terça-feira, 30 de setembro de 2008

Passadouro '1995

Embora o blogue não o reflicta, ultimamente tem-se bebido. E como, meu Deus!

Vamos lá tentar pôr a pinga em dia, pois então.

Para começar, um tinto bastante regular na nossa garrafeira. Do Douro (DOC), da colheita de 1995, engarrafado em 1998 pela Niepoort para a Quinta do Passadouro, é daqueles vinhos que existem desde sempre no Ponto Fresco, o supermercadito mais próximo aqui de casa, de onde vêm algumas boas coisas a preços muito interessantes, por sinal.

Jamie Goode provou-o em Dezembro de 2002. Há quase seis anos! Transcrevo as suas impressões, tiradas daqui:

Quinta do Passadouro is an estate run by Dirk Niepoort (although he doesn't own it), and this is a wine I'd had cellared for a few years. Quite an evolved tarry, spicy nose with some leathery, earthy complexity and medicinal, herby fruit. The palate is drying out a little: very savoury with a taut spicy character and high acidity. Concentrated, intense and quite challenging. Fascinating, but verging on the austere. Very good+

Julgo oportuno deixar desde já uma primeira nota: conserve-se na vertical durante um ou dois dias e decante-se cuidadosamente antes de se servir: este vinho tem um depósito monstro!

Cor algures entre o malva e o alaranjado, sugerindo grande evolução. Aroma ainda intenso onde predominam as notas balsâmicas, com muito chá e cabedal, e sugestões de queijo, suor animal e frutos secos. A fruta ainda surge, um bocadinho, como que em licor... Na boca, embora tenha vindo a perder corpo nestes últimos dois anos, ainda tem presença, com os taninos, aveludados, a revelarem alguma profundidade. De sabor, suave e um pouco austero, original mesmo para vinho velho. Nunca comeram rodelinhas de limão com sal? Não, não sabe horrivelmente, e sim, é mesmo para aí que o sabor deste vinho me remete. 'Ziro! Final ainda saboroso, mas a encurtar.

Embora já tenha passado o apogeu, continua bem agradável. Esta última garrafa, especificamente, não nos impressionou em demasia, mas já as cá tivemos melhores, até recentemente. É natural, são coisas de vinhos velhos...

Não é por acaso que destes se diz que «não temos vinhos, temos garrafas».

Assim, 15,5 a esta garrafa em particular; 16 ou mais a outras que já encontrámos — recentemente — em melhores condições.

P.S. — No Ponto Fresco, este vinho custa menos de 12€. E para o preço, está bem. Poderá, até, dizer-se interessante. Mas a especulação não conhece limites: a LusaWines, por exemplo, vende-o a uns estratosféricos 98€! Vergonha, senhores!

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Bolo de Coca-Cola

Após o sucesso do bolo de coco Galáctico, resolvemos partilhar algo que julgamos ainda melhor. Assim, acabámos por optar por um bolo de chocolate e Coca-Cola — combinação que pode soar improvável, mas que é deliciosa e bastante original. Bastante popular noutras paragens, dele fizeram as suas interpretações pessoais nomes como Nigella Lawson e James Martin. Pensamo-lo capaz de criar fãs — só na última semana, já o repetimos duas vezes!

O último que fizemos ficou com este aspecto...




Para mais, é bastante fácil! Faz-se assim:

Pré-aquecer o forno a 180ºC.

Forrar uma forma redonda, sem buraco, com papel encerado ou folha de alumínio; untar e polvilhar o papel.

Numa taça grande, juntar 325ml de farinha, 190ml de açúcar mascavado e 1 colher de sopa de fermento Royal.

Noutro recipiente, bater um ovo grande, 125ml de buttermilk e 1 colher de chá de vanilina.

Deitar num tacho 175ml de Coca-Cola com 100g de manteiga e 2 colheres de sopa de cacau magro em pó. Levar a lume brando até a manteiga derreter. Misturar e verter para dentro da taça onde se encontram o açúcar, farinha e fermento. Bater bem. Juntar a mistura de ovo, buttermilk e aroma de baunilha. Bater até a mistura, uma massa muito fluida, ficar homogénea.

