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quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Las Uvas de la Ira - El Real de San Vicente '2013

O nome remete à ideia de "vino de pueblo", o vinho da terra, de uma determinada terra, habitualmente feito pela cooperativa ou por um conjunto de agricultores locais. Aqui, a execução é totalmente diferente, mas este não deixa de ser, de facto, um vinho da terra, de El Real de San Vicente, povoação situada na zona este da serra de Gredos, no vale do rio Tiétar. Das uvas de três parcelas de Garnacha, com idades entre os 40 e os 70 anos, espalhadas pelas imediações do povoado, e cuja superfícia totaliza apenas 4 ha, resultaram 10.000 garrafas, nas quais o produtor, Daniel Jiménez-Landi, afirma pretender refletir as características do terroir local.

Garnacha de montanha, criada em altitude, alegre no nariz e austera na boca. Não é, no entanto, de carrasco que estamos a falar. Muito pelo contrário. O leque de aromas é amplo: em redor de muita fruta vermelha, sempre doce, axaropada e em batido de leite, vem alcaçuz, canela, pimenta, anis, almíscar e pêlo de mamífero pequeno, ligeira redução, com pau de fósforo... e nada se afigura como defeito, e tudo liga bem, com naturalidade. Na boca, a entrada é jovial e o final tem uma ponta de amargor característica. É fresco e persistente, de taninos densos e firmes, bem finos, e enxuto, ainda menos glicerinado, menos pesado do que esperava. Um vinho muito ao meu gosto, mas, à parte disso, objectivamente muito bom.

20€

17,5

terça-feira, 3 de setembro de 2019

CVNE - Viña Real, Crianza '2012

Produzido por um dos nomes mais sonantes da região, a CVNE, Compañía Vinícola del Norte de España, criada na localidade de Haro, em 1879, e ainda hoje nas mãos de descendentes dos fundadores, é um Rioja de estilo mais clássico que moderno. Ou seja: apesar de ser mais frutado, redondo e carnudo, e apesar de não ter qualquer vestígio do toque oxidativo que marca os clássicos dos clássicos da Rioja Alta, como este, por exemplo, é um vinho clássico dentro do registo da Rioja Alavesa, também ele orientado para a elegância e capaz de evoluir favoravelmente por longo tempo, pelo menos nas boas colheitas.

Feito com 90% de Tempranillo e 10% de uma mistura de Garnacha, Mazuela e Graciano, fermentou em inox e, após a maloláctica, foi transferido para barricas de carvalho, "principalmente americano", para usar as palavras do produtor, onde permaneceu 14 meses. De vários anteriormente provados, parece que aqui registei umas quantas impressões a respeito do de 2008.

Directamente do bloco de notas do telemóvel, aí fica que tal me pareceu. "Cereja. Pele, coco, especiarias. Viçoso. Intenso, de passagem macia e prolongada. Fresco, amplo, equilibrado e bastante longo. Macio, mas... Não sendo extraordinariamente complexo, encontro-o sempre cativante".

Para terminar, a nota, quiçá escusada, de que é um vinho de perfil muito bem definido, que não tem mudado muito de colheita para colheita, pelo menos na última década. E um valor sempre mais que seguro.

7€

17

quarta-feira, 24 de julho de 2019

Gran Tiriñuelo - Cepas Viejas '2017

Nome de presença recorrente na topologia salamantina, sempre associado a elevações do terrenos, onde muitas vezes os antigos faziam os seus túmulos, "tiriñuelo" poderá também ser, curiosamente, parece que por via desses mesmos túmulos, algo que se diz de um céu ao mesmo tempo nublado e tranquilo. Aqui, designa uma das referências da Bodega Cooperativa de San Esteban de la Sierra, fundada em 1959 e a primeira da região.

Tempranillo, Rufete e Garnacha. O Rufete desta região, especialmente o de cepas velhas, costuma dar vinhos muito ao meu gosto, de expressão alegre, com um carácter distintamente floral, onde habitualmente surgem toques de alcaçuz e mato seco. E este, dizem, provém de plantas com mais de cem anos.

Também a fruta vermelha da Garnacha se faz notar, num registo bastante típico, de montanha, bonito na forma abrutalhada com que nos brinda com uma ponta de amargor e taninos difíceis. E depois vem o Tempranillo, a dar um extra de cor e profundidade ao todo, talvez, mas como que a operar apenas nos bastidores, e não sei se bem.

Em suma, pareceu-me um vinho agradável que, não sendo nada de especial, constitui uma curiosidade engraçada.

