domingo, 17 de novembro de 2019

O haxixe afasta-me dos homens e das suas coisas, o álcool dá-me vontade de potência.

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Maritávora - Reserva Nº4 '2011

A Quinta de Maritávora fica ao km 88 da EN 221, à beira de Freixo de Espada à Cinta. O produtor remonta à segunda metade do séc. XIX, quando José Junqueiro Júnior, pai do poeta Guerra Junqueiro, adquiriu um conjunto de propriedades na região, muitas das quais percmanecem na família. O estilo é tradicional, mas voltado para a modernidade. Os vinhos são da autoria de Jorge Serôdio Borges.

Este, feito, de acordo com o contra-rótulo, com Touriga Nacional, Tinta Roriz, Touriga Franca e outras, provenientes de vinhas com idades compreendidas entre 15 e 50 anos, fermentou em lagares de pedra, com pisa a pé, e estagiou 18 meses em barricas de carvalho francês. Mais uma vez, recorde-se que 2011 foi um grande ano.

Escuro e concentrado, mostrou densidade, 15% de álcool e alguma opulência. No entanto, a fruta é super sólida e a barrica funciona, pelo que, em vez de pastoso, resulta envolvente, fácil de beber e não enjoa.

É claramente um vinho da sua terra, mas dos finos, dos bem cuidados. Ainda por cima, nesta fase, todo ele está em harmonia. Provavelmente, no auge. Valerá a pena guardar?

17€

17,5

domingo, 13 de outubro de 2019

Tapada do Chaves '2014 (Branco)

A propriedade de Frangoneiro, Portalegre, possui uma localização invejável, à beira da Serra de S. Mamede, cepas velhas e uma vasta história de muito bons vinhos.

Tendo, num passado recente, pertencido à Murganheira, foi adquirida, em 2017, pela Fundação Eugénio de Almeida, que tratou de valorizar, não só as coisas e os vinhos, mas tmbém a marca, apelando aos seus pergaminhos, a uma imagem retro e a um reposicionamento no mercado, um degrau acima daqueles que os respectivos predecessores ocupavam.

Este é, então, um branco de 2014, ainda feito nos tempos da Murganheira, mas já lançado no mercado pela FEA. As castas são Arinto, Antão Vaz, Assario, Tamarez e Roupeiro. Detalhes acerca da elaboração ou estágio, não aferi.

Cor palha. A princípio, indefinido. Pouca fruta. Mais arejado, agitado no copo, algum marmelo e o seu doce, a par de alguma tropicalidade. E flores. E notas químicas, petroladas, a fazerem lembrar, no seu conjunto, o solvente que tradicionalmente era usado pelos sapateiros para remover cola. Bom peso e untuosidade na boca, com frescura a corresponder, num conjunto ao mesmo tempo potente e equilibrado. Final médio+/longo, a perdurar na acidez.

Não nego que possua a sua dose de substância, beleza e até originalidade, mas, na minha opinião, não tem o brilho, o "factor uau" que espero de um vinho de 20€. Agora, se ainda viver daqui a 20 anos...

16,5

sábado, 5 de outubro de 2019

Breve passagem pela Feira do Vinho do Dão

A 28ª edição da Feira do Vinho do Dão teve lugar em Nelas, entre 6 e 8 de Setembro, e nós passámos lá na tarde do último dia, em desvio incluído num périplo "algo turístico" pelo centro-norte, que também contou com uma noite num festival de música electrónica chamado Insomnia, muito trance, muito buda dourado a expandir a consciência de não sei quem, talvez dos presentes, ou só de alguns, e algum speed, não posso dizer que muito, infelizmente, talvez, que foi o elemento que ajudou o evento musical a escapar. Isto em jeito de introdução a uma série de notas de prova, um mês depois de lá ter ido, publicadas agora para não acontecer como no ano passado, em que lá fomos e provei e falei tanto, e tanto apontei também, mas nada publiquei em tempo útil e o suporte informático dessas notas morreu, levando-as consigo.

A lista que se segue não é exaustiva e incide especialmente nos brancos. Isso acontece porque:

i. apesar de prova ser prova, com quantidades a corresponder, não andei por lá a cuspir vinho e, a dada altura, o cansaço começou a fazer-se notar: primeiro para apontar, depois até para beber;

ii. alguns dos expositores são sempre ocupados por grupinhos de "laretas", usualmente gente de meia idade e presumível seriedade, que faz questão de monopolizar os produtores ou os seus representantes com verdadeiras conversas de merda, de certeza que mais por atenção do que para aprender. Lembro-me de aguardar a minha vez para provar algo, já não sei em que barraquinha, mas de lá estar colado um senhor cheio de questões. Tantas, mas tantas, que, a dada altura, já iam, literalmente, na China. Digo, na penetração desse produtor no mercado chinês. E face a um simples "Para o Japão, já vendi umas caixas; agora, China, não. Mas está na China?" por parte do "entrevistado", o senhor em questão responde "não, nem nunca lá fui, mas..." e meio minuto depois estava a colar-se noutro expositor.

Dito isto, e sem mais delongas, por ordem de aquisição das notas, temos:

Quinta Mendes Pereira - Alfrocheiro Reserva '2012: O primeiro da tarde, apresentado por uma das pessoas mais simpáticas com que nos cruzámos no certame. Varietal e extraído q.b. Ginja e frutos pretos, licor, toque alcoólico, algo quente e capitoso. Grande e forte. Acredito que a 14 ºC e com algum tipo de companhia de trincar, digo, até um simples pão com chouriço, tivesse mostrado mais. 16

Quinta das Marias - Alfrocheiro '2016: Mais fresco e equilibrado que o precedente -- muito bem dimensionado, aliás -- mas sem "factor uau". 16,5

Aqui decido começar a experimentar brancos, na expectativa de, mais tarde, voltar aos tintos. Mais uma vez, estava em passeio, não tendo definido um método de ataque ao "problema"...

Quinta das Marias - Encruzado: Não apontei o ano: provavelmente, a edição de 2018. Encruzado sem madeira, jovem, vegetal e floral, de paladar seco e carnudo, muito característico. 16,5  

Quinta dos Carvalhais - Branco Reserva '2017: Flores, citrinos, baunilha. 1+1+1=3. Mas fresco e longo. Prazeroso. 17

Quinta dos Carvalhais - Encruzado '2018: Muito carácter varietal, mas menos finesse do que esperava. 16

Casa da Passarella - Villa Oliveira, Encruzado '2018: Mais preciso que o monocasta da Qta. dos Carvalhais, com a madeira a ligar muito, muito bem com os aromas da casta. Muito fresco, bastante longo. Até ver, o melhor. 18

Quinta da Fata - Encruzado '2018: Menos "punch" que o Villa Oliveira, menos substância também. Mesmo assim, grande equilíbrio e classe num vinho fresco e longo, todo ele bem ligado. 17

Valedivino - Branco Reserva '2012: Muito delicadamente floral, com toque de evolução e sugestões que juraria de barrica, apesar de por lá não ter passado. Firme e estruturado, um branco sólido. 16,5

Quinta do Escudial - Encruzado: Outro a que não apontei o ano. Ademais, a internet não sabe de monocastas Encruzado recentes da casa. De qualquer forma, deixou óptima impressão, que passo a transcrever: Talvez mais vegetal/floral, mais leve e alegre que a maioria dos outros varietais da casta provados até agora. Bem fresco, com ponta de austeridade na boca que cai bem. 17 

