quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Quinta da Pellada '2007

Este pareceu-me, coisa curiosa, mais evoluído em termos de cor e cheiro que no sabor.

A cor, a atijolar.

O nariz, por entre alcaçuz e mato, cedro, fumo e especiarias doces, tabaco e sei lá que mais, ainda detecta fruta, talvez cereja, escura, muito escura.

Mas, na boca, permanece firme e preciso, apesar de entregue a fruta macia, com toque já cálido. Tem porte, mas também fineza. Não é um monólito nem está a morrer. Surpreendente.

Talvez por associação de ideias, sabendo muito bem o que estava a beber, trouxe-me à memória o Álvaro de Castro "Reserva". Mas maior e melhor.

Consiste numa mistura do "field blend" da vinha velha da Pellada com Touriga Nacional e Tinta Roriz.

A propriedade que dá o nome a este vinho é o maior tesouro do produtor. Situada na zona de Pinhanços, num cabeço a NW da linha oblíqua do sopé da Estrela, a uma altitude máxima de 545 metros. As suas primeiras referências remontam à década de 1570.

Quando estava à venda, era vinho para cerca de 30€.

17,5

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Luís Pato — Baga & Touriga Nacional '2014


A vida vai fluindo e o blog, esquecido, ficando para trás. E tanta coisa digna de partilha! Momentos espectaculares, momentos de merda. Grandes vinhos, grandes discos, talvez uma ou outra foto.

Então a dúvida: ir preenchendo o hiato temporal decorrido entre a última publicação, datada de 30/5, e a presente data ou recomeçar agora? Já tentei, em momentos de abandono passado, "encher o enchido" em retroactivo para que um novo visitante não se apercebesse do abandono. Mas, sinceramente, esse é um motivo de merda. E o melhor que alguma vez consegui arranjar para tal acção. Então que se foda, recomeçará agora. Com sorte, talvez leve um ou outro destaque deste tempo que passou — saudavelmente em diferido.

Recomeçemos com vinho. Um Luís Pato tinto, de entrada, daqueles que levam o nome do produtor. Este não é dread, rebelde, monocasta ou de uma vinha em particular. Mesmo assim, chamar-lhe-ia, sem qualquer reserva, um pequeno clássico moderno. Talvez agora mais pequeno, pelo menos comparativamente, que noutros tempos. Lembro-me destes — destes, salvo seja — Luís Pato serem 100% Baga e, com jeito, durarem 20 anos ou mais. Este é mais moderno, mais approachable logo desde tenra idade, ao que não será alheia a adição de 40% de perfumada Touriga Nacional à grande casta da bairrada. Ademais, foi fermentado em inox e maturado em barricas usadas, de Allier e americanas.

Às três pancadas: floral no ataque, frutado escuro no miolo, terroso lá mais "por detrás" e "por baixo". Tem viço, tem estrutura, algum comprimento e profundidade também. Mas durará mais dez anos?

Em todo o caso, se assim fossem todos os vinhos de entrada...

6€.

16

domingo, 19 de agosto de 2018

Adega 23

Quem segue pela A23, de Vila Velha de Ródão para norte, reparará que, a uns 10 km de Castelo Branco, mais coisa menos coisa, corta uma extensão de vinhas de tamanho considerável, pelo menos tendo em conta a zona, algo improvável para a produção de vinho.



Trata-se da Adega 23, projecto da médica oftalmologista Manuela Carmona, com enologia de Rui Reguinga -- e a menos falada, mas não menos merecedora enóloga residente, que se chama Débora Mendes.


Os 12 ha de vinhas da propriedade foram plantados sobre xisto, entre 2014 e 2015, num lugar onde "não havia nada", excepto as ruínas de um edifício que, mau grado a ideia inicial de nele basear a estrutura da nova adega, se revelaram impossíveis de aproveitar, o que ditou a sua demolição. O edifício da adega, construído no mesmo lugar, é arquitectonicamente interessante, não só pela estética apelativa como pela sua grande funcionalidade.


Chegámos, falámos um pouco, assistimos a uma apresentação, que não lamento, sobre o vinho e o projecto, acompanhada de espumante Soalheiro, bruto, de Alvarinho, muito vivo e fresco, com boa bolha, fina e persistente, e notas de maçã e fermentos, demos uma breve volta pela adega e depois subimos para a prova propriamente dita, conduzida pela proprietária e a enóloga residente.


Para além dos vinhos da casa, houve Intensus tinto, meh, Poeira, sempre óptimo, sou fã, e dois Porto da Graham's a acompanhar as sobremesas: LBV e tawny 10 anos.


Foi um princípio de tarde muito bem passado, que me deixou curioso por experimentar o tinto da casa, que ainda não saiu. Acabo com umas breves impressões dos vinhos do produtor, escrevinhadas no telemóvel, "in loco" e enquanto tentava socializar: ou seja, com a naturalidade de quem se coça, temperada pela inevitável pontinha de pavor advinda de "estarem pessoas".


Branco '2017
Verdelho, Arinto, Viognier e Síria. Unoaked. Muito mais citrino que herbáceo, com limão doce e sua casca. Fresco, untuoso e bastante delicado, de persistência média/longa. Um vinho assim, na torreira das Sarnadas de Ródão? Notável. 16,5/20

Branco '2017 não engarrafado/comercializado
Uma curiosidade não comercializada. Feito das mesmas uvas que o branco da casa, mas aproveitando mais do que apenas o mosto lágrima, tem o perfil do branco engarrafado, mas menor delicadeza e uma ponta de amargor, a fazer lembrar caroços de prunóideas, no fim de boca -- pela prensagem adicional que abriu algumas das grainhas, contaram. Na minha humilde opinião, que vale o que vale, podia ter dado um segundo vinho bem decente. 15,5/20

Rosé '2017
Aragonês e Rufete, sem madeira. O facto de ser muito leve e fresco não o impede de irradiar substância. Os aromas são cativantes, com os frutos silvestres aliados a flores e um travo mineral, ligeiramente salino, que faz a diferença. Extremamente cativante e fácil de beber, foi dos melhores rosés que me lembro de ter experimentado e a S achou o mesmo. 17/20.

domingo, 27 de maio de 2018

Quinta da Nave — Colheita Seleccionada '2015

A Quinta da Nave, de Valverde, Fundão, faz vinhos potentes, em estilo directo, frutados, verdadeiramente sumarentos e tendencialmente extraídos e alcoólicos, que depois coloca à venda a preços que me parecem bastante inferiores ao que podiam ser (espero não estar a dar ideias).

E este "Colheita Seleccionada" não foi excepção. Carregado de fruta silvestre, vermelho-escura, azul, roxa e preta, não colhida, a cozer ao sol, transportada por uma acidez que, considerando o maduro que torna sumarento e o quente que refresca, só se pode considerar boa e bem colocada, é dos meus tintos jovens preferidos.

Em suma: é um grande vinho? Não. É para todos os gostos? Não. Para quem gostar ou aceitar bem o estilo, é de lamber os beiços? Sim. Ainda melhor que este, ou pelo menos como me lembro dele: afinal, foi abatido há tanto tempo...

E, pelo menos a mim, parece dado.

O contra-rótulo diz o seguinte: "A Quinta da Nave localiza-se num terroir privilegiado da Cova da Beira, estando na posse da família Almeida Garrett há quatro gerações. Caracteriza-se por apresentar uma exposição a Sul com solos argilosos, derivados de xisto, com presença de seixo. Este vinho foi elaborado a partir das castas Tinta Roriz e Touriga Nacional e estagiou em barricas de carvalho francês durante 6 meses. Consumir preferencialmente entre 16 e 18 ºC."

Quando foi, esqueci-me do que estava a fazer e bebi-o todo em menos de hora e meia, junto com uma pizza destas, inteira. Apesar de tudo, não é habitual.

3€.

16

quinta-feira, 24 de maio de 2018










Poderia não ser preservado neste frasco de éter digital o nosso passeio de 17 Km em busca da cascata seca, que culminou no ápice do monte ao lado daquele que seria o nosso destino? Os meses de atraso não importam.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Granja-Amareleja — Reserva '2013

E de repente vão quase cinco anos sobre a última vez que bebi um vinho destes. Como galopa o tempo! Assim, ainda que de causas naturais, a morte virá num instante.

