sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Maritávora - Reserva Nº4 '2011

A Quinta de Maritávora fica ao km 88 da EN 221, à beira de Freixo de Espada à Cinta. O produtor remonta à segunda metade do séc. XIX, quando José Junqueiro Júnior, pai do poeta Guerra Junqueiro, adquiriu um conjunto de propriedades na região, muitas das quais percmanecem na família. O estilo é tradicional, mas voltado para a modernidade. Os vinhos são da autoria de Jorge Serôdio Borges.

Este, feito, de acordo com o contra-rótulo, com Touriga Nacional, Tinta Roriz, Touriga Franca e outras, provenientes de vinhas com idades compreendidas entre 15 e 50 anos, fermentou em lagares de pedra, com pisa a pé, e estagiou 18 meses em barricas de carvalho francês. Mais uma vez, recorde-se que 2011 foi um grande ano.

Escuro e concentrado, mostrou densidade, 15% de álcool e alguma opulência. No entanto, a fruta é super sólida e a barrica funciona, pelo que, em vez de pastoso, resulta envolvente, fácil de beber e não enjoa.

É claramente um vinho da sua terra, mas dos finos, dos bem cuidados. Ainda por cima, nesta fase, todo ele está em harmonia. Provavelmente, no auge. Valerá a pena guardar?

17€

17,5

domingo, 13 de outubro de 2019

Tapada do Chaves '2014 (Branco)

A propriedade de Frangoneiro, Portalegre, possui uma localização invejável, à beira da Serra de S. Mamede, cepas velhas e uma vasta história de muito bons vinhos.

Tendo, num passado recente, pertencido à Murganheira, foi adquirida, em 2017, pela Fundação Eugénio de Almeida, que tratou de valorizar, não só as coisas e os vinhos, mas tmbém a marca, apelando aos seus pergaminhos, a uma imagem retro e a um reposicionamento no mercado, um degrau acima daqueles que os respectivos predecessores ocupavam.

Este é, então, um branco de 2014, ainda feito nos tempos da Murganheira, mas já lançado no mercado pela FEA. As castas são Arinto, Antão Vaz, Assario, Tamarez e Roupeiro. Detalhes acerca da elaboração ou estágio, não aferi.

Cor palha. A princípio, indefinido. Pouca fruta. Mais arejado, agitado no copo, algum marmelo e o seu doce, a par de alguma tropicalidade. E flores. E notas químicas, petroladas, a fazerem lembrar, no seu conjunto, o solvente que tradicionalmente era usado pelos sapateiros para remover cola. Bom peso e untuosidade na boca, com frescura a corresponder, num conjunto ao mesmo tempo potente e equilibrado. Final médio+/longo, a perdurar na acidez.

Não nego que possua a sua dose de substância, beleza e até originalidade, mas, na minha opinião, não tem o brilho, o "factor uau" que espero de um vinho de 20€. Agora, se ainda viver daqui a 20 anos...

16,5

sábado, 5 de outubro de 2019

Breve passagem pela Feira do Vinho do Dão

A 28ª edição da Feira do Vinho do Dão teve lugar em Nelas, entre 6 e 8 de Setembro, e nós passámos lá na tarde do último dia, em desvio incluído num périplo "algo turístico" pelo centro-norte, que também contou com uma noite num festival de música electrónica chamado Insomnia, muito trance, muito buda dourado a expandir a consciência de não sei quem, talvez dos presentes, ou só de alguns, e algum speed, não posso dizer que muito, infelizmente, talvez, que foi o elemento que ajudou o evento musical a escapar. Isto em jeito de introdução a uma série de notas de prova, um mês depois de lá ter ido, publicadas agora para não acontecer como no ano passado, em que lá fomos e provei e falei tanto, e tanto apontei também, mas nada publiquei em tempo útil e o suporte informático dessas notas morreu, levando-as consigo.

