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sábado, 7 de setembro de 2019

Quinta do Cardo - Caladoc '2015

A Caladoc é uma casta tinta, cruzamento de Grenache e Malbec, criada em 1958 pelo botânico Paul Truel, responsável pelo surgimento de mais de uma dúzia de novas castas (como a Marselan, cruzamento de Grenache e Cabernet Sauvignon), no Domaine de Vassal, em Montpellier, lugar da colecção ampelográfica do Instituto Nacional de Investigação Agronómica (INRA) francês.

Este monocasta provém de uma parcela experimental, com 2 ha, da Quinta do Cardo, nas imediações de Figueira de Castelo Rodrigo. O produtor informa que "as uvas foram colhidas e seleccionadas à mão, transportadas para a adega onde foram prensadas inteiras durante 3 horas. Iniciou fermentação com temperatura controlada, o ultimo terço terminou em barricas de carvalho francês e estagiou durante 10 meses, com "batonnage" regular. Foram produzidas 2 176 garrafas".

Cor salmão, esmaecida, e aromas e sabores delicados, agradáveis nas notas florais, de frutos vermelhos e de vegetal seco, mas, por um lado, com certa falta de "punch", e por outro, com demasiada madeira. Pensei, inicialmente, que esta falta de brilho se pudesse dever à idade, mau grado não apresentar (por enquanto) grandes sinais de decadência, mas, pesquisando a internet sobre que tal o acharam outras pessoas, encontrei basta quantidade de impressões, a vasta maioria delas de quando saiu para o mercado, nos idos de 2017, que conferiam neste ponto. O que faz sentido, dado pretender-se um rosé de perfil delicado: sendo o teor fenólico da casta considerável, presumo que a extracção tenha tido de ser suave. E para enriquecer a ruivita delgada, pau. Mas a dose deixou marcas.

Tl;dr: é uma curiosidade engraçada, mas não mais que isso; deverá ter sido um pouco melhor em novo; vai morrer com a madeira; se ainda tiver alguma garrafa em casa, beba-a já.

17€

15

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Beyra - Reserva Quartz '2017 (Branco)

Há muito, há cada vez mais tempo me lembro de ser comum apontarem a Beira Interior Norte, sobretudo a zona de Figueira de Castelo Rodrigo, como "the next big thing" em termos de brancos portugueses.

Ora, sem me poder considerar um especialista ou, sequer, um jogador activo no meio, apenas vendo o que vejo, arriscaria dizer que não há, nem é expectável que venha a haver tal coisa. A cena do vinho em Portugal aparenta já ter deixado de crescer por esticões: não quero dizer com isto que tenha parado de crescer ou esgotado o  seu potencial, evidentemente.

E, ou muito me engano, ou os brancos da região continuam a progredir, lenta mas consistentemente, bem como a ser comercializados por valores que não reflectem as suas verdadeiras qualidades. Embora este caminho até pareça bem, que devagar se vai ao longe, não deixa de ficar no ar a ideia de que fazia falta um esticão -- de repente, lembrei-me da Omega e de James Bond, ou, generalizando, de qualquer marca e de James Bond. Talvez os vinhos da Beira Interior Norte precisem de um James Bond ou algo assim.

Os vinhos deste projecto de Rui Roboredo Madeira nunca me desapontaram, mas este, combinação de Síria e Fonte Cal em partes iguais, com estágio de meio ano em cuba de inox, foi aquele que, até à data, me soube melhor. Muito bem no plano aromático, trouxe consigo flores silvestres e citrinos, pêssego e pêra, muita pêra madura, presença predominante pelo menos nesta garrafa. Na boca, sem encher ou assoberbar, aliás, sem grande "punch", surgiu pleno de vigor e perfeitamente consentâneo com o nariz.

É largo, comprido e profundo q.b. Cheira bastante, sabe bastante, e a coisas boas. Deve aguentar mais 2 ou 3 anos em forma, se bem guardado.