Dizia eu, em 2013, a propósito do "Reserva" de 2011 linkado supra, que o produtor teria renovado a sua presença na web. Assim aconteceu: agora é inequívoco.

Na web e não só, que os vinhos da Cooperativa de Granja-Amareleja são praticamente omnipresentes nos super e hipermercados. Pelo menos naqueles onde vou. Mas vou a tantos e tão espalhados...

Os vinhos da Cooperativa de Granja-Amareleja são também daqueles que mais vezes vejo em promoção nesses supermercados, e com descontos mais significativos. Vinhos com suposto PVP de 9 ou 10€, vendidos por 3 ou 4€ em consequência de ofertas fantásticas.

Sim, que o fantástico acontece, mesmo no mundo das compras no supermercado. Por vezes, quem revende, ou quem trabalha para quem revende, troca marcas e modelos, ou comete erros de julgamento, nem que seja ao não considerar devidamente aquilo que a concorrência próxima está a pedir pelo mesmo artigo.

Mas, no mundo das compras no supermercado, o fantástico, que acontece, é também esporádico. Raro, mesmo. E certas promoções mirabolantes, se não são de carácter definitivo, andarão lá perto.

Perguntar-me-ão que poderá ter o produtor, e ainda mais este vinho em particular, a ver com isso. Não sei. Não me interessa. Associei ideias e o post foi surgindo ao sabor da pena — não, do teclado, enquanto espero que a carne descongele para ir preparar o almoço.

Mas o conteúdo desta eventual — eventual — fuga ao que deveria, ou poderia, se eu assim quisesse, ser o foco do post, que normalmente não passa de uma nota de prova, não deixa de ser pertinente. Ou verdade.

Quanto ao vinho que serviu de mote para outras coisas, cumpre afirmar, antes de tudo o mais, que gostei dele. Ainda não bebi um destes "Reserva" que achasse mau, ou até assim-assim. Gosto sempre. E é normal que goste sempre, que tanto o perfil como a qualidade global do produto me pareceram, também sempre, bastante consistentes, pese a esporadicidade com que os bebo.

Temos então um vinho tipicamente alentejano, maduro mas não quente nem chocho, com fruta preta, alguma transformação — tem 5 anos —, algum vegetal seco, um toque de cabedal, especiarias e, sobretudo quando a temperatura a que é bebido sobe, tabaco e café.

Bonito e bem proporcionado, mais comprido que amplo e saboroso dentro daquilo que poderia oferecer, está muito macio, mas ainda dotado de estrutura, ainda possuidor de espinha dorsal. Não brilha, de facto, mas também não defrauda as expectativas, que no caso dele nunca são baixas.

É um tinto que retém certa flama, flama no sentido de estar vivo, não no de arder, e que, numa idade "madura", ainda se come, ou melhor, bebe bem.

10€.

16

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Dom Rafel '2011

Muitos anos depois do último aqui abordado, uma actualização mega extemporânea àquele que inicialmente foi ideado com segundo vinho da Herdade do Mouchão, mas agora é apenas um entrada de gama, dado terem entretanto surgido referências de calibre superior.

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As castas são típicas do Alentejo: Aragonês, Trincadeira e, presente em maior quantidade que as demais, Alicante Bouschet. As uvas fizeram a fermentação alcoólica em lagar, após pisa a pé, para não esmagar as sementes, e o vinho fez a maloláctica e estagiou em grandes tonéis de carvalho português, de 5000 litros, e em barricas de carvalho francês, durante, "pelo menos", diz o produtor, um ano.

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Cor granada, escura. Traz consigo cerejas e frutos do bosque, framboesas, amoras, groselhas, todas a cair de maduras, meio cozidas pelo sol, mas sem por um momento sonegar a frescura. E mato seco, tabaco, café. . . Tem especiarias, mas não é um almofariz. Tem madeira, mas não cheira nem sabe a pau, ou côco, e mesmo a baunilha só muito timidamente dá um ar de sua graça.

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Poderá não passar da medianidade, ainda que uma medianidade avantajada, vá, em termos de longueur e volume. Poderá não ser super concentrado: só o bastante. E está completamente macio, sedoso mesmo, mas não dá qualquer sinal de estar prestes a cair. Pelo contrário: diria que ainda tem muito pela frente e que, bem guardado, poderá vir a resultar, daqui a muitos anos, numa curiosidade engraçada para os apreciadores de vinhos velhos. Enfim! É sóbrio, é fino, é sólido. É elegante. É um vinho de entrada que prova que os vinhos de entrada não são todos iguais — e os produtores também não.

8€.

16,5

terça-feira, 15 de maio de 2018

FOR THE SAKE OF A SINGLE POEM

... Ah, poems amount to so little when you write them too early in your life. You ought to wait and gather sense and sweetness for a whole lifetime, and a long one if possible, and then, at the very end, you might perhaps be able to write ten good lines. For poems are not, as people think, simply emotions (one has emotions early enough) — they are experiences. For the sake of a single poem, you must see many cities, many people and Things, you must understand animals, must feel how birds fly, and know the gesture which small flowers make when they open in the morning. You must be able to think back to streets in unknown neighborhoods, to unexpected encounters, and to partings you had long seen coming; to days of childhood whose mystery is still unexplained, to parents whom you had to hurt when they brought in a joy and you didn’t pick it up (it was a joy meant for somebody else —); to childhood illnesses that began so strangely with so many profound and difficult transformations, to days in quiet, restrained rooms and to mornings by the sea, to the sea itself, to seas, to nights of travel that rushed along high overhead and went flying with all the stars, — and it is still not enough to be able to think of all that. You must have memories of many nights of love, each one different from all the others, memories of women screaming in labor, and of light, pale, sleeping girls who have just given birth and are closing again. But you must also have been beside the dying, must have sat beside the dead in the room with the open window and the scattered noises. And it is not yet enough to have memories. You must be able to forget them when they are many, and you must have the immense patience to wait until they return. For the memories themselves are not important. Only when they have changed into our very blood, into glance and gesture, and are nameless, no longer to be distinguished from ourselves — only then can it happen that in some very rare hour the first word of a poem arises in their midst and goes forth from them.
Rainer Maria Rilke

sábado, 12 de maio de 2018

Blanche de Namur

Blanche de Namur, que viveu entre 1320 e 1363, foi rainha consorte da Suécia e Noruega por casamento com Magnus IV. Filha mais velha do marquês Jean I de Namur e de Marie d'Artois, ficou na história como uma rainha a valer: política e socialmente activa, gira e esperta.

É também o nome de uma Witbier — cerveja branca, feita com trigo e aromatizada com casca de laranja e sementes de coentro, entre outras especiarias — belga, produzida pela Brasserie du Bocq, empresa familiar que labora em em Purnode, perto de Yvoir, desde 1858.

Para além do habitual e, até certo ponto, expectável — cereal e levedura, fruta e amargor —, mostrou certo "punch" cítrico interessante: mais distinto que o presente numa Hoegaarden, mas menos que o de uma Hoegaarden servida com rodela de limão.

Outro aspecto que me agradou (que cervejas é que, aqui, têm direito a post?) foi evidenciar, com uma clareza de que não estava à espera, as especiarias com que foi feita. E tudo isto sem magoar o equilíbrio, de tal forma que, agora mesmo, ao escrever sobre ela, noto querer referir o "qualificativo dos piços", digo, a palavra "suave", que talvez aqui não caísse como uma vagueza desnecessária. Também por só ter 4,5% de álcool, mas, definitivamente, não só.

Apesar de relativamente leve de corpo, a sua espuma cremosa e boa carbonatação tornam-na capaz de acompanhar mais que apenas futebol na TV. No meu caso, foi com sushi, e não considero que me possa queixar, muito pelo contrário. Melhor enquanto bem fria, entre 2 e 4 ºC.

Custou 3,99€/33cl no ECI.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Odelouca '2013

Situada não muito longe de Silves, no Sítio da Dobra, junto à ribeira de Odelouca e à povoação com o mesmo nome, a Quinta do Francês inclui 8 hectares de vinha, plantada em 2002 e que assenta sobre vários tipos de solo, da argila/calcário ao xisto. O clima, Mediterrâneo continental, com propensão a dias quentes e noites comparativamente frias, é influenciado pela brisa marítima do Atlântico, cuja acção "refrescante" ajuda a evitar sobrematurações.

