domingo, 7 de março de 2010

Quinta da Fata — Touriga Nacional '2005

Fermentou em lagares de granito e estagiou durante um ano em barricas de carvalho francês. Produziram-se 1500 garrafas; abri a nº 455.

Deixei-o arejar durante mais de uma hora antes de me fazer a ele.

Não fora a espuma arroxeada, di-lo-ia preto. No nariz mostra-se pujante, de madurez vincada. O cheiro abafado, terroso, das violetas, o travo acídulo da bergamota, a amora silvestre quase em compota, a ameixa negra carregada. . . uma nesga de madeira resinosa, outra de tosta. . . qualquer coisa de vegetal seco, sugestões de café. E na boca não destoa. Aparece extremamente concentrado, ao mesmo tempo ácido, alcoólico e taninoso, cheio, longo e encorpado.

É um vinho de casta, não de terroir — logo um semi-desnaturado que, ainda por cima, muitos poderão achar demasiado agressivo.

No entanto, pessoalmente, gosto muito dele. Por um lado, dê-se-lhe a comida adequada (pratos fortes) e ele fluirá maravilhosamente. Por outro, mesmo a solo o acho tão saboroso que não consigo deixar de pensar que, de alguma forma, terá conseguido encontrar equilíbrio no excesso. E isso é admirável.

Acho que já está muito bom agora, mas aguentará perfeitamente mais meia dúzia de anos em garrafa.

15€.

17

terça-feira, 2 de março de 2010

Buisson Renard '2004

AOC Pouilly-Fumé das imediações de Saint-Andelain, Nièvre, puro Sauvignon Blanc fermentado e estagiado em barrica, criado pelo genial, por má ventura, precocemente desaparecido, Didier Dagueneau.

Lê-se-lhe no contra-rótulo: "Depuis longtemps, bien longtemps, trop longtemps, une parcelle était connue sous l'appelation malencontreuse de Buisson Menard. Par la grâce inspirée d'un immense dégustateur Français, elle est désormais Buisson Renard. Indéniablement, Renard est plus fûté que Menard. Qu'il en soit donc fait selon sa volonté, ce nom, nous l'avons adopté".

Cor palha.

Complexo e deliciosamente perfumado, dominado no ataque ao nariz por sugestões de flores e — surpresa?! — do mais puro e cheiroso mel de acácia que se possa imaginar. Mel, digo. . . Mas um mel impossível, tão rico e denso e ao mesmo tempo tão leve, fresco e colorido!

E depois, na boca, impecavelmente seco, preciso e cristalino. Aqui o verdor característico da casta aparece na conta certa. Isto é, só o encontramos se soubermos onde procurar. E a madeira, felizmente, idem. Pêssego amarelo, de polpa rija. Damasco. Canela. E o cheiro do sílex quando raspado a prolongar-se ao longo de um final de travo salso e muito, mas mesmo muito longo.

Sério, mas ao mesmo tempo cheio de alegria. Entusiasmante!

60€.

19

P.S. — Para os curiosos, o eminente crítico que terá dado o primeiro passo em direcção ao rebaptismo, Michel Bettane.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Conceito '2006

Já farto? Há tempo, há vinho, e no entanto como que me tive de obrigar a tirar um bocadinho desta pouco airosa manhã para vir aqui escrever isto. Gosto de olhar pela janela, ver as mimosas lá atrás. Emprestam cor até aos dias mais cinzentos. E basta não olhar para cima quando saio para prolongar um bocadinho a ilusão. Muitas vezes, um bocadinho chega. E um dia... Ai um dia! Se perguntarem por mim, sei lá, digam que voei.

Mas enquanto sim e não, mais do mesmo, glu glu... Oh, que mais vos hei-de dizer?

Falar-vos-ei então de um Duriense de V.N. de Foz Côa. Segundo a página web do produtor, proveniente de vinhas com cerca de cinquenta anos, plantadas em terreno xistoso e compostas por mais de 15 castas tradicionais da região. E que terá estagiado durante 20 meses em barricas de carvalho francês, metade das quais novas. No fim, dele se encheram 5000 garrafas.

