domingo, 29 de janeiro de 2012

eu não gosto de homens do lixo. hoje fui levar as garrafas ao vidrão e vi um. não existiu interacção entre nós, mas de alguma forma recordou-me certa coisa que nunca deixou de me fazer mordinho, pelo menos quando penso nela.

isto aconteceu quando o m. ainda vivia com a ana maluca ao fundo da r. fig. da foz, aquela por onde se passa antes de entrar na rotunda da casa do sal. acontece que os homens do lixo se reuniam ao fundo daquele correr de prédios, mesmo ao pé da casa dele, todas as noites. na altura, a minha casa era mero local de descarga e eu passava o tempo a dosear-me com eles e os outros drogados que também lhes frequentavam a casa. ao fim de algum tempo de convivência involuntária, fomos reparando como os do lixo eram cheios de merda. certa vez, por exemplo, um deles embirrou com o m, que vinha podre de bêbedo, porque lhe deu um cigarro amarrotado. e na altura fiquei a pensar, mas que merda, um cigarro oferecido é um cigarro oferecido, amarrotado ou não. acima de tudo, é preciso não esquecer quem pediu o quê a quem. claro que esse incidente não foi caso isolado, longe disso. também me lembro que muitas vezes comiam na rua, à entrada das garagens, quando terminavam o turno da madrugada. e que levavam para lá as motinhas de merda onde vinham montados desde casa, nunca nada com mais de 125cc, e abandonavam as garrafas de cerveja que bebiam alarvemente para que fosse a nossa mulher da limpeza a ter o trabalho de tirá-las pela manhã. filhos da puta.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Quinta das Bágeiras — Garrafeira '2003

Monocasta Baga de vinhas velhas, com mais de 75 anos. As uvas fermentaram em lagares, sem desengace, e o vinho daí resultante passou por um breve estágio em tonéis de madeira avinhada antes de engarrafado, diz o contra-rótulo. Foi aberta a garrafa nº 3896 de 21320 produzidas. O sítio do produtor na internet continua em construção.

Primeiro dia, após hora e meia de arejamento num decantador: Rubi escuro. Carnudo, cheio de fruta resinosa. Fumo, engaço, terra, resina. Potente e muito longo, impressionou mais na boca que no nariz, onde a princípio se mostrou algo preso. Segundo dia: frutos vermelhos e carácter varietal, tudo como que mais límpido. Café no fim de boca. Vai viver, mas já está numa boa fase.

18€.

17,5

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Existe, algures no Norte, uma terriola cujo dealer é um homem tão íntegro que admite a aplicação de uma espécie de controlo de qualidade aos seus produtos, ficando esta tarefa a cargo dos próprios consumidores. A droga só é colocada no mercado depois de aprovada por um representante dos consumidores, escolhido ao acaso, e que acompanha o dealer sempre que um novo sabão é cortado — 30/Abr/2005.

Voltando ao presente, caros leitores, tenho sonhado bastante com certa aplicação informática lá do trabalho. Os sonhos de que falo levam-me a acordar mais cedo que o habitual, mas não são pesadelos. Será normal? :|

sábado, 21 de janeiro de 2012

Matua Valley — Sauvignon Blanc '2009

Da ficha técnica:

After the grapes were harvested, the juice was separated from the skins on arrival at the winery. The skins were then pressed and the resulting juice re-blended with the free run juice. The juice was cool fermented in stainless steel with various yeast strains to enhance the distinctive natural aroma. After fermentation the wines were racked off gross lees and allowed to sit on light lees prior to blending and bottling.

Nada de incomum.

Cor a ficar palha. Toranja e alperce, espargos, abacate, maracujá. Verde arredondado. Boa presença na boca, compromisso interessante entre ligeireza e frescor. Simples e limpo, não evidenciou ainda qualquer sinal de decadência. Pena o final apenas médio/curto. Apesar do perfil algo tímido, foi melhor quando bem fresco, quase frio. Do mesmo produtor, já por aqui passou um Pinot Noir de 2007 que também agradou bastante.

8€.

16,5

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Selaks — Premium Selection, Sauvignon Blanc '2010

Sauvignon Blanc de Marlborough, sem passagem por madeira. O produtor tem presença na internet.

Extremamente intenso no ataque à boca, fez desejar, por momentos, que fora mais redondo.

Espargos, toranja, relva e 13,5% de álcool bem enterrados.

Simples e limpo, será um bom exemplo da presença daquela acidez que alguns dizem crocante. É ela a espinha dorsal deste vinho, que tudo conduz, tudo integra, até um pouco de açúcar não fermentado que acabou por trazer uma redondez inesperada à passagem pela boca.