7€

16,5

sábado, 29 de junho de 2019

Vale de Esgueva - Vinhas Velhas '2015

Este é um tinto de Vermiosa, Figueira de Castelo Rodrigo. Há muito que aprecio grandemente os vinhos desta zona, que espero que continue a crescer e venha a conseguir os maiores sucessos. Mas também há muito que noto -- noto, notamos: eu e outros -- que, pelo menos no que diz respeito a tintos, e tirando uma ou outra experiência, que acho sempre de louvar, mesmo que não corra bem, dizia, que a região se deixa influenciar "um bocado grande" pelo Douro, geograficamente próximo e com o qual possui semelhanças consideráveis, mau grado as necessariamente relevantes diferenças que, se calhar, por vezes, não são tidas na devida conta.

Citando o produtor, Casa das Castas, a matéria-prima para este vinho provém da "Vinha do Serro, uma vinha centenária onde, num projeto de conservação do património genético, preservamos as variedades de videiras ancestrais que com o passar dos anos se têm vindo a perder". As uvas foram pisadas a pé, em lagar de granito, e o vinho passou meio ano em madeira antes de engarrafado.

Encontrei um tinto potente, de carácter maduro, corpo macio e persistência mediana, com boa fruta, algo indiscriminada mas tendencialmente vermelha, pelo menos para mim e o meu nariz, toque de vegetal aromático e seco, e aromas de evolução -- ou talvez "terrunho", ou ambos -- a compor. Não podendo ser considerado um espécime marcadamente exótico, e não sei se tal coisa será possível ou desejável na sua terra, ou até se esse exotismo não passa de uma projecção pessoal sem reflexo no mundo, este vinho mostrou-se, enfim, para além de sólido, um pouco diferente, diferente do que bebo habitualmente e do que habitualmente encontro na região, o suficiente para me convencer a voltar a comprá-lo.

10€.

16,5

domingo, 19 de agosto de 2018

Adega 23

Quem segue pela A23, de Vila Velha de Ródão para norte, reparará que, a uns 10 km de Castelo Branco, mais coisa menos coisa, corta uma extensão de vinhas de tamanho considerável, pelo menos tendo em conta a zona, algo improvável para a produção de vinho.



Trata-se da Adega 23, projecto da médica oftalmologista Manuela Carmona, com enologia de Rui Reguinga -- e a menos falada, mas não menos merecedora enóloga residente, que se chama Débora Mendes.


Os 12 ha de vinhas da propriedade foram plantados sobre xisto, entre 2014 e 2015, num lugar onde "não havia nada", excepto as ruínas de um edifício que, mau grado a ideia inicial de nele basear a estrutura da nova adega, se revelaram impossíveis de aproveitar, o que ditou a sua demolição. O edifício da adega, construído no mesmo lugar, é arquitectonicamente interessante, não só pela estética apelativa como pela sua grande funcionalidade.


Chegámos, falámos um pouco, assistimos a uma apresentação, que não lamento, sobre o vinho e o projecto, acompanhada de espumante Soalheiro, bruto, de Alvarinho, muito vivo e fresco, com boa bolha, fina e persistente, e notas de maçã e fermentos, demos uma breve volta pela adega e depois subimos para a prova propriamente dita, conduzida pela proprietária e a enóloga residente.


Para além dos vinhos da casa, houve Intensus tinto, meh, Poeira, sempre óptimo, sou fã, e dois Porto da Graham's a acompanhar as sobremesas: LBV e tawny 10 anos.


Foi um princípio de tarde muito bem passado, que me deixou curioso por experimentar o tinto da casa, que ainda não saiu. Acabo com umas breves impressões dos vinhos do produtor, escrevinhadas no telemóvel, "in loco" e enquanto tentava socializar: ou seja, com a naturalidade de quem se coça, temperada pela inevitável pontinha de pavor advinda de "estarem pessoas".