Quinta dos Roques - Encruzado '2017: Gordo, glicerinado -- 50% do lote passou por madeira -- mas em equilíbrio. Grande e bom, mas prefiro um estilo mais leve. 16,5

Julia Kemper - Vinhas Seleccionadas, Blanc de Noir '2018: Um branco de casta tinta, todo ele Touriga Nacional,  fermentado em bica aberta: saem as cascas e películas, o sumo da polpa fermenta sozinho. Tem a estrutura e a acidez de um TN jovem, e o nariz de um bom branco da região, daqueles sem madeira, repleto de flores brancas, a evoluir para fruta de polpa clara. Muito interessante. Comprámos uma garrafa para acompanhar o jantar. 16,5

Depois do jantar -- na representação que o restaurante Retiro das Laranjeiras tinha no local, muito bom --, ainda provei mais um ou outro, mas já não tirei notas. Excepção para o Quinta da Vegia - Superior: Não apontei o ano. 2013? Potente, complexo, equilibrado, cheio de sabor. Um vinho grande que também é um grande vinho. Mas que certamente pedirá tempo, paciência e um acompanhamento à altura, na mesa. 18

Em suma, um belo evento, a pedir uma visita mais atenta no ano que vem.

sábado, 28 de setembro de 2019

Duorum '2018 (Branco)

Enviaram-me o mais recente branco do projecto duriense de João Portugal Ramos e José Maria Soares Franco. Duorum tem como base a Quinta de Castelo Melhor, situada ao km 216 da EN 222, entre V.N. de Foz Côa e Almendra: uma grande propriedade, construída de raiz, por junção de muitos pedaços de terra inculta, adquiridos para a constituir, que desce dos altos até ao rio. Segundo o produtor, as vinhas de onde proveio a matéria-prima para este branco, Rabigato, Gouveio, Arinto e Códega do Larinho, encontram-se a cota elevada, 400-500 metros sobre o rio. Indica ainda a respectiva ficha técnica que um terço do lote fermentou em barrica.

A prova mostrou um vinho de dimensões a apontar ao "médio +", com basta frescura e, acima de tudo, excelente equilíbrio. Longo e substancial, a revolver em volta de florais e frutos de caroço, mostrou-se sempre sóbrio, mas também interessante, como a querer remeter aquele que dele fala para palavras que podem ser difíceis: contido, elegante... e pior, mineral. Uma proposta realmente sólida de um produtor, para mim, ainda meio por explorar, e também mais um Douro branco que me pareceu "saber mais do que cheira". Será esta recorrência casual, advirá da procura meio inconsciente de um perfil ou serão as sensações que me fazem acreditar nela mero resultado de um chavão que "colou"? Sim: as coisas ditas, lidas, sugeridas, cheiram e sabem que se fartam. Como quando Frédéric Brochet pintou um branco de tinto e o deu a provar a 54 estudantes de enologia de Bordéus. O resto é história. Enfim, terei de experimentar algo declaradamente diferente para tirar as teimas.

PVP recomendado, 12,49€

17

sábado, 21 de setembro de 2019

Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo - Reserva "Terroir Blend" '2015

A propriedade fica na margem direita do Douro, à beira rio, pouco depois do Pinhão. Diante dela, mas do outro lado, ergue-se a Quinta do Pôpa. Apesar de o produtor ser recente, não falta tradição vinícola àquela terra e àquelas gentes. Ademais, o projecto surgiu, logo à partida, com dinheiro e ambição, o que é uma grande ajuda a que este tipo de coisas avance depressa e bem, como se tem vindo a verificar. Para além da produção de vinho, a quinta explora a vertente turística.

Touriga Franca, Touriga Nacional, Tinto Cão e Tinta Roriz. fermentou em cuba de inox e estagiou, meio ano, em madeira. Nariz bastante intenso, de ataque franco, com cerejas e frutos silvestres, muito maduros, mato seco e um químico/balsâmico peculiar, que para mim, já foi sinónimo de Douro e de tourigas, especialmente da francesa, mas que cada vez conoto mais com álcool. O paladar é fino, mas ao mesmo tempo vigoroso, seco, terroso e texturado, com acidez suficiente. O fim de boca convence sem admirar. Um vinho prazeroso, ainda com espaço para crescer. Apesar de não se destacar do "montão" de bons vinhos do Douro que existem entre os 10 e os 20€, é um bom vinho, que vale a pena conhecer.

15€

16,5

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Reguengos - Garrafeira dos Sócios '2011

Regresso ao porta-estandarte da CARMIM, Coop. Agrícola de Reguengos de Monsaraz, desta vez com um espécime da colheita de 2011. Figuram nesta caderneta de cromos os seus predecessores de 2001, bebido em 2010, e de 2004, bebido em 2014. Pelos vistos, tenho por norma consumir estes vinhos já com alguma idade.

Composto por 40% de Alicante Bouschet, 30% de Trincadeira e 30% de Touriga Nacional, diferencia-se dos seus antecessores supra na medida em que o Aragonês e Castelão deram lugar a Alicante e TN. Assim de cabeça, sem provar nada, desde logo se esperará um perfil floral diferente, caso exista, e uma presença globalmente menos alegre e mais robusta.

Arejado num decantador talvez durante hora e meia antes de ser servido, não só confirmou estas ideias, que reflectem mudança, como o fez enquadrado numa continuidade fixe. Continuidade fixe porque sempre associei o Garrafeira dos Sócios a longevidade e este, firme e fresco -- gosto de pensar que este par de descritores surge com uma frequência feliz, não como cliché -- surgiu, mais uma vez, bem jovem. Escuro e entroncado, extremamente sápido e aromático, aparece bem ligado, macio mas com estrutura para durar, dominado por fruta escura, passas de uva e figo, especiado indistinto, com qualquer coisa a fazer lembrar xisto em pano de fundo. Sabe ao que cheira, cheira ao que sabe e sabe com garra. Não sei se vai crescer, é possível; aquilo de que não duvido é de que, se guardado, ainda vá evoluir -- ou seja, mudar, sem ser objectivamente para melhor ou pior -- de forma interessante. Sou quase fã.

Acompanhou uma pintada com cerca de 1 kg de peso, que preparei da seguinte forma: a quatro colheres, das de sopa, de manteiga, juntei duas chalotas, uma colher, de sopa, de salsa, outra de cebolinho fresco, uma colher, de sobremesa, de alho em azeite, uma colher, de café, de estragão seco, sal e pimenta, e foi tudo bem moído e misturado. Esta massa foi introduzida entre a pele e a carne da ave, sobretudo nas coxas e peito, e também na cavidade. Polvilhado o exterior com mais sal e alguma pimenta preta, e massajado com um pouco de azeite, foi, em pyrex fechado, ao forno, pré-aquecido a 200 ºC, onde passou cerca de um quarto de hora. Volvido esse tempo, reduzi a temperatura para 180 ºC e deixei cozinhar mais quarenta minutos. Retirada a pintada do forno, escorreu-se, aproveitando-se o molho da assadura para dentro de uma caçarola, onde ferveu mais ou menos cinco minutos, até reduzir qualquer coisa, com vinho branco e um pouco de caldo. Foi para a mesa com batatas e courgette no forno.

18€

17

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Las Uvas de la Ira - El Real de San Vicente '2013

O nome remete à ideia de "vino de pueblo", o vinho da terra, de uma determinada terra, habitualmente feito pela cooperativa ou por um conjunto de agricultores locais. Aqui, a execução é totalmente diferente, mas este não deixa de ser, de facto, um vinho da terra, de El Real de San Vicente, povoação situada na zona este da serra de Gredos, no vale do rio Tiétar. Das uvas de três parcelas de Garnacha, com idades entre os 40 e os 70 anos, espalhadas pelas imediações do povoado, e cuja superfícia totaliza apenas 4 ha, resultaram 10.000 garrafas, nas quais o produtor, Daniel Jiménez-Landi, afirma pretender refletir as características do terroir local.

