domingo, 29 de novembro de 2015

Dona Paterna — Alvarinho e Trajadura '2013

É um branco ligeiro, engarrafado sem passagem por barrica, com 11,5% de volume alcoólico. Muito simples: ataque limonado, depois frutos de polpa branca, com destaque para a pêra, junto com notas de flor de laranjeira, e um toque adocicado, de mel e madurez, a crescer mais para o final.

No mais, fresco e bastante persistente, apesar de já não ser vinho do ano, não acusa a idade. Servido directamente da garrafa, acabado de sair da porta do frigorífico, deixou algumas bolhinhas na superfície do copo, que não se reflectiram, no entanto, na boca.

Dá-lhe o nome a condessa Dona Paterna, que fundou um mosteiro, no espaço de uma quinta que possuía onde agora se situa a freguesia de Paderne, de onde este vinho provém. A este respeito, lê-se no "Dicionário Histórico, Biográfico, Bibliográfico, Heráldico, Corográfico, Numismático e Artístico" editado por João Romano Torres, em 1903, que:

"Houve aqui um mosteiro de cónegos regrantes de Santo Agostinho, fundado pela condessa Dona Paterna, viúva de Don Hermenegildo, conde de Tui, numa sua grandiosa quinta, que possuía nestes sítios, com outras propriedades e aldeias. Fundou o convento para nele se recolher com suas quatro filhas, e outras nobres senhoras de Tui, que as quiseram acompanhar.

(...) Em 6/8/1130, estando as obras concluídas, foi sagrada a igreja do mosteiro pelo bispo de Tui, Don Paio, que também nesse dia o dedicou ao Salvador, e lançou à condessa, suas filhas e mais companheiras, o hábito das cónegas de Santo Agostinho. Mandou para confessores e capelães sete clérigos que em 1138 se fizeram regulares da mesma ordem, vivendo em comunidade.

(...) A fundadora foi a primeira prioresa das freiras, e Don Ramiro Pais o primeiro prior dos religiosos.

(...) A povoação tomou o nome de Paterna, que depois se corrompeu em Paderne, porque ao convento se dava o nome de mosteiro de Paterna. Não se sabe quando deixaram de existir aqui freiras, mas sabe-se que em 1248 só havia frades, tendo por prior D. João Pires, grande partidário de D. Afonso III, pelo que este monarca fez grandes doações ao convento, concedendo-lhe muitos privilégios".

Acompanhou uns camarões, preparados de forma parecida com esta, e aguentou bem o prato. Houve um varietal Alvarinho, da mesma casa, da colheita de 2011, que um dia aqui passou e me pareceu bastante superior.

5€.

15,5

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Não costumo escrever sobre coisas do dia-a-dia, e de certeza que ia separar os vinhos, digo, o do post anterior do que aí vem, com outra coisa qualquer, não alcoólica. Mas às vezes escarafuncho onde já escrevi e do link para o fiambre no post infra saltei para outro, d' "A Loja em Casa", no sítio do ECI na internet. E aí vi o que agora partilho:



O "Flavor Chef" o quê?

Ainda assim, talvez insuficiente, só por si, para justificar um post. Mas depois, pouco, pouquíssimo depois, quase acto contínuo, acedi ao DN online. E na página de abertura,


Será Deus a dizer-me que vá dormir?

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Compañía de Vinos Telmo Rodríguez — LZ '2013

Estava a 14ºC no copo quando começámos, palavra de termómetro digital. Antes, meia hora de arejamento em decantador. Mais enfático no nariz que na boca, é muito frutado — "tão morangueiro!" — e rico em especiarias também. Os cheiros e sabores aparecem limpos, os taninos têm nervo e a acidez existe em quantidade suficiente para que não subsista calidez.

E está muito bem dimensionado, com uma fluidez que permite encarar a sua basta dose de concentração, sem o peso que habitualmente se lhe associa! Assim justifica a falta daquele extra de profundidade e persistência que são necessárias num grande vinho: face à dádiva da natureza, foi feito deliberadamente fácil, coisa que não consigo deixar de achar uma óptima opção de design.

Riojano de Lantziego de Álava, é uma das opções de entrada do produtor. Foi feito com Tempranillo, Garnacha e Graciano, dizem que a apontar à maneira dos vinhos tradicionais da região, nos anos 20 do século passado: fermentou por acção de leveduras autóctones, em depósitos de cimento, onde permaneceu uns meses, até ser engarrafado.