Verter a massa para dentro da forma e levar ao forno — pré-aquecido — por 40 ou 50 minutos — ou melhor, até o palito sair limpo.

Uma vez retirado do forno, deixar o bolo descansar durante 15 minutos antes de se desenformar.

Entretanto, preparar a cobertura. Peneirar 250ml de icing sugar para dentro de uma taça. Reservar. Num tacho, juntar 2 colheres de sopa de manteiga, 3 colheres de sopa de Coca-Cola e uma colher de sopa de cacau. Mexer em lume brando até a manteiga derreter. Tirar do lume, adicionar meia colher de chá de vanilina e o icing sugar que se tinha reservado, batendo até se formar um creme... não muito espesso, mas barrável.

Cobrir o bolo ainda morno e deixar arrefecer.

Notas:

1) De preferência, utilizar Coca-Cola normal, daquela mais velhinha, com açúcar, e não Coca-Cola Light ou Zero.

2) Pode-se utilizar buttermilk de compra ou, alternativamente, juntar meia colher de sopa de sumo de limão a 125ml de leite para se obter esse mesmo volume de buttermilk.

3) O bolo não fica com sabor a Coca-Cola! Desta, aproveita-se acima de tudo o caramelo que eles usam como corante, que vai ligar na perfeição com o açúcar mascavado, a baunilha e o chocolate.

domingo, 28 de setembro de 2008

Três Doces de Abóbora

Elas têm andado a fazer doces. Compotas. Dessas, e como se pode ver na foto,




da esquerda para a direita, de abóbora com canela e laranja, abóbora com baunilha e abóbora com coco.


Fizeram-nas como segue:


Tudo começou com uma daquelas comuns abóboras cor-de-laranja que os americanos do norte gostam de esvaziar para fazerem as tradicionais Jack-o'-lanterns do Dia das Bruxas e que, descascada e sem pevides, pesava cerca de 1,9Kg.

Partiu-se aos bocadinhos, cobriu-se de água e foi ao lume, onde permaneceu até ficar muito mole, quase não restando água na panela. Sem se retirar do lume, esmagou-se com uma espátula (daquelas próprias para fazer puré de batata) e juntou-se-lhe 1Kg de açúcar, que se deixou dissolver antes de se desligar o lume. Então dividiu-se o puré resultante em três porções que voltaram ao lume, cada uma em seu tacho.

A uma delas, 2/5 do volume do puré de abóbora que então se tinha, juntaram-se raspas muito finas de uma laranja, 2 paus de canela e uma colher de chá de canela em pó. Deixou-se engrossar durante 3 ou 4 minutos e enfrascou-se.

A outra, outros 2/5 do volume de puré, juntaram-se duas colheres de chá de essência de baunilha. Tal como a anterior, deixou-se engrossar e enfrascou-se.

E ao restante juntou-se coco ralado seco (75g). Mexeu-se e deixou-se engrossar, o que aconteceu muito rapidamente, talvez em menos de um minuto.

A ideia, dizem elas, surgiu como uma tentativa de aproveitar abóboras bastante grandes sem se ter de estar a fazer grandes quantidades do mesmo doce. Assim, uma abóbora grande não só pode servir de base para vários doces diferentes com um mínimo de trabalho adicional, como ainda parte da sua polpa cozinhada se pode congelar para posterior utilização. Para terminar, refira-se que os doces ficaram todos realmente bons.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Frango Principesco

Da mesma forma que a uma limonada de erva-príncipe se chama chá de príncipe, a este frango marinado na dita... resolvemos chamar frango principesco. Não faz sentido nenhum, nós sabemos.




É um prato de inspiração oriental, puxadinho para o lado das especiarias e delicioso.