Garnacha de montanha, criada em altitude, alegre no nariz e austera na boca. Não é, no entanto, de carrasco que estamos a falar. Muito pelo contrário. O leque de aromas é amplo: em redor de muita fruta vermelha, sempre doce, axaropada e em batido de leite, vem alcaçuz, canela, pimenta, anis, almíscar e pêlo de mamífero pequeno, ligeira redução, com pau de fósforo... e nada se afigura como defeito, e tudo liga bem, com naturalidade. Na boca, a entrada é jovial e o final tem uma ponta de amargor característica. É fresco e persistente, de taninos densos e firmes, bem finos, e enxuto, ainda menos glicerinado, menos pesado do que esperava. Um vinho muito ao meu gosto, mas, à parte disso, objectivamente muito bom.

20€

17,5

sábado, 7 de setembro de 2019

Quinta do Cardo - Caladoc '2015

A Caladoc é uma casta tinta, cruzamento de Grenache e Malbec, criada em 1958 pelo botânico Paul Truel, responsável pelo surgimento de mais de uma dúzia de novas castas (como a Marselan, cruzamento de Grenache e Cabernet Sauvignon), no Domaine de Vassal, em Montpellier, lugar da colecção ampelográfica do Instituto Nacional de Investigação Agronómica (INRA) francês.

Este monocasta provém de uma parcela experimental, com 2 ha, da Quinta do Cardo, nas imediações de Figueira de Castelo Rodrigo. O produtor informa que "as uvas foram colhidas e seleccionadas à mão, transportadas para a adega onde foram prensadas inteiras durante 3 horas. Iniciou fermentação com temperatura controlada, o ultimo terço terminou em barricas de carvalho francês e estagiou durante 10 meses, com "batonnage" regular. Foram produzidas 2 176 garrafas".

Cor salmão, esmaecida, e aromas e sabores delicados, agradáveis nas notas florais, de frutos vermelhos e de vegetal seco, mas, por um lado, com certa falta de "punch", e por outro, com demasiada madeira. Pensei, inicialmente, que esta falta de brilho se pudesse dever à idade, mau grado não apresentar (por enquanto) grandes sinais de decadência, mas, pesquisando a internet sobre que tal o acharam outras pessoas, encontrei basta quantidade de impressões, a vasta maioria delas de quando saiu para o mercado, nos idos de 2017, que conferiam neste ponto. O que faz sentido, dado pretender-se um rosé de perfil delicado: sendo o teor fenólico da casta considerável, presumo que a extracção tenha tido de ser suave. E para enriquecer a ruivita delgada, pau. Mas a dose deixou marcas.

Tl;dr: é uma curiosidade engraçada, mas não mais que isso; deverá ter sido um pouco melhor em novo; vai morrer com a madeira; se ainda tiver alguma garrafa em casa, beba-a já.

17€

15

terça-feira, 3 de setembro de 2019

CVNE - Viña Real, Crianza '2012

Produzido por um dos nomes mais sonantes da região, a CVNE, Compañía Vinícola del Norte de España, criada na localidade de Haro, em 1879, e ainda hoje nas mãos de descendentes dos fundadores, é um Rioja de estilo mais clássico que moderno. Ou seja: apesar de ser mais frutado, redondo e carnudo, e apesar de não ter qualquer vestígio do toque oxidativo que marca os clássicos dos clássicos da Rioja Alta, como este, por exemplo, é um vinho clássico dentro do registo da Rioja Alavesa, também ele orientado para a elegância e capaz de evoluir favoravelmente por longo tempo, pelo menos nas boas colheitas.

Feito com 90% de Tempranillo e 10% de uma mistura de Garnacha, Mazuela e Graciano, fermentou em inox e, após a maloláctica, foi transferido para barricas de carvalho, "principalmente americano", para usar as palavras do produtor, onde permaneceu 14 meses. De vários anteriormente provados, parece que aqui registei umas quantas impressões a respeito do de 2008.

Directamente do bloco de notas do telemóvel, aí fica que tal me pareceu. "Cereja. Pele, coco, especiarias. Viçoso. Intenso, de passagem macia e prolongada. Fresco, amplo, equilibrado e bastante longo. Macio, mas... Não sendo extraordinariamente complexo, encontro-o sempre cativante".

Para terminar, a nota, quiçá escusada, de que é um vinho de perfil muito bem definido, que não tem mudado muito de colheita para colheita, pelo menos na última década. E um valor sempre mais que seguro.

7€

17

sábado, 31 de agosto de 2019

Quinta do Sobral - Touriga Nacional '2013

O monocasta Touriga Nacional da Quinta do Sobral, de Santar, produtor fundado em 1997 e que desde 2002 conta com adega própria. O seu predecessor de 2011 passou por aqui e deixou boa impressão.

Muito intenso e encorpado, negro e alcoólico, com um leque aromático floral e balsâmico, farto de barrica e especiarias, onde definitivamente não falta álcool. Tudo nele contribui para um mesmo retrato de madurez e extracção, que remete para coisas escuras.

Mas bom! Apesar do ímpeto com que nos aborda, da densidade, da concentração, da passagem abrutalhada de coisa grande que parece querer ser ainda maior, é bom! Tem persistência, profundidade, carácter. Apetece dizer que tem alma.

Ao fresco da noite, com uma feijoada riquíssima, esteve super bem.

10€

16,5

domingo, 25 de agosto de 2019

Quinta de Cabriz - Touriga Nacional '2014

Touriga Nacional polido e concentrado, firme nos frutos pretos e notas florais, mas também bastante marcado por tostados de barrica. De taninos maduros e dimensões equilibradas, como que "médio+ em tudo", amplitude e persistência incluídos, não desmerece, mas também não marca. É ainda daqueles vinhos que mais frequentemente vejo de preço "esmagado" nas feiras e acções promocionais do género que a distribuição, em especial as grandes superfícies, promovem de tempos a tempos. Não, o preço normal dele, por garrafa, não é de 23000€ e agora, só agora, com a promoção espectacular deles, é que se consegue tirar a 6,50 ou 7€. 7/8€ é o seu preço normal, a mais de 8€ já é caro. Caveat emptor!

Acompanhou um prato simples, caseirinho, cortesia da S e que me deixou tão bem impressionado que apontei para aqui registar. Sem medidas, tudo a gosto. Refogou-se cebola. Juntou-se-lhe cenoura e courgette em fatias finas e, tendo os vegetais atingido o devido ponto de desenvolvimento, removeram-se para uma taça. Na mesma frigideira, usou-se uma grande e pesada frigideira de cerâmica, mas suponho que podia ser qualquer outra coisa baixa e larga, sem lavar, dourou-se pá de porco, picada no talho, com salsa, alho, sal, sambal oelek e pimiento choricero. Tendo a carne adquirido alguma cor, juntou-se polpa de tomate, que calhou ser daquela já vendida com manjericão, e um pouco de cerveja. Por fim, farinha de arroz para ajudar a engrossar. Estando tudo bem ligado e espesso q.b., juntou-se à taça dos vegetais. Entretanto cozeu-se e escorreu-se esparguete, que se colocou numa travessa funda, com a mistura supra por cima e, por fim, um generoso topping constituído por uma boa camada de mozzarella, primeiro, e outra de parmesão. Foi ao forno até o queijo derreter e ter corado qualquer coisa.