Bebi com pizza de base fina e estaladiça, feita em casa, generosa no queijo e nos orégãos, e coberta com cubinhos de fiambre (acho o da marca própria do ECI, da perna, satisfatoriamente próximo do "Libra", que adoro, mas não encontro à venda aqui), cogumelos frescos e azeitonas pretas, oxidadas, daquelas de que muita gente que escreve sobre comida gosta de dizer que não gosta.

7€.

16

segunda-feira, 23 de novembro de 2015








Coisas da chuva: alguns dos últimos cogumelos deste Outono e uma lesma (Arion ater?) a almoçar.

sábado, 21 de novembro de 2015

Domaine de la Rectorie — Cuvée Pierre Rapidel '2006

Outro vinho doce! Andarei deprimido? Mas este é especial, o primeiro Banyuls do blog.

Produzido de forma similar ao Porto, através de um processo em que a fermentação do mosto é interrompida por adição de aguardente, teve origem em uvas Grenache Noir (90%) e Carignan, provenientes da região de Banyuls-sur-Mer, no sudoeste do Roussillon, perto da fronteira com a Catalunha. Estas são, de certo modo, vinhas de montanha, à beira mar.

A acreditar no que diz a internet, da presente cuvée, o produtor terá enchido umas 6000 garrafas, de 50 e 75cl, após 6 anos de estágio em grandes barris de madeira avinhada, foudres.

Servido a 12ºC, apesar de um bocado funky no princípio, não tardou, porém, a mostrar montes de cheiros interessantes, terciários, de carácter oxidativo. Trouxe, por um lado, e acima de tudo, cerejas maceradas em álcool, junto com passas, várias, de ameixa, figo e tâmara, amêndoas tostadas, mel e especiarias quentes, como canela e caril; por outro, em jeito de contraponto mas não em pano de fundo, madeira velha, açúcar queimado, verniz.

Fez lembrar um bom ruby, de menor porte e limpeza, é certo, mas também mais vivaz, a deixar perceber verdadeira frescura, mau grado tratar-se de um generoso com 16,5% de volume alcoólico. A apontar, certo desvio para o amargo, mais presente no paladar e que encontrei muito interessante. Ainda não está no ponto, e por muitos anos, posto que deverá viver entre mais 30 e 50 em garrafa, mas duvido que venha a conseguir dar a alguma a guarda devida.

Com castanhas assadas, assim, foi excelente, mais ainda que com chocolate preto, que calhou ser deste.

Portes fora, 20€ por cada 50cl.

17

domingo, 15 de novembro de 2015

José Maria da Fonseca — Moscatel de Setúbal "Superior" '1911

Âmbar escuro, com rebordo esverdeado, mostrou-se um vinho enorme, muitíssimo concentrado, de toque oleoso e peso condizente, mas possuidor de uma acidez extraordinária, capaz de o elevar, de fazer cada bocadinho vibrar na boca.

Muito complexo, evocou coisas tão díspares como mel e iodo, passas, licor, café, cravo-da-índia e outras especiarias de tons afins, junto com elementos químicos e medicinais. Um vinho de meditação, verdadeiramente elegante e que perdurou muito, muito tempo no palato, com recuerdos de frutos secos no final.

Tentei sentir-lhe o Moscatel, aquela uva branca de floral adocicado e fácil, que faz brancos secos perfumados e generosos super doces, e por incrível que pareça, ao fim de mais de cem anos em madeira, o Moscatel ainda estava lá, o cheiro doce que tanto gosto de encontrar à sombra de certos arbustos floridos, em fins de tarde quentes, no "nosso" bosquezinho habitual: nem por isso intenso, mas profundamente entranhado.

Atribuir-lhe um numerozinho da qualidade não foi fácil. Como a bitola de cada um se faz da sua experiência pessoal, dou-lhe a classificação mais alta por ser o melhor vinho que alguma vez bebi, independentemente do género, e por não lhe ter percebido nada em que devesse melhorar.

E isto traz-me à memória um professor de matemática que tive no liceu, homem severo, cirunspecto, mas de trato fino, que era conhecido entre os alunos como o "testa de ferro" e que por vezes afirmava, naquelas lavagens da alma que eram as aulas de auto-avaliação no final dos períodos, que "havia vintes e vintes". Ora, estes vinte valores não querem dizer que não espere vir a cruzar-me com vinhos ainda melhores; significam, apenas, que este, agora, para mim, esteve perfeito.