7€.

15,5

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Mar de Frades '2018

Albariño Atlántico, dizem eles. Ou o "nosso" Alvarinho, além-Minho. Fundado em 1987, o produtor de Arosa, Meis, tem a sua operação instalada em pleno Val de Salnés, a mais fresca e húmida das sub-regiões das Rías Baixas, localizada um pouco a norte de Pontevedra, e que é, segundo muitos, o lugar de origem da casta.

Adicionalmente, poderá afirmar-se que este é já um dos Albariño clássicos de Espanha e que o produtor se mostrou muito satisfeito com a colheita de 2018 -- mas também, se fosse apresentá-lo ao público a dizer que não...

Sem mais merdas, a mim, encantou-me. Vibrante de frescura, limonado, mas de limão maduro, raspa incluída, e salino. Sem ser excepcionalmente longo ou volumoso -- e até que ponto seria conveniente ao equilíbrio de um vinho com este perfil sê-lo? -- está tão bem conseguido, tão coeso e bem acabado, tão natural, que, sem exagero, o bebi como se de água se tratasse. No bom sentido da expressão.

Em suma, um novo favorito, que me deu um prazer que há muitos anos não encontrava em nenhum dos seus correspondentes elaborados do lado de cá da fronteira.

A forma como se portou com um bife de atum braseado, arroz thai, generosa porção de gari e uma salada, fresquíssima de tomate e pepino, tudo com bastante limão, deixou-me a ideia de ser o vinho perfeito para sushi. Em breve tirarei isso a limpo.

14€.

17,5

terça-feira, 24 de abril de 2018

Abadía Retuerta — Selección Especial '2002

Outra relíquia! Este é o vinho mais conhecido de Abadía Retuerta, produtor baseado junto da localidade de Sardón de Duero — Valladolid.

Esta grande propriedade, que "abriu" tal como agora a conhecemos em 1996, inclui cerca de 710 ha de terras, dos quais 210 ha estão ocupados por vinhedos, divididos por diferentes parcelas, todas elas plantadas entre 1991 e 1994. Existe lá, de facto, uma antiga abadia Cisterciense que data do século XII.

No entanto, o foco da produção agrícola das terras que a envolviam nunca foi o vinho, mais tubérculos e cereais — a "Finca Retuerta" acaba adquirida por uma empresa de sementes, a Prodes, em 1920, e, consta, não tinha uma única cepa plantada no final dos anos 70.

Em 1990, a farmacêutica Sandoz, hoje parte do grupo Novartis, toma controlo da propriedade (movimentações de capital entre badochas, vale mesmo a pena investigar porquê?) e resolve valorizar a sua componente vínica, primeiro — afinal, a parte oriental da propriedade está a apenas 10 Km de Vega Sicilia... — e turística, com a construção de hotel e restaurante, depois.

Os solos são heterogéneos, com areia, argila e cascalho nas partes mais próximas do rio Duero/Douro, a cerca de 640 metros de altitude, e pedra calcária nos altos, que atingem os 850 metros sobre o nível do mar. O clima é continental, com grandes amplitudes térmicas e tendencialmente seco, mas estando o produtor fora da DO Ribera del Duero — todos os seus vinhos saem sob a denominação de Vino de la Tierra de Castilla y León — utiliza rega gota-a-gota quando necessário.

O vinho, bem, este ainda vivia. Muito mais escuro que o "Riserva Ducale" e muito menos atijolado também, trouxe consigo frutos pretos no limite da madurez, em compota e em licor, tabaco, especiarias indefinidas, mas quentes, e cacau. Na boca, mostrou uma redondez consentânea com o carácter "quente" dos seus aromas. A acidez está bem integrada e os taninos, finos, perfeitamente cobertos. O fim de boca pode considerar-se longo. Como não há post que não inclua esta informação, aí fica: lote de Tempranillo, Merlot e Cabernet Sauvignon provenientes das várias parcelas da quinta, estagia "de 16 a 22 meses", diz o produtor, em barricas francesas e americanas.

Enfim, este e o vinho do post anterior, dois velhos senhores que ainda mexem! Mas se o italiano, apesar de reter alguma dignidade, não conseguiu esconder estar com os pés para a cova, neste ainda perdura aquela fase bonita da maturidade plácida e elegante... Mas não nos enganemos: também não é para guardar.