Branco '2017
Verdelho, Arinto, Viognier e Síria. Unoaked. Muito mais citrino que herbáceo, com limão doce e sua casca. Fresco, untuoso e bastante delicado, de persistência média/longa. Um vinho assim, na torreira das Sarnadas de Ródão? Notável. 16,5/20

Branco '2017 não engarrafado/comercializado
Uma curiosidade não comercializada. Feito das mesmas uvas que o branco da casa, mas aproveitando mais do que apenas o mosto lágrima, tem o perfil do branco engarrafado, mas menor delicadeza e uma ponta de amargor, a fazer lembrar caroços de prunóideas, no fim de boca -- pela prensagem adicional que abriu algumas das grainhas, contaram. Na minha humilde opinião, que vale o que vale, podia ter dado um segundo vinho bem decente. 15,5/20

Rosé '2017
Aragonês e Rufete, sem madeira. O facto de ser muito leve e fresco não o impede de irradiar substância. Os aromas são cativantes, com os frutos silvestres aliados a flores e um travo mineral, ligeiramente salino, que faz a diferença. Extremamente cativante e fácil de beber, foi dos melhores rosés que me lembro de ter experimentado e a S achou o mesmo. 17/20.

domingo, 27 de maio de 2018

Quinta da Nave — Colheita Seleccionada '2015

A Quinta da Nave, de Valverde, Fundão, faz vinhos potentes, em estilo directo, frutados, verdadeiramente sumarentos e tendencialmente extraídos e alcoólicos, que depois coloca à venda a preços que me parecem bastante inferiores ao que podiam ser (espero não estar a dar ideias).

E este "Colheita Seleccionada" não foi excepção. Carregado de fruta silvestre, vermelho-escura, azul, roxa e preta, não colhida, a cozer ao sol, transportada por uma acidez que, considerando o maduro que torna sumarento e o quente que refresca, só se pode considerar boa e bem colocada, é dos meus tintos jovens preferidos.

Em suma: é um grande vinho? Não. É para todos os gostos? Não. Para quem gostar ou aceitar bem o estilo, é de lamber os beiços? Sim. Ainda melhor que este, ou pelo menos como me lembro dele: afinal, foi abatido há tanto tempo...

E, pelo menos a mim, parece dado.

O contra-rótulo diz o seguinte: "A Quinta da Nave localiza-se num terroir privilegiado da Cova da Beira, estando na posse da família Almeida Garrett há quatro gerações. Caracteriza-se por apresentar uma exposição a Sul com solos argilosos, derivados de xisto, com presença de seixo. Este vinho foi elaborado a partir das castas Tinta Roriz e Touriga Nacional e estagiou em barricas de carvalho francês durante 6 meses. Consumir preferencialmente entre 16 e 18 ºC."

Quando foi, esqueci-me do que estava a fazer e bebi-o todo em menos de hora e meia, junto com uma pizza destas, inteira. Apesar de tudo, não é habitual.

3€.

16

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Quinta dos Termos — Trincadeira, Reserva '2010

Mais um tinto da Quinta dos Termos — falei aqui sobre uma data deles em finais do ano passado. No caso, um monovarietal Trincadeira da colheita de 2010, logo com quase oito anos.

O contra-rótulo diz: "Quando o ano vitícola corre de feição, a Trincadeira origina vinhos surpreendentes na Beira interior. Foi o que aconteceu na colheita de 2010, em que as uvas amadureceram de forma muito equilibrada. Uma vinificação minimalista e um breve estágio em barricas de carvalho deram-lhe o toque necessário para nos decidir engarrafá-lo estreme."

Começou meio porquito, a cheirar a suor, mas um ligeiro arejamento limpou-o e, em vez de estragado, mostrou-se um tinto muito interessante, ainda sem sinais de cansaço — imagino, no entanto, que se aproxime do limiar do plateau — aludindo à "lei da maturidade" de Clive Coates, que diz que um vinho permanecerá na sua fase ideal de consumo por tanto tempo quanto o que demorou a maturar, até atingir essa mesma fase.

Algo circunspecto, foi fácil apontar-lhe, acusá-lo de ser algo monolítico, na altura da prova, que não foi prova, mas abate de uma garrafa inteira, a empurrar daqueles hambúrgueres "Angus", do Pingo Doce, preparados, diz o YouTube, a la Gordon Ramsay Mas esses são os exageros do momento, abundantes no caderninho negro do álcool.

