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sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Maritávora - Reserva Nº4 '2011

A Quinta de Maritávora fica ao km 88 da EN 221, à beira de Freixo de Espada à Cinta. O produtor remonta à segunda metade do séc. XIX, quando José Junqueiro Júnior, pai do poeta Guerra Junqueiro, adquiriu um conjunto de propriedades na região, muitas das quais percmanecem na família. O estilo é tradicional, mas voltado para a modernidade. Os vinhos são da autoria de Jorge Serôdio Borges.

Este, feito, de acordo com o contra-rótulo, com Touriga Nacional, Tinta Roriz, Touriga Franca e outras, provenientes de vinhas com idades compreendidas entre 15 e 50 anos, fermentou em lagares de pedra, com pisa a pé, e estagiou 18 meses em barricas de carvalho francês. Mais uma vez, recorde-se que 2011 foi um grande ano.

Escuro e concentrado, mostrou densidade, 15% de álcool e alguma opulência. No entanto, a fruta é super sólida e a barrica funciona, pelo que, em vez de pastoso, resulta envolvente, fácil de beber e não enjoa.

É claramente um vinho da sua terra, mas dos finos, dos bem cuidados. Ainda por cima, nesta fase, todo ele está em harmonia. Provavelmente, no auge. Valerá a pena guardar?

17€

17,5

sábado, 5 de outubro de 2019

Breve passagem pela Feira do Vinho do Dão

A 28ª edição da Feira do Vinho do Dão teve lugar em Nelas, entre 6 e 8 de Setembro, e nós passámos lá na tarde do último dia, em desvio incluído num périplo "algo turístico" pelo centro-norte, que também contou com uma noite num festival de música electrónica chamado Insomnia, muito trance, muito buda dourado a expandir a consciência de não sei quem, talvez dos presentes, ou só de alguns, e algum speed, não posso dizer que muito, infelizmente, talvez, que foi o elemento que ajudou o evento musical a escapar. Isto em jeito de introdução a uma série de notas de prova, um mês depois de lá ter ido, publicadas agora para não acontecer como no ano passado, em que lá fomos e provei e falei tanto, e tanto apontei também, mas nada publiquei em tempo útil e o suporte informático dessas notas morreu, levando-as consigo.

A lista que se segue não é exaustiva e incide especialmente nos brancos. Isso acontece porque:

i. apesar de prova ser prova, com quantidades a corresponder, não andei por lá a cuspir vinho e, a dada altura, o cansaço começou a fazer-se notar: primeiro para apontar, depois até para beber;

ii. alguns dos expositores são sempre ocupados por grupinhos de "laretas", usualmente gente de meia idade e presumível seriedade, que faz questão de monopolizar os produtores ou os seus representantes com verdadeiras conversas de merda, de certeza que mais por atenção do que para aprender. Lembro-me de aguardar a minha vez para provar algo, já não sei em que barraquinha, mas de lá estar colado um senhor cheio de questões. Tantas, mas tantas, que, a dada altura, já iam, literalmente, na China. Digo, na penetração desse produtor no mercado chinês. E face a um simples "Para o Japão, já vendi umas caixas; agora, China, não. Mas está na China?" por parte do "entrevistado", o senhor em questão responde "não, nem nunca lá fui, mas..." e meio minuto depois estava a colar-se noutro expositor.

Dito isto, e sem mais delongas, por ordem de aquisição das notas, temos:

Quinta Mendes Pereira - Alfrocheiro Reserva '2012: O primeiro da tarde, apresentado por uma das pessoas mais simpáticas com que nos cruzámos no certame. Varietal e extraído q.b. Ginja e frutos pretos, licor, toque alcoólico, algo quente e capitoso. Grande e forte. Acredito que a 14 ºC e com algum tipo de companhia de trincar, digo, até um simples pão com chouriço, tivesse mostrado mais. 16

Quinta das Marias - Alfrocheiro '2016: Mais fresco e equilibrado que o precedente -- muito bem dimensionado, aliás -- mas sem "factor uau". 16,5

Aqui decido começar a experimentar brancos, na expectativa de, mais tarde, voltar aos tintos. Mais uma vez, estava em passeio, não tendo definido um método de ataque ao "problema"...