As garrafas de 75cl das colheitas mais recentes custam à volta de 25€, mas o produtor ainda vende este 2002, a 58€. A oferta do produtor na sua loja virtual vai, aliás, até 1995!

16,5

sábado, 10 de março de 2018

Grego — Garnacha Centenaria '2015

Feito com uvas de diversas parcelas, não especificadas pelo produtor, que se presumem muito velhas, pretende ser um Garnacha de montanha "low cost", produzido nos limites da denominação "Vinos de Madrid".

Sem mais delongas, até porque este espécime não apresenta predicados que o justifiquem, a prova:

Cor rubi, escura, de opacidade mediana. O aroma surgiu dominado por frutos vermelhos — nenhum em concreto — e suas guloseimas, com toque de flores e algo que inicialmente me pareceu lácteo, ou talvez barrica, mas que acabou por me parece um pontinho verde, vegetal.

Sem grande estrutura, e também sem esconder que dela ainda há algo por amaciar, acabou por se mostrar bastante fresco para os seus 14,5% de álcool, com sabor agradável, de persistência mediana, marcado por ligeiro amargor, típico, ou talvez melhor dizendo, comum, mas de que gosto.

Apesar de bem feito, falta-lhe a profundidade, a concentração e até a alegria que fazem um grande garnacha de montanha. As limitações começam logo na matéria prima, ponto final. Mas deixa perceber, por alto, o que é um vinho do género. E para o preço, não está mal.

6,50€.

15,5

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Breca '2012

As vinhas que deram origem a este monovarietal Garnacha das Bodegas Breca, de Munébrega, terra situada no Sul da denominação de origem Calatayud, foram plantadas entre 1925 e 1945, em solos pobres, de ardósia vermelha e preta, com veios de quartzo, cerca de 900m sobre o nível do mar.

O produtor afirma que tanto a intervenção humana na vinha como a vinificação foram minimalistas, com fermentação alcoólica em tanques abertos e maloláctica em barris de carvalho francês, de 500 e 600 litros, a que se sucederam 18 meses de maturação, em contacto com as películas.

Vermelho muito escuro, mas não opaco, é um pequeno monstro de concentração, guiado por 15,5% de álcool impecavelmente integrado.

O nariz é intenso, com flores e cerejas maceradas, reminiscências agradáveis de químicos aromáticos, farmácia, café, torrefacção, barrica... Bastante complexo, e coeso também, a apresentar-se de forma bem bonita.

Volumoso e persistente na boca, não mostrou o toque de amargor que por vezes surge nos varietais da casta. De estrutura já perfeitamente madura, poderá aguentar mais uns tempos em cave, mas é para beber.

Apesar de super bem feito, será mais apreciado por aqueles que gostam de vinhos potentes.

Brilhou com um solomillo al horno, feito no estilo deste.

16€.

17,5

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Freixenet — Excelencia, Brut

Cava é uma denominação de origem espanhola, catalã, para vinhos espumantes produzidos segundo o método tradicional.

Este mostrou-se discreto na cor e vivacidade, com aromas a maçã assada, massas lêvedas, frutos secos e ligeiro tostado, e sabor fresco, de volume satisfatório, com um ponto agradável de cremosidade. Persistência mediana. Se a bolha tivesse mais vivacidade...

O produtor dispensa apresentações. Do contra-rótulo: "Este Cava es un clásico por excelencia. Ha sido elaborado suguiendo rigurosamente em método tradicional empleando vinos procedentes de las uvas más características de la región del Cava: Xarel-lo, Macabeo y Parellada".

Acompanhou salmão fumado, pão e creme de queijo com alho e ervas.

6€.

15

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Almirez '2012

100% Tinta de Toro produzido e engarrafado por Teso la Monja, dos irmãos Eguren.

Uvas de cepas com idades entre os 15 e os 65 anos, das zonas de Valdefinjas e Toro.

Vinificação tradicional, com desengace; fermentação com leveduras autóctones; maceração pós-fermentativa; maloláctica e 14 meses de estágio em barricas de carvalho francês, 30% das quais, novas. Só coisas boas.

Bebido há cerca de um mês atrás, foi ficando no caderninho do álcool. Agora que só me lembro dele por alto, era quente e duro, parece-me melhor reproduzir, a cru, as notas tomadas quando o bebi.

"Escuro, fragrante, muito especiado: o nome assenta-lhe que nem uma luva.

Licor de cereja e chocolate no final, qual sobremesa.

Longo, amplo, texturado e concentrado, de alguma forma acaba por conseguir ser elegante no seu jeito, às vezes meio atabalhoado, de coisa grande.

