quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Las Uvas de la Ira - El Real de San Vicente '2013

O nome remete à ideia de "vino de pueblo", o vinho da terra, de uma determinada terra, habitualmente feito pela cooperativa ou por um conjunto de agricultores locais. Aqui, a execução é totalmente diferente, mas este não deixa de ser, de facto, um vinho da terra, de El Real de San Vicente, povoação situada na zona este da serra de Gredos, no vale do rio Tiétar. Das uvas de três parcelas de Garnacha, com idades entre os 40 e os 70 anos, espalhadas pelas imediações do povoado, e cuja superfícia totaliza apenas 4 ha, resultaram 10.000 garrafas, nas quais o produtor, Daniel Jiménez-Landi, afirma pretender refletir as características do terroir local.

Garnacha de montanha, criada em altitude, alegre no nariz e austera na boca. Não é, no entanto, de carrasco que estamos a falar. Muito pelo contrário. O leque de aromas é amplo: em redor de muita fruta vermelha, sempre doce, axaropada e em batido de leite, vem alcaçuz, canela, pimenta, anis, almíscar e pêlo de mamífero pequeno, ligeira redução, com pau de fósforo... e nada se afigura como defeito, e tudo liga bem, com naturalidade. Na boca, a entrada é jovial e o final tem uma ponta de amargor característica. É fresco e persistente, de taninos densos e firmes, bem finos, e enxuto, ainda menos glicerinado, menos pesado do que esperava. Um vinho muito ao meu gosto, mas, à parte disso, objectivamente muito bom.

20€

17,5

sábado, 7 de setembro de 2019

Quinta do Cardo - Caladoc '2015

A Caladoc é uma casta tinta, cruzamento de Grenache e Malbec, criada em 1958 pelo botânico Paul Truel, responsável pelo surgimento de mais de uma dúzia de novas castas (como a Marselan, cruzamento de Grenache e Cabernet Sauvignon), no Domaine de Vassal, em Montpellier, lugar da colecção ampelográfica do Instituto Nacional de Investigação Agronómica (INRA) francês.

Este monocasta provém de uma parcela experimental, com 2 ha, da Quinta do Cardo, nas imediações de Figueira de Castelo Rodrigo. O produtor informa que "as uvas foram colhidas e seleccionadas à mão, transportadas para a adega onde foram prensadas inteiras durante 3 horas. Iniciou fermentação com temperatura controlada, o ultimo terço terminou em barricas de carvalho francês e estagiou durante 10 meses, com "batonnage" regular. Foram produzidas 2 176 garrafas".

Cor salmão, esmaecida, e aromas e sabores delicados, agradáveis nas notas florais, de frutos vermelhos e de vegetal seco, mas, por um lado, com certa falta de "punch", e por outro, com demasiada madeira. Pensei, inicialmente, que esta falta de brilho se pudesse dever à idade, mau grado não apresentar (por enquanto) grandes sinais de decadência, mas, pesquisando a internet sobre que tal o acharam outras pessoas, encontrei basta quantidade de impressões, a vasta maioria delas de quando saiu para o mercado, nos idos de 2017, que conferiam neste ponto. O que faz sentido, dado pretender-se um rosé de perfil delicado: sendo o teor fenólico da casta considerável, presumo que a extracção tenha tido de ser suave. E para enriquecer a ruivita delgada, pau. Mas a dose deixou marcas.

Tl;dr: é uma curiosidade engraçada, mas não mais que isso; deverá ter sido um pouco melhor em novo; vai morrer com a madeira; se ainda tiver alguma garrafa em casa, beba-a já.

17€

15

terça-feira, 3 de setembro de 2019

CVNE - Viña Real, Crianza '2012

Produzido por um dos nomes mais sonantes da região, a CVNE, Compañía Vinícola del Norte de España, criada na localidade de Haro, em 1879, e ainda hoje nas mãos de descendentes dos fundadores, é um Rioja de estilo mais clássico que moderno. Ou seja: apesar de ser mais frutado, redondo e carnudo, e apesar de não ter qualquer vestígio do toque oxidativo que marca os clássicos dos clássicos da Rioja Alta, como este, por exemplo, é um vinho clássico dentro do registo da Rioja Alavesa, também ele orientado para a elegância e capaz de evoluir favoravelmente por longo tempo, pelo menos nas boas colheitas.