Na foto, a amostra que o produtor me remeteu em Novembro de 2014, num tubo WIT porreiro, junto com um convite para o respectivo leilão de lançamento, onde foram vendidas 100 das 180 garrafas de meio litro produzidas — as restantes permanecem na colecção privada da empresa. Ainda é relativamente fácil adquiri-lo, mesmo online, na Garrafeira Nacional, por exemplo, onde cada unidade de meio litro custa 780€.

Em 1911, os impérios russo e otomano ainda existiam; o comunismo era teoria. A Convenção Internacional do Ópio ainda não tinha sido assinada.

20

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Quinta do Infantado — Tawny 10 Anos

Engarrafado em 2014. Macio, cálido, levemente aguardentado. Possuidor de alguma profundidade e um muito bom equilíbrio entre os tons de frutos secos e maduros, com os inevitáveis caramelo e café presentes, pareceu-me relativamente pouco doce (cof) para "dez anos".

Tentando não efabular, poderei dizer que apresentou as características que usualmente se associam ao estilo, aparte o sabor e a persistência, esses acima daquilo que será a média dentro do género.

De novo, não me é fácil escrever sobre estes vinhos, todos parecidos q.b. entre si — a diversidade é bem mais perceptível nos lotes com 20 e mais anos, já ignorando o mundo que são os "Colheita".

Sim, dentro do género, este pareceu-me dos melhores. No entanto, e isto tem ficado tão mais claro quanto mais vinhos tenho experimentado, não creio que seja possível afirmar com justeza que algum Porto datado, mesmo aqueles excedentes que acabam com as marcas das cadeias de supermercados que os vendem, é ou tem jeito de coisa standard.

Acompanhou mini palmiers, daqueles secos, que se vendem em caixas grandes a preço de desconto, chocolate em barra, o "Crunchy Nougat" Lindt, que é fofo e merece um link, fumo e conversa. CC gostou muito e a S também me pareceu convencida. Procurando por ele, online, encontrei isto.

15€

17

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

SantoWines — Assyrtiko '2014

O meu primeiro vinho grego, um Assyrtiko de Santorini! Sobejamente conhecida como destino de sonho para aqueles que gostam de praia e ao mesmo tempo são capazes de tolerar gregos, é a maior ilha do arquipélago com o mesmo nome, localizado no extremo sul das Cíclades, no mar Egeu, uns 200Km a sudeste de Atenas: o remanescente da ilha original, após a chamada erupção minoica, uma das maiores explosões vulcânicas de que há registo — há quem suspeite ser a origem verdadeira das histórias sobre a Atlântida, adivinhem lá porquê.

Geograficamente, domina o conjunto uma grande lagoa, vagamente rectangular, com 400m de profundidade, a caldeira do vulcão, onde actualmente ancoram grandes navios de recreio, rodeada em três dos seus lados por penhascos íngremes e separada do mar no quarto por uma outra ilha, menor, chamada Terásia. Os solos de lava, xisto e pedra-pomes são pobres em humidade e matéria orgânica, de tal forma que as cepas, muitas delas plantadas em pé franco, conduzidas pelo método Koulara, que consiste em enrolá-las em círculos contínuos, como que em formato de cesta, de modo a protegê-las tanto quanto possível do sol intenso e dos ventos fortes da região, subsistem durante o Verão graças ao orvalho que resulta das neblinas matinais. E podem durar muitos anos.

Conforme a receita tradicional, o produtor engarrafou este vinho sem passagem por madeira. Aberto e bebido assim que retirado da porta do frigorífico, trouxe consigo notas de sumo e raspa de limão, algumas delas bem amarelas, meladas, e talvez tremoço, também. Com jeitinho, sal. Possuidor de algum corpo e untuosidade — o teor alcoólico é de 13,5% — persiste bem. Mas a acidez, que esperava assertiva, só funcionou realmente enquanto bebido frio. Aliás, quando lhe recusei um balde de gelo, ele retribuiu com um fundinho adocicado, persistente, de que não gostei. Com uma receita simples de camarão, dominou. Com queijo de cabra não tão curado assim, bebeu-se. Acredito que não seja um exemplar destacado do que se faz por lá, mas deu para ter uma ideia, e é interessante.

5€

15