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domingo, 13 de outubro de 2019

Tapada do Chaves '2014 (Branco)

A propriedade de Frangoneiro, Portalegre, possui uma localização invejável, à beira da Serra de S. Mamede, cepas velhas e uma vasta história de muito bons vinhos.

Tendo, num passado recente, pertencido à Murganheira, foi adquirida, em 2017, pela Fundação Eugénio de Almeida, que tratou de valorizar, não só as coisas e os vinhos, mas tmbém a marca, apelando aos seus pergaminhos, a uma imagem retro e a um reposicionamento no mercado, um degrau acima daqueles que os respectivos predecessores ocupavam.

Este é, então, um branco de 2014, ainda feito nos tempos da Murganheira, mas já lançado no mercado pela FEA. As castas são Arinto, Antão Vaz, Assario, Tamarez e Roupeiro. Detalhes acerca da elaboração ou estágio, não aferi.

Cor palha. A princípio, indefinido. Pouca fruta. Mais arejado, agitado no copo, algum marmelo e o seu doce, a par de alguma tropicalidade. E flores. E notas químicas, petroladas, a fazerem lembrar, no seu conjunto, o solvente que tradicionalmente era usado pelos sapateiros para remover cola. Bom peso e untuosidade na boca, com frescura a corresponder, num conjunto ao mesmo tempo potente e equilibrado. Final médio+/longo, a perdurar na acidez.

Não nego que possua a sua dose de substância, beleza e até originalidade, mas, na minha opinião, não tem o brilho, o "factor uau" que espero de um vinho de 20€. Agora, se ainda viver daqui a 20 anos...

16,5

sábado, 5 de outubro de 2019

Breve passagem pela Feira do Vinho do Dão

A 28ª edição da Feira do Vinho do Dão teve lugar em Nelas, entre 6 e 8 de Setembro, e nós passámos lá na tarde do último dia, em desvio incluído num périplo "algo turístico" pelo centro-norte, que também contou com uma noite num festival de música electrónica chamado Insomnia, muito trance, muito buda dourado a expandir a consciência de não sei quem, talvez dos presentes, ou só de alguns, e algum speed, não posso dizer que muito, infelizmente, talvez, que foi o elemento que ajudou o evento musical a escapar. Isto em jeito de introdução a uma série de notas de prova, um mês depois de lá ter ido, publicadas agora para não acontecer como no ano passado, em que lá fomos e provei e falei tanto, e tanto apontei também, mas nada publiquei em tempo útil e o suporte informático dessas notas morreu, levando-as consigo.

A lista que se segue não é exaustiva e incide especialmente nos brancos. Isso acontece porque:

i. apesar de prova ser prova, com quantidades a corresponder, não andei por lá a cuspir vinho e, a dada altura, o cansaço começou a fazer-se notar: primeiro para apontar, depois até para beber;

ii. alguns dos expositores são sempre ocupados por grupinhos de "laretas", usualmente gente de meia idade e presumível seriedade, que faz questão de monopolizar os produtores ou os seus representantes com verdadeiras conversas de merda, de certeza que mais por atenção do que para aprender. Lembro-me de aguardar a minha vez para provar algo, já não sei em que barraquinha, mas de lá estar colado um senhor cheio de questões. Tantas, mas tantas, que, a dada altura, já iam, literalmente, na China. Digo, na penetração desse produtor no mercado chinês. E face a um simples "Para o Japão, já vendi umas caixas; agora, China, não. Mas está na China?" por parte do "entrevistado", o senhor em questão responde "não, nem nunca lá fui, mas..." e meio minuto depois estava a colar-se noutro expositor.

Dito isto, e sem mais delongas, por ordem de aquisição das notas, temos:

Quinta Mendes Pereira - Alfrocheiro Reserva '2012: O primeiro da tarde, apresentado por uma das pessoas mais simpáticas com que nos cruzámos no certame. Varietal e extraído q.b. Ginja e frutos pretos, licor, toque alcoólico, algo quente e capitoso. Grande e forte. Acredito que a 14 ºC e com algum tipo de companhia de trincar, digo, até um simples pão com chouriço, tivesse mostrado mais. 16

Quinta das Marias - Alfrocheiro '2016: Mais fresco e equilibrado que o precedente -- muito bem dimensionado, aliás -- mas sem "factor uau". 16,5

Aqui decido começar a experimentar brancos, na expectativa de, mais tarde, voltar aos tintos. Mais uma vez, estava em passeio, não tendo definido um método de ataque ao "problema"...