Feito com 90% de Tempranillo e 10% de uma mistura de Garnacha, Mazuela e Graciano, fermentou em inox e, após a maloláctica, foi transferido para barricas de carvalho, "principalmente americano", para usar as palavras do produtor, onde permaneceu 14 meses. De vários anteriormente provados, parece que aqui registei umas quantas impressões a respeito do de 2008.

Directamente do bloco de notas do telemóvel, aí fica que tal me pareceu. "Cereja. Pele, coco, especiarias. Viçoso. Intenso, de passagem macia e prolongada. Fresco, amplo, equilibrado e bastante longo. Macio, mas... Não sendo extraordinariamente complexo, encontro-o sempre cativante".

Para terminar, a nota, quiçá escusada, de que é um vinho de perfil muito bem definido, que não tem mudado muito de colheita para colheita, pelo menos na última década. E um valor sempre mais que seguro.

7€

17

sábado, 31 de agosto de 2019

Quinta do Sobral - Touriga Nacional '2013

O monocasta Touriga Nacional da Quinta do Sobral, de Santar, produtor fundado em 1997 e que desde 2002 conta com adega própria. O seu predecessor de 2011 passou por aqui e deixou boa impressão.

Muito intenso e encorpado, negro e alcoólico, com um leque aromático floral e balsâmico, farto de barrica e especiarias, onde definitivamente não falta álcool. Tudo nele contribui para um mesmo retrato de madurez e extracção, que remete para coisas escuras.

Mas bom! Apesar do ímpeto com que nos aborda, da densidade, da concentração, da passagem abrutalhada de coisa grande que parece querer ser ainda maior, é bom! Tem persistência, profundidade, carácter. Apetece dizer que tem alma.

Ao fresco da noite, com uma feijoada riquíssima, esteve super bem.

10€

16,5

domingo, 25 de agosto de 2019

Quinta de Cabriz - Touriga Nacional '2014

Touriga Nacional polido e concentrado, firme nos frutos pretos e notas florais, mas também bastante marcado por tostados de barrica. De taninos maduros e dimensões equilibradas, como que "médio+ em tudo", amplitude e persistência incluídos, não desmerece, mas também não marca. É ainda daqueles vinhos que mais frequentemente vejo de preço "esmagado" nas feiras e acções promocionais do género que a distribuição, em especial as grandes superfícies, promovem de tempos a tempos. Não, o preço normal dele, por garrafa, não é de 23000€ e agora, só agora, com a promoção espectacular deles, é que se consegue tirar a 6,50 ou 7€. 7/8€ é o seu preço normal, a mais de 8€ já é caro. Caveat emptor!

Acompanhou um prato simples, caseirinho, cortesia da S e que me deixou tão bem impressionado que apontei para aqui registar. Sem medidas, tudo a gosto. Refogou-se cebola. Juntou-se-lhe cenoura e courgette em fatias finas e, tendo os vegetais atingido o devido ponto de desenvolvimento, removeram-se para uma taça. Na mesma frigideira, usou-se uma grande e pesada frigideira de cerâmica, mas suponho que podia ser qualquer outra coisa baixa e larga, sem lavar, dourou-se pá de porco, picada no talho, com salsa, alho, sal, sambal oelek e pimiento choricero. Tendo a carne adquirido alguma cor, juntou-se polpa de tomate, que calhou ser daquela já vendida com manjericão, e um pouco de cerveja. Por fim, farinha de arroz para ajudar a engrossar. Estando tudo bem ligado e espesso q.b., juntou-se à taça dos vegetais. Entretanto cozeu-se e escorreu-se esparguete, que se colocou numa travessa funda, com a mistura supra por cima e, por fim, um generoso topping constituído por uma boa camada de mozzarella, primeiro, e outra de parmesão. Foi ao forno até o queijo derreter e ter corado qualquer coisa.

7€

16

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

E a minha conta da Heliohost foi à vida porque o servidor onde residia morreu pela milionésima vez e a melhor alternativa que me deram foi fazer download de uma cópia de segurança e instalá-la noutra conta que teria de criar para o efeito. Nem pensar. Muito trabalho. Então tive de arranjar outra solução para exibir aqui os meus joguitos, caminho que, a seu tempo, "os meus discos" também tomarão, não por alguma forma de autismo me levar a tentar transmitir permanência a coisas que, na sua essência, não podem sê-lo, mas por teimosia e porque acho que a hora desta merda ainda não chegou. Para comemorar o facto de ter arranjado uma solução que, esperemos, dure mais do que as anteriores, fica aí um problema que me deu voltas e mais voltas à cabeça, e no qual, pelo menos na altura em que o conheci, os motores pouco ajudavam (excepção honrosa para o The Baron 3.41, que chegou lá sozinho após alguns minutos)! Aí vai:

As brancas jogam e ganham.