A lista que se segue não é exaustiva e incide especialmente nos brancos. Isso acontece porque:

i. apesar de prova ser prova, com quantidades a corresponder, não andei por lá a cuspir vinho e, a dada altura, o cansaço começou a fazer-se notar: primeiro para apontar, depois até para beber;

ii. alguns dos expositores são sempre ocupados por grupinhos de "laretas", usualmente gente de meia idade e presumível seriedade, que faz questão de monopolizar os produtores ou os seus representantes com verdadeiras conversas de merda, de certeza que mais por atenção do que para aprender. Lembro-me de aguardar a minha vez para provar algo, já não sei em que barraquinha, mas de lá estar colado um senhor cheio de questões. Tantas, mas tantas, que, a dada altura, já iam, literalmente, na China. Digo, na penetração desse produtor no mercado chinês. E face a um simples "Para o Japão, já vendi umas caixas; agora, China, não. Mas está na China?" por parte do "entrevistado", o senhor em questão responde "não, nem nunca lá fui, mas..." e meio minuto depois estava a colar-se noutro expositor.

Dito isto, e sem mais delongas, por ordem de aquisição das notas, temos:

Quinta Mendes Pereira - Alfrocheiro Reserva '2012: O primeiro da tarde, apresentado por uma das pessoas mais simpáticas com que nos cruzámos no certame. Varietal e extraído q.b. Ginja e frutos pretos, licor, toque alcoólico, algo quente e capitoso. Grande e forte. Acredito que a 14 ºC e com algum tipo de companhia de trincar, digo, até um simples pão com chouriço, tivesse mostrado mais. 16

Quinta das Marias - Alfrocheiro '2016: Mais fresco e equilibrado que o precedente -- muito bem dimensionado, aliás -- mas sem "factor uau". 16,5

Aqui decido começar a experimentar brancos, na expectativa de, mais tarde, voltar aos tintos. Mais uma vez, estava em passeio, não tendo definido um método de ataque ao "problema"...

Quinta das Marias - Encruzado: Não apontei o ano: provavelmente, a edição de 2018. Encruzado sem madeira, jovem, vegetal e floral, de paladar seco e carnudo, muito característico. 16,5  

Quinta dos Carvalhais - Branco Reserva '2017: Flores, citrinos, baunilha. 1+1+1=3. Mas fresco e longo. Prazeroso. 17

Quinta dos Carvalhais - Encruzado '2018: Muito carácter varietal, mas menos finesse do que esperava. 16

Casa da Passarella - Villa Oliveira, Encruzado '2018: Mais preciso que o monocasta da Qta. dos Carvalhais, com a madeira a ligar muito, muito bem com os aromas da casta. Muito fresco, bastante longo. Até ver, o melhor. 18

Quinta da Fata - Encruzado '2018: Menos "punch" que o Villa Oliveira, menos substância também. Mesmo assim, grande equilíbrio e classe num vinho fresco e longo, todo ele bem ligado. 17

Valedivino - Branco Reserva '2012: Muito delicadamente floral, com toque de evolução e sugestões que juraria de barrica, apesar de por lá não ter passado. Firme e estruturado, um branco sólido. 16,5

Quinta do Escudial - Encruzado: Outro a que não apontei o ano. Ademais, a internet não sabe de monocastas Encruzado recentes da casa. De qualquer forma, deixou óptima impressão, que passo a transcrever: Talvez mais vegetal/floral, mais leve e alegre que a maioria dos outros varietais da casta provados até agora. Bem fresco, com ponta de austeridade na boca que cai bem. 17 

Quinta dos Roques - Encruzado '2017: Gordo, glicerinado -- 50% do lote passou por madeira -- mas em equilíbrio. Grande e bom, mas prefiro um estilo mais leve. 16,5

Julia Kemper - Vinhas Seleccionadas, Blanc de Noir '2018: Um branco de casta tinta, todo ele Touriga Nacional,  fermentado em bica aberta: saem as cascas e películas, o sumo da polpa fermenta sozinho. Tem a estrutura e a acidez de um TN jovem, e o nariz de um bom branco da região, daqueles sem madeira, repleto de flores brancas, a evoluir para fruta de polpa clara. Muito interessante. Comprámos uma garrafa para acompanhar o jantar. 16,5

Depois do jantar -- na representação que o restaurante Retiro das Laranjeiras tinha no local, muito bom --, ainda provei mais um ou outro, mas já não tirei notas. Excepção para o Quinta da Vegia - Superior: Não apontei o ano. 2013? Potente, complexo, equilibrado, cheio de sabor. Um vinho grande que também é um grande vinho. Mas que certamente pedirá tempo, paciência e um acompanhamento à altura, na mesa. 18

Em suma, um belo evento, a pedir uma visita mais atenta no ano que vem.