Um bocadinho agressivo, mas bom. Pede as circunstâncias certas para mostrar o seu melhor."

15€.

16,5

domingo, 16 de agosto de 2015

Lustau — Los Arcos, Amontillado

Amontillado é um tipo de Xerez com origem em uvas Palomino Fino, criadas em solos de albarizas, ricos em carbonato de cálcio. Os mostos, uma vez fermentados, desenvolvem o chamado véu de flor, que lhes transmite pungência e secura características: muito resumidamente, é nisto que consiste a crianza biológica, estática, do vinho. Com o passar do tempo, estas leveduras, que cobrem o interior das barricas onde o vinho estagia, morrem, deixando o líquido muito mais exposto à influência do oxigénio do ar. Aí começa a fase oxidativa do envelhecimento, que por norma se associa ao estágio dinâmico em criaderas e soleras (merecem um link), que garante a uniformização do nível de qualidade do vinho, de colheita para colheita, e que, no caso de amontillados velhos, pode durar muitos anos.

Este vinho que serve de mote ao post, em concreto, é um amontillado comparativamente modesto, inserido comercialmente na linha "popular" do produtor, as Bodegas Lustau, de Jerez de la Frontera. Não sei se era fresco: quando procurei a garrafa, para tentar aferir a data de engarrafamento a partir do número de lote lá impresso, descobri que a tinha deitado fora. Frio, acabado de sair do frigorífico, e logo depois de aberto, fez lembrar tawny velho, por força da cor ambarina e do carácter melado, bem terciário, com toque de doçura, a untuosidade definida, mas nada frutado e de presença menos alcoólica, rico em canela e frutos secos, com notas de iodo e casca de laranja. De secura e salinidade muito mais comedidas que qualquer Fino — passou por aqui este, do mesmo produtor — não é necessariamente vinho para tapas ou sobremesa, de tal forma que acompanhou com sucesso este franguinho de que tanto gosto.

Um pouco mais quente, ganhou outro poder, outra envolvência, mas começou também a parecer menos fino e preciso, pelo menos na boca. Aí, empurrou uma fatia de bolo xadrez e um palmier, sem cobertura, da Vasco da Gama. Desta primeira incursão, sobrou quase meia garrafa, abatida com o lanche do dia seguinte: pão, manteiga, queijos Brie (Président, bonzinho) e Pecorino Romano (Zanetti, uma pilha de sal), fiambre e mortadela, tendo encaixado sempre bem. Veio vedado com uma simples rolha capsulada, semelhante às que se encontram no Porto corrente, mas apresentava algum depósito.

16€

17,5

domingo, 7 de junho de 2015

CVNE — Viña Real, Crianza '2008

Tempranillo, Garnacha e Mazuelo. Foi elaborado em Viña Real, com uvas procedentes de vinhas próximas, em Laguardia e Elciego — aqui, no mapa. Feitas as fermentações alcoólica (10-12 dias, a 26-28ºC) e maloláctica, em inox, foi envelhecido durante 14 meses em barricas de carvalho americano, com trasfegas a cada 5-6 meses.

Não obstante começar com cedro e especiarias, predomina nele aquela fruta com toque de oxidação que caracteriza estes Rioja de perfil clássico, já com algum tempo em garrafa, aqui escura, a fazer lembrar cereja e outros frutos do bosque, profunda, sempre no comando, amparada por óptima acidez. Pareceu-me atravessar uma fase muito bonita, que facilmente durará mais alguns anos: apesar da sua relativa simplicidade — quando lhe chamo profundo, quero dizer que mostra muita fruta sobre fruta, não um bouquet amplo — tudo o que mostra está no ponto, francamente equilibrado, fácil e bom de beber. Com o tempo, ganhou notas de café e chocolate preto.

Foi abatido, quase todo, a um lanche, com Cheddar maduro e um muito bom patê La Charra, de Ciudad Rodrigo, em pão de trigo desta padaria da Rua da Moeda.

7€.

17

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Castillo de Liria — Viura & Sauvignon '2010

Continuo com mais vontade de ouvir FSOL e olhar para jogos antigos entre motores de xadrez que de escrever sobre o que tenho bebido. Mas, que raio, mau grado os parêntesis que lhe integram o nome, o Puto não é uma montra pretensamente artsy de amores e birras, uns discos e umas fotografias pelo meio. O Puto não é um Tumblr! O Puto bebe! :P Assim nasce outro post sobre vinho. E desta vez, um verdadeiramente mainstream! Diz o produtor no respectivo sítio da internet que "está presente en más de 60 países de los cinco continentes, convirtiéndose en una de las marcas españolas de vino más vendidas en el mundo". Bivarietal Viura e Sauvignon Blanc com 11,5% de teor alcoólico, fermentou em inox e foi engarrafado sem estágio.