Este Odelouca é uma espécie de "segundo vinho" da casa, nascido a partir de Cabernet Sauvignon, Trincadeira, Syrah e Aragonês. De acordo com a informação disponibilizada pelo produtor, a vinificação deste 2013 incluiu 18 dias de maceração e 8 de fermentação, em inox, a 30 ºC. O estágio prévio ao engarrafamento foi em barricas de carvalho francês, "9 a 12 meses".

Bastante intenso e envolvente, mostrou ameixa preta e muitas especiarias, com uma incidência incomum, mas interessante, em aromas que remetiam a azeitona, parda e de Kalamata — talvez do Syrah, e longe de defeito, feitio e feitio vincado. A boca surgiu como continuação natural do nariz, embora sem qualquer sabor que remetesse à já mencionada azeitona. Especiarias, sim, muitas, perfeitamente integradas num quadro delineado em torno daquela maturidade peculiar que, nos vinhos capazes de durar alguns anos, antecede a velhice: com ligeira calidez e muita harmonia.

Quando o bebi, terminei o que tinha apontado sobre ele com a nota "um pequeno grande vinho". Porque não?

8€.

16,5

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Palácio da Brejoeira '2014

O Palácio da Brejoeira localiza-se na freguesia de Pinheiros, 6 Km a sul de Monção.

Terminado em 1834, foi erigido por Luís Pereira Velho de Moscoso, fidalgo da casa Real, Comendador da Ordem de Cristo, e herdeiro do Morgado da Brejoeira, morgadio instituído por tradição, em 1500.

Trocou de mãos várias vezes, tendo tido momentos de prosperidade e de abandono. E consta lá se ter sempre produzido vinho, mas apenas para consumo da casa,  até 1977, ano em que é lançado no mercado o primeiro Alvarinho "Palácio da Brejoeira".

A propriedade que envolve o palácio, com 30 hectares de superfície, inclui bosques, jardins e 18 ha de vinha, plantada em solo argilo-calcário, de onde sai a matéria-prima deste branco.

Em traços gerais, a sua vinificação consistiu/consiste numa fermentação lenta, a baixa temperatura, seguida de estágio sobre as borras finas. Nas suas diversas edições, tem vindo a ser engarrafado sem passar por madeira.

Servido a 12ºC, como recomendado, surgiu fresco e portador de alguma estrutura. De toque untoso na boca e boa persistência, mostrou razoável complexidade, dividida entre o citrino e o tropical, mostrando mais do segundo que do primeiro.

Ainda amanteigados, ligeira baunilha e curiosas sugestões de giz. O tempo em garrafa trouxe-lhe outra maturidade, mas ainda não decadência. Muito interessante.

Foi aberta a garrafa nº 44054.

17€.

17

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Quinta dos Termos — Trincadeira, Reserva '2010

Mais um tinto da Quinta dos Termos — falei aqui sobre uma data deles em finais do ano passado. No caso, um monovarietal Trincadeira da colheita de 2010, logo com quase oito anos.

O contra-rótulo diz: "Quando o ano vitícola corre de feição, a Trincadeira origina vinhos surpreendentes na Beira interior. Foi o que aconteceu na colheita de 2010, em que as uvas amadureceram de forma muito equilibrada. Uma vinificação minimalista e um breve estágio em barricas de carvalho deram-lhe o toque necessário para nos decidir engarrafá-lo estreme."

Começou meio porquito, a cheirar a suor, mas um ligeiro arejamento limpou-o e, em vez de estragado, mostrou-se um tinto muito interessante, ainda sem sinais de cansaço — imagino, no entanto, que se aproxime do limiar do plateau — aludindo à "lei da maturidade" de Clive Coates, que diz que um vinho permanecerá na sua fase ideal de consumo por tanto tempo quanto o que demorou a maturar, até atingir essa mesma fase.

Algo circunspecto, foi fácil apontar-lhe, acusá-lo de ser algo monolítico, na altura da prova, que não foi prova, mas abate de uma garrafa inteira, a empurrar daqueles hambúrgueres "Angus", do Pingo Doce, preparados, diz o YouTube, a la Gordon Ramsay Mas esses são os exageros do momento, abundantes no caderninho negro do álcool.

Ficou apontado, e lembro-me, de lhe ter apanhado muita fruta silvestre, indiferenciada, misturada e transformada, mais preta que vermelha ou roxa, e essencialmente em licor. Com ela, flores amarelas e um toque resinoso, vegetal, a fazer lembrar lenho verde. Barrica, assim, ainda? Talvez. E aquele travo "porco" de que já falei, provavelmente Brettanomyces em quantidade mesmo muito moderada.

Na boca, paladar morno, de toque macio, com reminiscências tácteis de veludo e xisto bem embrulhadas naquilo a que chamei "acidez redonda" — digo, acidez apenas suficiente para cortar o ardor e perfeitamente ligada. Algum corpo, di-lo-ia "médio mais", com certa densidade, mas não objectivamente "gordo", "pesado", nem nada que se parecesse, e um final bastante persistente.

Enfim, um vinho de boa concentração, com substância bastante para ser interessante, mas também contido e equilibrado na medida em que a finura, a leveza, o fácil apareceram a contrabalançar o intenso, o pesado, o sério, o fechado.

Sem ser divino, foi daqueles que deixaram impressão.

7€.

16,5

terça-feira, 24 de abril de 2018

Abadía Retuerta — Selección Especial '2002

Outra relíquia! Este é o vinho mais conhecido de Abadía Retuerta, produtor baseado junto da localidade de Sardón de Duero — Valladolid.

Esta grande propriedade, que "abriu" tal como agora a conhecemos em 1996, inclui cerca de 710 ha de terras, dos quais 210 ha estão ocupados por vinhedos, divididos por diferentes parcelas, todas elas plantadas entre 1991 e 1994. Existe lá, de facto, uma antiga abadia Cisterciense que data do século XII.

No entanto, o foco da produção agrícola das terras que a envolviam nunca foi o vinho, mais tubérculos e cereais — a "Finca Retuerta" acaba adquirida por uma empresa de sementes, a Prodes, em 1920, e, consta, não tinha uma única cepa plantada no final dos anos 70.

Em 1990, a farmacêutica Sandoz, hoje parte do grupo Novartis, toma controlo da propriedade (movimentações de capital entre badochas, vale mesmo a pena investigar porquê?) e resolve valorizar a sua componente vínica, primeiro — afinal, a parte oriental da propriedade está a apenas 10 Km de Vega Sicilia... — e turística, com a construção de hotel e restaurante, depois.

Os solos são heterogéneos, com areia, argila e cascalho nas partes mais próximas do rio Duero/Douro, a cerca de 640 metros de altitude, e pedra calcária nos altos, que atingem os 850 metros sobre o nível do mar. O clima é continental, com grandes amplitudes térmicas e tendencialmente seco, mas estando o produtor fora da DO Ribera del Duero — todos os seus vinhos saem sob a denominação de Vino de la Tierra de Castilla y León — utiliza rega gota-a-gota quando necessário.

O vinho, bem, este ainda vivia. Muito mais escuro que o "Riserva Ducale" e muito menos atijolado também, trouxe consigo frutos pretos no limite da madurez, em compota e em licor, tabaco, especiarias indefinidas, mas quentes, e cacau. Na boca, mostrou uma redondez consentânea com o carácter "quente" dos seus aromas. A acidez está bem integrada e os taninos, finos, perfeitamente cobertos. O fim de boca pode considerar-se longo. Como não há post que não inclua esta informação, aí fica: lote de Tempranillo, Merlot e Cabernet Sauvignon provenientes das várias parcelas da quinta, estagia "de 16 a 22 meses", diz o produtor, em barricas francesas e americanas.

Enfim, este e o vinho do post anterior, dois velhos senhores que ainda mexem! Mas se o italiano, apesar de reter alguma dignidade, não conseguiu esconder estar com os pés para a cova, neste ainda perdura aquela fase bonita da maturidade plácida e elegante... Mas não nos enganemos: também não é para guardar.

As garrafas de 75cl das colheitas mais recentes custam à volta de 25€, mas o produtor ainda vende este 2002, a 58€. A oferta do produtor na sua loja virtual vai, aliás, até 1995!