Quinta das Marias - Encruzado: Não apontei o ano: provavelmente, a edição de 2018. Encruzado sem madeira, jovem, vegetal e floral, de paladar seco e carnudo, muito característico. 16,5  

Quinta dos Carvalhais - Branco Reserva '2017: Flores, citrinos, baunilha. 1+1+1=3. Mas fresco e longo. Prazeroso. 17

Quinta dos Carvalhais - Encruzado '2018: Muito carácter varietal, mas menos finesse do que esperava. 16

Casa da Passarella - Villa Oliveira, Encruzado '2018: Mais preciso que o monocasta da Qta. dos Carvalhais, com a madeira a ligar muito, muito bem com os aromas da casta. Muito fresco, bastante longo. Até ver, o melhor. 18

Quinta da Fata - Encruzado '2018: Menos "punch" que o Villa Oliveira, menos substância também. Mesmo assim, grande equilíbrio e classe num vinho fresco e longo, todo ele bem ligado. 17

Valedivino - Branco Reserva '2012: Muito delicadamente floral, com toque de evolução e sugestões que juraria de barrica, apesar de por lá não ter passado. Firme e estruturado, um branco sólido. 16,5

Quinta do Escudial - Encruzado: Outro a que não apontei o ano. Ademais, a internet não sabe de monocastas Encruzado recentes da casa. De qualquer forma, deixou óptima impressão, que passo a transcrever: Talvez mais vegetal/floral, mais leve e alegre que a maioria dos outros varietais da casta provados até agora. Bem fresco, com ponta de austeridade na boca que cai bem. 17 

Quinta dos Roques - Encruzado '2017: Gordo, glicerinado -- 50% do lote passou por madeira -- mas em equilíbrio. Grande e bom, mas prefiro um estilo mais leve. 16,5

Julia Kemper - Vinhas Seleccionadas, Blanc de Noir '2018: Um branco de casta tinta, todo ele Touriga Nacional,  fermentado em bica aberta: saem as cascas e películas, o sumo da polpa fermenta sozinho. Tem a estrutura e a acidez de um TN jovem, e o nariz de um bom branco da região, daqueles sem madeira, repleto de flores brancas, a evoluir para fruta de polpa clara. Muito interessante. Comprámos uma garrafa para acompanhar o jantar. 16,5

Depois do jantar -- na representação que o restaurante Retiro das Laranjeiras tinha no local, muito bom --, ainda provei mais um ou outro, mas já não tirei notas. Excepção para o Quinta da Vegia - Superior: Não apontei o ano. 2013? Potente, complexo, equilibrado, cheio de sabor. Um vinho grande que também é um grande vinho. Mas que certamente pedirá tempo, paciência e um acompanhamento à altura, na mesa. 18

Em suma, um belo evento, a pedir uma visita mais atenta no ano que vem.

sábado, 28 de setembro de 2019

Duorum '2018 (Branco)

Enviaram-me o mais recente branco do projecto duriense de João Portugal Ramos e José Maria Soares Franco. Duorum tem como base a Quinta de Castelo Melhor, situada ao km 216 da EN 222, entre V.N. de Foz Côa e Almendra: uma grande propriedade, construída de raiz, por junção de muitos pedaços de terra inculta, adquiridos para a constituir, que desce dos altos até ao rio. Segundo o produtor, as vinhas de onde proveio a matéria-prima para este branco, Rabigato, Gouveio, Arinto e Códega do Larinho, encontram-se a cota elevada, 400-500 metros sobre o rio. Indica ainda a respectiva ficha técnica que um terço do lote fermentou em barrica.

A prova mostrou um vinho de dimensões a apontar ao "médio +", com basta frescura e, acima de tudo, excelente equilíbrio. Longo e substancial, a revolver em volta de florais e frutos de caroço, mostrou-se sempre sóbrio, mas também interessante, como a querer remeter aquele que dele fala para palavras que podem ser difíceis: contido, elegante... e pior, mineral. Uma proposta realmente sólida de um produtor, para mim, ainda meio por explorar, e também mais um Douro branco que me pareceu "saber mais do que cheira". Será esta recorrência casual, advirá da procura meio inconsciente de um perfil ou serão as sensações que me fazem acreditar nela mero resultado de um chavão que "colou"? Sim: as coisas ditas, lidas, sugeridas, cheiram e sabem que se fartam. Como quando Frédéric Brochet pintou um branco de tinto e o deu a provar a 54 estudantes de enologia de Bordéus. O resto é história. Enfim, terei de experimentar algo declaradamente diferente para tirar as teimas.

