the same criticisms can (and should) be hurled at segments of the mainstream media. And yet, at its best, the mainstream media is able to do things that are different from — and, yes, more important than — what bloggers can do. Those despised "people in a back room" can fund in-depth reporting and research. They can underwrite projects that can take months or years to reach fruition — or that may fail altogether. They can hire and pay talented people who would not be able to survive as sole proprietors on the Internet. They can employ editors and proofreaders and other unsung protectors of quality work. They can place, with equal weight, opposing ideologies on the same page. Forced to choose between reading blogs and subscribing to, say, the New York Times, the Financial Times, the Atlantic, and the Economist, I will choose the latter. I will take the professionals over the amateurs.

But I don't want to be forced to make that choice.»


in The amorality of Web 2.0 @ Rough Type (Nicholas Carr),

um muito interessante artigo que vai ao encontro de questões que aparentemente têm tirado horas de sono a certos pensadores de relativo relevo no meio vínico nacional. E embora desde já vos advirta que muitas das opiniões do senhor são disputáveis, não duvidem de que se trata de um pedaço de prosa muito bem feito, como um vinho denso e macio, austero mas profundo, porventura difícil mas indubitavelmente iluminador, certamente capaz de deixar boas memórias.

Entretanto, às cegas ou não, continuem a abanar a colmeia. Que as abelhinhas não tardarão a vir. . . e a dar-vos mel pelos beiços.