Quinta das Marias - Encruzado: Não apontei o ano: provavelmente, a edição de 2018. Encruzado sem madeira, jovem, vegetal e floral, de paladar seco e carnudo, muito característico. 16,5  

Quinta dos Carvalhais - Branco Reserva '2017: Flores, citrinos, baunilha. 1+1+1=3. Mas fresco e longo. Prazeroso. 17

Quinta dos Carvalhais - Encruzado '2018: Muito carácter varietal, mas menos finesse do que esperava. 16

Casa da Passarella - Villa Oliveira, Encruzado '2018: Mais preciso que o monocasta da Qta. dos Carvalhais, com a madeira a ligar muito, muito bem com os aromas da casta. Muito fresco, bastante longo. Até ver, o melhor. 18

Quinta da Fata - Encruzado '2018: Menos "punch" que o Villa Oliveira, menos substância também. Mesmo assim, grande equilíbrio e classe num vinho fresco e longo, todo ele bem ligado. 17

Valedivino - Branco Reserva '2012: Muito delicadamente floral, com toque de evolução e sugestões que juraria de barrica, apesar de por lá não ter passado. Firme e estruturado, um branco sólido. 16,5

Quinta do Escudial - Encruzado: Outro a que não apontei o ano. Ademais, a internet não sabe de monocastas Encruzado recentes da casa. De qualquer forma, deixou óptima impressão, que passo a transcrever: Talvez mais vegetal/floral, mais leve e alegre que a maioria dos outros varietais da casta provados até agora. Bem fresco, com ponta de austeridade na boca que cai bem. 17 

Quinta dos Roques - Encruzado '2017: Gordo, glicerinado -- 50% do lote passou por madeira -- mas em equilíbrio. Grande e bom, mas prefiro um estilo mais leve. 16,5

Julia Kemper - Vinhas Seleccionadas, Blanc de Noir '2018: Um branco de casta tinta, todo ele Touriga Nacional,  fermentado em bica aberta: saem as cascas e películas, o sumo da polpa fermenta sozinho. Tem a estrutura e a acidez de um TN jovem, e o nariz de um bom branco da região, daqueles sem madeira, repleto de flores brancas, a evoluir para fruta de polpa clara. Muito interessante. Comprámos uma garrafa para acompanhar o jantar. 16,5

Depois do jantar -- na representação que o restaurante Retiro das Laranjeiras tinha no local, muito bom --, ainda provei mais um ou outro, mas já não tirei notas. Excepção para o Quinta da Vegia - Superior: Não apontei o ano. 2013? Potente, complexo, equilibrado, cheio de sabor. Um vinho grande que também é um grande vinho. Mas que certamente pedirá tempo, paciência e um acompanhamento à altura, na mesa. 18

Em suma, um belo evento, a pedir uma visita mais atenta no ano que vem.

sábado, 21 de setembro de 2019

Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo - Reserva "Terroir Blend" '2015

A propriedade fica na margem direita do Douro, à beira rio, pouco depois do Pinhão. Diante dela, mas do outro lado, ergue-se a Quinta do Pôpa. Apesar de o produtor ser recente, não falta tradição vinícola àquela terra e àquelas gentes. Ademais, o projecto surgiu, logo à partida, com dinheiro e ambição, o que é uma grande ajuda a que este tipo de coisas avance depressa e bem, como se tem vindo a verificar. Para além da produção de vinho, a quinta explora a vertente turística.

Touriga Franca, Touriga Nacional, Tinto Cão e Tinta Roriz. fermentou em cuba de inox e estagiou, meio ano, em madeira. Nariz bastante intenso, de ataque franco, com cerejas e frutos silvestres, muito maduros, mato seco e um químico/balsâmico peculiar, que para mim, já foi sinónimo de Douro e de tourigas, especialmente da francesa, mas que cada vez conoto mais com álcool. O paladar é fino, mas ao mesmo tempo vigoroso, seco, terroso e texturado, com acidez suficiente. O fim de boca convence sem admirar. Um vinho prazeroso, ainda com espaço para crescer. Apesar de não se destacar do "montão" de bons vinhos do Douro que existem entre os 10 e os 20€, é um bom vinho, que vale a pena conhecer.

15€

16,5

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Reguengos - Garrafeira dos Sócios '2011

Regresso ao porta-estandarte da CARMIM, Coop. Agrícola de Reguengos de Monsaraz, desta vez com um espécime da colheita de 2011. Figuram nesta caderneta de cromos os seus predecessores de 2001, bebido em 2010, e de 2004, bebido em 2014. Pelos vistos, tenho por norma consumir estes vinhos já com alguma idade.

Composto por 40% de Alicante Bouschet, 30% de Trincadeira e 30% de Touriga Nacional, diferencia-se dos seus antecessores supra na medida em que o Aragonês e Castelão deram lugar a Alicante e TN. Assim de cabeça, sem provar nada, desde logo se esperará um perfil floral diferente, caso exista, e uma presença globalmente menos alegre e mais robusta.