E a solução: 1. Rd3 g3 2. f4 Rf1 3. Rd2+ Rg1 4. Bd7 Rf1 5. Bh3 Rg1 (5... Tg1 6. Bg4 Th1 7. Be2+ Rg1 8. Cc3 Rf2 9. Ce4+ Rg1 10. Cg5 Rf2 11. Ch3#) 6. f5 Rf1 7. f6 Rg1 8. f7 Rf1 9. f8=D+ Rg1 10. De8 Rf1 11. De1#

sábado, 17 de agosto de 2019

Cimarosa - Winemaker's Selection by Christian Rojas '2012

Olho para os arquivos dos primeiros anos do Puto e impressiono-me com a naturalidade com que bebia e apreciava tintos encorpados e cheios de madeira em qualquer almoço de verão. Hoje em dia já não é assim. Mau grado a disponibilidade de soluções de climatização, com o calor, prefiro comer coisas simples, cada vez mais simples, na verdade, e tento acompanhá-las com vinhos à altura. Ou seja, que liguem.

Cimarosa é, ou era, a marca genérica dos vinhos do Lidl. O contra-rótulo deste apresenta a "Winemaker's Selection", colecção onde se insere, como um conjunto de vinhos produzidos e seleccionados, em quantidades limitadas, por vários produtores, de vários locais do mundo. Ou seja, esté um tinto do Lidl, mas de edição limitada a 99.800 garrafas, proveniente do Valle de Colchagua, no Chile, onde foi feito e selecionado por Christian Rojas, que na altura era enólogo-chefe da Viña Luis Felipe Edwards.

O lote é composto por Cabernet Sauvignon, Syrah e Carménère, com um anos de estágio em carvalho francês e americano. E sem ser nenhum estrondo, cumpre bem. Ainda não acusa muito o peso da idade, continuando super generoso, carregado de ameixa e frutos silvestres, todos bem maduros, naquele registo limpo e sumarento, com cacau e especiarias, temperado só com um bocadinho de barrica, que tanto marca as propostas mais mainstream do hemisfério sul. Há dois ou três anos atrás, estaria ainda melhor, que o lustro da juventude cai bem a este tipo de tinto. Mesmo assim, gordo e aveludado na boca, com certa sensação de calidez e um final médio+, acompanhou lindamente uma tarde de febras grelhadas, beringelas japonesas tratadas da mesma maneira, pimentos assados, salada de tomate e azeitonas, algum azeite a dar brilho a tudo e muitas rodelas de limão.

Não me lembrando exactamente de quanto paguei por ele, muito me surpreenderia se tivesse sido mais de 5 ou 6€.

16

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Beyra - Reserva Quartz '2017 (Branco)

Há muito, há cada vez mais tempo me lembro de ser comum apontarem a Beira Interior Norte, sobretudo a zona de Figueira de Castelo Rodrigo, como "the next big thing" em termos de brancos portugueses.

Ora, sem me poder considerar um especialista ou, sequer, um jogador activo no meio, apenas vendo o que vejo, arriscaria dizer que não há, nem é expectável que venha a haver tal coisa. A cena do vinho em Portugal aparenta já ter deixado de crescer por esticões: não quero dizer com isto que tenha parado de crescer ou esgotado o  seu potencial, evidentemente.

E, ou muito me engano, ou os brancos da região continuam a progredir, lenta mas consistentemente, bem como a ser comercializados por valores que não reflectem as suas verdadeiras qualidades. Embora este caminho até pareça bem, que devagar se vai ao longe, não deixa de ficar no ar a ideia de que fazia falta um esticão -- de repente, lembrei-me da Omega e de James Bond, ou, generalizando, de qualquer marca e de James Bond. Talvez os vinhos da Beira Interior Norte precisem de um James Bond ou algo assim.

