domingo, 29 de dezembro de 2013

Herdade do Portocarro '2009

Este vinho também tem a fruta escura e evoluída e as folhas de tabaco e eucalipto secas ao sol que encontrei no do post anterior. No entanto, é completamente diferente, robusto, com fruta carregada em destaque e um cheiro característico, que costumo encontrar em tintos que na sua elaboração de alguma forma passaram tempo em vasilhas de madeira de grande capacidade.

Sugestão, talvez, porque este é um vinho cujos predicados conheço. Terá também sido por sugestão que a dada altura me pareceu que de facto levava Alfrocheiro? Não foi pelas flores que lá fui, que não abundam. Nem pela estrutura bem definida, de acidez e taninos firmes, bons. O vegetal seco, a forma como me pareceu vincado o carácter escuro da fruta, possíveis pistas.

Foi obtido a partir das castas Aragonês, Alfrocheiro e Cabernet Sauvignon, com fermentação em balseiros e posterior estágio (um ano) em barricas de carvalho francês. O produtor é José A.L. da Mota Capitão, com enologia de Paulo Laureano. A edição de 2007 marcou presença nestas páginas.

8€.

16,5

sábado, 21 de dezembro de 2013

Sino da Romaneira '2010

É o segundo vinho da Quinta da Romaneira, de Cotas, Alijó. As castas são Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz e Tinto Cão, cepas com cerca de 25 anos. Foi engarrafado em Junho de 2012, após 14 meses de maturação em barrica.

Vertido directamente da garrafa, não precisou de tempo no copo para confirmar o que já tinha lido sobre ele, tinto fresco, delgado por opção, com uns toques de especiaria a transmitirem interesse adicional às flores e frutos negros da praxe — merece destaque o retrato da ginja.

Foi, aliás, nas especiarias que lhe encontrei maior interesse, riqueza que não sendo ímpar na gama em que ele se insere, não deixa por isso de estar muito bem. As passas, também de figo, o louro, o eucalipto, a folha de tabaco. Ligeiro, disponível, mas maduro. Coisa fina.

Pareceu-me ainda, a dada altura, que sugeria marmelada (de marmelo) com nozes, mas isso talvez já tenha sido, acima de tudo, filme meu.

10€.

16

domingo, 15 de dezembro de 2013

Caves S. João — Reserva '2007

Lote clássico, composto por Baga da Bairrada e Touriga Nacional do Dão em partes iguais, este vinho passou um ano em barricas de carvalho francês antes de ser engarrafado. Abri a garrafa nº 8216 de 9530.

No nariz, a parte bairradina do lote aparentou dominar. Eram evidentes as marcas da Baga atlântica. Na boca, este carácter surgiu bem menos duro que o esperado, certamente por influência da parte "Dão" presente.

Muito fresco, impressionou pela forma como a fruta, séria e contida, nos antípodas do objectivamente doce, também se mostrou sempre cheirosa e sumarenta. De corpo, sem ser imponente, pareceu-me durinho e bem torneado.

Estava mais macio no dia seguinte, ainda sem indícios perceptíveis de oxidação, e mostrou umas sugestões interessantes de moca, mais evidentes no e após o fim de boca. Enfim, um muito bom vinho, agora e provavelmente daqui a dez anos.

7€.

16,5

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Caves S. João — Reserva '2000

É macio e delicado, mas tem vindo a manter-se firme, de tal forma que sem esconder a idade que tem, não me pareceu ter apresentado, mais uma vez, indícios notórios de que esteja para morrer já.

Cheirou a couro, café e folha de tabaco seca. Aromas marcadamente terciários que ainda não se sobrepõem ao cerne de fruta que envolvem, fruta negra bem transformada, com compota e azeitonas.

Esta foi a garrafa nº 17799 de 59048 produzidas e acompanhou um jantar simples, daqueles que preparo para mim quando tenho de ser eu a cozinhar. Codornizes seladas na panela e acabadas no forno e cogumelos shimeji salteados com molho de soja.

Dias depois provei o do post seguinte.

7€.

16

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Granja-Amareleja — Reserva '2011

O produtor terá renovado a sua presença na web, julgo.

Moreto, Alfrocheiro e Aragonês. Cheira a ameixa, passas, rama de tomateiro, tabaco, cacau. Coisas quentes, escuras, cheias de sabor mas nem por isso polpudas ou sumarentas.

Penso também lhe ter apanhado algo mineral, talvez terra seca, não tanto barro, borralha de azeite, como aliás encontro em tantos vinhos, pinho e álcool, a parte fresca, vagamente etérea, do bouquet.

E não custa nada a beber. O porte é mediano e a intensidade, satisfatória. Tem boa acidez, não é nada chato. Custa perceber a negatividade com que alguns falam dele.

10€.

16

sábado, 30 de novembro de 2013

Kirin Ichiban — Premium Press

Foi a S que a viu primeiro, ela gosta do Japão. E eu achei interessante, os japoneses, tão meticulosos, tão ciosos da ordem, do equilíbrio, certamente só farão má bebida quando quiserem. Também já tinha ouvido dizer umas coisas a respeito das cervejas japonesas, mais bem que mal, e assim lá convenci a S a comprá-la e guardá-la para um daqueles dias em que o jantar fosse mais a seu gosto.

Talvez por isso seja com alguma desilusão que constato tratar-se de apenas mais uma lager loira de perfil genérico. A sério. A empurrar uns amendoins e sementes de abóbora, bem tenho procurado encontrar-lhe algo que a destaque de uma sagres das mais correntes, nem que seja para tentar justificar a considerável diferença de preços que se verifica entre elas, mas não está a ser fácil. No cheiro, no toque, no sabor, parece-me, de todo, apenas mais uma pils comum, ainda que bem recortada, para beber em quantidade.

2,50€/33cl.

domingo, 24 de novembro de 2013

Pasmados '2009 (Branco)

Branco estagiado da Serra da Arrábida, diz no contra-rótulo resultar de uma mistura das castas Viosinho (52%) com Arinto (26%) e Viognier (22%), tendo metade fermentado em madeira e metade em inox, com posterior estágio de seis meses, com bâtonnage, em barricas de carvalho francês. Começar um post desta maneira é fácil, poderão argumentar alguns. Mas terá ficado assim tanto por dizer?

