domingo, 6 de julho de 2008

Frango Panado "Mel e Mostarda"

Hoje proponho-vos um prato estival: leve, saboroso, com poucas calorias. Exige a quem o faz pouco tempo na cozinha e pode comer-se tanto quente como frio, o que o torna porreiro como prato de piquenique. Para mais, é daqueles pratos «frescos» que vão bem bem com vinho tinto.

Hmmm, vinho tinto!!

Adiante.

Para começar, é preciso ter um frango inteiro, sem miúdos, cortado aos pedaços.

Para fazer a marinada, misturei 4 colheres de sopa bem cheias de mostarda de Dijon e outras tantas de óleo de gergelim com 3 colheres de sopa bem cheias de mel, 3 colheres de sopa — rasas — de alho em pó, sumo de 2 limões grandes, uma colher de sopa de colorau e outra de caril picante Rajah — que leva sementes de coentros, curcuma, cominhos, sal, grão de Bengala, chili, sementes de mostarda amarela, sementes de feno-grego, sementes de funcho, alho e folhas de louro, dizem eles — até resultar um líquido espesso e homogéneo. Temperei-a ainda com bastante sal.

Esfreguei nela muito bem cada um dos pedaços de frango — sem pele! — até os notar bem impregnados. Meti-os num recipiente fundo e cobri-os com o resto da marinada. Tapei o recipiente e deixei-os repousar dentro do frigorífico durante algumas horas. Quando fui por eles, ainda restava líquido suficiente para os voltar a passar pela marinada. Assim fiz, cobrindo-os depois com pão ralado misturado com orégãos, alho em pó e um pouco de sal fino — tudo a gosto. Se por algum motivo já não tiver marinada suficiente para executar este passo, pode sempre bater dois ovos numa tigela e misturá-los com uma colher de sopa de mostarda, passando os pedaços de frango por este líquido e depois, igualmente, pela mistura de pão ralado.

Forrei o tabuleiro do forno com papel de alumínio e imediatamente por cima dele coloquei a grelha com os pedaços de frango. Assaram durante uma hora a 200ºC e comeram-se com arroz branco e este molho picante.

sábado, 5 de julho de 2008

Kang & Kodos

Estes Kang e Kodos são porquinhos-da-índia e vão fazer dois dias cá em casa. Nunca tínhamos tido destes bichos, mas a S. leu que eram bastante inteligentes e sociáveis. Assim, resolvemos arranjar um par deles.



Kang (foto de cima) é branco e cor de caramelo. Aparenta ser o mais parado, mas também o mais inteligente dos dois. Sabe quando ser cobarde e sabe quando se aventurar. Não é o animal dominante, mas tem conseguido sempre o que quer, incluindo ficar a viver dentro do "túnel" — um tubo que já conteve uma garrafa de vinho do Porto — que ambos tanto adoram.



Já Kodos — que se distingue de Kang por ter umas manchas pretas — é o "bicho do mato" por excelência. Aventureiro q.b., vai sempre à frente, e é a ele que o Kang recorre quando se vê em apuros. Este traço de carácter leva-o a ser o animal dominante dentro da gaiola, mas também gera incidentes. Ainda há bocado, por exemplo, dormia a S. a sesta com os diabretes no sofá, eu muito entretido com os meus joguitos de xadrez online... Quando olho para onde eles estavam, não vi o Kodos. Não tive de procurar muito. Tinha saído, sorrateiro, de cima da almofada "especial" deles e estava aninhado, já meio a dormir, dentro de um saco. O saco onde se vai metendo o cocó deles, embrulhado em papel higiénico, enquanto estão ao pé de nós. E que já estava bem cheio. Ora, são roedores: só sabem cagar. E se não se for recolhendo o cocó à medida que o fazem, pode acontecer comerem-no todo, o que não lhes faz mal, mas nunca é muito bonito de ver.

Enfim, os bichos têm-se revelado adoráveis e andamos muito entretidos com eles. Ainda bem que os comprámos.

A propósito, o grande Manuel Bandeira escreveu um dia:

Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele prá sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...

O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada.

Castelo Rodrigo — Colheita Seleccionada '2003

É um tinto D.O.C. da Beira Interior, produzido pela Adega Cooperativa de Figueira de Castelo Rodrigo a partir das castas Touriga Nacional, Tinta Roriz (Aragonês) e Rufete. Diz quem o fez que foi vinificado em maceração prolongada com controlo de temperatura de fermentação e que estagiou em madeira nova de carvalho francês. Como nota de prova, fala ainda a garrafa de aroma a compota típico das castas, vinoso persistente num conjunto harmonioso.

Achei-o franco, fácil de beber, com boa estrutura e taninos macios. Apresenta, de facto, aromas compotados, mas estes são completamente dominados por aroma vinoso forte e persistente, que por sua vez surge acompanhado por notas anisadas, fazendo o conjunto lembrar jeropiga. E é tudo. Não se espere dele complexidade porque não a possui. Nota-se que é um vinho honesto, mas falta-lhe qualquer coisa. Será por eu detestar jeropiga?