Violáceo, escuro. Cresce na boca, termina longo e limpo. A fruta delicada, silvestre, talvez azul, talvez roxa, a barrica fina e perfeitamente integrada, a maciez quase cremosa, as doses certas de firmeza e frescor... tudo marcas de um excelente vinho, por sinal fácil de entender, fácil de considerar cheiroso e gostoso, mas de grandeza nem sempre prontamente perceptível, provavelmente porque advinda da enorme elegância que reside (precisamente, lol) na sua enganadora circunspecção.

25€.

17,5

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Velharias (19)

maldição cruzada, v.1



lívidas ceifeiras
adultas —

que a vida
mesquinha
vomitará de repente

cães na areia
que passeavam
o Dogma
a ânsia
o Cristo

que lateja e palpita
com o sopro do outono
e vem bater nos vidros
correndo —
à procura da bestialidade
a mais insuspeita
Luz!

despreza, diz ela
despreza quem não merece
o trabalho de desprezar

— compreendo

vícios de ontem, virtudes de hoje,
disse-se —

vícios de hoje, virtudes de amanhã —

direi?

ditoso
quem tão rico como estúpido
ou mais estúpido do que rico
sossega
nossa efémera passagem

e assim
condenado
esconde
da mágoa
e enche
a saudade

e o que vejo
és tu,
liberdade.


p.s.

merda, escrita assim, na horizontal, merda é.

porém,

por vezes,
escrever merda
na vertical
é bem capaz
de funcionar.



12/Jan/2005

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Sandeman — Vau Vintage '2000

Trata-se de um Vintage produzido para ser consumido enquanto jovem: na respectiva ficha técnica, o produtor recomenda que o seu abate se processe até 2015.


Retinto.

Cálido e doce, rico em sugestões de ameixa e passas, com toque especiado.

Cheio e longo, de estrutura firme, mas ainda assim delicadamente fluido e aveludado.

Harmonizou especialmente bem com uma derivação do nosso bolo nuvem de chocolate, o que não é, de todo, surpreendente.

25€.

16,5

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Quinta do Valdoeiro — Syrah '2007

Syrah bairradino das Caves Messias, vinificado em inox a partir de uvas provenientes de uma parcela única (PN11) da quinta que lhe dá o nome. Fez a fermentação maloláctica em barricas de carvalho francês, onde posteriormente estagiou durante 8 meses.

Violáceo de juventude. Retinto e muito intenso. Uma hora depois de aberto, exalava odores que faziam lembrar frutos vermelhos em envoltório lácteo, quase completamente cobertos por notas de queijo abafado e madeira. Voltei a rolhá-lo e deixei-o a pernoitar no frigorífico.

Encontrei-o muito mais disponível ao segundo dia, repleto de intensas notas de frutos negros, apimentados — a marca característica da casta. Mas ainda completamente dominado por toda aquela madeira... No mais, é longo e volumoso, tem nervo, tem frescor... Promete!

Assim, e como uma nota de prova (para mim, aqui) é uma one-night stand, penso que este vinho acaba por sair penalizado face à sua real valia. Porque embora não veja qualquer exagero em adjectivá-lo de grandioso, parece-me incontestável que, pelo menos de momento, não possui nem a limpidez nem o equilíbrio necessários para que se possa considerar agradável. E assim, a ver que tal evolui...

20€.

15

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Recado

1. Havia uma sala comprida e escura onde só tocava o príncipe com orelhas de burro. Tocava o príncipe depois de mandar matar as donzelas por quem se apaixonava. Tocava o príncipe para não ouvir os gritos delas, e pior, para não as ver quando depois, desobedientes, lhe apareciam a sorrir.