A cor desperta a curiosidade, palha, carregada, quase a tomar tons de chá. Servido da garrafa, e por isso quase sem arejar, desde logo se mostrou limpo, sem volátil ou qualquer outro tipo de cheiro duvidoso, fino, nem gordo nem magro, ligeiramente untuoso, e rico em sugestões mornas de fruta branca, madura, doce, evolução (nota-se que é um vinho com alguma idade, muito bem conservado) e um interessante toque abaunilhado, certamente da barrica, muito perfumado, muito interessante.

Mais tarde, já tinha bebido algum, apareceu banana seca e dragon fruit. A garrafa foi oferecida pelo produtor, que recomenda um PVP de 7,49€.

16,5

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Pasmados '2011

Faz tempo que não bebia um tinto da Península de Setúbal. Este vem da Quinta dos Pasmados, uma propriedade com 18ha situada na Serra da Arrábida, 5km a Oeste de Azeitão. Elaborado a partir das castas Syrah, Touriga Nacional e Castelão, envelheceu durante 9 meses em barricas de carvalho francês antes de engarrafado. Em jeito de curiosidade, lembro-me de já por aqui ter passado um antecessor seu, da colheita de 2007.

É um vinho simpático, generoso nas notas de morango e cereja em que se foca, com tons de barrica ainda não muito desenvolvidos, para já mais presentes na boca. Penso que vale a pena explicar melhor a observação anterior, a respeito da barrica. Há casos, parece-me, em que a madeira onde determinado vinho estagia se manifesta emprestando ao vinho cheiros e sabores de outras coisas, de tal forma que pode acontecer um indivíduo nem sequer ter a certeza de que certa sugestão aparentemente provinda da madeira tenha realmente sido contribuída por ela. Por outro lado, há vinhos em que a madeira por onde passaram evoca... simplesmente madeira. E este é um desses casos. Foi com agrado que notei ter aberto qualquer coisa ao almoço do segundo dia. Esteve então mais escuro e ainda mais generoso, com muitas notas de chocolate. Será difícil não gostar dele.

A garrafa foi oferecida pelo produtor, que recomenda um PVP de 8,99€.

16

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Ninfa — Sauvignon Blanc '2011

Monocasta Sauvignon de força e dimensões medianas, fresquinho, cremoso e indiscutivelmente mais maduro que os últimos exemplares da casta aqui publicados, surgiu repleto de cheiros intensos que me fizeram lembrar lembrar azeitona verde, caroço de pêssego, maracujá e o seu concentado em pó. Bem correcto, de um verde diferente do dos seus parentes mais setentrionais, é um vinho de coisas claras, fáceis de entender. No entanto, prefiro quando não fico com a impressão de ter percebido todo um vinho logo após os primeiros goles, mesmo quando isso implica acabar a garrafa e continuar sem saber ao certo o que pensar.

Produzido pela João M. Barbosa Vinhos, de Rio Maior, com uvas criadas em solos argilo-calcários, no sopé da Serra dos Candeeiros, foi engarrafado sem passar por madeira.

6€.

15,5

sábado, 9 de novembro de 2013

Herdade do Pombal '2009

Alentejano de Estremoz, composto por 60% de Aragonês, 15% de Trincadeira, 15% de Alicante Bouschet e 10% de Cabernet Sauvignon. Durante seis meses, 40% do lote estagiou em barricas de carvalho francês de terceiro ano.

Popped & poured, a acompanhar bôla de carnes frias e outras mastigações ligeiras, mostrou-se quente e macio, com boas notas de barrica.

Vinho de terra quente com a fruta sempre em primeiro plano, não me quis parecer, no entanto, nem uma bomba de álcool, nem um aborrecido frasco de compota sob disfarce.

Nota também francamente positiva para o seu sabor redondo, francamente especiado, aconchegante, que termina com razoável persistência.

Tendo sobrado para o jantar do dia seguinte, perna de peru assada a baixa temperatura, pela qual esperou na porta do frigorífico, vedado pela própria rolha voltada ao contrário, encontrei-o mais ou menos na mesma — primeiro, generosa amora silvestre e figo, depois, baunilha e o já mencionado perfume de madeira. A dada altura, começou a fazer lembrar azeitona preta.

7€.

16

domingo, 3 de novembro de 2013

Chaminé '2012

Foi este o vinho que começou tudo. Um dia fui comprar algo para o jantar ao supemercado do centro comercial que fica ao fundo da rua onde vivemos. O Outono já ia avançado, estava frio. Parei por acaso na prateleira dos vinhos e reparei nele. Colheita de 2005, se a memória me não atraiçoa. Achei o rótulo engraçado, decidi trazê-lo.

Até aí, o consumo era pontual. Quase só bebia fora das refeições, na noite, e a maioria daqueles com quem mais saía preferia cerveja.

Já em casa, o Chaminé aqueceu, animou, alegrou o jantar. Ainda por cima, como a S não gostava de tinto, podia ser todo só para mim. Assim nasceu o hábito de onde haviam de vir a derivar estas páginas.

O Chaminé de hoje continua mais ou menos como esse primeiro de que me lembro. Praticamente só mostra fruta, escura e doce, com toque de compota e algum álcool — conjunto não necessariamente alentejano, mas cheio de sol. Pena o fim de boca algo curto, apesar da redondez que por momentos promete mais.

Em jeito de nota, da ficha técnica disponibilizada online pelo produtor: 45% Aragonês, 30% Syrah, 12% Touriga Nacional, 7% Trincadeira, 6% Alicante Bouschet. Fermentou sem engaço e estagiou em cubas de inox antes de ser engarrafado.

4€.

15

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Encostas do Enxoé — Reserva '2007

Tinto Alentejano, produzido pela Soc. Agrícola de Pias a partir de Aragonês, destacada como casta predominante, junto com Trincadeira, Alicante Bouschet e Touriga Nacional. Foi engarrafado após meio ano de estágio em barrica.