Arejado num decantador talvez durante hora e meia antes de ser servido, não só confirmou estas ideias, que reflectem mudança, como o fez enquadrado numa continuidade fixe. Continuidade fixe porque sempre associei o Garrafeira dos Sócios a longevidade e este, firme e fresco -- gosto de pensar que este par de descritores surge com uma frequência feliz, não como cliché -- surgiu, mais uma vez, bem jovem. Escuro e entroncado, extremamente sápido e aromático, aparece bem ligado, macio mas com estrutura para durar, dominado por fruta escura, passas de uva e figo, especiado indistinto, com qualquer coisa a fazer lembrar xisto em pano de fundo. Sabe ao que cheira, cheira ao que sabe e sabe com garra. Não sei se vai crescer, é possível; aquilo de que não duvido é de que, se guardado, ainda vá evoluir -- ou seja, mudar, sem ser objectivamente para melhor ou pior -- de forma interessante. Sou quase fã.

Acompanhou uma pintada com cerca de 1 kg de peso, que preparei da seguinte forma: a quatro colheres, das de sopa, de manteiga, juntei duas chalotas, uma colher, de sopa, de salsa, outra de cebolinho fresco, uma colher, de sobremesa, de alho em azeite, uma colher, de café, de estragão seco, sal e pimenta, e foi tudo bem moído e misturado. Esta massa foi introduzida entre a pele e a carne da ave, sobretudo nas coxas e peito, e também na cavidade. Polvilhado o exterior com mais sal e alguma pimenta preta, e massajado com um pouco de azeite, foi, em pyrex fechado, ao forno, pré-aquecido a 200 ºC, onde passou cerca de um quarto de hora. Volvido esse tempo, reduzi a temperatura para 180 ºC e deixei cozinhar mais quarenta minutos. Retirada a pintada do forno, escorreu-se, aproveitando-se o molho da assadura para dentro de uma caçarola, onde ferveu mais ou menos cinco minutos, até reduzir qualquer coisa, com vinho branco e um pouco de caldo. Foi para a mesa com batatas e courgette no forno.

18€

17

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Las Uvas de la Ira - El Real de San Vicente '2013

O nome remete à ideia de "vino de pueblo", o vinho da terra, de uma determinada terra, habitualmente feito pela cooperativa ou por um conjunto de agricultores locais. Aqui, a execução é totalmente diferente, mas este não deixa de ser, de facto, um vinho da terra, de El Real de San Vicente, povoação situada na zona este da serra de Gredos, no vale do rio Tiétar. Das uvas de três parcelas de Garnacha, com idades entre os 40 e os 70 anos, espalhadas pelas imediações do povoado, e cuja superfícia totaliza apenas 4 ha, resultaram 10.000 garrafas, nas quais o produtor, Daniel Jiménez-Landi, afirma pretender refletir as características do terroir local.

Garnacha de montanha, criada em altitude, alegre no nariz e austera na boca. Não é, no entanto, de carrasco que estamos a falar. Muito pelo contrário. O leque de aromas é amplo: em redor de muita fruta vermelha, sempre doce, axaropada e em batido de leite, vem alcaçuz, canela, pimenta, anis, almíscar e pêlo de mamífero pequeno, ligeira redução, com pau de fósforo... e nada se afigura como defeito, e tudo liga bem, com naturalidade. Na boca, a entrada é jovial e o final tem uma ponta de amargor característica. É fresco e persistente, de taninos densos e firmes, bem finos, e enxuto, ainda menos glicerinado, menos pesado do que esperava. Um vinho muito ao meu gosto, mas, à parte disso, objectivamente muito bom.

20€

17,5

terça-feira, 3 de setembro de 2019

CVNE - Viña Real, Crianza '2012

Produzido por um dos nomes mais sonantes da região, a CVNE, Compañía Vinícola del Norte de España, criada na localidade de Haro, em 1879, e ainda hoje nas mãos de descendentes dos fundadores, é um Rioja de estilo mais clássico que moderno. Ou seja: apesar de ser mais frutado, redondo e carnudo, e apesar de não ter qualquer vestígio do toque oxidativo que marca os clássicos dos clássicos da Rioja Alta, como este, por exemplo, é um vinho clássico dentro do registo da Rioja Alavesa, também ele orientado para a elegância e capaz de evoluir favoravelmente por longo tempo, pelo menos nas boas colheitas.

Feito com 90% de Tempranillo e 10% de uma mistura de Garnacha, Mazuela e Graciano, fermentou em inox e, após a maloláctica, foi transferido para barricas de carvalho, "principalmente americano", para usar as palavras do produtor, onde permaneceu 14 meses. De vários anteriormente provados, parece que aqui registei umas quantas impressões a respeito do de 2008.