Custou 3 ou 4€.

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sexta-feira, 4 de julho de 2008

Big Star — Sister Lovers

Third / Sister Lovers foi o último álbum da banda rock norte-americana Big Star.

Começa alegre, com power pop clássico, Kizza Me e Thank You Friends. Depois agride-nos. Esfrega-nos na cara a nossa própria incompletude — falta — desgraça — morte.

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Uma vez alguém comparou este álbum a uma cidade em ruínas. É música para as horas de escuridão.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Ciabatta...

Uma receita de Jamie Oliver, via Letrícia. Modifiquei algumas coisas de modo a poder bater-se a massa na máquina de fazer pão — e também para ficar mais ao meu gosto.

Os dois pãezinhos levaram:

600ml de água;
650g de farinha de trigo T55;
500g de sêmola de trigo;
50g de fermento de padeiro;
6 colheres de sopa de azeite;
2 colheres de sopa bem cheias de sal;
1 colher de sopa bem cheia de mel;
Cuscuz e farinha de trigo T55 q.b. para polvilhar (e isso).




E fi-los assim: na cuba da máquina de fazer pão coloquei, por esta ordem, a água, azeite, mel, sal, a sêmola e a farinha. Abri um buraquinho no meio da farinha e esfarelei lá para dentro o fermento. Deixei a máquina amassar estes ingredientes durante meia hora. Aqui uma ressalva: se a massa ainda se colar aos dedos após 15 ou 20 minutos a amassar, adicione mais 70 ou 100g de farinha de trigo. O resultado deverá ser uma massa bastante elástica.

Cobri a superfície onde ia trabalhar a massa com uma mistura de farinha de trigo e... cuscuz!, numa proporção de 2:1 em volume — ou seja, para V (ml) de cuscuz, 2V (ml) de farinha. Depois, nesta superfície, dividi a massa em duas partes a que dei a forma de baguettes.

Com a tesoura, fiz uns cortes em "V" no topo de cada baguette (repare nas reentrâncias que o pãozinho da foto apresenta, ainda que tenham alargado com a cozedura...) e polvilhei tudo com a mistura de cuscuz e farinha com que tinha coberto a superfície onde trabalhei a massa.

Coloquei ambas as baguettes no tabuleiro (anti-aderente) de ir ao forno, deixando não só bastante espaço entre elas como também entre cada uma e as paredes contíguas do tabuleiro, de modo a poderem crescer ao levedar. Como a massa já sai morna da máquina de fazer pão e o tempo também estava quente, limitei-me a colocar o tabuleiro dentro do forno fechado, sem o ligar, durante uma hora. Levedaram, e bem. Cresceram muito. Depois liguei o forno a 200ºC, resistências de cima e de baixo. Cozeram assim os pãezinhos durante cerca de 40 minutos.

E ficaram um espectáculo.

Marqués de Murrieta — Reserva '2000

Este Rioja (Denominación de Origen Calificada) das Bodegas Marqués de Murrieta é composto por 88% de Tempranillo (Aragonês), 8% de Garnacha Tinta e 4% de Mazuelo e, dizem eles, foi longamente afinado durante 23 meses em barricas de carvalho americano.

Aparece classificado com 92 pontos no Guía Peñín, e aqui tenho de ser sincero, foi por isso mesmo que o comprei.

Cor granada a fugir para o alaranjado na orla, sugerindo bastante evolução. De aromas, é uma festa.

No início, ainda em repouso, mostra sugestões lácteas muito delicadas. Depois vem a fruta vermelha, transformada mas não compotada, talvez em calda, acompanhada de ligeiro toque de baunilha — que rapidamente desaparece do copo, dando lugar a um doce suave, algo indefinido, a evocar melaços finos e rebuçados floco-de-neve, que logo se desdobra, quase em leque, em aromas a tabacos e especiarias exóticas, ligeiro queijo e suor animal, frutos secos e aromas de pastelaria: pinhões e cremes doces, terminando com suaves amanteigados.

A boca, correctíssima, algo austera, cheia de taninos sedosos e envolventes, peca por não possuir largura tal que, perante a riqueza dos aromas, não se fique com uma certa sensação de perda. Não tem nada de mal, só não acompanha a exuberância do nariz. Ao final, saboroso, de frutos secos e malte, falta maior persistência.

Envelheceu bem e, não sendo propriamente um grande clássico, é um vinhão do caralho.

Custou cerca de 17€.

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Cortes de Cima Syrah '2004

Monocasta Syrah (Shiraz) da Casa Agrícola Cortes de Cima.

Bebi ontem uma garrafa a acompanhar deliciosa galinha assada.