É um vinho sereno, equilibrado em tudo. No tamanho, no peso, na persistência, no binómio madurez/frescura. No estado de maturidade em que se encontra. Assentando em notas de frutos negros, não esconde certo lado terroso (barro) e vegetal muito interessante.

Na noite em que foi bebido, arranjámos espetadas de peru no forno. Grelhou-se um queijo Halloumi. Fez-se salada com tomates e pimentos baby, assaram-se outros maiores. Temperaram-se umas azeitonas pretas com alho e paprika. E ele acompanhou tudo bem.

5€.

15,5

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

INTERVIEWER: What do cut-ups offer the reader that conventional narrative doesn't?

BURROUGHS: Any narrative passage or any passage, say, of poetic images s subject to any number of variations, all of which may be interesting and valid in their own right. A page of Rimbaud cut up and rearranged will give you quite new images. Rimbaud images — real Rimbaud images — but new ones.

(...)

INTERVIEWER: Instead of going to the trouble of working with scissors and all those pieces of paper, couldn't you obtain the same effect by simply free-associating at the typewriter?

BURROUGHS: One's mind can't cover it that way. Now,for example, if I wanted to make a cut-up of this [picking up a copy of the Nation], there are many ways I could do it. I could read cross column; I could say: "Today's men's nerves surround us. Each technological extension gone outside is electrical involves an act of collective environment. The human nervous environment system itself can be reprogrammed with all its private and social values because it is content. He programs logically as readily as any radio net is swallowed by the new environment. The sensory order." You find it often makes quite as much sense as the original. You learn to leave out words and to make connections. [Gesturing] Suppose I should cut this down the middle here, and put this up here. Your mind simply could not manage it. It's like trying to keep so many chess moves in mind, you just couldn't do it. The mental mechanisms of repression and selection are also operating against you.

Extracto de uma entrevista com William.S. Burroughs publicada em
Writers at Work, 3rd Series: The "Paris Review" Interviews;
Penguin, 1978.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Evel '2011 (Branco)

O nome é a palavra leve, ao contrário. A respeito da sua composição, o contra-rótulo indica Moscatel Galego, Viosinho, Arinto e Fernão Pires, embora conste que na  apresentação oficial desta colheita, o enólogo responsável tenha referido a substituição do Moscatel por outras coisas.

Cor palha. Muito fresco, trouxe consigo generosa quantidade de maracujá e goiaba, flores rasteiras e raspa de limão maduro. Cheiros e sabores desenvoltos, a fluir com naturalidade. Gordinho, texturado, pareceu-me ser daqueles vinhos em que o perfil deliberadamente fácil não um carácter de alguma forma fugaz.

Acompanhou, em sucessão, carapaus no forno e frango de churrasco. Tendo ligado bem com ambos, como não podia deixar de se esperar, gostei mais dele com o segundo prato.

4€.

16

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Quinta das Bágeiras — Reserva '2009

Proveniente de Fogueira, Sangalhos, este clássico da Bairrada é composto por 60% de Baga e 40% de Touriga Nacional, uvas provenientes de vinhas plantadas em solos argilo-calcários, fermentou em lagares abertos, sem desengace, e estagiou em grandes tonéis de madeira avinhada até ao engarrafamento, realizado sem colagem ou filtração. As notas que se seguem referem-se à garrafa nº 3792 das 7454 produzidas.

Intenso e muito fresco, com as flores da Touriga Nacional e o pinho resinoso da Baga, de entre os quais me pareceu prevalecer o segundo. Apesar da percentagem relativamente elevada de Touriga presente, tem tudo aquilo que se espera de um bom Baga, só que mais ligeiro, mais macio, quase elegante já em novo.

Não lhe bastando ter agradado tanto sozinho, ainda deixou o estufado de coelho com que o acompanhei depois da prova brilhar. É um vinho que não cansa, e por conseguinte um perigo.

9€.

16,5

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Pedra Cancela — Selecção do Enólogo '2010

Lote de Touriga Nacional, Alfrocheiro e Tinta Roriz, estagiado durante seis meses em barricas usadas de carvalho Allier, este vinho foi engarrafado pelo eng. nº 4907, de Nelas, para João Coelho Gouveia, Quinta da Carreira Alta, de Oliveira de Barreiros, Viseu.

Ainda está jovem, pelo que não surpreende que nele predomine a fruta, de carácter silvestre e mais vermelha que preta: cereja, morango e bagas. Com ela vêm flores, mais violetas que quaisquer outras, ligeiro balsâmico fresco, a fazer lembrar bosque de pinheiros, e porção nítida, embora não ofensiva, de especiarias doces e tostados, contribuição certa das barricas onde estagiou. Ademais, é gordito e não esconde o toque morno do álcool. Guloso, foi escorregando pela noite dentro, até acabar.

5€.

15,5

segunda-feira, 7 de outubro de 2013


Em jeito de adenda ao post anterior, Deep Blue v. Kasparov, Rd.6; NY, 17/11/1997.

1. e4 c6 2. d4 d5 3. Cc3 dxe4 4. Cxe4 Cd7 5. Cg5 Cgf6 6. Bd3 e6 7. C1f3 h6?!


8. Cxe6 De7

(8. ... fxe6!? 9. Bg6+ Re7 10. O-O Dc7 11. Te1 Rd8)

9. O-O fxe6 10. Bg6+ Rd8 11. Bf4 b5

(11. ...Cd5 12. Bg3 Db4 13. Db1 Ce7 14. c3 Da5 15. Bh4 Rc7 16. Bg3+ Rd8 e o jogo acabou empatado bastante depois; Double Fritz 4 + Boss v. G. Timoschenko, Jena, 1996.)