Ficou apontado, e lembro-me, de lhe ter apanhado muita fruta silvestre, indiferenciada, misturada e transformada, mais preta que vermelha ou roxa, e essencialmente em licor. Com ela, flores amarelas e um toque resinoso, vegetal, a fazer lembrar lenho verde. Barrica, assim, ainda? Talvez. E aquele travo "porco" de que já falei, provavelmente Brettanomyces em quantidade mesmo muito moderada.

Na boca, paladar morno, de toque macio, com reminiscências tácteis de veludo e xisto bem embrulhadas naquilo a que chamei "acidez redonda" — digo, acidez apenas suficiente para cortar o ardor e perfeitamente ligada. Algum corpo, di-lo-ia "médio mais", com certa densidade, mas não objectivamente "gordo", "pesado", nem nada que se parecesse, e um final bastante persistente.

Enfim, um vinho de boa concentração, com substância bastante para ser interessante, mas também contido e equilibrado na medida em que a finura, a leveza, o fácil apareceram a contrabalançar o intenso, o pesado, o sério, o fechado.

Sem ser divino, foi daqueles que deixaram impressão.

7€.

16,5

terça-feira, 13 de março de 2018

Beyra — Riesling '2016

Produzido por Rui Madeira, um Riesling da Beira Interior!

Proveniente de Vermiosa, Figueira de Castelo Rodrigo, fermentou e estagiou em inox, com "bâtonnage", até ao engarrafamento: 6650 garrafas que se encheram no final de Janeiro de 2017.

Foi com queijo "Braz", da Covilhã, com manchego velho,  deste, e com o mítico patê "La Charra", de Ciudad Rodrigo. A uni-los, pão "grande", com sementes, do Lidl.

Inicialmente muito frio e por conseguinte pouco expressivo, cresceu com o passar do tempo no copo e trouxe consigo banana, physalis e aromas lácteos, a fazer lembrar iogurte.

Redondinho, de textura amanteigada, com a acidez e a projecção do sabor a mostrarem-se mais no final (bastante persistente) que no ataque.

Uma curiosidade interessante!

9€.

16

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Quinta dos Termos — Espumante Bruto, Fonte Cal '2013

O nosso consumo de espumante aumentou consideravelmente no último ano por ser dos poucos vinhos que é possível beber com a S. — por outras palavras, dos poucos que ela ainda aceita. Ao mesmo tempo, se primeiro os estranhava, fui aprendendo, com o tempo, a gostar deles, talvez por familiaridade, e agora afirmo, sem qualquer reserva, que um bom espumante me cai bem.

O de que cuida o presente post, branco e bruto, da colheita de 2013, foi feito exclusivamente com a casta Fonte Cal, o que o torna uma espécie de raridade: haverá mais algum no mundo com tal predicado?

No nariz, primeiro, dei conta de flores brancas e amarelas, rasteiras — ragadíolos, malmequeres e outros que tais, junto com o que me pareceu ser o cheiro de leveduras frescas. Depois, sugestões esmaecidas, claro está, mas límpidas no sentido de que sugeriam o que sugeriam e não poderiam sugerir outra coisa qualquer: jeropiga, ginja e o recheio daqueles infames bombons da Ferrero que são comercializados sob a marca "Mon Cheri".

Ao mesmo tempo, ia-se fazendo notar fresco e seco, seco não só no sentido da ausência de doçura, mas também na textura, coisa difícil de descrever, que me sinto inclinado a deitar no fundo saco da mineralidade. Só que nem tudo são flores: a bolha podia ser mais viva e fina, a mousse podia ser mais fofa, e o final, engraçado pelas notas de pistácio que trouxe consigo, muito mais persistente.

Enfim! Original, é. Interessante, também. Mas não muito mais que isso.

8€.

15,5

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Quinta do Senhor — Vale da Favaca, Reserva '2012

Feito com Touriga Nacional, Rufete e Folgazão do vale da ribeira de Maçaínhas, perto de Belmonte, estagiou nove meses em barricas de carvalho francês e americano antes de ser engarrafado.

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É escuro e cálido, com frutos do bosque e sua aguardente, café, tosta e especiarias. Tem algum corpo, um ou outro tanino rebelde e persistência razoável.