PVP recomendado, 12,49€

17

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Beyra - Reserva Quartz '2017 (Branco)

Há muito, há cada vez mais tempo me lembro de ser comum apontarem a Beira Interior Norte, sobretudo a zona de Figueira de Castelo Rodrigo, como "the next big thing" em termos de brancos portugueses.

Ora, sem me poder considerar um especialista ou, sequer, um jogador activo no meio, apenas vendo o que vejo, arriscaria dizer que não há, nem é expectável que venha a haver tal coisa. A cena do vinho em Portugal aparenta já ter deixado de crescer por esticões: não quero dizer com isto que tenha parado de crescer ou esgotado o  seu potencial, evidentemente.

E, ou muito me engano, ou os brancos da região continuam a progredir, lenta mas consistentemente, bem como a ser comercializados por valores que não reflectem as suas verdadeiras qualidades. Embora este caminho até pareça bem, que devagar se vai ao longe, não deixa de ficar no ar a ideia de que fazia falta um esticão -- de repente, lembrei-me da Omega e de James Bond, ou, generalizando, de qualquer marca e de James Bond. Talvez os vinhos da Beira Interior Norte precisem de um James Bond ou algo assim.

Os vinhos deste projecto de Rui Roboredo Madeira nunca me desapontaram, mas este, combinação de Síria e Fonte Cal em partes iguais, com estágio de meio ano em cuba de inox, foi aquele que, até à data, me soube melhor. Muito bem no plano aromático, trouxe consigo flores silvestres e citrinos, pêssego e pêra, muita pêra madura, presença predominante pelo menos nesta garrafa. Na boca, sem encher ou assoberbar, aliás, sem grande "punch", surgiu pleno de vigor e perfeitamente consentâneo com o nariz.

É largo, comprido e profundo q.b. Cheira bastante, sabe bastante, e a coisas boas. Deve aguentar mais 2 ou 3 anos em forma, se bem guardado.

7€

16,5

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

D. Graça - Samarrinho '2015

Da Vinilourenço. É, nas palavras do produtor, "um vinho para reabilitar uma grande casta antiga do Douro, em vias de extinção". Não passou por madeira. Dele se encheram 733 garrafas, não numeradas, em Maio de 2016.

O aroma é suave (o descritor favorito do noob, heh) e delicado. Uma língua viperina di-lo-ia pouco expressivo. Cheira a vinho branco: talvez com uma pontinha cítrica, talvez com fruta branca, certamente que com uma ou outra flor, da mesma cor.

Na boca, pareceu melhor. O produtor diz que "sabe mais do que cheira" e sinto-me inclinado a concordar. Tem bom volume, boa persistência, alguma acidez, a suficiente se for mantido refrescado, o sabor que esperaríamos corresponder ao das flores brancas, sem o amargor das ditas, e, acima de tudo, bastante substância, bastante vida, uma vida difícil de dizer, mas que não é só querer e que o mantém interessante, tanto a solo como com pratos leves -- nós bebemo-lo só com amêndoas, amêndoas com uma pontinha de sal, lá no wine bar. Às vezes lá rola uma torrada e a salada de bacalhau deles também não é má, mas, normalmente, o vinho é branco, para a gaja também beber, e amêndoas. E é bom. E foi bom. E talvez pudesse encaixar um prato simples de camarão ou vieiras, mas coelho, como o produtor sugere, não sei.

A casta, que algumas fontes, como João Paulo Martins, no seu guia "Vinhos de Portugal", mas sem consenso, dizem corresponder à espanhola Budelho, já marcava presença no Douro, consta, no início do século XVI, sendo que ainda é presença frequente, apesar de esparsa, em alguns encepamentos mais antigos, em field blend, e tem vindo a verificar um certo ressurgimento, através de edições monovarietais limitadas, de tiragem reduzida -- que eu saiba, para além desta, existe também uma da Real Cª Velha. A ver o que o futuro lhe traz.

Se a memória não me atraiçoa, custou 17€, ou um pouco menos, no Nobre, Vinhos e Tal, que é um sítio espectacular para quem gosta de vinho, com uma excelente garrafeira a óptimos preços e que visitamos sempre que a nossa volta passa na Guarda ou perto.