12. a4 Bb7 13. Te1 Cd5 14. Bg3 Rc8 15. axb5 cxb5 16. Dd3 Bc6 17. Bf5 exf5 18. Txe7 Bxe7 19. c4 1-0

sábado, 5 de outubro de 2013

The game began the same way as game four, with a Caro Kann defense. Instead of playing a weird sideline as he did in Game four, this time Garry played the main line. Deep Blue also played the main line for White; in fact, the main line that Garry as White used against Anatoly. Garry was in a familiar territory, albeit from the opposite side of the chessboard. On Garry's seventh move, after spending nearly two minutes, he played 7. ... h6. Deep Blue instantly replied Nxe6, giving up a Knight for a pawn. Garry acted a little bit surprised, but then played the next few moves very fast, as did Deep Blue. Both sides were still in book. In the auditorium, Yasser was saying that Garry had blundered and transposed the move. He also said that Garry was in terror and distress. None of us in the operations room, including Ken, believed this. It was inconceivable that Garry, with his legendary memory, could have forgotten an opening line that he had played many times, albeit usually from the White side. Garry's expression was also more one of surprise rather than terror and distress. Those emotions would come later. So what did happen? An International Master in Kasparov's camp was quoted the next day in the newspaper that the 7. ... h6 move was one agreed upon earlier. Garry himself stated months later in an interview that he regretted the decision to play 7. ... h6. So the move was never a slip of the finger as it was characterized in news articles immediately following the match. It was played by design. So why did Garry play the move? Black's position was generally considered difficult at best after the Knight sacrifice. This is true in games played by human players, but it is not true in games played between computers and human players. The commercial chess programs apparently had serious problems avoiding losing the game as White! Several Grandmasters had tried playing the Black side of the game positions against the top commercial chess programs and were able to win every single game. This fact did not come out until well after the match, but by then the media had moved on to other stories. What Garry played in game six on move seven was a very risky anti-computer chess move. 

in Behind Deep Blue: Building the Computer that Defeated the World Chess Champion;
Feng-Hsiung Hsu; Princeton Univ. Press, 2002.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

José de Sousa Mayor '2009

Proveniente do Monte da Ribeira, herdade próxima de Reguengos de Monsaraz que até 1986 foi propriedade da Casa Agrícola de José de Sousa Rosado Fernandes, a edição de 2009 deste topo de gama da José Mª da Fonseca fermentou em talhas de barro e lagares, tendo posteriormente estagiado durante 11 meses em cascos novos de carvalho francês.

Uma curiosidade: de acordo com as notas do produtor, o presente lote é composto por 49% de Grand Noir, 28% de Trincadeira e 23% de Aragonês, completamente diferente, por exemplo, do da colheita de 2000, que também figura aqui no blog e que era constituído por 55% de Trincadeira, 33% de Aragonês e 12% de Grand Noir.

Isto leva-me a crer que mais que reproduzir o Tinto Velho de 1940, cujo método de produção, não tendo chegado devidamente documentado aos actuais proprietários por graça da estroinice e do comunismo, se conseguiu em boa parte recuperar em virtude de um bom trabalho de reconstituição, o mote será fazer algo no seu espírito, mas diferente, com espaço para a experimentação.

Este é um vinho que justifica uma hora de arejamento prévio e que me tem agradado sempre mais em balões largos. O barro por onde passou, e que poderia parecer estranho noutras circunstâncias, aqui faz todo o sentido, com as tâmaras, os figos e outros frutos escuros, bem maduros, que sempre se me insinuam transformados pelo sol, com a folha de tabaco e a baunilha, sensações quentes que acabam invariavelmente por sugerir, por associação, retratos da sua terra.

Não chega, no entanto, a ser objectivamente gordo, muito menos pesado, e tem uma acidez que quase limpa a boca. No mais, é um Reserva na verdadeira acepção da palavra: volumoso, estruturado, com bom final e (certamente) alguma capacidade de guarda.

A garrafa foi oferecida pelo produtor, que recomenda um PVP de 18,95€.

17,5

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Viñas del Vero — Gewürztraminer '2012

Monocasta Gewürztraminer do Somontano (Huesca); o produtor existe na internet. Que branco bonito! Tem rosas e flores da montanha, líchias e casca de limão. Tem imensa frescura e um equilíbrio quase perfeito entre leveza e untuosidade. É um competentíssimo vinho jovem, alegre e preciso, tão apetecível sozinho quanto capaz de ligar toda uma refeição, sobremesas incluídas. Posto isto, que mais se lhe poderia pedir?


Capaz de ligar toda uma refeição, dizia eu antes, porque efectivamente foi o que fez. Acompanhou salada fria de salmão marinado e pepino cujo ponto alto foi, no entanto, uns cubinhos de beterraba maravilhosos que trazia, confit de bacalhau e bonito teriyaki, ambos no ponto, o segundo com umas sementes de sésamo para dar crunch, e esponjado de queijo de Las Arribes com espuma de alecrim, que se comeram no restaurante do museu DA2 de Salamanca, que por sinal também é porreiro.


Uma última nota: onde estávamos, foi o último dia antes de começar a chover. O vinho custou 14€; em loja andará um pouco abaixo dos dez.

17

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Sovina Amber

Refere o produtor ser esta cerveja com 6% de volume alcoólico "a recriação do estilo artesanal produzido apenas nas zonas cerealíferas francesas, junto à fronteira belga".

Vertida fresca numa tulipa grande, mostrou cor alaranjada e uma coroa de espuma viva, mas ligeira, algo fugaz. Quanto a flavour, não se afastou do esperado — malte e lúpulo quanto baste, tosta, um pouco de fruta, apimentados — excepto em certo singular amargor, mais evidente no fim de boca, e que marcou a prova.

Não se compara, de facto, às pilsener industriais, genéricas, que representam a maior parte da cerveja consumida em Portugal, mas também não é com essas que se deve comparar. Ora, colocada lado a lado com os seus presuntivos pares, aqueles em cujo perfil é inspirada, o que me pareceu, por alto e de memória, é que terá, por norma, alguma dificuldade em equalizar.

O preço por garrafa de 33cl anda entre os 2 e os 3€.

P.S. Consta que o nome foi escolhido à margem do significado da palavra, apenas porque soava bem e todas as outras opções estavam tomadas.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

.com Vinhas '2011

Alentejano de Estremoz, feito para o Pingo Doce pela Tiago Cabaço Wines, é um bivarietal de Aragonês e Touriga Nacional, de vinhas com menos de dez anos, engarrafado sem passagem por madeira.