7€

16

sábado, 17 de agosto de 2019

Cimarosa - Winemaker's Selection by Christian Rojas '2012

Olho para os arquivos dos primeiros anos do Puto e impressiono-me com a naturalidade com que bebia e apreciava tintos encorpados e cheios de madeira em qualquer almoço de verão. Hoje em dia já não é assim. Mau grado a disponibilidade de soluções de climatização, com o calor, prefiro comer coisas simples, cada vez mais simples, na verdade, e tento acompanhá-las com vinhos à altura. Ou seja, que liguem.

Cimarosa é, ou era, a marca genérica dos vinhos do Lidl. O contra-rótulo deste apresenta a "Winemaker's Selection", colecção onde se insere, como um conjunto de vinhos produzidos e seleccionados, em quantidades limitadas, por vários produtores, de vários locais do mundo. Ou seja, esté um tinto do Lidl, mas de edição limitada a 99.800 garrafas, proveniente do Valle de Colchagua, no Chile, onde foi feito e selecionado por Christian Rojas, que na altura era enólogo-chefe da Viña Luis Felipe Edwards.

O lote é composto por Cabernet Sauvignon, Syrah e Carménère, com um anos de estágio em carvalho francês e americano. E sem ser nenhum estrondo, cumpre bem. Ainda não acusa muito o peso da idade, continuando super generoso, carregado de ameixa e frutos silvestres, todos bem maduros, naquele registo limpo e sumarento, com cacau e especiarias, temperado só com um bocadinho de barrica, que tanto marca as propostas mais mainstream do hemisfério sul. Há dois ou três anos atrás, estaria ainda melhor, que o lustro da juventude cai bem a este tipo de tinto. Mesmo assim, gordo e aveludado na boca, com certa sensação de calidez e um final médio+, acompanhou lindamente uma tarde de febras grelhadas, beringelas japonesas tratadas da mesma maneira, pimentos assados, salada de tomate e azeitonas, algum azeite a dar brilho a tudo e muitas rodelas de limão.

Não me lembrando exactamente de quanto paguei por ele, muito me surpreenderia se tivesse sido mais de 5 ou 6€.

16

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Beyra - Reserva Quartz '2017 (Branco)

Há muito, há cada vez mais tempo me lembro de ser comum apontarem a Beira Interior Norte, sobretudo a zona de Figueira de Castelo Rodrigo, como "the next big thing" em termos de brancos portugueses.

Ora, sem me poder considerar um especialista ou, sequer, um jogador activo no meio, apenas vendo o que vejo, arriscaria dizer que não há, nem é expectável que venha a haver tal coisa. A cena do vinho em Portugal aparenta já ter deixado de crescer por esticões: não quero dizer com isto que tenha parado de crescer ou esgotado o  seu potencial, evidentemente.

E, ou muito me engano, ou os brancos da região continuam a progredir, lenta mas consistentemente, bem como a ser comercializados por valores que não reflectem as suas verdadeiras qualidades. Embora este caminho até pareça bem, que devagar se vai ao longe, não deixa de ficar no ar a ideia de que fazia falta um esticão -- de repente, lembrei-me da Omega e de James Bond, ou, generalizando, de qualquer marca e de James Bond. Talvez os vinhos da Beira Interior Norte precisem de um James Bond ou algo assim.

Os vinhos deste projecto de Rui Roboredo Madeira nunca me desapontaram, mas este, combinação de Síria e Fonte Cal em partes iguais, com estágio de meio ano em cuba de inox, foi aquele que, até à data, me soube melhor. Muito bem no plano aromático, trouxe consigo flores silvestres e citrinos, pêssego e pêra, muita pêra madura, presença predominante pelo menos nesta garrafa. Na boca, sem encher ou assoberbar, aliás, sem grande "punch", surgiu pleno de vigor e perfeitamente consentâneo com o nariz.

É largo, comprido e profundo q.b. Cheira bastante, sabe bastante, e a coisas boas. Deve aguentar mais 2 ou 3 anos em forma, se bem guardado.

7€

16,5

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

D. Graça - Samarrinho '2015

Da Vinilourenço. É, nas palavras do produtor, "um vinho para reabilitar uma grande casta antiga do Douro, em vias de extinção". Não passou por madeira. Dele se encheram 733 garrafas, não numeradas, em Maio de 2016.

O aroma é suave (o descritor favorito do noob, heh) e delicado. Uma língua viperina di-lo-ia pouco expressivo. Cheira a vinho branco: talvez com uma pontinha cítrica, talvez com fruta branca, certamente que com uma ou outra flor, da mesma cor.

Na boca, pareceu melhor. O produtor diz que "sabe mais do que cheira" e sinto-me inclinado a concordar. Tem bom volume, boa persistência, alguma acidez, a suficiente se for mantido refrescado, o sabor que esperaríamos corresponder ao das flores brancas, sem o amargor das ditas, e, acima de tudo, bastante substância, bastante vida, uma vida difícil de dizer, mas que não é só querer e que o mantém interessante, tanto a solo como com pratos leves -- nós bebemo-lo só com amêndoas, amêndoas com uma pontinha de sal, lá no wine bar. Às vezes lá rola uma torrada e a salada de bacalhau deles também não é má, mas, normalmente, o vinho é branco, para a gaja também beber, e amêndoas. E é bom. E foi bom. E talvez pudesse encaixar um prato simples de camarão ou vieiras, mas coelho, como o produtor sugere, não sei.

A casta, que algumas fontes, como João Paulo Martins, no seu guia "Vinhos de Portugal", mas sem consenso, dizem corresponder à espanhola Budelho, já marcava presença no Douro, consta, no início do século XVI, sendo que ainda é presença frequente, apesar de esparsa, em alguns encepamentos mais antigos, em field blend, e tem vindo a verificar um certo ressurgimento, através de edições monovarietais limitadas, de tiragem reduzida -- que eu saiba, para além desta, existe também uma da Real Cª Velha. A ver o que o futuro lhe traz.

Se a memória não me atraiçoa, custou 17€, ou um pouco menos, no Nobre, Vinhos e Tal, que é um sítio espectacular para quem gosta de vinho, com uma excelente garrafeira a óptimos preços e que visitamos sempre que a nossa volta passa na Guarda ou perto.

16

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Adega Cooperativa de Vila Nova de Tazém - Reserva Branco "Edição Limitada" '2014

Adquirido há cerca de um ano atrás, entre festivais de electrónica, este é um branco relativamente incomum. Graficamente, tem tudo a ver com a edição especial dos sessenta anos da adega (1954-2014), da colheita de 2013. No contra-rótulo, o produtor afirma que "cepas antigas de várias castas permitiram fazer este vinho seguindo uma vinificação natural com estágio prolongado em garrafa". No meu caso, provavelmente, mais de quatro anos. Das 2000 garrafas produzidas, abri a nº 685.

A cor, um amarelo nem claro nem escuro, é a típica de um vinho de meia idade, nem velho nem novo. O nariz mostrou-se fechado e assim permaneceu enquanto a garrafa ia sendo vertida ao longo de uma calma refeição de carapau assado, batatas cozidas, brócolos ao vapor -- eu também preferia bróculos -- e, claro, bom azeite. Fruta bastante, indefinida mas pouco tropical. Algum vegetal, alguma transformação, idade.