16,5

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Ruffino — Riserva Ducale '2001

O blog é um monstro sedento de tempo, disponibilidade e energia! O blog converte vida interior em cangalhadas para outros verem e a análise do tráfego por ele gerado conjura a partir do éter, do aparente nada, satisfação para o ego. No fim, nada sobre nada. Não, exagero. Muito pouco sobre muito pouco, a tender para nada — assim é mais correcto.

Mas apesar de o seu dono saber disso, tanto que o escreve, o blog ainda vive: de tal maneira que é nele, para ele, e para mim também, através dele, que escrevo isto. E não se preocupe o monstrinho com a queda nas listas de agregadores e motores de busca que os períodos de fome consigo trazem: estou decidido a actualizá-lo e, junto com o meu tempo e alma, terá também o vinho a que o habituei. Simplesmente, desta vez, que empurre com ele um bocadito escangalhado de meta-análise.

Para começar, umas notas a respeito da minha última garrafa (originalmente eram três) da colheita de 2001 de Ruffino "Riserva Ducale". O produtor é dos mais conhecidos de Itália e este Chianti Classico é talvez o seu vinho-bandeira, embora não o absoluto topo de gama. A gama "Riserva Ducale" existe desde 1927, nomeada em homenagem ao duque de Aosta, presumo que o segundo, que em 1890 tornou a então jovem casa Ruffino fornecedor oficial da família real italiana, contam que depois de ter atravessado os Alpes, numa viagem que não terá sido das mais simples e/ou suaves, especificamente para provar estes já na altura afamados vinhos, pétalas no galho preto e molhado que então era a produção de Chianti — que, salvo algumas honrosas exepções, continuou a ser um vinho horrível até bem dentro do século XX.

80% Sangiovese e 20% Merlot e Cabernet Sauvignon, este tinto estagiou durante dois anos em madeira, inox e cimento. Não me surpreendeu que ainda estivesse vivo porque a última garrafa aberta, há cerca de meio ano atrás, estava num momento muito bonito. Assim, pelo contrário, surpreendeu-me encontrá-lo muito mais velhinho e cansado do que aquilo que esperava.

Mas perfeitamente bebível e ainda bom. De cor granada, acastanhada, surgiu muito terciário, com aromas a terra, licor de cereja e café. Talvez uma ponta de volátil. Na boca, mostrou acidez ainda capaz de fazer salivar e, mau grado o "meio" um pouco magro, taninos... — eis um vinho, literalmente, taninoso até à morte! Some-se a isto um final razoável e temos um tinto velho que ainda mexe, apesar de, naturalmente, se encontrar já em decadência. Considerando o que os utilizadores do Cellartracker dizem dele, talvez não tenha sido, apesar de tudo, uma má garrafa.

Custou à volta de 20€, back in the time, e continua a ser esse o preço das colheitas mais recentes.

Há quem ache que classificar vinhos velhos é veadagem, mas velho não é morto e o numerozinho da qualidade tem razão de ser, pelo menos para mim. Pelo que 14,5

domingo, 15 de abril de 2018

Barbeito — Rainwater Reserva, 5 Anos

Mais de um ano volvido sobre a publicação das primeiras notas a respeito de um Madeira, aqui deixo o segundo.

Este Barbeito "Rainwater Reserva" é um Madeira meio seco, lote de vinhos produzidos a partir das castas Tinta Negra (80%) e Verdelho, de vinhas das zonas do Estreito de Câmara de Lobos e Prazeres, estagiados em Canteiro durante 5 anos, em cascos antigos de carvalho francês. Foi filtrado antes do engarrafamento, pelo que não requer decantação.

O rótulo inclui uma explicação do termo que define o estilo deste vinho: a designação Rainwater remonta ao século XVIII. A história mais comum conta que, na altura, os cascos eram deixados na praia de calhau antes do embarque. Conta-se que os cascos foram deixados na praia durante muito tempo e como chovia muito a madeira acabou por absorver a água, estilo que agradou ao comprador.

De cor dourada, trouxe consigo fruta cristalizada, pêssegos ou damascos, frescos e em calda, baunilha, mel e caramelo, figos e frutos secos. Ou, melhor dito, cheiro a vinho da Madeira, com a dose certa de alegria e finura, e também já com alguma complexidade, não obstante tratar-se de uma proposta de entrada de gama (ou quase). Elegante, persiste razoavelmente.

O extra de acidez confere-lhe um brilho que o aproxima mais de um Xerez Amontillado que de um Porto Tawny. E como tal, acaba por também ir bem com queijo, azeitonas e tapas, do porco ao polvo.

10€.

16,5

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Recorrente, a discussão sobre o blog de vinhos como veículo do desocupado que troca o seu muito tempo livre e torpe engenho – gato – por uma data de boas garrafas à borla – lebre.

Normalmente, apontam o dedo acusador os visitantes desses mesmos blogs ou utilizadores de fóruns ou grupos de redes sociais dedicados ao tema. Não há nada de estranho nisso: é gente do vinho na net que acusa de coisas outra gente do vinho na net.

Pessoalmente, e não tenciono com estas linhas responder a alguém, dado que o "puto" é demasiado pequeno para essas coisas e assim pretende manter-se, não sei quantos convites para eventos recebi desde algures em 2008. Certamente muitas dezenas, talvez mais. Nunca fui a uma única. Nunca ponderei seriamente ir a uma única.

Quanto ao vinho à borla, sim, já recebi algum, já me obriguei a provar algum que recebi sem ter pedido e jamais compraria, já me obriguei a tentar entendê-lo e, em alguns casos menos inspiradores, quase a garimpar para ter algo a dizer. Mesmo que no final a opinião publicada não fosse positiva.

Ah, tantas vezes é mais aborrecido ter de beber o que não se escolheu e ter de escrever sobre ele, num intervalo de tempo que, mesmo não sendo forçado por uma qualquer cláusula contratual, acaba por ter os seus limites pressupostos por um sentimento de decência face às expectativas de quem enviou e que também incomoda quando não se consegue!

Ora, se ele existir, e acredito piamente que exista, tenho pena do dissimulado que se obriga a procurar interesse onde não o encontra naturalmente, por umas hipóteses de aumentar a sua rede de contactos e/ou umas garrafas de vinho à borla! Se ele existir, espero que me leia e fique também com pena de si mesmo.

E que cresça qualquer coisa e passe a fazer, nem que seja só um pouco mais, aquilo que realmente quer. Que esta vida é só uma e não dura nada...

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Lidl — Vino Nobile di Montepulciano '2012

Tanto quanto sei, este 2012 é o mais recente Vino Nobile di Montepulciano "genérico" do Lidl. O contra-rótulo di-o engarrafado por EGT: Via del Palazzone, 4, 53040 Cetona, morada que confere com a da sede da Barbanera Vini, que, de facto, inclui no seu catálogo propostas desta D.O., provenientes da zona de Valiano — isto se for mesmo um produto da casa, e não uma coisa de négociant, à francesa. O código QR da banda que a entidade reguladora coloca nas garrafas não funcionou.

No copo, mesmo pondo de parte os pontinhos adicionais que vale o diferente, a fuga do mais comum, não se portou mal. O nariz pareceu-me pequeno em termos de projecção, mas razoavelmente amplo no que toca a diversidade de aromas sugeridos... Cassis, cereja, alguma ameixa, almiscarados, alcaçuz, canela, vagas notas oxidativas e outros aromas que tipicamente associo a evolução em barril grande, de madeira velha. Pode ser filme meu!

Na boca, entrada um pouco agressiva, virada para a acidez, corpo entre o delgado e o médio, com certa alegria, taninos que, apesar de numa primeira análise parecerem apenas ligeiramente acima do residual, foram já suficientes para que um tinto de 2012 ainda esteja bem vivo em 2018, algum volume, alguma firmeza na concentração dos sabores transmitidos, mais uma vez por via da acidez e que me pareceram "muito Sangiovese", sem que tal constitua surpresa, e um final entre o curto e o mediano, talvez a pender mais para o segundo porque aceitável face à constituição global do corpo de líquido deglutido. Não falei do álcool porque não dei por ele.

2012 foi uma colheita excepcional na região, mas este vinho não encantou. Na verdade, fez-me lembrar um Chianti "mainstream", daqueles de supermercado, que não brilham nem comprometem, com alguma garrafa. Surgiu quatro anos depois deste e, a acreditar no que ficou registado — porque a memória se esbate — não terá deixado uma impressão muito diferente.