Macio, de largura mediana e final a condizer, madurão, com toque alcoólico, muito embora não ardesse nem picasse, mesmo a 16ºC, apareceu marcado por fruta preta, flores e licor. Quais, não consegui precisar.

Acompanhou melhor o arroz de carne picada com que foi servido ao almoço que os enchidos do lanche, creio que mais pelo maior teor de gordura destes últimos que por questões de sabor puro e simples.

Em suma, é mais um na multidão de rótulos com algum interesse e ao mesmo tempo disponíveis e acessíveis o suficiente para se poderem considerar, em termos gerais, para consumo quotidiano.

Poderá também ser um bom ponto de partida para a evangelização de não apreciadores.

Custou menos de 3€.

14,5

sábado, 14 de setembro de 2013

Frei João '2009

O colheita. 40% Touriga Nacional, 30% Baga, 23% Syrah e 7% Cabernet Sauvignon.

Ao jantar do primeiro dia, servido directamente da garrafa, quase sem tempo de arejar, desde logo se mostrou uma surpresa de força e consistência. A robustez evidenciada, a riqueza da fruta, o simples facto de todo ele aparecer um pouco fechado — como pode este vinho custar menos de 3€? Aguentou perfeitamente um guisado de frango e salsicha fresca, com generoso toque de pimentón ocal, que sem dúvida lhe marcou o carácter.

Ao almoço do segundo dia, em balão mais largo e bojudo (mais borgonhês) que o utilizado na noite anterior, após umas horas na porta do frigorífico, vedado pela própria rolha, virada ao contrário, deixou finalmente perceber o carácter da fruta (preta, até algo sumarenta) a par de alcaçuz e outras especiarias que se costumam encontrar nos vinhos que levam Cabernet. Acompanhou fatias finas de lomo adobado com batatas fritas e ovo estrelado, junk food caseira.

2,50€

15,5

domingo, 8 de setembro de 2013

Veltins Pilsener

De volta ao blog, com cerveja. Esta alemã de Meschede-Grevenstein é uma pils ligeira, de trato fácil, com 4,8% de volume alcoólico. Tem boa espuma e um ligeiro (mas distintivo) amargo no fim de boca que a torna apenas vagamente mais interessante que, por exemplo, uma Super Bock.

Se a memória não me atraiçoa, cada lata de 50cl custou à volta de 1€, talvez pouco mais, no Lidl. Trata-se de um produto mainstream, que vende muito, de tal forma que a marca detém os direitos sobre o nome do estádio do FC Schalke 04, passe a curiosidade.

Enquanto houve, acompanhou sobretudo sanduíches. Foi com fuet e outras chouriças em pão de mistura, com tostas de queijo e fiambre, com bacon e queijo Cheddar, azeitonas, tomate e orégãos em pão de forma com sementes, com baguetes de frango em maionese e ovo cozido...

E independentemente do recheio, pareceu sempre bem. Fresca, a cortar a gordura, a limpar a boca. Estas cervejas simples, que só podem ser feitas para beber em quantidade, embora não se destaquem por si sós, parece que ligam bem com tudo. Por isso, louvadas sejam.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Dona Paterna — Alvarinho '2011

Alvarinho de Paderne, concelho de Melgaço, produzido por Carlos Codesso. Terá passado por algum tipo de maceração pelicular, mas não por barrica.

Quando apenas mostrado ao nariz, faz lembrar mais maçã; depois, enquanto bebido, predominam o maracujá e o caroço de pêssego. Tem ainda um lado verde muito interessante, com certo carácter citrino doce (lima, carambola) a par de algo mais herbáceo, de vaga pungência.

É um vinho que dá muito boa conta de si na boca, é fresco e razoavelmente longo, e mais importante ainda, consegue transmitir leveza sem ser fugaz. Será um Alvarinho mais contido que o habitual, sobretudo na (hm) tropicalidade, e ainda bem.

9€.

16,5

segunda-feira, 2 de setembro de 2013




Russ Gibb: The Grande started in 1966, and within ten weeks it became a positive cash flow.

John Sinclair (MC5 manager, poet, the Blues Scholars): The most we ever got there was $1,800, but Gibb paid us $125 a night usually. We were just so fucking offended at this $125, and they were making money hand over fist. They were bringing these bands from England, and they were giving them thousands of dollars. And we’re getting $125.

Iggy Pop (The Stooges, Iggy and the Stooges, solo, vocalist): When we played for Russ we’d make $50—that was for the whole group you know. And then we worked our way up. Over time we were headlining and we were paid pretty well. But with John Sinclair, on bills with the MC5, we played for free.

Jaan Uhelszki: I got a job where I was working as a Coca-Cola girl at the Grande. As a Coca-Cola girl, you did two things: You sell Coca Cola, Sprite, and orange pop, and what you really do is make sure no one doses those said drinks. That was the bigger part of my job. They didn’t sell alcohol at the Grande Ballroom. While it wasn’t all ages, I think it was seventeen and above; all they sold was soft drinks. Nobody drank; everybody did drugs. It was a psychedelic ballroom.

(...)

Bob Sheff (Iggy and the Stooges, Charging Rhinoceros of Soul, piano): The Charging Rhinoceros of Soul were the warm-up band for the Mothers of Invention at the Grande one time. Oh God, I refer to it as cookie Sunday. I was late getting to the van, and I jumped in the van, and I hadn’t had breakfast and there was this jar full of cookies and I was really hungry. I ate about half the jar of cookies. Our bass player noticed a lot of those cookies were gone, so she asked, you know, “Who ate those cookies?” I said, “I did, I’m sorry, I’m really hungry,” Well, they were marijuana cookies, and by the time I got there I was so stoned I couldn’t get out of the car. I couldn’t put one foot in front of the other. One second I was in the car, and a second later I was up the stairs, and then a second later I was on the stage. The only thing I could hear was the bass drum, which sounded like it was in a huge cave. I knew everyone else was playing, and when I played the keyboard it was like the keys were undulating and it was like a river. I got scared after the set and went outside to the parking lot. I wanted to hide until I felt better. So I got underneath the van.