Ora bem:

O nariz surge quente, cheio de fruta muito madura: ameixa preta, figo, uva em passa e um toque de laranja doce, tudo bem casado com especiarias várias e algum chocolate.

A boca é cheia, carnuda, bem estruturada e persistente. Possui boa acidez e taninos amanteigados (mas firmes). Não se revela tão doce quanto prometido pelo nariz — e isso é bom.

Resumindo, gostei. Tem aquele perfil à novo mundo — guloso, quente, cheio e frutado — que se tornou ex-libris de Cortes de Cima e aparenta ser moda em franca expansão...

E, enfim, se esta é boa ou má, só o tempo o poderá dizer.

Porém, embora pessoalmente nunca me tenha considerado um bairrista ferrenho, sempre achei certas descaracterizações perigosas. O ser humano raramente sabe quando realmente deve parar...

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To Cut a Long Story Short

Consta que, algures nos anos 20, Ernest Hemingway apostou dez dólares em como conseguia escrever uma história completa em apenas seis palavras. Escreveu: "For sale: baby shoes, never worn." Ganhou a aposta.

Pois bem, a coisa tornou-se recentemente um meme comum na blogosfera. Quase um hype. Toda a gente tem a sua six word story. Ontem, já um bocado bebido, produzi esta:

Their love was ended not dead.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Meandro do Vale Meão '2005

(...)




É um vinho genuinamente duriense, feito a partir das 5 castas recomendadas para a Região Demarcada do Douro pelo estudo que João Nicolau de Almeida apresentou em 1981 na Universidade de Trás-os-Montes: Touriga Nacional (50%), Touriga Franca (20%), 20% de Tinta Roriz (como quem diz, Aragonês, Tempranillo), Tinto Cão (5%) e Tinta Barroca (5%).

É um vinho que já foi sobejamente provado e aprovado. Senão vejamos: Mark Squires diz que (...) is approachable at first and very flavorful, with fine focus. Tannins pop up on the finish with fifteen minutes of air. It is beautifully balanced. In its own right, it is a nice presentation, with acceptable structure for its price range and reasonable depth. However, it is a little on the foursquare side and a bit short, although like its big brother, the regular Tinto, its fruit is delicious. After its initial wake-up, the longer it airs out, the less impressive it is. It is a pretty fair value for the price. Drink 2007-2012, e dá-lhe 89 pontos. A The Wine Spectator de Dezembro de 2007, 91 pontos, e Jancis Robinson dá-lhe 16,5 (em 20).

Comigo, também se portou bem.

Começa um pouco fechado. O aroma a frutos silvestres cresce após algum arejamento e é delicioso, surgindo alternado com baunilha, alguma especiaria amarga e um ou outro ligeiro aroma de farmácia (pareceu-me éter). Na boca é suave, denso, bastante profundo, fresco e muito bem estruturado, com muitos taninos que ainda não se encontram no ponto ideal de suavidade. Este vinho vai envelhecer bem. Os sabores que proporciona vão do frutado que confirma o nariz ao frescor dos elementos minerais que me deixaram a pensar em granito, passando pela sensação de acidez domesticada do caroço de azeitona preta e pelas boas notas de madeira que predominam no final.

A 11€, apresenta uma grande relação qualidade/preço.

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Quinta da Esperança '2004

Produzido pela Encostas de Estremoz, este tinto com 14% vol. alcoólico é composto por 70% de Touriga Nacional, 20% de Trincadeira e 10% de Aragonês.

Ao que parece, trata-se de um vinho bastante premiado: medalha de ouro Selections Mondiales des Vins (Canadá '2007), medalha de prata Mundus Vini '2006, medalha de bronze no International Wine Challenge '2007 e distinção Melhor Compra pela Revista de Vinhos em 2006.

Que já passou pela boca de Mark Squires:

The 2004 Quinta da Esperanca is bright, with tannins along the edge, and moderate flavors. It finishes a bit short, and fades to nothingness very quickly. For an everyday quaffer, it is not a bad deal, although it has little distinction. Drink now2009. 83 pts.

Mas a crítica deve ser sempre tomada com um grão de sal. Enfim.

Decantei-o antes de o consumir — o que, aliás, faço regularmente: se há vinhos que pouco ou nada ganham com este processo, ainda não ouvi falar de nenhum (vinho «não-velho») que com ele saísse prejudicado — a uma temperatura de 17/18ºC. A cor, escurinha, fugia para o granada. O aroma, dominado pelos frutos pretos, sobretudo ameixa, lá ia revelando uma ou outra nota baunilhada. Na boca, achei que possuía um corpo decente e bastante equilíbrio. A fruta, doce, já algo compotada, evoluía no final para sabores maltados, mais quentes e açucarados, evocando — vivamente — Ceregumil.

Achei-o engraçado. Mas desta vez, pelo menos desta vez, o Sr. Squires tinha razão...

4,50€.

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