16

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Adega Cooperativa de Vila Nova de Tazém - Reserva Branco "Edição Limitada" '2014

Adquirido há cerca de um ano atrás, entre festivais de electrónica, este é um branco relativamente incomum. Graficamente, tem tudo a ver com a edição especial dos sessenta anos da adega (1954-2014), da colheita de 2013. No contra-rótulo, o produtor afirma que "cepas antigas de várias castas permitiram fazer este vinho seguindo uma vinificação natural com estágio prolongado em garrafa". No meu caso, provavelmente, mais de quatro anos. Das 2000 garrafas produzidas, abri a nº 685.

A cor, um amarelo nem claro nem escuro, é a típica de um vinho de meia idade, nem velho nem novo. O nariz mostrou-se fechado e assim permaneceu enquanto a garrafa ia sendo vertida ao longo de uma calma refeição de carapau assado, batatas cozidas, brócolos ao vapor -- eu também preferia bróculos -- e, claro, bom azeite. Fruta bastante, indefinida mas pouco tropical. Algum vegetal, alguma transformação, idade.

E embora aquilo que mostrou no nariz não se possa considerar mau, insuficiente ou, sequer, anticlimático, acho que esteve melhor na boca, muito fresco, de paladar seco e firme, macio mas só muito ligeiramente untuoso, com bom volume e persistência. Em suma, um branco que, tendo atingido a maturidade, permanece muito bem apresentado e poderá justificar guarda adicional.

8€.

16,5

sábado, 27 de julho de 2019

Falua - Reserva '2017 (Branco)

Este branco faz parte da nova gama "premium" da Falua, vinícola Ribatejana que começou sob a batuta de João Portugal Ramos e agora faz parte do Grupo Roullier.

A amostra foi gentilmente enviada para prova, pelo produtor, há mais ou menos meio ano atrás. Encontrando-se o blogue em coma, foi arrumada. Agora que o monstro  voltou à vida, pareceu-me adequado consumi-la e deixar aqui umas linhas sobre ela. Talvez este não seja o timing mais esperado ou desejado para efeitos de comunicação, mas também é verdade que um vinho com estas características, e preço, não passa de bestial a besta em meia dúzia de meses, e que a divulgação, assim, espalhada no tempo, em vez de por picos de novidade, também tem o seu valor. Sim, sim, escrevi isto, votem no puto.

Muito sucintamente, encontrei este vinho citrino e carregado. Citrino e carregado na cor, nos aromas, onde também desponta certo floral, doce, indefinido, junto com tostados de barrica, e nos sabores, intensos e bons, em corpo de peso e volume não negligenciáveis, com alguma untuosidade e guiados por uma acidez que, apesar de sólida, firme, me pareceu portar-se melhor se ajudada, mantendo-se a temperatura reduzida.

É um bom vinho, um bom vinho com mais porte que amplitude, mais corpo que alma -- para a mesa, e mesa com substância, como peixe assado e outros que tais.

As castas são Arinto, Verdelho e Fernão Pires; o PVP recomendado pelo produtor, 13,50€.

16

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Mar de Frades '2018

Albariño Atlántico, dizem eles. Ou o "nosso" Alvarinho, além-Minho. Fundado em 1987, o produtor de Arosa, Meis, tem a sua operação instalada em pleno Val de Salnés, a mais fresca e húmida das sub-regiões das Rías Baixas, localizada um pouco a norte de Pontevedra, e que é, segundo muitos, o lugar de origem da casta.

Adicionalmente, poderá afirmar-se que este é já um dos Albariño clássicos de Espanha e que o produtor se mostrou muito satisfeito com a colheita de 2018 -- mas também, se fosse apresentá-lo ao público a dizer que não...

Sem mais merdas, a mim, encantou-me. Vibrante de frescura, limonado, mas de limão maduro, raspa incluída, e salino. Sem ser excepcionalmente longo ou volumoso -- e até que ponto seria conveniente ao equilíbrio de um vinho com este perfil sê-lo? -- está tão bem conseguido, tão coeso e bem acabado, tão natural, que, sem exagero, o bebi como se de água se tratasse. No bom sentido da expressão.

Em suma, um novo favorito, que me deu um prazer que há muitos anos não encontrava em nenhum dos seus correspondentes elaborados do lado de cá da fronteira.

A forma como se portou com um bife de atum braseado, arroz thai, generosa porção de gari e uma salada, fresquíssima de tomate e pepino, tudo com bastante limão, deixou-me a ideia de ser o vinho perfeito para sushi. Em breve tirarei isso a limpo.

14€.

17,5

domingo, 2 de junho de 2019

CSL - Reserva '2015 (Branco)

Entretanto pensei e, que se foda. Não quero que o Puto mude à força. O Puto não se tornou naquilo que é por acaso. Se continuar a mudar, que seja porque passei a preferir fazer certas coisas de outra maneira. Adiante.