5€.

15

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Adega de Pegões — Cinquentenário '2008

Este tinto foi criado com o objectivo de celebrar os 50 anos da Cooperativa Agrícola de Santo Isidro de Pegões, constituída por Alvará de 7 de Março de 1958, assente em terras anteriormente doadas (em 1937) por José Rovisco Pais aos Hospitais Civis de Lisboa. Hoje em dia, o produtor é dos mais consistentes de Portugal, tanto no volume de vinho produzido como na sua relação qualidade-preço.

Feito a partir de Syrah, Castelão, Cabernet Sauvignon e Trincadeira, estagiou, um ano, em meias pipas de carvalho.

Denso e intenso, mostrou predominância de fruta escura, como amora silvestre, ameixa e groselha negra, com o carácter de basta madurez — e alguma compota — que costuma marcar os bons tintos das areias de Palmela. Com ela, tostados e fumados de barrica . . . nem vincados nem discretos . . . enfim, em retrato comum — é esta muito imprecisa terminologia a que me parece melhor descrever o que me mostrou. Algumas especiarias, algum vegetal . . . Embora presente, muito vago o toque melado do Castelão.

Na boca, volume e estrutura. Digo: não sendo um monstro, pareceu-me pesar qualquer coisa. O paladar, seco. A acidez, mediana, vá, suficiente, com os taninos a surgirem já redondos. Persistiu bastante longamente, com um pós-gosto que trouxe consigo notas de café e chocolate.

É um bom vinho, sem dúvida, mas não está a anos-luz do "Colheita Seleccionada", digamos, comum, da casa, e custou quase três vezes mais.

Acompanhou um misto de naquitos de vaca e porco, salteados em óleo de sésamo e azeite, acompanhados de courgette grelhada e quinoa com agaricus frescos, shiitake maduro, orelha-de-judas reidratada e pimento vermelho. À sobremesa, por via das dúvidas, veio uma tábua de queijos com a qual a sua prestação não me fez voltar atrás no anteriormente dito.

12€.

16

sábado, 31 de março de 2018

Lavradores de Feitoria — Três Bagos, Reserva '2013

Criada no ano 2000, a Lavradores de Feitoria, é uma espécie de cooperativa que resultou da união de 15 proprietários de quintas distribuídas pelo Douro, repartidas pelas suas três sub-regiões. Este foi o primeiro "Três Bagos Reserva" lançado no mercado, ligeiro upgrade face ao que talvez fosse o vinho-bandeira da casa, e levou 90 pontos da Wine Spectator logo no primeiro ano em que saiu para o mercado. Começava a desenhar-se uma tendência!

Na sua elaboração, foram utilizadas uvas das castas Tinta Roriz, Touriga Nacional e Touriga Franca, provenientes de cepas moderadamente velhas, com mais de 30 anos. Metade do lote final estagiou em inox e a outra metade em madeira, durante onze meses: desse, metade evoluiu em barricas de carvalho francês, novas, e o restante em barricas de segundo ano.

A caminho dos cinco anos de idade — não é segredo que existem pressões económicas, de mercado, que levam os vinicultores a ter certa pressa em lançar os seus vinhos, bem como a fazê-lo todos os anos, e que o comprador, caso se limite a comprar e consumir as novidades, dificilmente vai apanhar tintos no ponto — pareceu-me num muito bom momento, talvez o melhor a que possa almejar no decorrer da sua vida.

Robusto, apesar de não propriamente "full bodied", encontrei-o firme e cheio de sabor. Sem explodir, mostrou boa fruta vermelha, junto com o toque campestre, de mato baixo, que com um pouco de boa vontade conseguiremos reduzir a "esteva", típico do Douro, com toque de baunilha e fumado, em jeito de tempero. O paladar, seco, apresentou boa acidez e taninos arredondados — lendo o que outros escreveram ao prová-lo mais novo, sou levado a crer que por efeito do tempo em garrafa. Com a oxigenação advinda do passar do tempo no copo, especiarias e um ligeiro vincar das marcas da permanência em madeira. Final razoável, a dar para o longo. Bom!

9€.

16

quarta-feira, 28 de março de 2018

Tons de Duorum '2016

Duorum, projecto cujo nome é um termo latino que significa "de dois" e ao mesmo tempo remete por similaridade a "Douro", surgiu em Janeiro de 2007, a partir da vontade de dois reconhecidos enólogos nacionais, João Portugal Ramos e José Maria Soares Franco, de desenvolver uma parceria vinícola exclusivamente dedicada ao Douro.

Este vinho, tinto de entrada da casa, consiste num lote composto por 50% de Touriga Franca, 30% de Touriga Nacional e 20% de Tinta Roriz, de cepas implantadas em terreno xistoso, a cerca de 400 metros de altitude, na Quinta de Castelo Melhor, propriedade localizada à beira da espectacular EN 222, pouco antes da cortada para a localidade que lhe empresta o nome, quando se segue no sentido de V.N. de Foz Côa para Almendra. O mosto, de uvas desengaçadas, sofre uma maceração a frio antes de fermentar em cubas de inox, sendo parte do produto final estagiado, seis meses, em barricas de carvalho francês de segundo e terceiro ano.

Provado, não me pareceu diferir muito dos seus predecessores, que, apesar de aqui nunca terem sido comentados, já me vieram parar à mesa umas quantas vezes: aromas e sabores limpos e jovens, de projecção mediana, mas suficiente face ao corpo do líquido, é um vinho simples, com especial incidência na fruta silvestre, mais vermelha que preta, completada por um toque floral típico, certamente trazido ao conjunto pelas Tourigas, e um tempero de barrica que se revela sob a forma de muito ligeiro abaunilhado. Macio e equilibrado (acidez mediana, 13% de teor alcoólico), está pronto a beber e não será expectável que dure muitos anos.

Nestes vinhos de grande tiragem, é desejável a definição de um perfil que vá de encontro às expectativas do público-alvo, e que se consiga manter esse perfil, traço comum e característico, que cimenta a imagem de uma marca ao longo do tempo, não obstante as diferenças entre edições que, ditadas pela natureza, acabam por reforçar o carácter do produto enquanto coisa única. Afinal é vinho, não refrigerante gaseificado com sabor a noz-de-cola. Muitas vezes, encontrar esse perfil "para manter" pode demorar tempo, o que aparentemente não aconteceu aqui. Provavelmente, tendo em conta o produto final, ainda bem.

A garrafa foi enviada pelo produtor, que recomenda um PVP de 4,49€.

15,5

domingo, 25 de março de 2018


Mysteriously enough, not only is there a large number of particles in the visible universe, but the basic laws themselves display large numbers. According to modern physics, there are four fundamental interactions between particles: the electromagnetic, the gravitational, the strong, and the weak.

The electromagnet interaction holds atoms together, governs the propagation of light and radio waves, causes chemical reactions, and prevents us from walking through walls and sinking through the floor. In an atom, electrons, with their negative electric charges, are prevented from flying off because of their attraction to the positive charges carried by protons located in the nucleus. The gravitational interaction keeps us from flying off into space, holds planetary systems and galaxies together, and controls the expansion of the universe. The strong interaction holds the nucleus of the atom together, the weak causes certain radioactive nuclei to disintegrate. Although of fundamental importance in nature's design, the strong and weak interactions do not appear to play a role in any phenomenon at the human scale. As we saw earlier, all four interactions play crucial roles in stellar burning.

As the names strong and weak suggest, one interaction is considerably stronger than the electromagnetic interaction, the other considerably weaker. But most dramatically, the gravitational force is far, farf weaker than the other three. The electric force between two protons is stronger then the gravitational attraction by the enormous ratio of 1 to about 10^38, another absurdly large number.

ironically, we are normally most aware of gravity, by far the most feeble force in nature. Although the gravitational attraction between any two atoms is fantastically small, every atom in our bodies is attracted to every atom in the earth, and the force adds up. In this example, the incredibly large number of particles involved compensates for the incredible weakness of gravity. In contrast, the electric force between two particles is attractive or repulsive according to the signs of the electric charges involved. A lump of everyday matter contains almost exactly an equal number of electron and protons, so the electric force between two such lumps almost cancels out.