Servido a 10ºC. Límpido e brilhante, de cor citrina, com reflexos esverdeados. Banana e frutos de polpa branca — maçã, pêra, melão — sobre fundo herbáceo, ligeiramente amargo. Presença agradável, com aromas bonitos, de boa intensidade, e uma boca firme, leve e fresca, onde apenas haverá a apontar o final curto. Face a umas sanduíches de zure haring — arenque em conserva com vinagre branco, cebola, sementes de mostarda, açúcar e outras coisinhas, que se come cru — com fatias de tomate fresco, bem maduro, e azeitonas, não comprometeu.

2€.

14

domingo, 7 de agosto de 2011

Borsao — Garnacha Mítica '2009

Não relacionado, mas relevante: voltei a encontrar-me com uma data de velhos programas de xadrez, alguns deles ainda bem interessantes — Siberian Chess 2.15, Mint 2.3, CS Tal II, M-Chess 8. Depois explico melhor.



Agora vinho: varietal Garnacha das Bodegas Borsao. Simples, mas extremamente sólido. Face ao de 2008, não mudou quase nada. Ainda a fruta alegre, rica, sumarenta, maioritariamente vermelha, com ligeiro toque balsâmico a compor. É dócil no ataque à boca, mas fresco, de sabor expressivo, com ligeiro amargor de fundo, que se torna mais saliente no final. Muitos o consideram o vinho anti-crise por excelência e há que reconhecer que existem bons motivos para isso! Sempre se trata de um D.O. mais que razoável, vendido ao preço de um qualquer vinho de mesa.



Acompanhou frango de churrasco, salsichas, batatas fritas, pão grosseiro e molhos vários. Casamento perfeito (ou quase).



1,5€.



15

domingo, 25 de outubro de 2009

René Barbier — Reserva '2001

Aragonês e Cabernet Sauvignon com estágio em madeira.

Cor acobreada. O aroma, achei-o marcadamente vegetal, notando-se perfeitamente a influência do Cabernet Sauvignon no lote. Tanto que acabei por me interrogar se o dito contará, de facto, com apenas 15% de uvas da referida casta, à semelhança do seu maninho de '98, isto segundo informações contidas na página do produtor.

Marcadamente vegetal e quase sem ponta de doçura; a fruta ia surgindo tímida e imprecisa. No mais, ainda lhe encontrei sugestões de pêlo e especiarias. Mas tudo muito indiferenciado, simples, mofino...

A boca, fresca e seca, de persistência algo fraca, mostrou no entanto uma untuosidade agradável. Com o tempo, aparentou ir ganhando doçura e um certo «quê» almiscarado. E em jeito de retrogosto, a partir de dada altura, começou a deixar sugestões de sabor a cona.

Após quatro dias no frigorífico, vedado apenas com a sua rolha voltada ao contrário, estava parcialmente oxidado, repleto de café e alicorados. Oxidado mas perfeitamente bebível. E por incrível que possa parecer, agradável.

Provavelmente, a graça que lhe fui achando terá crescido mais com o tempo de abertura que o vinho em si. Que, de qualquer forma, não compromete.

Custou 6,50€.

14,5

sábado, 26 de setembro de 2009

Protos — Verdejo '2008

Varietal Verdejo (não confundir com Verdelho), D.O. Rueda das Bodegas Protos.

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Cor esmaecida, denotando juventude. Nariz floral e cítrico, a incidir particularmente nas notas limonadas, pouco doce. Segue para a boca na mesma toada, com uma entrada incisiva que se prolonga numa presença globalmente seca, de acidez muito intensa, quase a transmitir a ideia de agulha. Sápido — desta vez a significar «salgadinho» — no final, relativamente longo. Fiel à casta, é um vinho que pede comida.

Custou pouco menos de 7€.

15

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Marqués de Cáceres — Vendimia Seleccionada '2004

Rioja Crianza das Bodegas Marqués de Cáceres. Cor rubi de concentração mediana. Aroma a frutos vermelhos do bosque com sugestões de tabaco e especiarias. Notas de estágio bem evidentes — sobretudo baunilha. No palato destacou-se a sua boa fluidez, textura suave e sabor macio. Final curto, a limpar a boca. Melhor com comida.