Horas depois de aberto, amaciou qualquer coisa. Mais doce então, com couve e pimento, chegou a recordar alguns dos traços que se costumam encontrar nos Carménère de zonas mais frias.

Bebeu-se com espetada de lulas, mas também não se teria dado mal com, por exemplo, frango de churrasco. Gostei.

8€.

16

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

The three questions I ask everybody I meet in order to decide if I can love them:

1. Let us assume you met a rudimentary magician. Let us assume he can do five simple tricks—he can pull a rabbit out of his hat, he can make a coin disappear, he can turn the ace of spades into the Joker card, and two others in a similar vein. These are his only tricks and he can’t learn any more; he can only do these five. HOWEVER, it turns out he’s doing these five tricks with real magic. It’s not an illusion; he can actually conjure the bunny out of the ether and he can move the coin through space. He’s legitimately magical, but extremely limited in scope and influence. Would this person be more impressive than Albert Einstein?

2. Let us assume that a fully grown, completely healthy Clydesdale horse has his hooves shackled to the ground while his head is held in place with thick rope. He is conscious and standing upright, but completely immobile. And let us assume that — for some reason — every political prisoner on earth (as cited by Amnesty International) will be released from captivity if you can kick this horse to death in less than twenty minutes. You are allowed to wear steel-toed boots. Would you attempt to do this?

3. Let us assume that there are two boxes on a table. In one box, there is a relatively normal turtle; in the other, Adolf Hitler’s skull. You have to select one of these items for your home. If you select the turtle, you can’t give it away and you have to keep it alive for two years; if either of these parameters are not met, you will be fined $999 by the state. If you select Hitler’s skull, you are required to display it in a semi-prominent location in your living room for the same amount of time, although you will be paid a stipend of $120 per month for doing so. Display of the skull must be apolitical. Which option do you select?

Sex, Drugs, and Cocoa Puffs: A Low Culture Manifesto, Chuck Klosterman, 2003.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Quinta do Serrado — Touriga Nacional '2005

Dão DOC, monocasta Touriga Nacional da FTP Vinhos. Logo de início, dois sinais de alarme: indícios de infiltração na rolha, nada de mais, e ligeiro cheiro a velho no ataque ao copo, que no entanto se dissipou ao cabo de poucos minutos.

De tom granada, escuro e maduro, inicialmente apenas mostrou fruta preta, parte dela transformada em compota e licor, e álcool solto. Com o passar do tempo, horas, começaram a notar-se aromas mornos de evolução, caramelo, pastelaria, folha de tabaco, pinhões e outros, por assim dizer, afins destes. Vinho adulto, no limiar da curva descendente, pelo menos. Compostinho, mas chochito, de final médio/curto. Não o posso dizer mau, mas esperava melhor.

Será este envelhecimento aparentemente precoce característica deste vinho em particular? Será coisa dos vinhos com este perfil, extraídos e alcoólicos, ricos em acidez e taninos, mas sem a profundidade e o balanço, enfim, a carne suficiente para aguentar, digamos, dez anos em garrafa? Afinal, é sempre esta a fase seguinte à dita early maturity, ainda tão na moda. Estou a utilizar o termo tal como foi popularizado pela Wine Advocate. Para se perceber o que quero dizer, bastará, como termo de comparação, fazer notar que é o que de momento acontece com as gajas, pelo menos em alguns meios. As preferidas, cavalos de 17 anos que aparentam ter mais de 25. Todas boas: quando efectivamente tiverem 25, a ver vamos. Ainda a respeito da early maturity, parece que o termo nem sempre foi um descritor (ou isso) popular: tudo terá começado com uma observação do próprio R. Parker a respeito de um Viña Tondonia de 1987 que, simplesmente, aparentava estar velho antes do tempo. No fundo, a menos que nos estejamos a referir ao mesmo objecto num dado momento muito específico, não existe contradição, a eventual deturpação esbate-se: é sabido que os vinhos que ficam prontos surpreendentemente depressa tendem a envelhecer antes do tempo. Coincidência feliz? Talvez, mas sempre dependente de certa ideia de evolução natural das coisas que, por mais enraizada que ainda se encontre em alguns, não é, não tem como ou porque ser imutável — em todo o caso, digo eu, seria uma pena perder-se. Este mundo, enfim! Voltando ao vinho, para terminar, ter-se-á tratado, simplesmente, e aqui volto aos sinais de alarme com que comecei o post, de uma garrafa menos boa?

Bebi-o simples, depois com estufado de galinha, e ainda, mais tarde, ao almoço do dia seguinte, com salsichas crocantes, assadas quase a seco, no forno. E foi com estas últimas que me soube melhor, apesar de se notar muito mais próximo do fim.