Os vinhos deste projecto de Rui Roboredo Madeira nunca me desapontaram, mas este, combinação de Síria e Fonte Cal em partes iguais, com estágio de meio ano em cuba de inox, foi aquele que, até à data, me soube melhor. Muito bem no plano aromático, trouxe consigo flores silvestres e citrinos, pêssego e pêra, muita pêra madura, presença predominante pelo menos nesta garrafa. Na boca, sem encher ou assoberbar, aliás, sem grande "punch", surgiu pleno de vigor e perfeitamente consentâneo com o nariz.

É largo, comprido e profundo q.b. Cheira bastante, sabe bastante, e a coisas boas. Deve aguentar mais 2 ou 3 anos em forma, se bem guardado.

7€

16,5

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

D. Graça - Samarrinho '2015

Da Vinilourenço. É, nas palavras do produtor, "um vinho para reabilitar uma grande casta antiga do Douro, em vias de extinção". Não passou por madeira. Dele se encheram 733 garrafas, não numeradas, em Maio de 2016.

O aroma é suave (o descritor favorito do noob, heh) e delicado. Uma língua viperina di-lo-ia pouco expressivo. Cheira a vinho branco: talvez com uma pontinha cítrica, talvez com fruta branca, certamente que com uma ou outra flor, da mesma cor.

Na boca, pareceu melhor. O produtor diz que "sabe mais do que cheira" e sinto-me inclinado a concordar. Tem bom volume, boa persistência, alguma acidez, a suficiente se for mantido refrescado, o sabor que esperaríamos corresponder ao das flores brancas, sem o amargor das ditas, e, acima de tudo, bastante substância, bastante vida, uma vida difícil de dizer, mas que não é só querer e que o mantém interessante, tanto a solo como com pratos leves -- nós bebemo-lo só com amêndoas, amêndoas com uma pontinha de sal, lá no wine bar. Às vezes lá rola uma torrada e a salada de bacalhau deles também não é má, mas, normalmente, o vinho é branco, para a gaja também beber, e amêndoas. E é bom. E foi bom. E talvez pudesse encaixar um prato simples de camarão ou vieiras, mas coelho, como o produtor sugere, não sei.

A casta, que algumas fontes, como João Paulo Martins, no seu guia "Vinhos de Portugal", mas sem consenso, dizem corresponder à espanhola Budelho, já marcava presença no Douro, consta, no início do século XVI, sendo que ainda é presença frequente, apesar de esparsa, em alguns encepamentos mais antigos, em field blend, e tem vindo a verificar um certo ressurgimento, através de edições monovarietais limitadas, de tiragem reduzida -- que eu saiba, para além desta, existe também uma da Real Cª Velha. A ver o que o futuro lhe traz.

Se a memória não me atraiçoa, custou 17€, ou um pouco menos, no Nobre, Vinhos e Tal, que é um sítio espectacular para quem gosta de vinho, com uma excelente garrafeira a óptimos preços e que visitamos sempre que a nossa volta passa na Guarda ou perto.

16

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Adega Cooperativa de Vila Nova de Tazém - Reserva Branco "Edição Limitada" '2014

Adquirido há cerca de um ano atrás, entre festivais de electrónica, este é um branco relativamente incomum. Graficamente, tem tudo a ver com a edição especial dos sessenta anos da adega (1954-2014), da colheita de 2013. No contra-rótulo, o produtor afirma que "cepas antigas de várias castas permitiram fazer este vinho seguindo uma vinificação natural com estágio prolongado em garrafa". No meu caso, provavelmente, mais de quatro anos. Das 2000 garrafas produzidas, abri a nº 685.

A cor, um amarelo nem claro nem escuro, é a típica de um vinho de meia idade, nem velho nem novo. O nariz mostrou-se fechado e assim permaneceu enquanto a garrafa ia sendo vertida ao longo de uma calma refeição de carapau assado, batatas cozidas, brócolos ao vapor -- eu também preferia bróculos -- e, claro, bom azeite. Fruta bastante, indefinida mas pouco tropical. Algum vegetal, alguma transformação, idade.

E embora aquilo que mostrou no nariz não se possa considerar mau, insuficiente ou, sequer, anticlimático, acho que esteve melhor na boca, muito fresco, de paladar seco e firme, macio mas só muito ligeiramente untuoso, com bom volume e persistência. Em suma, um branco que, tendo atingido a maturidade, permanece muito bem apresentado e poderá justificar guarda adicional.

8€.

16,5