Anthony Zee, "Fearful Symmetry: The Search for Beauty in Modern Physics"
Princeton University Press, 2016

quinta-feira, 22 de março de 2018

Cistus '2014

Com o seu último representante a ser um exemplar da colheita de 2007, aqui partilhado em Agosto de 2010, convenhamos que os "colheita" da Quinta do Vale da Perdiz, de Torre de Moncorvo, têm sido vinhos muito mais bebidos que falados por estas bandas. O que não lhes faz jus, dado que constituem propostas de excelente qualidade para o preço que custam — tendencialmente simples, mas que oferecem sempre "algo mais" que apenas a correcção esperada.

Este tinto, que caminha para os quatro anos de idade, continua sem evidenciar sinais de cansaço, muito pelo contrário. Em primeiro plano, fruta, silvestre, misturada e por conseguinte indefinida, mas atraente, boa, tendencialmente negra, mau grado algum toque de acidez "vermelha" que o nariz teimasse em apontar, e com ela, mato e barrica, mais que simples "overtones", por vezes a quererem sugerir camadas.

A acidez, mais vincada que o habitual nos tintos do Douro da sua gama de preços, e a estrutura bem definida, com taninos ainda vivos, confirmaram a ideia de vinho robusto, capaz de aguentar mais uns anos em garrafa. Fim de boca médio +.

Acompanhou entrecosto grelhado e pão: coisas simples.

4€.

15,5


segunda-feira, 19 de março de 2018

Evel '2014

Feito com fruta das vinhas localizadas nas quintas das Carvalhas, dos Aciprestes e do Cidrô, localizadas no Pinhão, vale do Tua e S. João da Pesqueira, respectivamente, é uma das propostas de entrada de gama da Real Cª Velha, que representa, também, uma das mais antigas e reconhecidas marcas de vinho portuguesas, registada em 1913. A título de curiosidade, o nome "Evel" não tem significado para além daquele que resulta da leitura do seu anagrama, leve, a fazer alusão a uma das características organolépticas que o produtor sempre pretendeu que definisse o seu estilo.

Bastante concentrado e elegante, revela substância, estrutura e um frescor que não me lembro de encontrar nas suas edições anteriores que experimentei. Tem boa fruta, tendencialmente vermelha, ameixa e cereja amarga, especiarias com toque apimentado, ligeiro verdor e, com o passar do tempo no copo, tabaco e chocolate. Termina médio/longo. Não me pareceu desmerecer os 90 pontos que levou da Wine Spectator e, para o preço, está extraordinário.

Tornou-se relativamente comum encontrar vinhos classificados com 90 ou mais pontos por publicações de referência, a menos de 5€ por garrafa, nas prateleiras dos supermercados. E é interessante como, se em alguns casos, essa classificação, por "excessiva", parece recurso de marketing, noutros aparenta servir como uma luva ao que está dentro da garrafa. A isto não será alheia a evolução, expectável, das práticas enológicas... e isto, se calhar, vai obrigar-nos, a nós que brincamos aos opinion makers e aos opinion makers que brincam às provas, a redifinir a bitola. Não digo que, à imagem do que tem vindo a acontecer com o Elo no xadrez, exista inflacção no rating: prefiro acreditar no aumento da qualidade. Gostos à parte, não digo que um "90" de há uma dúzia de anos atrás fosse necessariamente melhor que um "90" de agora: espero, simplesmente, que caminhemos para novos "100", com tudo o que possa vir atrás.

4€.

16,5

terça-feira, 13 de março de 2018

Beyra — Riesling '2016

Produzido por Rui Madeira, um Riesling da Beira Interior!

Proveniente de Vermiosa, Figueira de Castelo Rodrigo, fermentou e estagiou em inox, com "bâtonnage", até ao engarrafamento: 6650 garrafas que se encheram no final de Janeiro de 2017.

Foi com queijo "Braz", da Covilhã, com manchego velho,  deste, e com o mítico patê "La Charra", de Ciudad Rodrigo. A uni-los, pão "grande", com sementes, do Lidl.

Inicialmente muito frio e por conseguinte pouco expressivo, cresceu com o passar do tempo no copo e trouxe consigo banana, physalis e aromas lácteos, a fazer lembrar iogurte.

Redondinho, de textura amanteigada, com a acidez e a projecção do sabor a mostrarem-se mais no final (bastante persistente) que no ataque.

Uma curiosidade interessante!

9€.

16

sábado, 10 de março de 2018

Grego — Garnacha Centenaria '2015

Feito com uvas de diversas parcelas, não especificadas pelo produtor, que se presumem muito velhas, pretende ser um Garnacha de montanha "low cost", produzido nos limites da denominação "Vinos de Madrid".

Sem mais delongas, até porque este espécime não apresenta predicados que o justifiquem, a prova:

Cor rubi, escura, de opacidade mediana. O aroma surgiu dominado por frutos vermelhos — nenhum em concreto — e suas guloseimas, com toque de flores e algo que inicialmente me pareceu lácteo, ou talvez barrica, mas que acabou por me parece um pontinho verde, vegetal.

Sem grande estrutura, e também sem esconder que dela ainda há algo por amaciar, acabou por se mostrar bastante fresco para os seus 14,5% de álcool, com sabor agradável, de persistência mediana, marcado por ligeiro amargor, típico, ou talvez melhor dizendo, comum, mas de que gosto.

Apesar de bem feito, falta-lhe a profundidade, a concentração e até a alegria que fazem um grande garnacha de montanha. As limitações começam logo na matéria prima, ponto final. Mas deixa perceber, por alto, o que é um vinho do género. E para o preço, não está mal.

6,50€.

15,5

domingo, 4 de março de 2018

Quinta de Chocapalha '2011

A Quinta de Chocapalha é uma propriedade que data do sec. XVI, situada próximo da Aldeia Galega da Merceana.

Este é o tinto básico da casa, composto na colheita de 2011 por 45% de Touriga Nacional, 20% de Tinta Roriz, 15% de Touriga Franca, de 10% Castelão e 10% de Alicante Bouschet, fermentado em lagares e estagiado durante 18 meses em carvalho francês.

Um vinho que surpreendeu.

Eminentemente generoso na fruta madura, escura, preta mesmo, com toques de flores e caramelo, chocolate e café, tostados e apimentados, mostrou-se jovem, complexo e concentrado, de estrutura rica e flexível, cheia de substância, mas substância alegre, de trato fácil, sem exageros.

Longo e equilibrado q.b, provavelmente no ponto óptimo de consumo, foi, enfim, uma maravilha de beber.

Acompanhou uma feijoada de javali, deliciosa, que levou, entre outras coisas, fritada do Mercadona, grelos de couve e courgette espiralizada.

8€.

17

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Murganheira — Super Reserva, Bruto '2008

A marca pertence à Sociedade Agrícola e Comercial do Varosa, que tem as suas caves em Ucanha, Tarouca.

O lote é comporto por Malvasia Fina, Cerceal e Tinta Roriz (vinificada em branco).

Bastante cheiroso, evocou maçã amarga, fermento e massas de pastelaria, pipocas e pinhões, baunilha e manteiga — bastante complexo, mesmo.

Com acidez generosa, mousse leve mas correcta e final agradável, foi, muitas vezes repetido, o melhor espumante que abri nos últimos meses.

Este tem uma história pessoal: Disse-o muitas vezes repetido por ser o espumante dos nossos serões nocturnos, ao frio, quando as outras pessoas não querem estar na esplanada do Alegro.

Ao longo de meses, habituámo-nos a encontrar lá um gato que fizera do lugar poiso habitual, como se fosse sua casa, de tal forma que uma das empregadas do shopping já lhe deixava taças com comida e água num certo canto, meio escondido, da esplanada.

Em Dezembro passado, o gato pareceu doente à S. Coriza, talvez. Nessa noite, teve direito a fiambre e chourição. Em Janeiro já não o vimos, nem às coisitas dele. Pensámos que tinha morrido.

Mais tarde, a S. perguntou por ele à empregada que o costumava alimentar e constou que afinal ainda vivia, simplesmente aparecia menos.

Mas esses nossos serões a espumante e snackzitos vis não voltaram a acontecer.

11€.