12€.

14,5

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Maritávora '2007

Post nº 1001.

O vinho: Duriense de Freixo de Espada-à-Cinta, feito com Tinta Roriz, Touriga Franca e Touriga Nacional. Lê-se no sítio do produtor na internet que cerca de 40% do lote final foi vinificado em lagar, com pisa a pé, tendo estagiado 16 meses em barricas de carvalho francês. O restante fermentou e estagiou em cubas de inox. Encheram-se 17.000 garrafas.

Primeiro dia, directo ao copo: Muita cor. Espuma escura, de juventude. Ginja, amora (Morus, não Rubus), mato seco, folhas de chá e tabaco, tons de Touriga Franca. Gordinho e cheiroso, firme e bastante intenso. Gostei. Segundo dia: talvez um pouco menos circunspecto, mais sumarento, reteve o perfil morno e duro, de álcool e taninos. Aqui, morno e duro não apontam defeito. Procuram definir um vinho que quiseram ao mesmo tempo envolvente e sério, doce com uma ponta de rusticidade. Pena o final algo oco, ou seria muito bom.

8€.

16

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Cruz — Colheita '1992

Engarrafado em 2010 pela casa Gran Cruz. Âmbar acastanhado no copo. Passas de frutos negros, muito açúcar mascavado e torrado, mel de cana. Notas de nozes e outros frutos secos, ligeiro ranço e pele completam o bouquet. Sabor delicado, de doçura agradável. Todo ele, aliás, se revelou redondinho e bem dimensionado. Muito suave, talvez demasiado, até, a raiar o débil.

Um sucesso com bolo de noz, portou-se menos bem a acompanhar um Lancero. Bom charuto, cheio de aromas a folha de tabaco crua, vagamente terroso. Apesar de enriquecer o sabor denso do charuto com notas mais doces, frutadas, encontrei-o de alguma forma incompatível com os taninos do havano. Charutos e tawny é ligação que nem sempre corre bem. Já com haxixe, não sei se pela natureza mais adocicada e especiada da coisa, se por menor intervenção do tabaco — é sempre de recomendar a utilização de tabaco de cigarros tostados na altura, a la Smokie Werner, para minimizar a quantidade de voláteis, de modo a proporcionar um veículo tão neutro quanto possível — as coisas não só são mais previsíveis como tendem a correr muito melhor.

15€.

16

domingo, 8 de janeiro de 2012

Quinta da Rigodeira '2007 (Branco)

Deste não tenho muito a dizer. Maria Gomes e Bical, aposto que vinificadas à antiga-moderna. Não existe muita informação online sobre o produtor, pelo menos de acordo com os padrões actuais. Muito concisamente, existe em Ancas, Anadia, desde 1984, altura em que foi fundado por Ataíde Semedo. Parece que actualmente pertence às Caves Aliança, sendo que dos seus vinhos apenas o Quinta da Dôna aparece integrado de forma explícita no portfolio do comprador. Como já estamos a perder o foco, adiante.

Servido a 12ºC. Presença discreta, com notas de evolução — flores brancas, chá, queijo? Na boca, corpo e frescura em boa proporção, mas tudo muito fraquinho, como que esmaecido. A S. disse dele melhor do que me poderia ter ocorrido: um chazinho. O seu correspondente tinto da colheita actualmente mais fácil de encontrar, 2005, continua em boa forma, tem sido bastante consumido cá por casa.

3€.

14

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Doubt

With careless hands a child kills an ant, many ants. Flies are far trickier, though once caught, they have little chance. And if darting birds don’t grab them first, butterflies die a natural death; few people — collectors excepted — willfully steal such tremulous beauty.


***

It has the marks of permanent war. Beetles, good at hiding, keep close to the ground. Wisława Szymborska finds one dead on a dirt road, “three pairs of legs … neatly folded across its belly.” She stops and stares. “The horror of the site is moderate,” she writes. “Sorrow is not contagious.” But still doubt remains:


For our peace of mind, animals do not pass away,
but die a seemingly shallower death
losing — we’d like to believe — fewer feelings and less world,
exiting — or so it seems — a less tragic stage.

An uncommon sensibility. Almost like a child meeting death for the first time, grasping analogy, tentatively building a bridge. Tentatively. The poet is tentative. Her knowledge of the small (and sometimes large) acts of bad faith through which we live our lives is what makes the poem.

@ Insectopedia, Hugh Raffles, 2010.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Quinta do Pôpa — Preffácio '2008 (Branco)

Duriense da Quinta do Pôpa, elaborado a partir das castas Malvasia Fina, Viosinho e Fernão Pires. Uma curiosidade: o enólogo responsável, Luís Pato.