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Partilha o lugar de origem e as castas que o constituem com o outro vinho da casa que abati recentemente, pelo que não admira que me tenha parecido seguir na mesma linha que ele — mais complexo, mas menos limpo, provavelmente devido à (maior?) permanência em barrica.

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No dia em que o abri, tinha preparado naquinhos de javali com vinho branco e pimentão doce, que foram comidos com raivacas (ou sanchas: Lactarius deliciosus) cozinhadas sobre um refogado de cebola, alho, tomate e presunto, a que, depois de bem desenvolvido, se foi juntando água, pouco a pouco, para não queimar.

5,50€.

15,5

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Quinta do Senhor — Vinhas Velhas '2012

O vinho do piquenique no cimo da Gardunha foi um tinto produzido pela Soc. Agrícola Quinta do Senhor, de Maçaínhas, Belmonte.

Diz o contra-rótulo que provém de vinhas velhas situadas nas encostas do vale da ribeira de Maçaínhas, das castas Touriga Nacional, Rufete e Folgazão — recordemos que esta última é branca, conhecida na Madeira como Terrantez, que dá fortificados míticos.

Um toque de originalidade com raízes veneráveis, que se perdem no tempo! Mas não se confunda com clarete, que este vinho é tinto e de carácter bem escuro.

Foi aberto ao ar livre, no alto de um monte, mas o balão de conhaque onde foi bebido e o facto de eu ter passado um bom bocado com ele entre as coxas (não foi de propósito para o aquecer nem no âmbito de uma qualquer bizarria sexual) permitiram-lhe mostrar qualquer coisa: fruta negra, madura, generosa, que a dada altura me fez lembrar amora, com clareza, especiarias quentes, razoável estrutura tânica, com alguma textura, coesão e persistência bem satisfatórias.

Ademais, e apesar de ter 14% de teor aloólico, pareceu-me bastante fresco, mas, mas, mas...

Um vinho que merecia ser mais conhecido!

4,50€.

16

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Quinta dos Termos — Selecção '2013

Mais um exemplar da ampla gama da Quinta dos Termos, mais um vinho da Beira Interior que aqui é comentado.

Não é que os prefira — parece-me, aliás, que muitos deles seguem o estilo do Douro, desnecessariamente, num terruño a que faltam as particularidades que tornam especial o modelo.

Mas foi na Beira Interior que nasci e cresci e é de lá que gosto. Da terra, do céu, dos bichos, não das pessoas. Afinal, de que pessoas é que eu gosto? :)

Natural, pois, a curiosidade. E as coisas que de lá vêm que são originais, diferentes do habitual, e que calham também ser autênticas, genuínas, fiéis à origem, costumam ser bem giras.

Dito isto, pelo que conheço do produtor, tendo a acreditar que este vinho, nem por isso original, seja autêntico q.b.

Agora, porque me lembrei, porque nem sempre os posts do "Puto" são montados, entre a coisa provada e seus predicados, e a propósito da originalidade, uns pozinhos de meta-blogging:

"No ano de 1945 é adquirida por Alexandre Carvalho a quarta gleba de um prédio correspondente a uma terra no sítio dos Termos ou Vilela", posteriormente denominada por Quinta dos Termos.

A ideia é que alguém siga o link e depois reflicta.

Se atiro pedras sem nunca ter pecado? Claro que não. "Pecco ergo sum". E poucas vezes me arrependo. Mas continuemos.

O contra-rótulo desta garrafa diz que o seu conteúdo "só sai a público em anos de grande qualidade", "pretende homenagear os grandes vinhos das casas senhoriais da Beira" e que é "um lote dos melhores vinhos de Touriga Nacional, Rufete, Jaen e Trincadeira".

Conjunto consonante na madurez e robustez, denso e mais firme que gordo, mostrou-se preso logo depois de aberta a garrafa, mas melhorou muito após uma tarde de arejamento. Fruta escura, madura, e terra, fumados e especiados indistintos. Acidez mediana, algum álcool e taninos firmemente entretecidos. Fim de boca bom.