16

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Quinta do Infantado — Reserva '2008

tanto tempo que aqui não comentava nenhum vinho da Quinta do Infantado! Não me afastei deles: simplesmente, hoje em dia há tanta diversidade de oferta, tantas novidades, tantas propostas de outras paragens, que um indivíduo acaba sempre por deixar algo para trás e esse algo costuma ser, mais frequentemente do que devia, concedo, os seus clássicos pessoais, aqueles que sempre estiveram e nunca enganaram.

Este "reserva" é o topo de gama do produtor no que concerne a tintos secos. Foi vinificado em lagar, com pisa a pé, e estagiou, 14 meses, em cuba e barricas de carvalho. Abri a garrafa nº 3824 de 8799 (e 212 magnum) que se encheram a 20 e 21 de Maio de 2010.

Vinho de enorme estrutura e concentração, mostrou-se também muito fluido, muito elegante, fresco e bem proporcionado, coisa que não é trivial num Douro deste porte e idade! Rico em fruta, negra, bem definida, e perfumado com notas de café e seu licor, tostados, pimentas e outras especiarias, é complexo, interessante, bonito.

Talvez por ter sido consumido de uma vez, levou-me a uma frase antiga: "fechou-se para fora, mas derramou-se para dentro".

Acompanhou pintada assada.

27€.

18

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018


Early Learning Set

When you first went to kindergarten, grade school,
this matter of learning letters and numerals seemed to be a big insurmountable task.

E: Now here you are merely taking the learnings that the person already has and applying them in other ways. But you're not creating anything new.
R: You're utilizing a learning set that already exists in the patient. It is a learning set that you're evoking by this particular induction.
E: Yes.


Truisms as the Basic Form of Hypnotic Suggestion

To recognize the letter A
to tell a Q from an O was very, very difficult.
And then too, script and print were so different.
But you learned to form a mental image of some kind.
You didn't know it at the time, but it was a permanent mental image.

R: You are using a series of very obvious truths, truisms, as suggestions here. As you speak of these early experiences, your words tend to evoke early memories and may facilitate an actual age regression in some subjects.
E: Yes. Suggestions are always given in a form that the patient can accept easily. Suggestions are statements that the patient cannot possibly argue with.


Internal Imagery

And later on in grammar school you formed other mental images of words or pictures
of sentences.
You developed more and more mental images without knowing
you were developing mental images.
And you can recall all those images.
(Pause)

E: The average hypnotherapist says, "Look at this spot," and tries to focus the patient's attention to the spot. But it is easier to deal with the images the person has in his mind.
There's a large variety of images in his mind, and he can slip easily from one to another without leaving the situation.
R: So internal imagery is therefore much more effective in holding attention.
E: Some external thing has no real value to them, but the images they have within are of value. Furthermore, you're only talking about what did occur in their past. It is their past and I'm not forcing anything on them. They did learn the alphabet, their numerals. They did learn many, many images. They can be pleased and select any image they want.
R: Far from arousing resistance, you're actually on their side in sympathy with them. You sympathize with their difficulty in learning, so you align yourself with the patient's difficulties.
E: That's right. And you know from your own experience it was hard.
R: With all that early accomplishment you're tapping, you also arouse their motivation for their current work in hypnosis.


Relations of Consciousness and Unconscious

Now you can go anywhere you wish, and transport yourself to any situation.
You can feel water
you may want to swim in it.
(Pause)
You can do anything you want.

E: This sounds like a great deal of freedom, but note I have given the suggestion to "transport" your consciousness to another situation. It can be any place you wish. It will probably be associated with water and you can do anything you want, but your consciousness need not be focused here in the therapy room.


Unconscious Functioning: Allowing the Conscious Mind to Withdraw

You don't even have to listen to my voice
because your unconscious will hear it.
Your unconscious can try anything it wishes.
But your conscious mind isn't going to do anything of importance.

E: The patient is not paying attention to me with his conscious mind, but the unconscious will pick up what I'm saying.
R: So your method gets directly to the unconscious without the intervention and distortion of consciousness.
E: Sometimes patients will later say, "I wish you had let me stay in the water or the garden longer."
R: So being in an "inner garden" is a way you have of holding their conscious attention. You're having their conscious attention focused on an internal image just as watching a spot focuses their attention on an outer image. But being absorbed in an internal image is much more effective for focusing attention.
E: Much more effective!
R: And while they are so absorbed, their consciousness is distracted so you can make suggestions directly to their unconscious.
E: They are far more interested in the conscious things. They are not paying attention to what I say consciously. They are paying attention unconsciously, so there is no interference from consciousness.
R: That's the important use of images: they bind a person's conscious attention while you make other (e.g., therapeutic) suggestions directly to their unconscious.
E: And it is very important for a person to know their unconscious is smarter than they are. There is a greater wealth of stored material in the unconscious. We know the unconscious can do things, and it's important to assure your patient that it can. They have to be willing to let their unconscious do things and not depend so much on their conscious mind. This is a great aid to their functioning. So you build your technique around instructions that allow their conscious mind to withdraw from the task and leave it all up to the unconscious.
R: You don't want them to have conscious control but to allow their unconscious to function smoothly by itself.
E: And then the results of that unconscious functioning can become conscious. But first they have to get beyond their conscious understanding of what is possible.


(...)
Downgrading Distractions

There is nothing really important
except the activity of your unconscious mind,

E: That down grades traffic sounds or any other outside distractions without emphasizing that there are outside distractions. They can then apply this downgrading to whatever irrelevant stimuli that might be intruding.
R: You don't project your distractions on the patient and you don't even suggest there are distractions. But if there are distractions this phrase helps the person to downgrade them.


Implication and Illusory Freedom in the Dynamics of Suggestion

and that can be whatever your unconscious mind desires.

E: This is an example of what Kubie calls "illusory freedom." The person has a very great subjective feeling of freedom of choice, but actually I hold my subject to the task at hand through subtle directives and implications. For example, in the above I did say, "You can go anywhere you wish," but then I did define a place: water.
R: So the art of giving suggestions is to give careful direction, but you let the person have a certain illusion of freedom within the framework you have constructed.
E: When I earlier said, "Your unconscious can try anything it wishes," it sounds as if I were giving freedom, but actually that word "try" implies the opposite. The word "try" implies a block. You use the word "try" for your own purpose when you want to imply a block.
R: Use of the word "try" at that point actually blocked or tied up the unconscious until it received further directives from you.
E: Then when I say, "Your conscious isn't going to do anything of importance," it implies that your unconscious will do something of importance.
R: And the unconscious cannot do anything it wishes because you have already tied it up. In sum, this implies that the unconscious is going to do something important, and it's going to be what you suggest.

Milton H. Erickson, Ernest L. Rossi & Sheila I. Rossi,
"Hypnotic Realities: The Induction of Clinical Hypnosis and Forms of Indirect Suggestion"
Irvington Publishers, 1976

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Breca '2012

As vinhas que deram origem a este monovarietal Garnacha das Bodegas Breca, de Munébrega, terra situada no Sul da denominação de origem Calatayud, foram plantadas entre 1925 e 1945, em solos pobres, de ardósia vermelha e preta, com veios de quartzo, cerca de 900m sobre o nível do mar.

O produtor afirma que tanto a intervenção humana na vinha como a vinificação foram minimalistas, com fermentação alcoólica em tanques abertos e maloláctica em barris de carvalho francês, de 500 e 600 litros, a que se sucederam 18 meses de maturação, em contacto com as películas.

Vermelho muito escuro, mas não opaco, é um pequeno monstro de concentração, guiado por 15,5% de álcool impecavelmente integrado.

O nariz é intenso, com flores e cerejas maceradas, reminiscências agradáveis de químicos aromáticos, farmácia, café, torrefacção, barrica... Bastante complexo, e coeso também, a apresentar-se de forma bem bonita.

Volumoso e persistente na boca, não mostrou o toque de amargor que por vezes surge nos varietais da casta. De estrutura já perfeitamente madura, poderá aguentar mais uns tempos em cave, mas é para beber.

Apesar de super bem feito, será mais apreciado por aqueles que gostam de vinhos potentes.

Brilhou com um solomillo al horno, feito no estilo deste.

16€.

17,5

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Gigondas La Cave — Réserve de la Camprière, Vacqueyras '2014

Vacqueyras é uma denominação de origem francesa, situada no Sul do Ródano, ao longo das margens do rio Ouvèze.

Este, produzido por Gigondas La Cave, consiste num lote composto por 63% de Grenache, 24% de Syrah e 13% de Mourvèdre e Cinsault.