Cor palha. Melão, flores, folha de louro e algo como pêssego, ou talvez nectarina. Leve, ou talvez melhor dito, ligeiro, que esta leveza que lhe encontrei não é coisa exclusiva do corpo: antes, e acima de tudo, de carácter. Ligeiro, mas agradável, as únicas notas meladas presentes muito esbatidas, de fruta sobremadura. Mesmo perfil no sabor, limpo, sem doçura residual, ainda vagamente untuoso. Final curto.

Apesar de pequeno, revelou-se surpreendentemente vivo e bom, apesar da idade, e ainda mais, pelo menos para mim, porque a rolha de borracha não prometia alegrias.

Bebeu-se com peixe ao vapor e os acompanhamentos do costume.

3€.

14,5

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Casillero del Diablo — Chardonnay '2009

Enodiário, lol. Terça-feira, 3/1/2011. Acordei pouco depois das 9h30. Seguiram-se as lavagens da praxe ao corpo. Net, pela manhã: verificar as caixas de email, se os artigos recentemente adquiridos online já foram expedidos, LSS, talkchess. A gaja a limpar as ratoezas.

Saímos: passear, compras de ocasião. Um fuet, pãezinhos, um folhado misto. Viriam a ser o nosso almoço, pouco depois. Encontrámos a RP, foi engraçado. Casa, comer. O outro banho da S, maquilhagem, sair. Dia de folga para mim, convalescer junto ao PC (ou assim). Fazer uma máquina de roupa, pôr o jantar no forno.

A gaja chega, comemos. O post é publicado. Os canais engraçados nestes packs mais completos da Zon passaram todos para lá da posição 100, que diabo. . . Dormir, aposto, espero. Amanhã é outro dia, mais ocupado. Meh, não liga com o vinho.

Varietal Chardonnay produzido por Concha y Toro com uvas provenientes do Valle de Casablanca, lugar fresco, sujeito à influência dos ares do Pacífico Sul. 35% fermenta e estagia por 6 a 8 meses em carvalho francês; o restante, em inox. A garrafa vem vedada com tampa de rosca. Ah, não consigo evitar: o sítio do produtor na internet merece certamente uma visita.

Tropical sóbrio: manga, alperce, papaia, maracujá, sem traços concretos de sobremadurez ou doçura residual. Baunilha também, ligeira, talvez. Não sendo gordo, reteve o toque manteigoso da casta, o que é bom. Algum volume, final mediano. Simples e muito limpo, gostei.

6€.

15,5

domingo, 1 de janeiro de 2012

66. Cada mercadoria determinada luta para si própria, não pode reconhecer as outras, pretende impor-se em toda a parte como se fosse a única. O espetáculo é, então, o canto épico deste afrontamento, que a queda de nenhuma Ílion poderia concluir. O espetáculo não canta os homens e as suas armas, mas as mercadorias e as suas paixões. É nesta luta cega que cada mercadoria, ao seguir a sua paixão, realiza, de fato, na inconsciência algo de mais elevado: o devir-mundo da mercadoria, que é também o devir-mercadoria do mundo. Assim, por uma astúcia da razão mercantil o particular da mercadoria gasta-se ao combater, enquanto a forma-mercadoria tende para a sua realização absoluta.

68. Sem dúvida, a pseudo-necessidade imposta no consumo moderno não se opõe a nenhuma necessidade ou desejo autêntico, que não seja, ele próprio, modelado pela sociedade e pela sua história. Mas a mercadoria abundante está lá como a ruptura absoluta de um desenvolvimento orgânico das necessidades sociais. A sua acumulação mecânica liberta um artificial ilimitado, perante o qual o desejo vivo fica desarmado. A potência cumulativa de um artificial independente conduz em toda parte à falsificação da vida social.

70. A própria impostura da satisfação deve denunciar-se ao substituir-se ao seguir a mudança dos produtos e das condições gerais da produção. Aquilo que afirmou, com o mais perfeito descaramento, a sua própria excelência definitiva muda não só no espetáculo difuso, mas também no espetáculo concentrado, onde apenas o sistema deve continuar: Estaline, enquanto mercadoria fora de moda, é denunciado por aqueles mesmos que o impuseram. Cada nova mentira da publicidade é também a confissão da sua mentira precedente. Cada derrocada de uma figura do poder totalitário revela a comunidade ilusória que a aprovava unanimemente e que não era mais do que um aglomerado de solidões sem ilusões.


'n A Sociedade do Espetáculo, Guy Debord, 1931-1994,
paráfrase de Railton Sousa Guedes, 2003