Directamente do bloco de notas do telemóvel, aí fica que tal me pareceu. "Cereja. Pele, coco, especiarias. Viçoso. Intenso, de passagem macia e prolongada. Fresco, amplo, equilibrado e bastante longo. Macio, mas... Não sendo extraordinariamente complexo, encontro-o sempre cativante".

Para terminar, a nota, quiçá escusada, de que é um vinho de perfil muito bem definido, que não tem mudado muito de colheita para colheita, pelo menos na última década. E um valor sempre mais que seguro.

7€

17

sábado, 31 de agosto de 2019

Quinta do Sobral - Touriga Nacional '2013

O monocasta Touriga Nacional da Quinta do Sobral, de Santar, produtor fundado em 1997 e que desde 2002 conta com adega própria. O seu predecessor de 2011 passou por aqui e deixou boa impressão.

Muito intenso e encorpado, negro e alcoólico, com um leque aromático floral e balsâmico, farto de barrica e especiarias, onde definitivamente não falta álcool. Tudo nele contribui para um mesmo retrato de madurez e extracção, que remete para coisas escuras.

Mas bom! Apesar do ímpeto com que nos aborda, da densidade, da concentração, da passagem abrutalhada de coisa grande que parece querer ser ainda maior, é bom! Tem persistência, profundidade, carácter. Apetece dizer que tem alma.

Ao fresco da noite, com uma feijoada riquíssima, esteve super bem.

10€

16,5

domingo, 25 de agosto de 2019

Quinta de Cabriz - Touriga Nacional '2014

Touriga Nacional polido e concentrado, firme nos frutos pretos e notas florais, mas também bastante marcado por tostados de barrica. De taninos maduros e dimensões equilibradas, como que "médio+ em tudo", amplitude e persistência incluídos, não desmerece, mas também não marca. É ainda daqueles vinhos que mais frequentemente vejo de preço "esmagado" nas feiras e acções promocionais do género que a distribuição, em especial as grandes superfícies, promovem de tempos a tempos. Não, o preço normal dele, por garrafa, não é de 23000€ e agora, só agora, com a promoção espectacular deles, é que se consegue tirar a 6,50 ou 7€. 7/8€ é o seu preço normal, a mais de 8€ já é caro. Caveat emptor!

Acompanhou um prato simples, caseirinho, cortesia da S e que me deixou tão bem impressionado que apontei para aqui registar. Sem medidas, tudo a gosto. Refogou-se cebola. Juntou-se-lhe cenoura e courgette em fatias finas e, tendo os vegetais atingido o devido ponto de desenvolvimento, removeram-se para uma taça. Na mesma frigideira, usou-se uma grande e pesada frigideira de cerâmica, mas suponho que podia ser qualquer outra coisa baixa e larga, sem lavar, dourou-se pá de porco, picada no talho, com salsa, alho, sal, sambal oelek e pimiento choricero. Tendo a carne adquirido alguma cor, juntou-se polpa de tomate, que calhou ser daquela já vendida com manjericão, e um pouco de cerveja. Por fim, farinha de arroz para ajudar a engrossar. Estando tudo bem ligado e espesso q.b., juntou-se à taça dos vegetais. Entretanto cozeu-se e escorreu-se esparguete, que se colocou numa travessa funda, com a mistura supra por cima e, por fim, um generoso topping constituído por uma boa camada de mozzarella, primeiro, e outra de parmesão. Foi ao forno até o queijo derreter e ter corado qualquer coisa.

7€

16

sábado, 17 de agosto de 2019

Cimarosa - Winemaker's Selection by Christian Rojas '2012

Olho para os arquivos dos primeiros anos do Puto e impressiono-me com a naturalidade com que bebia e apreciava tintos encorpados e cheios de madeira em qualquer almoço de verão. Hoje em dia já não é assim. Mau grado a disponibilidade de soluções de climatização, com o calor, prefiro comer coisas simples, cada vez mais simples, na verdade, e tento acompanhá-las com vinhos à altura. Ou seja, que liguem.

Cimarosa é, ou era, a marca genérica dos vinhos do Lidl. O contra-rótulo deste apresenta a "Winemaker's Selection", colecção onde se insere, como um conjunto de vinhos produzidos e seleccionados, em quantidades limitadas, por vários produtores, de vários locais do mundo. Ou seja, esté um tinto do Lidl, mas de edição limitada a 99.800 garrafas, proveniente do Valle de Colchagua, no Chile, onde foi feito e selecionado por Christian Rojas, que na altura era enólogo-chefe da Viña Luis Felipe Edwards.