(...)


Russ Gibb: The weirdest guy I ever booked was Sun Ra. But I loved him for a good reason. Whenever I’d have a big band, I wanted to do two shows a night. Now, we had a ticket policy where if you came to the Grande and you got a ticket, you were there until 2:30 a.m. We were already violating the law with the number of people we were jamming in to the Grande. I think there was a legal thing of twelve to fifteen hundred, and we were packing two to three thousand in there a night. So I could have a big band and book them two shows, an early and a late. After the first show I put Sun Ra up. With Sun Ra, you can take the first five minutes and you’re wondering what’s going on. After about a half an hour you’re going, “This is shit! I can’t stand this!” People would leave. We’d practically empty out the place, and that allowed me to bring in more people. That was my strategy with Sun Ra. I never told him. We paid him. He was happy and he was getting the gig and people were hearing him. John Sinclair was happy because he loved Sun Ra.


Steve Miller — Detroit Rock City; Da Capo Press, 2013.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Casillero del Diablo — Cabernet Sauvignon '2009

Provavelmente o vinho chileno mais conhecido do mundo, dispensa grandes apresentações. As uvas provêm do Vale Central (o produtor não especifica melhor a origem) e o produto final é parcialmente estagiado em barricas americanas de tosta média: nesta colheita em particular, a quantidade foi 70% do volume engarrafado, durante 8 meses.

Vertido directamente da garrafa, lembrou cereja e outros frutos vermelhos, tabaco, noz moscada, com toque de tosta/baunilha. Cabernet simples mas focado, compensou a sua relativa magreza com boa dose de fruta gulosinha e madeira bem colocada. Talvez esteja um furo abaixo da colheita histórica de 2007 — em todo o caso, nada de muito relevante.

Acompanhou frango guisado com esparguete, uma versão com chouriço, feijão verde e tomate, coberta de queijo da Ilha.

6€.

15,5

domingo, 25 de agosto de 2013

Um dia, quando finalmente me suicidar, não quero morrer logo para o mundo. Espero conseguir viajar para longe, sozinho e incógnito, se possível com outros documentos, e eliminar-me num ermo, algures onde possa não ser encontrado senão por acaso, ao fim de muitos anos.

Mais que morrer, espero apagar-me, continuando, no entanto, vivo por mais algum tempo, no imaginário de alguns daqueles por quem tiver passado. Encaro isto como uma última brincadeira, e talvez como a evidência de uma certa imortalidade, modesta, claro, mas, ainda assim, indício claro de que nem mesmo na morte todos os homens são iguais.

Curioso, há tantos anos que penso nisto. Não obsessivamente, vai e vem.

Este paleio poderá fazer-vos pensar que estou muito triste, o que não é verdade. Simplesmente, há coisas da vida de um indivíduo em que é difícil não pensar. Quanto à respectiva partilha, enfim, é opcional e nem por isso relevante.

sábado, 24 de agosto de 2013

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Quinta de Cidrô — Sauvignon Blanc '2011

Sauvignon Blanc do Douro, produzido pela Real Cª Velha na quinta que lhe dá o nome, propriedade próxima da barragem da Valeira, em S. João da Pesqueira, em tempos pertença do Marquês de Soveral e que actualmente constitui um modelo de experimentação vitivinícola para toda a região. Estas últimas oito palavras foram cortadas e coladas da ficha técnica deste vinho; que Deus me perdoe, não resisti.

No copo, alguma cor. Pêra, abacate, ligeiro ananás, carioca de limão. Neste contexto, o lado vegetal da casta quase não se fez notar. Gordinho e coeso com frango de churrasco e batatas fritas, a cortar o unto do molho de limão sem qualquer problema. O final, aliás, praticamente limpava a boca.

Segundo dia, ao pequeno-almoço, com pão de centeio escuro, queijo brie e fiambre, pareceu-me mais verde e directo, e de alguma forma também mais estival, com espargos e caroço de pêssego.

8€.

16

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Marqués de Riscal — Sauvignon '2011

Desta vez o post é sobre um Sauvignon Blanc produzido em Rueda por um dos grandes impulsionadores da região, a sobejamente conhecida Herederos del Marqués de Riscal. Consta que a ideia por detrás destes vinhos é fazer muitos litros de Sauvignon honesto. Para tal, faz sentido apostar na tipicidade mais fácil de obter num varietal, a da casta, aqui conseguida por meio de uma lenta fermentação a frio, que proporciona uma expressão pura q.b. dos aromas primários respectivos ao produto final. Isto, combinado com algum corpo, que lhe permita durar pelo menos um par de anos, e que neste caso é obtido com uns meses de estágio sobre as borras finas, se bem aplicado, parece receita que dificilmente falhará. Claro que le bon Dieu est dans le détail.

Veio para a mesa a pouco menos de 10ºC, acompanhado por uns bocadinhos de peito de frango salteados com feijão verde e umas ervitas, um bocadinho de gengibre, se bem me lembro, e limão, prato tendencialmente fresco mas não ácido, que não tendo alguma vez julgado encontrar-me perante um vinho de piscina, também não quis colocar-lhe dificuldades escusadas. Chegada a hora do desfile organoléptico, passo a citar o caderninho negro do álcool, sem edição — acho que hoje estou a escrever morno e pesado, urge portanto parar de fazê-lo. "O nariz é de um maduro verde muito engraçado. Melão, flores brancas, ligeiro maracujá, rebuçado ou caramelo de limão. Sem ser explosivo, expansivo. E a boca não destoa. A acidez, a fruta, a untuosidade da casta, o doce-amargo no fim de boca, tudo apetitoso, cativante, a dar vontade de beber mais um pouco. Não é vinho de meditação, mas dá que pensar".

8€.

16,5

domingo, 11 de agosto de 2013

Quinta das Setencostas '2009

Tinto de Alenquer, produzido pela Casa Santos Lima a partir de uvas das castas Castelão, Camarate, Tinta Miúda e Preto-Martinho. Sem entrar em detalhes, o seu contra-rótulo adianta ter sido elaborado pelo método de curtimenta clássica, com posterior estágio em barrica.