Outro vinho. CSL é acrónimo de Casa Santos Lima, empresa baseada nas proximidades de Alenquer e possuidora de uma vasta extensão de vinhas: o site deles fala em cerca de 400 ha.

Copy/paste das notas do produtor a respeito da elaboração deste vinho: "A fermentação das uvas da casta Viosinho e Chardonnay ocorreu, durante 25 dias, em barricas novas de carvalho francês. O vinho ficou em contacto com as borras, durante oito meses, através do processo de "batonnage". As uvas da casta Encruzado fermentaram em cubas de inox, durante 20 dias, e ficaram em contacto com as borras finas durante oito meses".

Aos quatro anos de idade, está um branco adulto, mas ainda longe de velho. Fruta e barrica. A primeira, que inicialmente parecia branca, de caroço, a tropicalizar logo após um pequeno aumento da temperatura do vinho, ou se calhar a mostrar-se tropical assim que o vinho deixou de estar demasiado frio, por tropical ser o carácter dela. Ananás, citrinos doces, banana: coisas assim. A segunda, não sendo assoberbantes, plenamente presente em toda a sua independência abaunilhada (etc.) Encorpado na boca, gordinho, mostrou boa untuosidade e acidez suficiente para a suportar. Persistência média.

Custou mais de 5, mas menos de 6€, num Pingo Doce.

16

quinta-feira, 30 de maio de 2019

João Portugal Ramos - Loureiro '2018

E ao segundo dia, o segundo post. Vinho. A partir de agora, espero que numa toada mais pessoal. Pensei no que andava a fazer e concluí que, quase de certeza por preguiça, tendo atinado, a dada altura, com um modelo de post que me pareceu satisfatório, tratei de nele enfiar vinhos atrás de vinhos, momentos atrás de momentos, como quem enche chouriços. Chouriços de diversos tipos de carne, com vários temperos diferentes, mas, ainda assim, chouriços.

Seria, então, bom dizer que se acabou a obrigatoriedade da lengalenga introdutória?

Composição. Tema: O Quinta de Não Sei das Quantas, Colheita de Tal e Tal.

Depois, uma série de dados, mais ou menos enciclopédicos, sobre a terra e o tempo, a empresa e os homens. Mas que parcelas e, quando presentes, o que significam os seus nomes? E os homens! Como se os conhecêssemos. Por fim, que tal pareceu o dito vinho. Destrinçado ou pretensamente destrinçado de forma categórica. Como se as informações das notas de imprensa fossem reflexo de um pequeno, mas muito justo, deus de certezas. Como se eu realmente soubesse. Nah. Não e não. Não está bem. Não existe necessidade. Então chega.

Mas as imagens encostadas à esquerda e dimensionadas a 40% da largura da página, poderiam ir? Ou o formato tru-lu-lu? Ou o numerozinho da qualidade e tudo o que se encontra por detrás dele? Era bom, quem sabe, que me fosse mais fácil deixar para trás certas amarras, mas estas coisas pedem tempo. Em todo o caso, o puto é hoje um fantasma ignorado, ainda mais do que quando estrebuchava com relativa frequência. Então, sem forçar, vamos ver.

O vinho do post. Enviado pelo produtor para prova. Agradecido. Um Verde de João Portugal Ramos: 85% Loureiro, do Lima, e Alvarinho. Sem madeira. A cor é a que se pode ver na fotografia, tirada contra fundo branco, com luz natural. O cheiro fez-me lembrar, assim do nada, o jardim botânico de Coria, com o perfume, vago, de muitas flores misturadas, citrinos e o toque de louro que tantas vezes se associa à casta, ou pelo menos algo verde, arborizado. Na boca, vigor e persistência "médios". A frescura satisfaz, mas o toque surge mais redondo, menos crocante, do que aquilo que o nariz fazia adivinhar. Talvez deva ser bebido agora, o mais jovem possível.

PVP recomendado: 3,99€.

15

domingo, 19 de agosto de 2018

Adega 23

Quem segue pela A23, de Vila Velha de Ródão para norte, reparará que, a uns 10 km de Castelo Branco, mais coisa menos coisa, corta uma extensão de vinhas de tamanho considerável, pelo menos tendo em conta a zona, algo improvável para a produção de vinho.



Trata-se da Adega 23, projecto da médica oftalmologista Manuela Carmona, com enologia de Rui Reguinga -- e a menos falada, mas não menos merecedora enóloga residente, que se chama Débora Mendes.