2. E assim chorava, exalando intimidade naquela obscuridade partilhada, o corpo aquoso delatado pela luz branqueada de estranhos candeeiros. Tentou fechar-se. Tentou, mas não pôde, como tantas vezes tão-pouco pôde deixar de correr. E no entanto, agora algo estava diferente. Sem querer, sem saber, mudara. Amadurecera, talvez.

Fechou-se para fora, mas derramou-se para dentro.


3. Não, pequeno príncipe, nunca tiraste pecados do mundo. Mas também nunca tiveste uma propensão especialmente acentuada para lhe acrescentar fosse o que fosse.

Viver para a grande máquina não compensa. És um visionário [como me custa admiti-lo].

Fins després.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Outono de Santar '2005

Colheita tardia de uvas botritizadas, cem por cento Encruzado, estagiado durante um ano em barricas novas de carvalho americano. Como mandam as regras, foi servido a 10ºC em copos Riedel Sommeliers Black Tie, mod. Loire de 3½ dl primeiro a acompanhar o caderninho negro da desgraça e depois, em jeito de entrada, com foie gras e mini tostas.

As impressões que recolhi podem resumir-se ao seguinte: Dourado, da cor do Outono. Macio e delicado, apenas vagamente doce, a fazer lembrar ananás e manga, citrinos amargos e frutos secos, tudo envolvido por fino manto melado. De estrutura e acidez em justo equilíbrio, termina bonito, embora não muito persistente.

Não sendo fã do género — sou daqueles que não gostam nem desgostam —, tenho de reconhecer que este é um exemplar bem razoável, vendido a um preço bastante conveniente: cerca de 10€.

15,5

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Quinta das Camélias — Touriga Nacional '2007

A Quinta das Camélias é uma propriedade localizada em Sabugosa — Tondela. Encontrava-se numa situação de semi-abandono quando, em 2002, foi adquirida por Jaime de Almeida Barros. Efectuadas as renovações necessárias, a primeira colheita fez-se em 2005. No encepamento predomina a Touriga Nacional, existindo também Alfrocheiro, Tinta Roriz e Jaen.

Tem um blog — que infelizmente aparenta estar abandonado há muito.

Conheci os seus vinhos na última feira de vinhos do Jumbo, onde o produtor se encontrava a promovê-los. O básico da casa, de seu nome Cabeço do Mocho, mistura de Touriga Nacional e Jaen, não me impressionou. Talvez também por causa das fracas condições de prova, mas achei-o pobre, curto e desconexo. Fraco. Não comprei.

Provado aquando do outro, este, de gama superior, apesar de quase três vezes mais caro, consegiu mostrar-se interessante, pelo que acabei por trazer alguns exemplares comigo. Em jeito de introdução à prova, trata-se de um monocasta Touriga Nacional feito a partir de uvas cultivadas em regime de Protecção Integrada e parcialmente estagiado em barricas novas de carvalho francês — falaram-me de Seguin Moreau — e americano.

De cor é jovem, com anel violeta. Escuro, não retinto.

No nariz, Touriga fresca, com bom equilíbrio entre flores e frutos. Bagas silvestres e violetas, chá verde e bergamota... E madeira, bastante, a revelar-se sob as mais diversas formas — tosta, baunilha e coco — impositiva caso não se proporcione ao vinho o devido arejamento.

Boca vigorosa, de volume mediano e sabor agradável, embora ainda demasiado marcado pela madeira. A acidez surge vincada em relação ao corpo, embora nem por um momento a tenha conseguido considerar objectivamente excessiva, e os taninos mostram-se com garra, tensos, um pouco secos no final.

Bom vinho, intenso e gastronómico, a prometer boa evolução em garrafa. Acompanhou com garbo um delicioso prato de lombo de porco assado com molho de natas.

Custou 8€.

15,5

:|

Coisas de blogues idos, outras leituras outros tempos, talentos, graças.


Eu amo-te
Tu amas-me
Ele sabe

[intromete-se no seio, no meio, nas fendas, no túmulo

Nós entregamos os corpos
Vós escutais os silêncios
Eles estrangulam as manhãs


@ FdP