É um vinho de carácter maduro e volume mediano, com um curioso travo maltado. Embora os aromas predominantes sugiram frutos pretos (ameixa, figo) e passas, com subsequente evolução para tabaco/cacau, também tem qualquer coisa de verde e castanho, de terra e vegetais.

Pena que na boca seja um pouco chocho, sendo o maior ponto de interesse que aí lhe encontrei a impressão de os elementos terrosos surgirem mais nítidos do que se tinham mostrado anteriormente ao nariz. Não quero dizer com isto que o tenha encontrado mal saboroso, antes que me pareceu faltar-lhe aquele bocadinho mais do que quer que seja que tinha de estar lá para se poder dizer fresco e vibrante, ou gordo e persistente, ou pura e simplesmente elegante.

Ainda assim, é uma curiosidade interessante quanto baste. Acompanhou com sucesso uma grande empada de coelho.

4€.

15

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Quinta do Cardo — Síria '2011

Varietal Síria de Figueira de Castelo Rodrigo, engarrafado sem ter passado por madeira, após um breve estágio sur lie.

Mineral, musgoso, sugere pedra fria e humidade, mau grado a presença inequívoca de notas citrinas. Com o tempo, também algo como melão aguado. É um vinho de tons limpos, verdes e amarelos, mais verdes que amarelos. Fresquinho e macio, deixa um pós-gosto ligeiramente amargo. Nada maduro, mas ainda menos acre, fará seguramente boa companhia a umas lulas grelhadas. No entanto, sozinho, como o bebi, também não compromete.

Para além de um bom vinho, é também uma curiosidade. Vale a pena atentar na diferença entre o seu carácter quase completamente frio e a tropicalidade directa da maior parte dos seus congéneres do Alentejo, onde é uma das castas mais populares, sob o nome de Roupeiro. Não completamente a despropósito, recordo ainda certo exemplar da colheita de 2006 da mesma quinta, que abatido a caminho dos 3 anos, proporcionou uma experiência organoléptica completamente díspar da presente. A guardar para ver.

5€.

15,5

domingo, 4 de agosto de 2013

Companhia das Lezírias '2008

Castelão, Alicante Bouschet, Touriga Nacional e Cabernet Sauvignon. As cepas, com uma média de idades de 25 anos, encontram-se implantadas nos solos arenosos da charneca do Catapereiro.

Relativamente a como foi feito, passo a citar a ficha técnica que o produtor disponibiliza no seu sítio da internet: "desengace, esmagamento, fermentação alcoólica em depósitos de inox, prensagem, fermentação maloláctica, estágio de 8 meses em barricas novas de carvalho francês e americano".

Trata-se, em poucas palavras, de um Ribatejano maduro, cheio de fruta vermelha, que não procura subterfúgios para tentar esconder a presença do álcool. Também a madeira onde estagiou se nota, sobretudo na boca, mas não destoa, julgo que acima de tudo pela força do conjunto. Apesar de frontal, não é taludo nem bruto, e não brilhando, tem os seus momentos.

4€.

15,5

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Mc Chouffe "Scotch of the Ardennes"

Scotch ale belga, não filtrada e refermentada na garrafa, com 8% de teor alcoólico, é produzida pela Brasserie d'Achouffe.

É uma cerveja que sempre me pareceu algo outonal, provavelmente pela combinação da cor acastanhada que apresenta com o seu cheiro rico, que junto com o malte, a tosta e as leveduras que habitualmente se encontram nas cervejas do género, traz generosa porção de notas doces, de fruta e caramelo.

Num grande balão, apresenta generosa coroa de espuma e bolhas finas, bastante vivas. No entanto, ao contrário daquilo que a sua cor e cheiro levam inicialmente a adivinhar, não pesa na boca. Flui alegre e precisa, sem doçura solta, com um agradável travo frutado que se destaca, a fazer lembrar pêssego.

Não sendo nem querendo parecer um especialista nestas coisas, que cerveja tenho sempre bebido sem pensar, muito menos estudar, e apesar da quase total ausência de elementos amargos que alguns consideram necessários ao género, di-la-ia universal e completa — sem dúvida, uma das minhas cervejas preferidas.

3€/33cl.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Vallado '2010

O produtor adianta que cerca de 80% do lote (30% Touriga Franca, 25% Touriga Nacional, 20% Tinta Roriz, 5% Sousão e 20% de vinhas velhas) estagiou durante 14 meses em cubas de aço inoxidável, tendo o restante passado o mesmo período em meias pipas de carvalho francês de 3º e 4º ano.

Bebi-o sem tomar notas. Foi em casa, à hora do costume, e o caderno estava lá, mas não apeteceu. Agora, alguns dias depois, lembro-me de um tinto jovem mas já feito, completamente adulto e claramente do Douro, de volume e persistência medianos, focado na fruta, sobretudo negra, com toque de pimenta, baunilha e mato rasteiro, taninos vivos e uma acidez muito refrescante a ligar todo o conjunto.

Não tendo agradado tanto quanto o espécime da última colheita aqui registada, 2007, que adorei, é sem dúvida um vinho sólido, que consegue o recorte moderno sem comprometer noutros aspectos, como a tipicidade ou a elegância, coisa que imagino não trivial face à quantidade de experiências mais ou menos falhadas que se podem encontrar em circulação, mas a que a casa que o produz nos foi habituando com invulgar consistência, faz já algum tempo, mesmo nas gamas de entrada, de grande tiragem. A repetir.

7€.

16

terça-feira, 23 de julho de 2013

Quinta da Bica '2005

Beirão de Seia, produzido pela quinta de que leva o nome. O contra-rótulo refere um lote de castas típicas da região (Touriga Nacional, Alfrocheiro, Tinta Roriz e Jaen) do qual metade foi sujeito a um estágio de nove meses em carvalho francês. Do mesmo produtor, já por aqui passou um Radix da colheita de 2008, de que guardo boas memórias.