Os 12 ha de vinhas da propriedade foram plantados sobre xisto, entre 2014 e 2015, num lugar onde "não havia nada", excepto as ruínas de um edifício que, mau grado a ideia inicial de nele basear a estrutura da nova adega, se revelaram impossíveis de aproveitar, o que ditou a sua demolição. O edifício da adega, construído no mesmo lugar, é arquitectonicamente interessante, não só pela estética apelativa como pela sua grande funcionalidade.


Chegámos, falámos um pouco, assistimos a uma apresentação, que não lamento, sobre o vinho e o projecto, acompanhada de espumante Soalheiro, bruto, de Alvarinho, muito vivo e fresco, com boa bolha, fina e persistente, e notas de maçã e fermentos, demos uma breve volta pela adega e depois subimos para a prova propriamente dita, conduzida pela proprietária e a enóloga residente.


Para além dos vinhos da casa, houve Intensus tinto, meh, Poeira, sempre óptimo, sou fã, e dois Porto da Graham's a acompanhar as sobremesas: LBV e tawny 10 anos.


Foi um princípio de tarde muito bem passado, que me deixou curioso por experimentar o tinto da casa, que ainda não saiu. Acabo com umas breves impressões dos vinhos do produtor, escrevinhadas no telemóvel, "in loco" e enquanto tentava socializar: ou seja, com a naturalidade de quem se coça, temperada pela inevitável pontinha de pavor advinda de "estarem pessoas".


Branco '2017
Verdelho, Arinto, Viognier e Síria. Unoaked. Muito mais citrino que herbáceo, com limão doce e sua casca. Fresco, untuoso e bastante delicado, de persistência média/longa. Um vinho assim, na torreira das Sarnadas de Ródão? Notável. 16,5/20

Branco '2017 não engarrafado/comercializado
Uma curiosidade não comercializada. Feito das mesmas uvas que o branco da casa, mas aproveitando mais do que apenas o mosto lágrima, tem o perfil do branco engarrafado, mas menor delicadeza e uma ponta de amargor, a fazer lembrar caroços de prunóideas, no fim de boca -- pela prensagem adicional que abriu algumas das grainhas, contaram. Na minha humilde opinião, que vale o que vale, podia ter dado um segundo vinho bem decente. 15,5/20

Rosé '2017
Aragonês e Rufete, sem madeira. O facto de ser muito leve e fresco não o impede de irradiar substância. Os aromas são cativantes, com os frutos silvestres aliados a flores e um travo mineral, ligeiramente salino, que faz a diferença. Extremamente cativante e fácil de beber, foi dos melhores rosés que me lembro de ter experimentado e a S achou o mesmo. 17/20.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Palácio da Brejoeira '2014

O Palácio da Brejoeira localiza-se na freguesia de Pinheiros, 6 Km a sul de Monção.

Terminado em 1834, foi erigido por Luís Pereira Velho de Moscoso, fidalgo da casa Real, Comendador da Ordem de Cristo, e herdeiro do Morgado da Brejoeira, morgadio instituído por tradição, em 1500.

Trocou de mãos várias vezes, tendo tido momentos de prosperidade e de abandono. E consta lá se ter sempre produzido vinho, mas apenas para consumo da casa,  até 1977, ano em que é lançado no mercado o primeiro Alvarinho "Palácio da Brejoeira".

A propriedade que envolve o palácio, com 30 hectares de superfície, inclui bosques, jardins e 18 ha de vinha, plantada em solo argilo-calcário, de onde sai a matéria-prima deste branco.

Em traços gerais, a sua vinificação consistiu/consiste numa fermentação lenta, a baixa temperatura, seguida de estágio sobre as borras finas. Nas suas diversas edições, tem vindo a ser engarrafado sem passar por madeira.

Servido a 12ºC, como recomendado, surgiu fresco e portador de alguma estrutura. De toque untoso na boca e boa persistência, mostrou razoável complexidade, dividida entre o citrino e o tropical, mostrando mais do segundo que do primeiro.

Ainda amanteigados, ligeira baunilha e curiosas sugestões de giz. O tempo em garrafa trouxe-lhe outra maturidade, mas ainda não decadência. Muito interessante.

Foi aberta a garrafa nº 44054.

17€.

17

terça-feira, 13 de março de 2018

Beyra — Riesling '2016

Produzido por Rui Madeira, um Riesling da Beira Interior!