O lote é composto por Cabernet Sauvignon, Syrah e Carménère, com um anos de estágio em carvalho francês e americano. E sem ser nenhum estrondo, cumpre bem. Ainda não acusa muito o peso da idade, continuando super generoso, carregado de ameixa e frutos silvestres, todos bem maduros, naquele registo limpo e sumarento, com cacau e especiarias, temperado só com um bocadinho de barrica, que tanto marca as propostas mais mainstream do hemisfério sul. Há dois ou três anos atrás, estaria ainda melhor, que o lustro da juventude cai bem a este tipo de tinto. Mesmo assim, gordo e aveludado na boca, com certa sensação de calidez e um final médio+, acompanhou lindamente uma tarde de febras grelhadas, beringelas japonesas tratadas da mesma maneira, pimentos assados, salada de tomate e azeitonas, algum azeite a dar brilho a tudo e muitas rodelas de limão.

Não me lembrando exactamente de quanto paguei por ele, muito me surpreenderia se tivesse sido mais de 5 ou 6€.

16

quarta-feira, 24 de julho de 2019

Gran Tiriñuelo - Cepas Viejas '2017

Nome de presença recorrente na topologia salamantina, sempre associado a elevações do terrenos, onde muitas vezes os antigos faziam os seus túmulos, "tiriñuelo" poderá também ser, curiosamente, parece que por via desses mesmos túmulos, algo que se diz de um céu ao mesmo tempo nublado e tranquilo. Aqui, designa uma das referências da Bodega Cooperativa de San Esteban de la Sierra, fundada em 1959 e a primeira da região.

Tempranillo, Rufete e Garnacha. O Rufete desta região, especialmente o de cepas velhas, costuma dar vinhos muito ao meu gosto, de expressão alegre, com um carácter distintamente floral, onde habitualmente surgem toques de alcaçuz e mato seco. E este, dizem, provém de plantas com mais de cem anos.

Também a fruta vermelha da Garnacha se faz notar, num registo bastante típico, de montanha, bonito na forma abrutalhada com que nos brinda com uma ponta de amargor e taninos difíceis. E depois vem o Tempranillo, a dar um extra de cor e profundidade ao todo, talvez, mas como que a operar apenas nos bastidores, e não sei se bem.

Em suma, pareceu-me um vinho agradável que, não sendo nada de especial, constitui uma curiosidade engraçada.

7€.

15,5

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Lacrau - Old Vines '2014

Mais uma das garrafas que tinha guardadas há anos e que recentemente presumi encontrarem-se num bom momento para o abate, esta é uma das propostas de referência da Secret Spot Wines. As uvas, indica o produtor, provêm de várias pequenas parcelas de vinhas muito velhas, em "field blend", localizadas em diversos pontos da região demarcada, sendo a vinificação feita na adega da empresa, poucos quilómetros a sul de Favaios.

E não me enganei: não só aparenta estar num bom momento para ser bebeido, como arriscaria não haver proveito em deixá-lo evoluir mais, mercê do sucesso da actual ligação da barrica, em expressão suave, a fazer lembrar madeiras aromáticas e especiarias, com um sumo que, por mais voltas que dê à memória, e tanto mais quantas mais dou, só consigo descrever como típico das vinhas velhas da região: denso, profundo, um pouco morno também, com flores e frutos pretos, esteva e mato seco, e ainda algo de solvente/químico aromático.

Gordo e envolvente, de acidez moderada, tem textura e sabor agradáveis e termina razoavelmente longo. Pelo seu perfil, poderá ser desafiante nesta altura do ano. Para um jantar mais substancial, de carne vermelha ou caça, ao ar condicionado ou no frescor da noite, se o houver.

16€.

17

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Quinta da Bica - Vinhas Velhas '2011

A Quinta da Bica fica, poderá dizer-se, no chamado "Dão serrano", entre Arrifana e Santa Comba de Seia, não muito longe, para nascente, da Quinta do Escudial, e na direcção oposta, de MOB - Moreira, Olazabal & Borges.

Do mesmo produtor, falei aqui de um "Colheita" de 2005 e de um "clássico em estilo moderno" a que chamaram "Radix", de 2008, ambos consumidos em 2013 e que deixaram vontade de mais.

Diz o contra-rótulo deste espécime que a quinta "... está na nossa família desde o século XVII e desde então, se produz vinho aqui. A qualidade e singularidade dos vinhos da quinta, desde sempre reconhecidas, constituíram um forte estímulo para a criação da Região Demarcada do Dão em 1908, em que teve papel activo João Sacadura Botte, nosso trisavô". Refre ainda tratar-se de um "conjunto de castas autóctones, destacando-se Touriga nacional, Baga, Alvarelhão, Jaen e Rufete", de produção limitada aos anos considerados excepcionais e que "só entra no mercado após 5 anos de estágio".