O produtor refere ter sido feito com desengace total e fermentado a temperatura controlada, após maceração. Não terá passado por madeira.

Granada escuro. Nariz sólido, generoso mas também circunspecto — dissecando: amora, cereja amarga e um toque de especiarias.

Harmonioso na boca, num registo potente, com boa acidez, bastantes taninos, 14% de álcool bem integrado e volume mais que satisfatório. Termina médio/longo, com  notas de cacau.

Não encanta, não explode, mas cumpre muitíssimo bem. Amigo da mesa!

7€.

16

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Freixenet — Excelencia, Brut

Cava é uma denominação de origem espanhola, catalã, para vinhos espumantes produzidos segundo o método tradicional.

Este mostrou-se discreto na cor e vivacidade, com aromas a maçã assada, massas lêvedas, frutos secos e ligeiro tostado, e sabor fresco, de volume satisfatório, com um ponto agradável de cremosidade. Persistência mediana. Se a bolha tivesse mais vivacidade...

O produtor dispensa apresentações. Do contra-rótulo: "Este Cava es un clásico por excelencia. Ha sido elaborado suguiendo rigurosamente em método tradicional empleando vinos procedentes de las uvas más características de la región del Cava: Xarel-lo, Macabeo y Parellada".

Acompanhou salmão fumado, pão e creme de queijo com alho e ervas.

6€.

15

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Quinta dos Termos — Espumante Bruto, Fonte Cal '2013

O nosso consumo de espumante aumentou consideravelmente no último ano por ser dos poucos vinhos que é possível beber com a S. — por outras palavras, dos poucos que ela ainda aceita. Ao mesmo tempo, se primeiro os estranhava, fui aprendendo, com o tempo, a gostar deles, talvez por familiaridade, e agora afirmo, sem qualquer reserva, que um bom espumante me cai bem.

O de que cuida o presente post, branco e bruto, da colheita de 2013, foi feito exclusivamente com a casta Fonte Cal, o que o torna uma espécie de raridade: haverá mais algum no mundo com tal predicado?

No nariz, primeiro, dei conta de flores brancas e amarelas, rasteiras — ragadíolos, malmequeres e outros que tais, junto com o que me pareceu ser o cheiro de leveduras frescas. Depois, sugestões esmaecidas, claro está, mas límpidas no sentido de que sugeriam o que sugeriam e não poderiam sugerir outra coisa qualquer: jeropiga, ginja e o recheio daqueles infames bombons da Ferrero que são comercializados sob a marca "Mon Cheri".

Ao mesmo tempo, ia-se fazendo notar fresco e seco, seco não só no sentido da ausência de doçura, mas também na textura, coisa difícil de descrever, que me sinto inclinado a deitar no fundo saco da mineralidade. Só que nem tudo são flores: a bolha podia ser mais viva e fina, a mousse podia ser mais fofa, e o final, engraçado pelas notas de pistácio que trouxe consigo, muito mais persistente.

Enfim! Original, é. Interessante, também. Mas não muito mais que isso.

8€.

15,5

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Decididamente, tener tres años no traía nada bueno. Los nipones tenían razón al situar en esa edad el final de la edad divina. Algo —¡tan pronto!— se había perdido, más valioso que todo y que no se recuperaba jamás: una forma de confianza en la perennidad benevolente del mundo.

Les había oído comentar a mis padres que pronto iría al parvulario japonés: una intención que sólo auguraba desastres. ¿Cómo? ¿Abandonar el paraíso? ¿Unirme a un rebaño de niños? ¡Menuda ocurrencia!


Y había algo más grave. Incluso en el mismo seno del jardín, se detectaba cierta inquietud. La naturaleza había alcanzado una especie de saturación. Los árboles eran demasiado verdes, demasiado frondosos, la hierba era demasiado rica, las flores explotaban como si se hubieran alimentado demasiado. Desde la segunda mitad del mes de agosto, las plantas rebosaban del mohín ahito de la mañana siguiente a una orgía. La fuerza vital que yo había experimentado, contenida en cada cosa, se estaba convirtiendo en pesadez.


Sin saberlo, veía revelarse dentro de mí una de las leyes más terribles del universo: lo que no avanza retrocede. Existe el crecimiento y existe la decadencia; entre ambos no hay nada. El apogeo no existe. Se trata de una ilusión. Así, no había verano. Existía una larga primavera, un aumento espectacular de las savias y de los deseos: pero a partir del momento en que aquel crecimiento terminaba, comenzaba la decadencia.


A partir del quince de agosto, la muerte gana la partida. Es cierto que ninguna hoja da la menor señal de chamuscarse; es verdad que los árboles siguen siendo tan frondosos y que su inminente alopecia resulta inimaginable. Las plantas abundan más que nunca, los arrietes prosperan, todo huele a edad de oro. Y, sin embargo, no se trata de la edad de oro, por la simple razón de que la edad de oro es imposible, por la simple razón de que la estabilidad no existe.


A los tres años, no sabía nada de todo eso. Me hallaba a años luz del rey que, al morir, grita: «Lo que debe terminar ya ha terminado». Habría sido incapaz de formular los términos de mi angustia. Pero sentía, sí, sentía que se preparaba la agonía. La naturaleza había ido demasiado lejos: aquello escondía algo.


Si lo hubiera comentado con alguien, me habrían explicado el ciclo de las estaciones. A los tres años, uno no recuerda el año anterior, todavía no ha podido constatar el eterno retorno de lo idéntico, y una nueva estación constituye un desastre irreversible.


A los dos años, uno no se da cuenta de estos cambios y no les da ninguna importancia. A los cuatro, uno los detecta, pero el recuerdo del año precedente los banaliza y desdramatiza. A los tres años, la ansiedad es absoluta; uno lo ve todo y no comprende nada. No existe jurisprudencia mental que consultar para tranquilizarse. A los tres años uno tampoco tiene el reflejo de preguntar en busca de una explicación: uno no es forzosamente consciente de que los mayores tienen más experiencia, y puede que en eso no se equivoque.


A los tres años, uno es un marciano. Resulta apasionante pero terrorífico ser un marciano recién llegado a la Tierra. Uno observa los fenómenos inéditos, opacos. No posee ninguna llave. Hay que inventarse leyes a partir de estas únicas observaciones. Hay que ser aristotélico durante veinticuatro horas al día, lo cual resulta particularmente extenuante cuando uno nunca ha oído hablar de los griegos.


Una golondrina no hace verano. A los tres años, a uno le gustaría saber a partir de qué cantidad de golondrinas se puede creer en algo. Una flor marchita no hace otoño. Dos cadáveres de flores tampoco, sin duda. Eso no impide que la inquietud se instale. ¿A partir de cuántas agonías florales uno deberá, en su cabeza, activar la señal de alarma de la muerte en camino?


Cual Champollion de un creciente caos, me encerré a solas con mi peonza. Sentía que aquel objeto estaba en posesión de informaciones cruciales que ofrecerme. Por desgracia, no comprendía su idioma.

Amélie Nothomb, "Metafísica de los Tubos"
Ed. Anagrama, 2001

sábado, 27 de janeiro de 2018

Lapa dos Reis — Espumante Bruto, Pinot Noir, Rosé

Este espumante rosé, bruto, sem data de colheita, foi preparado por Maria Luísa D. Lapa dos Santos Reis, de Podentes, perto de Penela, a partir de uvas Pinot Noir, de cepas implantadas em socalcos de barro vermelho e cinzento, comum na região, e colocado no mercado após 24 meses em garrafa.

Cor salmão. Simples e fresco, trouxe consigo fruta verde, talvez maçã granny smith, e um toque de frutos vermelhos, cereja e algo mais, discreto e indefinido q.b. Definitivamente, não lhe consegui apanhar a expressividade tropical e citrina de que fala o contra-rótulo.

Na boca é seco e tem alguma vida, com acidez refrescante e um caudal regular de bolhas finas, mas nem muito compactas nem muito numerosas, que atingem a superfície do líquido sem formar uma coroa fofa ou persistente. Aliás, que atingem a superfície quase sem formar coroa alguma. Sem grande presença ou persistência — meh.

Um espumante que, "dentro do pouco", tem o seu equilíbrio. Mas não se peça a um Fiat 500 que dê 250 Km/h.

4€.

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