Proveniente de Vermiosa, Figueira de Castelo Rodrigo, fermentou e estagiou em inox, com "bâtonnage", até ao engarrafamento: 6650 garrafas que se encheram no final de Janeiro de 2017.

Foi com queijo "Braz", da Covilhã, com manchego velho,  deste, e com o mítico patê "La Charra", de Ciudad Rodrigo. A uni-los, pão "grande", com sementes, do Lidl.

Inicialmente muito frio e por conseguinte pouco expressivo, cresceu com o passar do tempo no copo e trouxe consigo banana, physalis e aromas lácteos, a fazer lembrar iogurte.

Redondinho, de textura amanteigada, com a acidez e a projecção do sabor a mostrarem-se mais no final (bastante persistente) que no ataque.

Uma curiosidade interessante!

9€.

16

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Murganheira — Super Reserva, Bruto '2008

A marca pertence à Sociedade Agrícola e Comercial do Varosa, que tem as suas caves em Ucanha, Tarouca.

O lote é comporto por Malvasia Fina, Cerceal e Tinta Roriz (vinificada em branco).

Bastante cheiroso, evocou maçã amarga, fermento e massas de pastelaria, pipocas e pinhões, baunilha e manteiga — bastante complexo, mesmo.

Com acidez generosa, mousse leve mas correcta e final agradável, foi, muitas vezes repetido, o melhor espumante que abri nos últimos meses.

Este tem uma história pessoal: Disse-o muitas vezes repetido por ser o espumante dos nossos serões nocturnos, ao frio, quando as outras pessoas não querem estar na esplanada do Alegro.

Ao longo de meses, habituámo-nos a encontrar lá um gato que fizera do lugar poiso habitual, como se fosse sua casa, de tal forma que uma das empregadas do shopping já lhe deixava taças com comida e água num certo canto, meio escondido, da esplanada.

Em Dezembro passado, o gato pareceu doente à S. Coriza, talvez. Nessa noite, teve direito a fiambre e chourição. Em Janeiro já não o vimos, nem às coisitas dele. Pensámos que tinha morrido.

Mais tarde, a S. perguntou por ele à empregada que o costumava alimentar e constou que afinal ainda vivia, simplesmente aparecia menos.

Mas esses nossos serões a espumante e snackzitos vis não voltaram a acontecer.

11€.

16

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Freixenet — Excelencia, Brut

Cava é uma denominação de origem espanhola, catalã, para vinhos espumantes produzidos segundo o método tradicional.

Este mostrou-se discreto na cor e vivacidade, com aromas a maçã assada, massas lêvedas, frutos secos e ligeiro tostado, e sabor fresco, de volume satisfatório, com um ponto agradável de cremosidade. Persistência mediana. Se a bolha tivesse mais vivacidade...

O produtor dispensa apresentações. Do contra-rótulo: "Este Cava es un clásico por excelencia. Ha sido elaborado suguiendo rigurosamente em método tradicional empleando vinos procedentes de las uvas más características de la región del Cava: Xarel-lo, Macabeo y Parellada".

Acompanhou salmão fumado, pão e creme de queijo com alho e ervas.

6€.

15

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Quinta dos Termos — Espumante Bruto, Fonte Cal '2013

O nosso consumo de espumante aumentou consideravelmente no último ano por ser dos poucos vinhos que é possível beber com a S. — por outras palavras, dos poucos que ela ainda aceita. Ao mesmo tempo, se primeiro os estranhava, fui aprendendo, com o tempo, a gostar deles, talvez por familiaridade, e agora afirmo, sem qualquer reserva, que um bom espumante me cai bem.

O de que cuida o presente post, branco e bruto, da colheita de 2013, foi feito exclusivamente com a casta Fonte Cal, o que o torna uma espécie de raridade: haverá mais algum no mundo com tal predicado?

No nariz, primeiro, dei conta de flores brancas e amarelas, rasteiras — ragadíolos, malmequeres e outros que tais, junto com o que me pareceu ser o cheiro de leveduras frescas. Depois, sugestões esmaecidas, claro está, mas límpidas no sentido de que sugeriam o que sugeriam e não poderiam sugerir outra coisa qualquer: jeropiga, ginja e o recheio daqueles infames bombons da Ferrero que são comercializados sob a marca "Mon Cheri".

Ao mesmo tempo, ia-se fazendo notar fresco e seco, seco não só no sentido da ausência de doçura, mas também na textura, coisa difícil de descrever, que me sinto inclinado a deitar no fundo saco da mineralidade. Só que nem tudo são flores: a bolha podia ser mais viva e fina, a mousse podia ser mais fofa, e o final, engraçado pelas notas de pistácio que trouxe consigo, muito mais persistente.