Custou à volta de 8€.

15

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Alión '1996 e '1998

Estes vinhos dão pano para mangas, mas, porque estou de ressaca, não esperem grande merda.

Ora bem, esta marca pertence ao grupo Vega-Sicilia, sobre o qual bem podia tentar escrever qualquer coisa bonita, que são um mito vínico, o maior do país vizinho, que têm cento e cinquenta anos de história, etc., etc., etc.. Em vez disso, deixo aos eventuais interessados os enlaces que se seguem: um, a página oficial deles e dois, o artigo da wikipédia a seu respeito.

Citando o produtor, as ideias que levaram ao nascimento desta marca passaram, desde o início, para lá da simples necessidade de expansão, pela vontade de «crear una bodega que produzca, con viñedos propios, un vino con una filosofía diferente y una identidad independiente a la de Bodegas Vega Sicilia, por lo que se descarta la posibilidad de elaborar el vino en las instalaciones de Vega Sicilia; los Álvarez no desean crear una marca que pueda ser considerada como un segundo vino del nombre mítico.»

Talvez tenha interesse referir ainda que Alión é o nome (antigo) do concejo de León onde nasceu David Álvarez Díaz, o senhor que em 1982 comprou as Bodegas Vega-Sicilia e patriarca da família que ainda hoje define os seus destinos. Mais, aqui.

Enfim, indo direito ao que interessa — a nós, consumidores — Alión é sinónimo de uns tipos que em cada colheita conseguem produzir à volta de 250/300.000 garrafas de excelente tinto, que vendem a um preço bastante democrático — e penso que ainda o seria mais caso o senhor Parker gostasse (um bocadinho) menos dele.

Estes vinhos são feitos à base de Tempranillo — Tinto Fino na zona e Aragonês para nós — proveniente de cepas cujas idades oscilam entre os 15 e os 20 anos e envelhecidos em barricas novas de carvalho francês (das florestas de Nevers) durante 13 meses, passando depois mais uns tempos em garrafa antes de serem postos à venda.


Alión '1996

Houve historieta ao abrir esta garrafa. A rolha estava mole e partiu-se durante a extracção. Por sorte, o resto que ficou preso no gargalo aguentou uma segunda investida do saca-rolhas e o vinho fluiu límpido para dentro do decantador. Dei-lhe ar durante pouco mais de duas horas e servi-o a 16ºC. A cor pareceu-me algures entre o rubi e um granada escuro com reflexos avermelhados. Bonita. Nariz dominado por fruta doce — amoras-pretas e cerejas, suaves e persistentes — desde o primeiro instante. Dela se foram libertando outros aromas: uns como que em repentes, laivos mais ou menos intensos, de curta duração — feno seco, pêlo de coelho, sangue, fermento e massas cruas de pão e bolos — outros mais persistentes, espraiando-se a todo o comprimento do vinho, passando as suas sensações para o palato — caruma de pinheiro, chão de bosque, castanhas e madeiras e, acabando por predominar no tempo, tabaco, café e anis em sugestões várias. Boca extremamente sedosa, de acidez moderada e final longo, levemente terroso. Sobrou um restinho. Guardado no frigorífico, ainda estava vivo no dia seguinte. Muito bom vinho, sem dúvida.

Custou 40€. 18,5


Alión '1998

Passou igualmente duas horitas no decantador antes de ser servido a 16ºC. Cor intensa, a virar granada. Inicialmente ligeiras sugestões lácteas, a iogurte de morango ou coisa que o valha. Eventualmente suplantadas por ameixas e cerejas bem maduras no nariz e quase gulosas na boca, refrescadas por ligeiro balsâmico — resinas. Também notas de tosta de barrica, tabaco e café. Estava, contudo, à espera de um bouquet mais amplo. Sendo um vinho de sabor muito agradável (não me vou repetir), o que mais uma vez impressionou foi a sua estrutura, a sua relação «comprimento - largura - intensidade - peso». Os anglófonos têm uma palavra muito boa para isto — mouthfeel. Tudo muito redondinho e agradável — quanta harmonia... Final apenas razoável, tanto face ao esperado como comparado com o do irmão mais velho que, curiosamente (ou não), era dos dois aquele que parecia mais novo!