A fruta, que comanda, é silvestre, escura, indiferenciada, qual tutti fruti de bagas, com toque terroso e certa rusticidade de montanha. Discreto nas especiarias e ainda mais na barrica, é um vinho fresco e extremamente palatável, cheio de firmeza e substância, mas também de leveza e fluidez. Sabe a autêntico e original -- um novo favorito do produtor.

Custou menos de 10€ e, para o preço, pelo que é e pelo que representa, está super bem.

17

domingo, 7 de julho de 2019

Quinta de Cabriz - Reserva '2012

Aberto no mesmo fim de tarde/princípio de noite que o anterior, em jeito de comparativo, este é outro produto do Dão e da Global Wines, mas proveniente de Carregal do Sal, um pouco mais a sul. Também ele um lote de Touriga Nacional, Alfrocheiro e Tinta Roriz, com nove meses de estágio em barrica, passou mais ou menos meia hora a tomar ar, dentro de um decantador, antes de ser levado para a mesa.

Vinho de cor escura e brilhante, mostrou, à semelhança do Santar, uma mistura, bem ligada, de frutos negros, terrosos, e barrica. E se o perfil da fruta podia ser mais diferente, provavelmente face à presença marcante da Touriga, aqui mais floral, mostrou-se a madeira bastante diferente, a incidir muito mais em fumados e abaunilhados, num retrato, para mim, mas se calhar só para mim, menos fino que o do outro.

Em todo o caso, está também ele um vinho adulto, com pele, especiarias e chocolate, bem dimensionado e bastante senhor de si -- não sendo um escaparate de substância, exibe, sem pudor, a que tem. Tal como o Santar, estará no seu melhor, não valendo a pena guardá-lo mais tempo, a menos que por curiosidade, que também é uma boa forma de nos candidatarmos a surpresas.

7€.

16

Casa de Santar - Reserva '2012

As vinhas deste produtor, que integra o universo Global Wines, ladeiam a N231, entre Santar e Vilar Seco. Foi feito com Touriga Nacional (julgo que predominantemente), Alfrocheiro e Tinta Roriz; li algures que passou nove meses em barrica antes de ser engarrafado. Deixámo-lo arejar mais de meia hora antes de ser servido.

De cor escura e brilhante, trouxe consigo o conjunto de fruta escura e madeira perfumada que tem vindo a pautar os Santar "Reserva" tintos ao longo das suas diferentes edições dos últimos anos. A fruta, savory, de doçura guardada e toque terroso, a fazer lembrar amora, groselha e outros que tais, conduz o conjunto. Apesar da idade, este vinho retém o perfil que tinha em novo, mas mais maduro, mais coeso, possivelmente tanto quanto poderá vir a estar no seu tempo de vida, as arestas na estrutura e acidez limadas pelo tempo. Chocolate, café, tabaco, menta e aquela tão característica barrica, tudo contribui para um leque de impressões que, não sendo extremamente amplo ou profundo, é equilibrado e, pelo menos para mim, francamente prazeroso.

O Casa de Santar "Reserva" é um vinho de perfil bem definido e ao encontro do qual se tem ido, com  as inevitáveis diferenças que a natureza vai ditando, de ano para ano. No entanto, mantendo-se a terra, os homens que o fazem e aquilo que eles querem face aos homens que o compram, essas diferenças têm-se revelado pequenas. E ainda bem, porque este é um vinho que, desde que o conheci, se tem mostrado uma aposta segura, não só pela sua qualidade objectiva, que é elevada, como pela minha predilecção pessoal por certas coisas que me mostra.

12€.

17

sábado, 29 de junho de 2019

Vale de Esgueva - Vinhas Velhas '2015

Este é um tinto de Vermiosa, Figueira de Castelo Rodrigo. Há muito que aprecio grandemente os vinhos desta zona, que espero que continue a crescer e venha a conseguir os maiores sucessos. Mas também há muito que noto -- noto, notamos: eu e outros -- que, pelo menos no que diz respeito a tintos, e tirando uma ou outra experiência, que acho sempre de louvar, mesmo que não corra bem, dizia, que a região se deixa influenciar "um bocado grande" pelo Douro, geograficamente próximo e com o qual possui semelhanças consideráveis, mau grado as necessariamente relevantes diferenças que, se calhar, por vezes, não são tidas na devida conta.