E embora aquilo que mostrou no nariz não se possa considerar mau, insuficiente ou, sequer, anticlimático, acho que esteve melhor na boca, muito fresco, de paladar seco e firme, macio mas só muito ligeiramente untuoso, com bom volume e persistência. Em suma, um branco que, tendo atingido a maturidade, permanece muito bem apresentado e poderá justificar guarda adicional.

8€.

16,5

sábado, 27 de julho de 2019

Falua - Reserva '2017 (Branco)

Este branco faz parte da nova gama "premium" da Falua, vinícola Ribatejana que começou sob a batuta de João Portugal Ramos e agora faz parte do Grupo Roullier.

A amostra foi gentilmente enviada para prova, pelo produtor, há mais ou menos meio ano atrás. Encontrando-se o blogue em coma, foi arrumada. Agora que o monstro  voltou à vida, pareceu-me adequado consumi-la e deixar aqui umas linhas sobre ela. Talvez este não seja o timing mais esperado ou desejado para efeitos de comunicação, mas também é verdade que um vinho com estas características, e preço, não passa de bestial a besta em meia dúzia de meses, e que a divulgação, assim, espalhada no tempo, em vez de por picos de novidade, também tem o seu valor. Sim, sim, escrevi isto, votem no puto.

Muito sucintamente, encontrei este vinho citrino e carregado. Citrino e carregado na cor, nos aromas, onde também desponta certo floral, doce, indefinido, junto com tostados de barrica, e nos sabores, intensos e bons, em corpo de peso e volume não negligenciáveis, com alguma untuosidade e guiados por uma acidez que, apesar de sólida, firme, me pareceu portar-se melhor se ajudada, mantendo-se a temperatura reduzida.

É um bom vinho, um bom vinho com mais porte que amplitude, mais corpo que alma -- para a mesa, e mesa com substância, como peixe assado e outros que tais.

As castas são Arinto, Verdelho e Fernão Pires; o PVP recomendado pelo produtor, 13,50€.

16

quarta-feira, 24 de julho de 2019

Gran Tiriñuelo - Cepas Viejas '2017

Nome de presença recorrente na topologia salamantina, sempre associado a elevações do terrenos, onde muitas vezes os antigos faziam os seus túmulos, "tiriñuelo" poderá também ser, curiosamente, parece que por via desses mesmos túmulos, algo que se diz de um céu ao mesmo tempo nublado e tranquilo. Aqui, designa uma das referências da Bodega Cooperativa de San Esteban de la Sierra, fundada em 1959 e a primeira da região.

Tempranillo, Rufete e Garnacha. O Rufete desta região, especialmente o de cepas velhas, costuma dar vinhos muito ao meu gosto, de expressão alegre, com um carácter distintamente floral, onde habitualmente surgem toques de alcaçuz e mato seco. E este, dizem, provém de plantas com mais de cem anos.

Também a fruta vermelha da Garnacha se faz notar, num registo bastante típico, de montanha, bonito na forma abrutalhada com que nos brinda com uma ponta de amargor e taninos difíceis. E depois vem o Tempranillo, a dar um extra de cor e profundidade ao todo, talvez, mas como que a operar apenas nos bastidores, e não sei se bem.

Em suma, pareceu-me um vinho agradável que, não sendo nada de especial, constitui uma curiosidade engraçada.

7€.

15,5

sábado, 20 de julho de 2019


This study focuses on the content of Portuguese wine blogs and addresses two main questions: (i) which content and design elements of Portuguese wine blogs have more impact on the promotion of wine; (ii) how can we assess and improve the content and design quality of wine blogs.

(...)

Strong correlations were found between performance measures (posts, comments and traffic). In addition, it was found that one of the main marketing features that bloggers can offer was in rating wines. Presentation features, on the other hand, were found to account for very little
regarding the performance of the blog.

(...)

The Portuguese wine blog community is mainly non-professional ("amateur"), individualistic, and mono-thematic (focusing exclusively on wine-related issues). The high level of anonymity among members tends to deter credibility and reduce authorship. They can be considered a niche wine consumption community as they fulfill at least two main characteristics: connection among members and shared rituals and traditions.

(...)

Wine firms should recognize the growing importance of blogs and their use as a marketing tool. Different actions can be taken by the wine firm: i) adopt a corporate blog that provides strong control over message; ii) sponsor a blog that assures strong coverage of all the activities of the wine firm; and iii) insert a banner in a blog that allows the firm to control the form and content of the message and attract attention to the firm's online shop or web site.

(...)

These actions, however, raise questions about a blogger’s independent judgment and ultimate credibility in the long term. This doesn’t mean that bloggers should be passive regarding wine firms, public relations firms or advertising agencies. A proactive strategy should begin by: i) positioning the blog to appeal to an interested wine audience (amateurs, experts, bloggers or not); ii) gaining a competitive advantage over other wine bloggers through influence (newspapers, television, wine magazines) and dynamic posting activity; iii) promoting the blog through public relations or directly to selected wine firms in order to obtain exclusive news and bring advertisers to the blog; iv) increasing blog traffic to assure relevance in the blogsphere.


in Promoting wine on Internet: An exploratory study of the Portuguese wine blog community, de J. Freitas Santos, ISCAP/Porto Polytechnic Institute and NIPE/EEG/Minho University, Portugal

Não sabia, mas o Puto participou (fez número para efeito de recolha de dados) no estudo.

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Lacrau - Old Vines '2014

Mais uma das garrafas que tinha guardadas há anos e que recentemente presumi encontrarem-se num bom momento para o abate, esta é uma das propostas de referência da Secret Spot Wines. As uvas, indica o produtor, provêm de várias pequenas parcelas de vinhas muito velhas, em "field blend", localizadas em diversos pontos da região demarcada, sendo a vinificação feita na adega da empresa, poucos quilómetros a sul de Favaios.

E não me enganei: não só aparenta estar num bom momento para ser bebeido, como arriscaria não haver proveito em deixá-lo evoluir mais, mercê do sucesso da actual ligação da barrica, em expressão suave, a fazer lembrar madeiras aromáticas e especiarias, com um sumo que, por mais voltas que dê à memória, e tanto mais quantas mais dou, só consigo descrever como típico das vinhas velhas da região: denso, profundo, um pouco morno também, com flores e frutos pretos, esteva e mato seco, e ainda algo de solvente/químico aromático.

Gordo e envolvente, de acidez moderada, tem textura e sabor agradáveis e termina razoavelmente longo. Pelo seu perfil, poderá ser desafiante nesta altura do ano. Para um jantar mais substancial, de carne vermelha ou caça, ao ar condicionado ou no frescor da noite, se o houver.

16€.

17

segunda-feira, 15 de julho de 2019

O Puto já tem SSL. Não só na estrutura fornecida pelo Blogger, mas também nos posts que utilizam iframes para meter aqui conteúdos não directamente suportados pela plataforma, como as músicas e os jogos de xadrez em tabuleiros interactivos.

Substituir http por https no template foi fácil. Meter SSL a bombar na Heliohost, onde o código que faz tocar as músicas reside, idem -- e gratuito, veja-se aqui.

Também não foi difícil atualizar tooooodos os posts antigos para https, incluindo os links para imagens e assim, bastando para tal fazer download de uma cópia de segurança, em xml, de todo o blog, através da função que existe para esse efeito no painel do Blogger: "settings" > "other" > "back up content", substituir "http://" por "https://" onde devido (no Notepad++ é um doce: ctrl+h), apagar os posts originais, para evitar duplicados, e carregar a cópia de segurança modificada via "settings" > "other" > "import content". Infelizmente, este processo não guarda as etiquetas dos posts e altera os URL, pelo que, daqui para trás, as referências "do mesmo produtor, também bebi o de 1999, 2012 e 2013" foram todas à vida.