Em jeito de aparte, não resisto a referir que, em Dezembro de 2001, o vinho desta colheita — caramba, devo tê-lo bebido pela primeira vez em 2002 ou 2003 e ainda apresentava alguma dureza, traços de rusticidade; foi um ano difícil na zona, é bem sabido... — foi classificado com uns impressionantes 17 valores pelo painel de prova do ElMundoVino. Ora, estes provadores são famosos pelas razias autênticas que às vezes dão no que a notas toca. A título de exemplo, em Junho de 2007, deram 15 ao Redoma, 14 ao Quanta Terra Grande Reserva, 13,5 ao Quinta das Tecedeiras, 13 ao Duas Quintas Reserva — ...aunque el final es todavía un tanto tánico, dizem eles... — e 12,5 ao Meandro do Vale Meão (todos de 2004)! Está bem que muitos defendem a maior importância da nota de prova face ao valor numérico que a acompanha. Concordo: que interessa um número servido simples? Mas o valor numérico, se não pela sua maior visibilidade — está para o texto que acompanha mais ou menos como o título de uma notícia para o corpo da mesma —, pelo menos por uma questão de honestidade, tem de reflectir de modo fiel a apreciação do vinho... Tem de haver coerência: a diferença entre 13 e 17 valores tem de ser abismal! E sobretudo porque não acredito que se trate de chauvinismo — vd. a prova deste conjunto de vinhos italianos — nem de lobismo — por exemplo, deram um pobre 15 ao Vega Sicilia «Único» de '89 —, não consigo deixar de achar isto estranho.

Também custou 40€. 17,5

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Torres — Gran Coronas Cabernet Sauvignon «Reserva» '2004

De volta a estas lides, enfim! Ora ponha-se lá o vinho em dia...

Para começar, tinto espanhol, D.O. Penedès, produto da emblemática Bodegas Torres. Lote composto por 85% de Cabernet Sauvignon e 15% de Tempranillo. Estagiou durante um ano em barricas de carvalho americano e francês. 14% de volume alcoólico.

Rubi profundo na cor, tem o nariz dominado por notas vegetais — azeitona parda, pimento, forragem seca de cheiro discreto — e de barrica. Folha de eucalipto; muita madeira resinosa. A fruta, a fazer lembrar bagas e morango ultra maduros, quando começam a aguar-se no início do processo de putrefacção, surge discreta depois do verde. Depois firma o seu lugar, mas nunca como protagonista. Na boca, mais do mesmo. Doçura comedida. Amplitude e corpo razoáveis. Acidez acentuada. Álcool que não incomoda (até a temperatura bater nos 18ºC). Ligeira secura vegetal — taninos densos e jovens — até ao fim.

É vinho que não beberia a mais de 16ºC e que, estando pronto, poderá guardar-se sem problemas durante mais meia dúzia de anos.

Custou 7,50€.

15,5


P.S.

Nota-se que tem sido muito bem promovido: 94 pontos no Guía CAMPSA '2009!

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Marqués de Murrieta — Reserva '2001

Quando provei o de 2000, fiquei impressionado. Tanto que lá voltei. Mas, entretanto, acabou. E assim, há dias, foi a vez de abrir um de 2001.

Foi feito com 89% de Aragonês, 7% de Garnacha Tinta e 4% de Mazuelo. Estagiou 22 meses em barricas de carvalho americano de 225l.

Guía Peñín: 92pts.

R. Parker: 90pts.

Drink 2005-2013 - $20.00

The impressive 2001 Ygay Reserva exhibits a dense ruby/plum color as well as a big, spicy nose revealing loads of cassis, licorice, and a hint of tobacco. With beautiful texture, outstanding purity, and medium to full body, this lovely Rioja can be enjoyed now and over the next 7-8 years.
(Wine Advocate nº 159 de Jun. 2005)

Andrés Proensa: 94pts.


Cor granada de concentração bastante elevada. Aroma envolvente e de boa complexidade, primeiro a flores e depois a muita fruta: alguma vermelha, madura mas não excessivamente doce, outra preta, em passa, combinada com balsâmicos vários e indefinidos, em fundo de caramelo/melaço e alguma madeira (tosta) e especiarias — sobretudo baunilha e cominhos. Na boca, mais do mesmo. Expressivo, mas nunca guloso. Muito figo seco. É comprido e largo, com taninos redondos mas ainda cheios de garra, acidez marcada e álcool muito bem integrado — tem 14% e não se dá por ele. Mineralidade terrosa e muito viva. Uma ou outra nota untuosa, a evocar abacate.