OK com bife na pedra e seus acompanhamentos habituais, porreiro com muffins de chocolate. Tudo indica que ganhará com alguma guarda.

8€.

16

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Dois Ponto Cinco — Rufete, Vinhas Velhas '2013

Produzido por Dois Ponto Cinco, Vinhos de Belmonte. A marca "2.5" relaciona as vinhas dos cinco sócios que constituem a empresa com as duas freguesias do concelho de Belmonte onde se localizam as suas vinhas; a adega é em Caria.

Introdução no contra-rótulo: "As vinhas velhas, não aramadas, da variedade Rufete resultam num vinho quente que associa a elegância à robustez. O estágio em barrica lapidou as arestas de uma vinha carregada de história."

Primeiro dia, depois de respirar talvez meia hora, sozinho e com bife na pedra: Fruta vermelha e flores, ervas amargas, malte, café, tosta. Porte mediano e ligeira aresta — tanino. Seco, não áspero, e muito gastronómico.

Mas, acima de tudo, original.

Terceiro dia — no segundo não bebi: Argyreia — Super vivo. Morango, agora nítido, químico e medicinal. Em boa fase, mas poderá valer a pena guardar... para satisfazer a curiosidade, acima de tudo.

11€.

17

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Fundanus Prestige '2003

Tinto da Adega Cooperativa do Fundão. Feito com base nas castas Aragonês e Jaen, foi estagiado durante um ano em barricas novas.

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Cor granada.

Ameixas e cerejas super sólidas, maduras, doces, em harmonia com certo balsâmico, ora resinoso e fresco, ora etílico, e um marcado e persistente carácter «verde», deveras sugestivo. Também folha de tabaco, caramelo e café — com o arejamento, cada vez mais.

Boca encorpada, com bom equilíbrio, em registo de alguma calidez. Sabor concordante com o cheiro, mas mais frutado. Apesar do final modesto, entre o mediano e o curto, com os taninos a mostrarem alguma aspereza, é um bom vinho, em boa forma.

Acima de tudo, um vinho diferente.

7€.

15,5

domingo, 12 de julho de 2009

Quinta do Cardo — Síria '2006

Monocasta Síria da região de Figueira de Castelo Rodrigo. O mosto fermentou em inox, onde passou por um breve estágio de dois meses.

Cor palha. Aroma suave, mas firme, com muitas sugestões de fruto de polpa branca, algum marmelo e notas de fundo a fazerem lembrar lima, mel e fumo. Boca elegante, com bom volume e alguma untuosidade. Doçura contida. Bom final.

A minha impressão geral é que, quando de boa qualidade, os brancos com algum tempo em garrafa conseguem mostrar uma coesão, um equilíbrio inacessível aos mais novos. E mais importante ainda, com a idade deixam de ser apenas cítricos, tropicais ou cítricos e tropicais. Considero, portanto, que se tornam menos aborrecidos, mesmo quando não ganham bouquets objectivamente complexos. Por isso espero...

Custou 7€.

15,5

Do mesmo produtor, achei o tinto da colheita de 2005 bem fixe para o preço.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Quinta do Cardo '2005

Este tinto da Beira Interior provém de uma quinta da região de Figueira de Castelo Rodrigo, lugar onde se encontram as vinhas mais altas de Portugal (a 700m de altitude). Faz parte da Companhia das Quintas. Lote composto por Touriga Nacional (70%) e Tinta Roriz, estagiou durante 9 meses em barricas de carvalho francês.

Ataque directo e incisivo — com a palavra a querer significar conciso e mordaz, não necessariamente acidez vincada, embora este vinho até a possua! — com ameixa e bagas silvestres a surgirem muito bem entrosadas com notas fumadas e químicas — destas últimas, sugestões de betume e alcatrão, sobretudo. Boca sóbria, contida na doçura, tensa, indubitavelmente fresca e dotada de boa acidez e concentração de sabores. Em jeito de aparte, 85pts Wine Spectator.

3,50€.

15

Porque é que, tantas vezes, os termos vínicos têm de entrar em conflito com os do resto do mundo? Exemplos: incisivo, sápido, capitoso... Hum — bah!