Enfim! Original, é. Interessante, também. Mas não muito mais que isso.

8€.

15,5

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Château de L'Ecole '2010

90% Sémillon, 10% Sauvignon, é um Sauternes de Julie Gonet-Médeville, que também possui o Château Gilette.

Só que ao contrário desse, aqui temos um vinho de ataque, daqueles feitos mais para obter rentabilidade no mercado que para espalhar pelo mundo a alma daquela terra, preservada em garrafa.

Bouquet de complexidade razoável, com boa projecção: citrinos e abacaxi em primeiríssimo plano, mas também ameixa branca, alperce, pêra, mel, biscoitos, flores etc., sem o esmaecimento ou a decomposição "doce" que muitas vezes vem associada ao género.

Na boca, sabores consentâneos com o nariz, tendencialmente cítricos e amanteigados, alguma untuosidade e persistência satisfatória. Teria proporcionado melhor prova se tivesse um bocadinho mais de acidez e se esta não estivesse tão voltada para o lado cítrico do conjunto — assim acabou por parecer algo unidimensional, e pior, chocho.

Em suma, não fez um brilharete, mas valeu pela curiosidade. Não me pareceu pior que a generalidade das propostas da nossa produção nacional no que respeita a vinhos do mesmo género e preço — será, até, mais limpo e vivaz que a generalidade deles.

Ainda assim, com o que custa, compra-se um bom tawny "dez anos". Estou a comparar maçãs com laranjas, mas, às vezes, quem compra precisa de fazê-lo e eu, por norma, prefiro maçãs.

12€/37,5cl.

15,5

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Quinta de la Rosa — Reserva '2013 (Branco)

Gosto dos brancos "reserva" da Quinta de la Rosa com alguns anos — envelhecem bem. O último a ser aqui comentado foi da colheita de 2012, abatido em Setembro de 2016.

Em relação a esse, a composição deste 2013 mudou: a quantidade de Viosinho subiu dos 35 para os 60%, sendo o restante uma mistura de Rabigato, Gouveio e Códega do Larinho em proporções que o rótulo não menciona.

Tal como o seu predecessor, metade dele fermentou e envelheceu em barricas e o restante, em inox. Foi engarrafado em Abril de 2014.

Bebido fresco, primeiro sozinho, em jeito de prova, depois a acompanhar salada de bacalhau cozido a vapor, trouxe consigo flores e ameixa, brancas, pêssego pouco maduro e barrica, granito e humidade, tudo envolvido por um véu de casca de limão. Mais que fruta, sobressaíram os amanteigados, especiarias e cremes da madeira por onde passou.

Considerando que estamos no final de 2017, muito ligeira a evolução evidenciada por esta garrafa. E que engraçado quando um vinho me faz lembrar água da chuva a correr sobre granito (não é inédito).

Na boca, longo e delicado, com bom compromisso entre frescor e redondez. Muito bom.

10€.

17,5

sábado, 21 de outubro de 2017

Druida '2015

Feito por C2O na Quinta da Turquide, em Silgueiros, é um monocasta Encruzado de vinhas com 30 anos, estagiado durante dez meses em barricas, 80% usadas, de carvalho francês.

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Cor clarinha, citrina. Malmequeres, limonado, sílex, pederneira. Intenso e cristalino, quase crocante. Muito limpo, muito fresco, sem o peso ou a oleosidade que tantas vezes marcam os vinhos da casta. Leve, de final longo e bom.

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A garrafa foi sendo drenada à medida que eu ia comendo nigiris, mas, quando um vinho é assim, o acompanhamento pouco importa, a menos que seja escolhido a dedo, para prejudicar. E fazê-lo seria estúpido.

18€.

18

sábado, 30 de setembro de 2017

Gautherot — Grande Réserve, Brut

Este foi tomado em casa do vizinho. Acompanhou passas e nozes.

Dourado claro.
Limonados e maçã madura, massa de pão, ameixa branca.
Leve, de bolha fina e mousse rica, cremosa.
Sem ser um monstro de complexidade, sem ser, aliás, um monstro do que quer que seja, mostrou-se intenso e equilibrado q.b.

75% Pinot Noir, 20% Chardonnay e 5% Pinot Blanc. O produtor diz que para este apenas foram usados os primeiros mostos procedentes do prensado, tendo o resultado amadurecido "mais de 30 meses" em cave.

Bonito, bonito! :)

18€.

16,5