Menos exuberante no nariz que o de 2000, está, contudo, melhor na boca. Mais equilibrado e com mais vida pela frente, também (o de 2000 está no limite). Muito, muito bom.

Custou 16€ numa loja em Espanha.

18,5


P.S.

Aqui, a página do produtor.

• Acerca de alguns dos nomes que a casta toma, esgravatando um pouco mais sobre nomes, descobri que Roriz é nome de três freguesias do Norte de Portugal. O nome vem do genitivo — caso gramatical que indica uma relação de posse — do nome próprio Roderick (de origem Gótica e nome do rei Visigodo da Hispânia que reinou entre 710 e 712), Rodoricus em Latim e Rodrigo em Português e Espanhol. Enfim, concluindo, Roriz deve significar terra de Rodrigo. E tinta, do Latim tincta, significa tingida. Juntando Tinta + Roriz e faltando apenas «adivinhar o sinal», juraria estar perante um de, omitido por elipse. (Casta) tinta das terras de Rodoricus, Tinta de Roriz, Tinta Roriz. Faz todo o sentido. Por outro lado, Aragonês, do Castelhano aragonés, significa de Aragão, relativo a Aragão. Terras de Espanha! De onde a casta é natural, havendo fortes indícios de já ser conhecida no tempo dos Romanos. E onde se chama Tempranillo. E que significa tal palavra? É, tão somente, um diminutivo de temprano, palavra proveniente do Latim temporānus, via temporanĕus, e que significa adiantado, antecipado, cedo... Consta que se chama assim por amadurecer antes — por vezes semanas — das outras castas plantadas no país vizinho. O único termo que cai que nem uma luva à coisa que procura designar, neste caso, é Tempranillo.

sábado, 1 de novembro de 2008

Protos — Crianza '2004

Voltei, voltámos. Aweh!

Mas, um aviso! — ando preguiçoso e desinspirado.

Postos os preliminares, aí vai qualquer coisa sobre bebida:

Após longo interregno, tão longo que este é o primeiro vinho de tal origem que coloco neste blogue, voltei há dias aos espanhóis da Ribera del Duero. Vem das Bodegas Protos, de Peñafiel, cidadezinha pequenina, muito antiga e cheia de tipicidade, que fica a 56Km de Valladolid.

Meia dúzia de linhas sobre o produtor: é uma cooperativa que surgiu em 1927 e cresceu muito depressa. Por ter sido a primeira e por os seus vinhos — bons mas acessíveis, também porque produzidos em larga escala — terem, sem dúvida, contribuído para o aumento de visibilidade da região, o seu contributo para como as coisas do vinho aí correram — para os desinformados, han ido de puta madre — desde então não pode ser ignorado. Uma adega histórica, portanto.

Consta que este Crianza é um clássico da sua denominação de origem. Não por ser o nec plus ultra do que por lá se faz, muito longe disso, mas pela forma simples e honesta, e com qualidade, com que revela o carácter da zona no que a vinho toca. É um varietal de Aragonês — ou seja, Tempranillo, Cencibel, Tinto Fino, Tinta de Toro, Tinta del País, Tinta Roriz... et caetera! — envelhecido durante 12 meses em madeira de carvalho (branco, já agora) americano e outro tanto tempo em garrafa. Pelo menos.

Quanto a que tal me pareceu, mais ou menos sucintamente: Cor rubi. De aroma franco a frutos negros muito maduros — amoras, cerejas e sobretudo uvas — e baunilha. Muito mais complexo na boca, a desdobrar-se num sem fim de impressões animais: sangue, suor, banha de porco cozinhada, pêlo... e outras sugestões mais ou menos exóticas: chocolate e goiabada, anis e amêndoas, cravinho e madeira resinosa — exuberância cativante mas um pouco agressiva, que aparenta surgir apoiada na vincada acidez do vinho — esta, infelizmente, em boa parte, volátil. Não o bebendo todo ao almoço, ao lanche encontrei um vinho muito mais simples e macio, muito menos estimulante. De corpo, está bem. Volume aprazível, com taninos finos e os 14% de álcool a fazerem-se sentir mais nos lábios e garganta que na boca. Tal como tudo o mais, o final, longo, surge marcado pela madeira.

Enfim, é bom, mas não brilha. E precisa de comida.

Comprei-o por 10€ na última feira de vinhos do Jumbo. E, mesmo assim, para o que cá há nessa faixa de preços, achei carote. Agora, os 16€ e qualquer coisa que costuma custar quando não está em promoção... são um claro exagero.

15,5