Em muitos browsers, o reprodutor das músicas -- Nifty player, em flash: mea culpa ainda não ter actualizado o recurso para algo mais actual -- não aparece até ser accionado, "por motivos de segurança", o que torna tudo um pouco menos bonito, mas permite a quem quiser, facilmente, continuar a aceder.

Ja quem tentar ver a maioria dos jogos de xadrez publicados via Chessbase 15 vai deparar com isto, se estiver a usar o Chrome...


... e gritos de alarme ainda mais sugestivos, caso use o Firefox...


... porque o servidor para onde o programa envia os jogos, e a partir de onde os exibe, www.viewchess.com, utiliza um certificado que foi atribuído a chessbase.com, e não ao domínio em questão, retornando um erro SSL_ERROR_BAD_CERT_DOMAIN. Ora, viewchess.com pertence, sem dúvida, à Chessbase, mas as máquinas são cegas e anda aí muito filho de muita mãe.

Reportei; que resolvam, se assim entenderem. E "prontos", é isto. O Puto ainda agora saiu do coma induzido e já está outra vez doente. E desta vez nem é culpa dele! MEH.

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Quinta da Bica - Vinhas Velhas '2011

A Quinta da Bica fica, poderá dizer-se, no chamado "Dão serrano", entre Arrifana e Santa Comba de Seia, não muito longe, para nascente, da Quinta do Escudial, e na direcção oposta, de MOB - Moreira, Olazabal & Borges.

Do mesmo produtor, falei aqui de um "Colheita" de 2005 e de um "clássico em estilo moderno" a que chamaram "Radix", de 2008, ambos consumidos em 2013 e que deixaram vontade de mais.

Diz o contra-rótulo deste espécime que a quinta "... está na nossa família desde o século XVII e desde então, se produz vinho aqui. A qualidade e singularidade dos vinhos da quinta, desde sempre reconhecidas, constituíram um forte estímulo para a criação da Região Demarcada do Dão em 1908, em que teve papel activo João Sacadura Botte, nosso trisavô". Refre ainda tratar-se de um "conjunto de castas autóctones, destacando-se Touriga nacional, Baga, Alvarelhão, Jaen e Rufete", de produção limitada aos anos considerados excepcionais e que "só entra no mercado após 5 anos de estágio".

A fruta, que comanda, é silvestre, escura, indiferenciada, qual tutti fruti de bagas, com toque terroso e certa rusticidade de montanha. Discreto nas especiarias e ainda mais na barrica, é um vinho fresco e extremamente palatável, cheio de firmeza e substância, mas também de leveza e fluidez. Sabe a autêntico e original -- um novo favorito do produtor.

Custou menos de 10€ e, para o preço, pelo que é e pelo que representa, está super bem.

17

domingo, 7 de julho de 2019

Quinta de Cabriz - Reserva '2012

Aberto no mesmo fim de tarde/princípio de noite que o anterior, em jeito de comparativo, este é outro produto do Dão e da Global Wines, mas proveniente de Carregal do Sal, um pouco mais a sul. Também ele um lote de Touriga Nacional, Alfrocheiro e Tinta Roriz, com nove meses de estágio em barrica, passou mais ou menos meia hora a tomar ar, dentro de um decantador, antes de ser levado para a mesa.

Vinho de cor escura e brilhante, mostrou, à semelhança do Santar, uma mistura, bem ligada, de frutos negros, terrosos, e barrica. E se o perfil da fruta podia ser mais diferente, provavelmente face à presença marcante da Touriga, aqui mais floral, mostrou-se a madeira bastante diferente, a incidir muito mais em fumados e abaunilhados, num retrato, para mim, mas se calhar só para mim, menos fino que o do outro.

Em todo o caso, está também ele um vinho adulto, com pele, especiarias e chocolate, bem dimensionado e bastante senhor de si -- não sendo um escaparate de substância, exibe, sem pudor, a que tem. Tal como o Santar, estará no seu melhor, não valendo a pena guardá-lo mais tempo, a menos que por curiosidade, que também é uma boa forma de nos candidatarmos a surpresas.

7€.

16

Casa de Santar - Reserva '2012

As vinhas deste produtor, que integra o universo Global Wines, ladeiam a N231, entre Santar e Vilar Seco. Foi feito com Touriga Nacional (julgo que predominantemente), Alfrocheiro e Tinta Roriz; li algures que passou nove meses em barrica antes de ser engarrafado. Deixámo-lo arejar mais de meia hora antes de ser servido.

De cor escura e brilhante, trouxe consigo o conjunto de fruta escura e madeira perfumada que tem vindo a pautar os Santar "Reserva" tintos ao longo das suas diferentes edições dos últimos anos. A fruta, savory, de doçura guardada e toque terroso, a fazer lembrar amora, groselha e outros que tais, conduz o conjunto. Apesar da idade, este vinho retém o perfil que tinha em novo, mas mais maduro, mais coeso, possivelmente tanto quanto poderá vir a estar no seu tempo de vida, as arestas na estrutura e acidez limadas pelo tempo. Chocolate, café, tabaco, menta e aquela tão característica barrica, tudo contribui para um leque de impressões que, não sendo extremamente amplo ou profundo, é equilibrado e, pelo menos para mim, francamente prazeroso.

O Casa de Santar "Reserva" é um vinho de perfil bem definido e ao encontro do qual se tem ido, com  as inevitáveis diferenças que a natureza vai ditando, de ano para ano. No entanto, mantendo-se a terra, os homens que o fazem e aquilo que eles querem face aos homens que o compram, essas diferenças têm-se revelado pequenas. E ainda bem, porque este é um vinho que, desde que o conheci, se tem mostrado uma aposta segura, não só pela sua qualidade objectiva, que é elevada, como pela minha predilecção pessoal por certas coisas que me mostra.

12€.

17

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Mar de Frades '2018

Albariño Atlántico, dizem eles. Ou o "nosso" Alvarinho, além-Minho. Fundado em 1987, o produtor de Arosa, Meis, tem a sua operação instalada em pleno Val de Salnés, a mais fresca e húmida das sub-regiões das Rías Baixas, localizada um pouco a norte de Pontevedra, e que é, segundo muitos, o lugar de origem da casta.

Adicionalmente, poderá afirmar-se que este é já um dos Albariño clássicos de Espanha e que o produtor se mostrou muito satisfeito com a colheita de 2018 -- mas também, se fosse apresentá-lo ao público a dizer que não...

Sem mais merdas, a mim, encantou-me. Vibrante de frescura, limonado, mas de limão maduro, raspa incluída, e salino. Sem ser excepcionalmente longo ou volumoso -- e até que ponto seria conveniente ao equilíbrio de um vinho com este perfil sê-lo? -- está tão bem conseguido, tão coeso e bem acabado, tão natural, que, sem exagero, o bebi como se de água se tratasse. No bom sentido da expressão.

Em suma, um novo favorito, que me deu um prazer que há muitos anos não encontrava em nenhum dos seus correspondentes elaborados do lado de cá da fronteira.

A forma como se portou com um bife de atum braseado, arroz thai, generosa porção de gari e uma salada, fresquíssima de tomate e pepino, tudo com bastante limão, deixou-me a ideia de ser o vinho perfeito para sushi. Em breve tirarei isso a limpo.

14€.