Abriu com fruta muito madura, acompanhada de uns apimentados e tingida por ligeiro mofo que acabou por se dissipar ao cabo de uns minutos no copo. Especiarias mais presentes na boca, esta de textura polida e final bem razoável. Cerebralizando, podia penalizá-lo por ser um peso-leve de contornos quentes, mas não posso negar que o conjunto resulta bem agradável. É daquelas coisas que talvez só se percebam bebendo.

Sobrou quase meia garrafa para o segundo dia, que acompanhou uns naquitos de frango com couve coração. A fruta manteve o seu perfil, mas surgiram bastantes notas de bosque que antes não havia notado. Aromas terciários, não. Oxidação, idem. Fiquei agradavelmente surpreendido com este vinho, que a caminho dos oito anos ainda não evidencia qualquer sinal de declínio. E claro, apresenta uma RQP imbatível.

3€.

16

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Adega de Vila Real — Grande Reserva '2009

A seu respeito, a apresentação que o produtor disponibiliza no respectivo sítio da internet refere Tinta Barroca, Tinta Roriz, Tinto Cão, Touriga Franca, Touriga Nacional, uma percentagem de vinhas velhas plantadas em altitude e estágio prolongado, sem definir com precisão o respectivo intervalo de tempo, em barricas de carvalho francês (75%) e americano.

Comprado após a boa experiência havida com o do post do passado dia 14/7, não desapontou. Trouxe consigo fruta com foco e profundidade, um toque de especiaria, alguns cheiros que conoto sempre com a presença de tourigas, chocolate preto, tosta e baunilha das barricas onde estagiou, e uma estrutura, sem surpresa, consideravelmente superior à do Reserva (maior e mais madura).

Ora, apesar de ser um vinho gordito que se fartou de sugerir coisas de carácter quente, até se mostrou bastante fresco durante as mais de duas horas que esteve aberto, não tendo o factor exposição contribuído para que a dada altura se tornasse mais morno ou pesado; primeiro a fazer companhia a um coto de peru assado, depois com Cheddar velho e o filme do próximo post.

7€.

16

domingo, 14 de julho de 2013

Adega de Vila Real — Reserva '2010

Foi adquirido por impulso em visita recente a um supermercado. Ia ao pão e lá estava ele. O preço, o factor novidade e o bem que a seu respeito já tinha ouvido dizer fizeram o resto, veio comigo para casa.

Face a um estufado de frango dos mais simples, daqueles com cebola, alho, tomate e vinho branco, mostrou uma razão entre concentração e leveza mais que apenas aceitável, fruta bastante, preta e roxa, com agradáveis notas de touriga, certo carácter silvestre, típico e que é sempre bom encontrar num tinto da região, e muito importante também, alegria.

Feito a partir de tourigas e tintas do Douro, passou por breve estágio em barrica, que me pareceu notar-se mais na maturidade revelada pelo vinho como um todo que por via de algum cheiro ou sabor característico. O produtor existe na internet.

3€.

15

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Não é impunemente que o fumador coloca a sua inteligência diante da ideia única e total: essa é uma contemplação fatigante, que pode tornar-se perigosa caso façamos dela uma rotina. Com efeito, em vez de se casar com a Ideia Única, o fumador arrisca-se a casar com uma só ideia, ideia talvez superior, talvez vulgar, mas que, no seu ilusório sonho, se reveste da perfeição suprema. Não se trata de uma crise de orgulho, estando o fumador tão despojado de si mesmo quanto do seu próximo; mas é a crise da ilusão e da ideia fixa. Em redor desta tudo se afunda, tudo é abolido, tudo desaparece. Depois, a faculdade de associação de ideias já não precisa de intervir; enferruja e a inteligência recusa-se (primeiro por desdém, depois por impotência) a considerar várias idieias nas suas relações e nas suas influências recíprocas. É uma diversão da atenção, da penetração, de todo o entendimento; é a dissociação intelectual no que ela tem de mais penoso; porque, ao fim de pouco tempo, tendo desaparecido o "desdém" superficial, o fumador toma consciência desta dissociação e da inferioridade geral a que ela o condena. Se quisermos transpor de forma um pouco ousada a terminologia médica, é exactamente a caquexia mental.

Devo no entanto dizer que nenhum destes efeitos é durável e profundo. Todos eles cessam (à excepção talvez da anemia nervosa) com a causa que lhes deu origem, ou seja, com a suspensão das sessões de fumo. Um organismo saturado de ópio liberta-se inteiramente em seis semanas... caso o queira; mas será que o quer, e, sobretudo, poderá querê-lo?



in O Livro do Ópio (Le Livre de l'Opium), de Albert de Pouvourville, sob o pseudónimo de Nguyen Ted Duc, 1925; trad. de Jorge P. Pires, ed. Frenesi, 2000.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

José de Sousa '2011

É a mais recente edição do colheita da marca alentejana da José Mª da Fonseca. No que diz respeito às castas utilizadas, a sua ficha técnica refere 47% de Grand Noir, 33% de Trincadeira e 20% de Aragonês. Do processo de produção, será de destacar a fermentação de pequena parte (não especificada) do vinho em ânforas de barro e o envelhecimento de 8 meses em carvalho novo, americano e francês.

Servi-o directamente da garrafa, a mais ou menos 14ºC, e encontrei um vinho muito alentejano, de carácter macio e dimensões medianas, sobejamente maduro, com fruta preta, figo e tâmara, e muitas notas de chocolate e café. Pareceu-me seguir as pisadas do seu predecessor da colheita de 2010, porventura melhor afinado. No mais, também me pareceu apresentar uma mineralidade muito própria, efectivamente a fazer lembrar barro — presença ténue, é certo, mas importante: quando a competição é feroz, como acontece no segmento de mercado em que este vinho se insere, são os detalhes que fazem a diferença.

Acompanhou o almoço do último Domingo, dia extremamente quente, em que basicamente nos barricámos em casa com o ar condicionado ligado: alheiras no forno, ovos estrelados e pãozinho.

A garrafa foi oferecida pelo produtor, que recomenda um preço de 7,99€.

15,5