Citando o produtor, Casa das Castas, a matéria-prima para este vinho provém da "Vinha do Serro, uma vinha centenária onde, num projeto de conservação do património genético, preservamos as variedades de videiras ancestrais que com o passar dos anos se têm vindo a perder". As uvas foram pisadas a pé, em lagar de granito, e o vinho passou meio ano em madeira antes de engarrafado.

Encontrei um tinto potente, de carácter maduro, corpo macio e persistência mediana, com boa fruta, algo indiscriminada mas tendencialmente vermelha, pelo menos para mim e o meu nariz, toque de vegetal aromático e seco, e aromas de evolução -- ou talvez "terrunho", ou ambos -- a compor. Não podendo ser considerado um espécime marcadamente exótico, e não sei se tal coisa será possível ou desejável na sua terra, ou até se esse exotismo não passa de uma projecção pessoal sem reflexo no mundo, este vinho mostrou-se, enfim, para além de sólido, um pouco diferente, diferente do que bebo habitualmente e do que habitualmente encontro na região, o suficiente para me convencer a voltar a comprá-lo.

10€.

16,5

domingo, 23 de junho de 2019

Margarida '2009 (Tinto)

O Monte da Azinheira, onde está sediado o produtor deste vinho, Monte dos Cabaços, encontra-se nas imediações da aldeia de Arcos, a uns sete quilómetros de Estremoz. O projecto tomou forma em 2001, pela mão de Margarida Cabaço, do icónico restaurante "São Rosas", um dos melhores do Alentejo e que, infelizmente, já não existe.

Encontrei, a propósito, uma entrevista de Margarida Cabaço a Alexandra Prado Coelho do "Fugas" do "Público", leitura agradável e, se estivermos para aí virados, "food for thought".

Dos vinhos do produtor, são chamados "Margarida" os considerados especiais, baseados na melhor casta de cada colheita. Lê-se no contra-rótulo: "Em 2009 elegi a casta Alicante Bouschet como base para este vinho. As uvas foram vinificadas em lagar, com pisa a pé, e fizeram um estágio parcial em barricas de carvalho francês". Abri a garrafa nº 1820 -- não sei de quantas.

Logo à primeira vista, um vinho grande, intenso, repleto de fruta rica, cálida, como ameixa, goselha e ginja, com marcas de sobremadurez e licor. Junto com ela, um tempero de torrefacção, em todo o caso subtil, a fazer lembrar, essencialmente, café. Longo e macio, todo ele bem ligado, é um vinho ainda em forma, mas que não deverá ganhar com mais tempo em cave -- mesmo assim, não são muitos os que chegam aos dez anos neste estado. Apesar de não possuir a grandeza "orgânica" de um Mouchão, é um belo vinho.

Sobrou para o dia seguinte a quantidade suficiente para encher mais ou menos um copo generoso, que então foi tirada do frigorífico e acompanhou uma sanduíche de peru assado. Pareceu-me então mais doce, com xarope de groselha e rebuçados "floco de neve" e de alcaçuz. Ligeiro toque de oxidação.

Se a memória não me atraiçoa, quando o comprei, era vinho para cerca de vinte euros.

17

sábado, 15 de junho de 2019

Quinta da Tapada do Barro - Reserva '2011

Este foi comprado há três ou quatro anos atrás, num Intermarché da região. Nessa altura, lembro-me de que houve um relativo, quiçá pequeno, quiçá momentâneo, hype em redor dos vinhos deste pequeno (?) produtor de Vila Nova de Tazém. Entretanto afastei-me das lides do meio e não sei, sinceramente, em que pé estão essas coisas. Não obstante, tratava-se de um "Reserva" do Dão e já o cá tinha em casa. E 2011 foi um grande, grande ano.

O contra-rótulo identifica o produtor, refere Touriga Nacional, Alfrocheiro e Jaen, e recomenda a maridagem com caça, borrego e queijos de pasta mole. Depois, visitando o site do produtor, encontrei a referência a um "Reserva" da quinta, engarrafado em 2011, constituído por 20% de Jaen, 40% de Alfrocheiro e 40% Touriga Nacional, com 14 meses de estágio em barricas de carvalho francês e com uma janela de consumo ideal até 2023-2025. Korra!

Entretanto tinha-o aberto. E as notas do momento apontaram para fruta "do Dão", fresca, com sumarentas bagas do bosque e generosa porção de doce de marmelo, daquele escuro, e morangos, permeada pelo floral da Touriga e especiarias doces. Fala o caderninho negro do álcool (sim: após tantos anos, já é outro, mas do mesmo tipo e com o mesmo carinhoso nome: autismo) de um vinho muito macio, cremoso mesmo, com barrica perfumada e uma pontinha de café no final.