17,5

sábado, 29 de junho de 2019

Vale de Esgueva - Vinhas Velhas '2015

Este é um tinto de Vermiosa, Figueira de Castelo Rodrigo. Há muito que aprecio grandemente os vinhos desta zona, que espero que continue a crescer e venha a conseguir os maiores sucessos. Mas também há muito que noto -- noto, notamos: eu e outros -- que, pelo menos no que diz respeito a tintos, e tirando uma ou outra experiência, que acho sempre de louvar, mesmo que não corra bem, dizia, que a região se deixa influenciar "um bocado grande" pelo Douro, geograficamente próximo e com o qual possui semelhanças consideráveis, mau grado as necessariamente relevantes diferenças que, se calhar, por vezes, não são tidas na devida conta.

Citando o produtor, Casa das Castas, a matéria-prima para este vinho provém da "Vinha do Serro, uma vinha centenária onde, num projeto de conservação do património genético, preservamos as variedades de videiras ancestrais que com o passar dos anos se têm vindo a perder". As uvas foram pisadas a pé, em lagar de granito, e o vinho passou meio ano em madeira antes de engarrafado.

Encontrei um tinto potente, de carácter maduro, corpo macio e persistência mediana, com boa fruta, algo indiscriminada mas tendencialmente vermelha, pelo menos para mim e o meu nariz, toque de vegetal aromático e seco, e aromas de evolução -- ou talvez "terrunho", ou ambos -- a compor. Não podendo ser considerado um espécime marcadamente exótico, e não sei se tal coisa será possível ou desejável na sua terra, ou até se esse exotismo não passa de uma projecção pessoal sem reflexo no mundo, este vinho mostrou-se, enfim, para além de sólido, um pouco diferente, diferente do que bebo habitualmente e do que habitualmente encontro na região, o suficiente para me convencer a voltar a comprá-lo.

10€.

16,5

terça-feira, 25 de junho de 2019

domingo, 23 de junho de 2019

Margarida '2009 (Tinto)

O Monte da Azinheira, onde está sediado o produtor deste vinho, Monte dos Cabaços, encontra-se nas imediações da aldeia de Arcos, a uns sete quilómetros de Estremoz. O projecto tomou forma em 2001, pela mão de Margarida Cabaço, do icónico restaurante "São Rosas", um dos melhores do Alentejo e que, infelizmente, já não existe.

Encontrei, a propósito, uma entrevista de Margarida Cabaço a Alexandra Prado Coelho do "Fugas" do "Público", leitura agradável e, se estivermos para aí virados, "food for thought".

Dos vinhos do produtor, são chamados "Margarida" os considerados especiais, baseados na melhor casta de cada colheita. Lê-se no contra-rótulo: "Em 2009 elegi a casta Alicante Bouschet como base para este vinho. As uvas foram vinificadas em lagar, com pisa a pé, e fizeram um estágio parcial em barricas de carvalho francês". Abri a garrafa nº 1820 -- não sei de quantas.

Logo à primeira vista, um vinho grande, intenso, repleto de fruta rica, cálida, como ameixa, goselha e ginja, com marcas de sobremadurez e licor. Junto com ela, um tempero de torrefacção, em todo o caso subtil, a fazer lembrar, essencialmente, café. Longo e macio, todo ele bem ligado, é um vinho ainda em forma, mas que não deverá ganhar com mais tempo em cave -- mesmo assim, não são muitos os que chegam aos dez anos neste estado. Apesar de não possuir a grandeza "orgânica" de um Mouchão, é um belo vinho.

Sobrou para o dia seguinte a quantidade suficiente para encher mais ou menos um copo generoso, que então foi tirada do frigorífico e acompanhou uma sanduíche de peru assado. Pareceu-me então mais doce, com xarope de groselha e rebuçados "floco de neve" e de alcaçuz. Ligeiro toque de oxidação.

Se a memória não me atraiçoa, quando o comprei, era vinho para cerca de vinte euros.

17

sábado, 15 de junho de 2019

Quinta da Tapada do Barro - Reserva '2011

Este foi comprado há três ou quatro anos atrás, num Intermarché da região. Nessa altura, lembro-me de que houve um relativo, quiçá pequeno, quiçá momentâneo, hype em redor dos vinhos deste pequeno (?) produtor de Vila Nova de Tazém. Entretanto afastei-me das lides do meio e não sei, sinceramente, em que pé estão essas coisas. Não obstante, tratava-se de um "Reserva" do Dão e já o cá tinha em casa. E 2011 foi um grande, grande ano.

O contra-rótulo identifica o produtor, refere Touriga Nacional, Alfrocheiro e Jaen, e recomenda a maridagem com caça, borrego e queijos de pasta mole. Depois, visitando o site do produtor, encontrei a referência a um "Reserva" da quinta, engarrafado em 2011, constituído por 20% de Jaen, 40% de Alfrocheiro e 40% Touriga Nacional, com 14 meses de estágio em barricas de carvalho francês e com uma janela de consumo ideal até 2023-2025. Korra!

Entretanto tinha-o aberto. E as notas do momento apontaram para fruta "do Dão", fresca, com sumarentas bagas do bosque e generosa porção de doce de marmelo, daquele escuro, e morangos, permeada pelo floral da Touriga e especiarias doces. Fala o caderninho negro do álcool (sim: após tantos anos, já é outro, mas do mesmo tipo e com o mesmo carinhoso nome: autismo) de um vinho muito macio, cremoso mesmo, com barrica perfumada e uma pontinha de café no final.

Pelo compromisso entre finesse e firmeza -- não vou compará-lo com a gaja que ainda está boa aos 40, pois não?

17

E 17 nesta escala são, "raffly", 89-90 na da Wine Advocate: empatando, portanto, com uma data de recentes propostas de entrada de alguns dos maiores produtores cá do burgo. Não. Não, foda-se, não. Mas isso são outros quinhentos.

Já não sei quanto custou, mas apostaria que menos de 10€.

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Valle Pradinhos - Reserva '2016

Até 2011, os Valle Pradinhos "Reserva" tinham um rótulo preto e vermelho, sendo os do rótulo branco "Colheita Seleccionada", no caso do 2009, ou destituídos de qualquer designação adicional. Desde então, os Valle Pradinhos do rótulo branco passaram a trazer a designação "Reserva" e os do rótulo preto, "Grande Reserva".

Este tinto de Macedo de Cavaleiros é, diz o produtor, uma "combinação de diferentes parcelas predominando as castas Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon e Tinta Amarela". Estagiou em barrica durante um ano.

Mais intenso que encorpado, este tinto de porte médio, com boa acidez, trouxe consigo frutos pretos, maduros, vagamente terrosos, ligeiro apimentado, baunilha e fumados, e ainda algum tabaco e pele, como que a transmitirem um certo toque de maturidade. O final, médio/bom. Como todos os vinhos do produtor até à data, convenceu, sobretudo a acompanhar comida com raça.

Colheitas anteriores aqui experimentadas, 2007 e 2009 -- interrogo-me que tal estarão, aposto que ainda vivem.

10€.

16

domingo, 2 de junho de 2019

CSL - Reserva '2015 (Branco)

Entretanto pensei e, que se foda. Não quero que o Puto mude à força. O Puto não se tornou naquilo que é por acaso. Se continuar a mudar, que seja porque passei a preferir fazer certas coisas de outra maneira. Adiante.

Outro vinho. CSL é acrónimo de Casa Santos Lima, empresa baseada nas proximidades de Alenquer e possuidora de uma vasta extensão de vinhas: o site deles fala em cerca de 400 ha.