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Versus '2004 e '2005

«A terra é severa, dir-se-ia até indomesticável como um potro selvagem. O granito impõe-se sobre a paisagem e pouco espaço liberta para a vegetação, que desponta fugidia entre as fragas. Nas serranias da Beira Interior, a inclemência dos elementos desafia a resistência dos que se expõem aos caprichos da Natureza. Invernos rigorosos golpeiam o solo, estremecem as árvores, resolvem as pedras. Verões tórridos secam os cursos de água, fendem os troncos, arrepanham as folhas. Mas o carácter industrioso de três gerações da mesma família fez fecundas estas terras graníticas. Em Vermiosa, Figueira de Castelo Rodrigo, o vinhedo viceja indiferente à rudeza da morfologia e do clima. Por estes lugares, o cultivo da vinha é quase uma fatalidade. Algo que acomete o Homem enquanto condição da sua própria existência. E assim nasce o vinho, com a mesma espontaneidade com que o orvalho filtra a luz da manhã. Um ofício de pureza, um labor de coisas simples, uma sabedoria quase visceral encerra o ciclo iniciado no aconchego da terra. O vinho Versus é o testemunho deste avatar.»




Este vinho é produzido pela Vinhos Andrade de Almeida em Vermiosa, localidade próxima de Figueira de Castelo Rodrigo. Bonito lugar!

Ora, como desta vez tive quem me ajudasse a virar copos, proporcionou-se este comparativo em jeito de mini-vertical. Aí vai:

Ambos possuem cor avermelhada, densa e muito escura — mas mais o de 2004, onde se evidencia ainda um grande rebordo violeta.

O da colheita de 2004 começa um pouco fechado no nariz. Depois desdobra-se em intensos aromas a cerejas e bagas maduras e em ligeira compota, com sugestões florais e de verniz, anis e notas de barrica — madeira torrada e muito café.

Na boca revela-se pujante, cheio de fruta especiada, muito saboroso, muito encorpado, quase untuoso na língua, com taninos grandes e suculentos perfeitamente integrados num conjunto francamente elegante. Fina, fria vibração mineral a todo o comprimento na prova de boca — faz lembrar granito! Final longo e persistente.

16,5, ou mais. Custa cerca de 8€. Tem de ainda ter uns quantos anos pela frente!


Já o da colheita de 2005 apresenta um perfil mais dócil, com o nariz mais fácil, mais quente, doce e disponível, cheio de frutos vermelhos e que a dada altura evoca rebuçados floco-de-neve, caramelos de leite e resina seca de eucalipto.

Na boca é equilibrado, embora bastante menos encorpado que o da colheita anterior. Também a mineralidade surge bem mais discreta. Algo guloso, oferece muita fruta e rebuçado, algum balsâmico e madeira sólida, tudo bem misturado e a prolongar-se por um final longo q.b..

Embora tenha melhorado nos últimos meses — ou assim me pareceu — nasceu uns furos abaixo do de 2004 e não o vai apanhar. Mas continua a ser um belo vinho!

16

sábado, 5 de julho de 2008

Castelo Rodrigo — Colheita Seleccionada '2003

É um tinto D.O.C. da Beira Interior, produzido pela Adega Cooperativa de Figueira de Castelo Rodrigo a partir das castas Touriga Nacional, Tinta Roriz (Aragonês) e Rufete. Diz quem o fez que foi vinificado em maceração prolongada com controlo de temperatura de fermentação e que estagiou em madeira nova de carvalho francês. Como nota de prova, fala ainda a garrafa de aroma a compota típico das castas, vinoso persistente num conjunto harmonioso.

Achei-o franco, fácil de beber, com boa estrutura e taninos macios. Apresenta, de facto, aromas compotados, mas estes são completamente dominados por aroma vinoso forte e persistente, que por sua vez surge acompanhado por notas anisadas, fazendo o conjunto lembrar jeropiga. E é tudo. Não se espere dele complexidade porque não a possui. Nota-se que é um vinho honesto, mas falta-lhe qualquer coisa. Será por eu detestar jeropiga?

Custou 3 ou 4€.

13