Pelo compromisso entre finesse e firmeza -- não vou compará-lo com a gaja que ainda está boa aos 40, pois não?

17

E 17 nesta escala são, "raffly", 89-90 na da Wine Advocate: empatando, portanto, com uma data de recentes propostas de entrada de alguns dos maiores produtores cá do burgo. Não. Não, foda-se, não. Mas isso são outros quinhentos.

Já não sei quanto custou, mas apostaria que menos de 10€.

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Valle Pradinhos - Reserva '2016

Até 2011, os Valle Pradinhos "Reserva" tinham um rótulo preto e vermelho, sendo os do rótulo branco "Colheita Seleccionada", no caso do 2009, ou destituídos de qualquer designação adicional. Desde então, os Valle Pradinhos do rótulo branco passaram a trazer a designação "Reserva" e os do rótulo preto, "Grande Reserva".

Este tinto de Macedo de Cavaleiros é, diz o produtor, uma "combinação de diferentes parcelas predominando as castas Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon e Tinta Amarela". Estagiou em barrica durante um ano.

Mais intenso que encorpado, este tinto de porte médio, com boa acidez, trouxe consigo frutos pretos, maduros, vagamente terrosos, ligeiro apimentado, baunilha e fumados, e ainda algum tabaco e pele, como que a transmitirem um certo toque de maturidade. O final, médio/bom. Como todos os vinhos do produtor até à data, convenceu, sobretudo a acompanhar comida com raça.

Colheitas anteriores aqui experimentadas, 2007 e 2009 -- interrogo-me que tal estarão, aposto que ainda vivem.

10€.

16

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Quinta da Pellada '2007

Este pareceu-me, coisa curiosa, mais evoluído em termos de cor e cheiro que no sabor.

A cor, a atijolar.

O nariz, por entre alcaçuz e mato, cedro, fumo e especiarias doces, tabaco e sei lá que mais, ainda detecta fruta, talvez cereja, escura, muito escura.

Mas, na boca, permanece firme e preciso, apesar de entregue a fruta macia, com toque já cálido. Tem porte, mas também fineza. Não é um monólito nem está a morrer. Surpreendente.

Talvez por associação de ideias, sabendo muito bem o que estava a beber, trouxe-me à memória o Álvaro de Castro "Reserva". Mas maior e melhor.

Consiste numa mistura do "field blend" da vinha velha da Pellada com Touriga Nacional e Tinta Roriz.

A propriedade que dá o nome a este vinho é o maior tesouro do produtor. Situada na zona de Pinhanços, num cabeço a NW da linha oblíqua do sopé da Estrela, a uma altitude máxima de 545 metros. As suas primeiras referências remontam à década de 1570.

Quando estava à venda, era vinho para cerca de 30€.

17,5

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Luís Pato — Baga & Touriga Nacional '2014


A vida vai fluindo e o blog, esquecido, ficando para trás. E tanta coisa digna de partilha! Momentos espectaculares, momentos de merda. Grandes vinhos, grandes discos, talvez uma ou outra foto.

Então a dúvida: ir preenchendo o hiato temporal decorrido entre a última publicação, datada de 30/5, e a presente data ou recomeçar agora? Já tentei, em momentos de abandono passado, "encher o enchido" em retroactivo para que um novo visitante não se apercebesse do abandono. Mas, sinceramente, esse é um motivo de merda. E o melhor que alguma vez consegui arranjar para tal acção. Então que se foda, recomeçará agora. Com sorte, talvez leve um ou outro destaque deste tempo que passou — saudavelmente em diferido.

Recomeçemos com vinho. Um Luís Pato tinto, de entrada, daqueles que levam o nome do produtor. Este não é dread, rebelde, monocasta ou de uma vinha em particular. Mesmo assim, chamar-lhe-ia, sem qualquer reserva, um pequeno clássico moderno. Talvez agora mais pequeno, pelo menos comparativamente, que noutros tempos. Lembro-me destes — destes, salvo seja — Luís Pato serem 100% Baga e, com jeito, durarem 20 anos ou mais. Este é mais moderno, mais approachable logo desde tenra idade, ao que não será alheia a adição de 40% de perfumada Touriga Nacional à grande casta da bairrada. Ademais, foi fermentado em inox e maturado em barricas usadas, de Allier e americanas.

Às três pancadas: floral no ataque, frutado escuro no miolo, terroso lá mais "por detrás" e "por baixo". Tem viço, tem estrutura, algum comprimento e profundidade também. Mas durará mais dez anos?

Em todo o caso, se assim fossem todos os vinhos de entrada...

6€.

16