Copy/paste das notas do produtor a respeito da elaboração deste vinho: "A fermentação das uvas da casta Viosinho e Chardonnay ocorreu, durante 25 dias, em barricas novas de carvalho francês. O vinho ficou em contacto com as borras, durante oito meses, através do processo de "batonnage". As uvas da casta Encruzado fermentaram em cubas de inox, durante 20 dias, e ficaram em contacto com as borras finas durante oito meses".

Aos quatro anos de idade, está um branco adulto, mas ainda longe de velho. Fruta e barrica. A primeira, que inicialmente parecia branca, de caroço, a tropicalizar logo após um pequeno aumento da temperatura do vinho, ou se calhar a mostrar-se tropical assim que o vinho deixou de estar demasiado frio, por tropical ser o carácter dela. Ananás, citrinos doces, banana: coisas assim. A segunda, não sendo assoberbantes, plenamente presente em toda a sua independência abaunilhada (etc.) Encorpado na boca, gordinho, mostrou boa untuosidade e acidez suficiente para a suportar. Persistência média.

Custou mais de 5, mas menos de 6€, num Pingo Doce.

16

quinta-feira, 30 de maio de 2019

João Portugal Ramos - Loureiro '2018

E ao segundo dia, o segundo post. Vinho. A partir de agora, espero que numa toada mais pessoal. Pensei no que andava a fazer e concluí que, quase de certeza por preguiça, tendo atinado, a dada altura, com um modelo de post que me pareceu satisfatório, tratei de nele enfiar vinhos atrás de vinhos, momentos atrás de momentos, como quem enche chouriços. Chouriços de diversos tipos de carne, com vários temperos diferentes, mas, ainda assim, chouriços.

Seria, então, bom dizer que se acabou a obrigatoriedade da lengalenga introdutória?

Composição. Tema: O Quinta de Não Sei das Quantas, Colheita de Tal e Tal.

Depois, uma série de dados, mais ou menos enciclopédicos, sobre a terra e o tempo, a empresa e os homens. Mas que parcelas e, quando presentes, o que significam os seus nomes? E os homens! Como se os conhecêssemos. Por fim, que tal pareceu o dito vinho. Destrinçado ou pretensamente destrinçado de forma categórica. Como se as informações das notas de imprensa fossem reflexo de um pequeno, mas muito justo, deus de certezas. Como se eu realmente soubesse. Nah. Não e não. Não está bem. Não existe necessidade. Então chega.

Mas as imagens encostadas à esquerda e dimensionadas a 40% da largura da página, poderiam ir? Ou o formato tru-lu-lu? Ou o numerozinho da qualidade e tudo o que se encontra por detrás dele? Era bom, quem sabe, que me fosse mais fácil deixar para trás certas amarras, mas estas coisas pedem tempo. Em todo o caso, o puto é hoje um fantasma ignorado, ainda mais do que quando estrebuchava com relativa frequência. Então, sem forçar, vamos ver.

O vinho do post. Enviado pelo produtor para prova. Agradecido. Um Verde de João Portugal Ramos: 85% Loureiro, do Lima, e Alvarinho. Sem madeira. A cor é a que se pode ver na fotografia, tirada contra fundo branco, com luz natural. O cheiro fez-me lembrar, assim do nada, o jardim botânico de Coria, com o perfume, vago, de muitas flores misturadas, citrinos e o toque de louro que tantas vezes se associa à casta, ou pelo menos algo verde, arborizado. Na boca, vigor e persistência "médios". A frescura satisfaz, mas o toque surge mais redondo, menos crocante, do que aquilo que o nariz fazia adivinhar. Talvez deva ser bebido agora, o mais jovem possível.

PVP recomendado: 3,99€.

15
O Rei está morto. Longa vida ao Rei!

Um ano. Um ano sem praticamente aqui parar. Sim, fui acedendo à minha conta da Heliohost para não deixar cair certos conteúdos. Sim, vim cá em Setembro e até deixei dois posts, no espírito de um relançamento que não viria a acontecer. Sim, a dada altura chateei-me por bocadinhos de vídeo que aqui metia, via Youtube, a propósito de filmes, resultarem em "copyright strikes". Todos, todos eles por graça da "Wild Bunch, SA". Bem, puta que os pariu. Talvez, em resposta a isso, eu tenha ripado as merdas deles que comprei e talvez, mas só talvez, as tenha distribuído via torrent. Ou talvez não. Bem, puta que os pariu, e caguei nos filmes, que também ninguém olhava para eles.

Enfim. O blog, de uma distracção, tinha-se tornado uma tarefa. O mesmo tipo de post, o mesmo esquema, com um agendamento, mais ou menos rígido, de três em três dias. Não era mais divertido. Ainda por cima, comecei a ganhar a vida a escrever. E quando ganhas a vida a escrever, a menos que sejas daqueles mesmo bons, daqueles mesmo putos, que precisam de escrever para se sentirem ou para estarem vivos -- pensei no Rilke e é um desvio -- a menos que sejas mesmo fanático e escrevas como quem respira, não, não é a escrever que vais querer passar os teus tempos livres. E isso importou milhões.

E depois, a concorrência de outros meios. Tive/tenho uma conta no Vivino e tentei contribuir, mas um gajo é uma gota no oceano e nada é para nada -- caralho, que reality check, que pílula de lucidez! -- a sério. Mas não gostei. Aconteceu o mesmo com o Cellartracker. E o Facebook? Jesus, o Facebook! Não, o Facebook são coletes amarelos, fake news, arbitragem de futebol, fotos da praia e gatos abandonados. No Facebook não ia dar. Mesmo.

E o vinho? A caderneta de cromos? O vinho pode ter poesia e ciência, pode ser uma das mais românticas conquistas -- ou meias conquistas -- do génio humano. Um pouco como o xadrez. Mas, ao contrário do xadrez, o vinho é um negócio do caralho. Não vale a pena entrar em detalhes "do mundo": que o preço de venda ao público não depende, mesmo nada, do custo de produção, que o mais badalado acaba por ser o melhor, que, dos vinhos "premium low cost", de 10€ por garrafa, agraciados com 90 pontos Parker ou assim, caminhamos para os de 3€ que levam 93 ou mais... Que os genuínos biodinâmicos de produção limitada, genuína e autêntica, com todo o sol e sal da terra e etc. à mistura, nos podem enganar tanto como as promoções falsas das grandes superfícies e os produtores com quem são combinadas... Caralhadas! Caralhadas dessas! Um dia destes, vamos sacar da caixa, do bag in box, vinhos com 98 e 99 pontos Parker ou WS ou Decanter ou de seja lá quem for que tenha ficado impressionado, seja lá com o que for, para publicar ou mandar publicar o que conta. Também a esses, puta que os pariu.

Não obstante, não deixei de beber. Não gosto muito de água às refeições e o chá, de hibisco, que é porreiro pela emulação da acidez, ou outro... não, o chá não satisfaz sempre. Está só meio lá. Aliás, hoje bebi, loguei-me e aqui estou. E talvez seja desta que o Puto volta, talvez não. O puto -- como era chato ter de explicar ao carteiro ou ao estafeta, aquando da recepção de freebies, enviados para divulgação pelos produtores, que não era o puto bebé, Jorge P. Que era o puto bebe, o puto que bebe, caralho. E quantos matarrons não hão-de ter ficado com a ideia de que eu era um e-thot paneleiro ou assim!

Enfim, sem maçar mais quem não me vai ler -- e se alguém me leu até aqui, lamento, que totó... Como dizia a mamã, no ápice da loucura: "Vamos ver, vamos ver no que isto dá!"