Primeiro, a marinada. Num copo fundo de plástico, junta-se uma cebola partida aos bocadinhos, 20g de erva-príncipe fresca, 5 dentes de alho, uma colher de sopa de caril, 4 colheres de sopa de óleo de amendoim, uma colher de sopa de óleo de sésamo, 2 colheres de chá de gengibre ralado, uma pitada de sal e picante a gosto. Tritura-se com a varinha mágica.

Colocam-se 4 peitos de frango dentro de uma assadeira, temperam-se com um pouco de sal e picante e cobrem-se com a marinada. Levam-se ao frigorífico durante 4 horas. Uma hora antes de irem ao forno, retiram-se do frigorífico.

Por fim, vão assar. Primeiro, durante 30 minutos, a 200ºC. Depois, durante 20 minutos, a 250ºC.

Comem-se com arroz basmati, branco, bem soltinho. Uma vez servido, polvilha-se tudo com bocadinhos de erva-príncipe fresca.

Requeijão no Forno

Deitou-se um fundo de muito aromático azeite caseiro numa taça capaz de ir ao forno. Por cima, um requeijão de ovelha, inteiro, cuja face superior se temperou com um pouco de alho em pó, malagueta seca, sal e orégãos frescos. Virou-se o requeijão e aplicou-se o mesmo tempero à outra face. Foi ao forno durante 18 minutos a 200ºC.




Comeu-se com pequenas torradas de pão de mistura, aromatizadas com azeite do mesmo. Que bela entrada!

Velharias (5)

Não sei amar.

A minha mente é vaga
A minha alma, vazia
O meu coração, negro.

O meu amor sabe a ódio,
Cheira a ódio.

Contudo,
Sei que a única coisa que devia odiar é o ódio que existe dentro de mim.

O meu amar amargo
Confunde os sentidos e afasta.

Verdade:
Quanto mais te amo, mais te afasto.

Lamento.

E tu?
Sofres.

Desculpa.

Desculpa-me tu
E que me desculpe eu próprio.

Não me quero assim.
Prisioneiro da minha própria podridão.

Apatia, orgulho, ciúmes
Três palavras definem-me.

Não te mereço.
Não mereço o mundo.
Não mereço luz nem cor nem som ou sombra.

E tu?

És uma flor.
Fechas-te quando faço cair a noite.

Só me resta que me perdoes,
Esperar novamente pela manhã.

(8/8/2005)

Meandro do Vale Meão '2006

É a mais recente colheita do segundo vinho da Quinta do Vale Meão.

Do Douro Superior, consiste numa mistura de Tinta Roriz (40%), Touriga Nacional (25%), Touriga Franca (25%), Tinta Barroca (5%) e Tinta Amarela (5%).

Cor rubi, escura, de grande saturação. Nariz muito expressivo, cheio de bagas maduras e mato fresco, como num dia de chuva depois do Verão. A emoldurar o quadro, a acidez deixa adivinhar suaves vestígios de tropicalidade e azeitona verde. Na boca, intenso e bem definido maracujá — que rapidamente se matiza em frutos silvestres cheios de frescura. No fundo, boas notas de barrica tostada, tão discretas quanto os finos taninos, tão vitais como a mineralidade nervosa, quase crocante, a transmitirem grande harmonia ao conjunto. Álcool muito bem integrado. Final decente.

Mais disponível, de estrutura menos grandiosa que o da colheita anterior, poderá ter mudado de estilo, mas não perdeu beleza.

Para rematar, direi que casou muito bem com um prato de lombo de porco recheado, assado no forno e acompanhado de batatinhas assadas com casca, afogadas em azeite.

Custou 11€.

17

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Companhia das Lezírias '2003

Da venerável Companhia das Lezírias, que aqui tem a sua página oficial, um tinto ribatejano de preço acessível — paguei por ele 5€ — e sobejamente premiado: ganhou o prémio "Melhor Compra" da Revista de Vinhos, uma medalha de prata no concurso Vinalies Internationales de Paris e medalhas de ouro no Mundus Vini e no Concurso de Vinhos Engarrafados do Ribatejo — tudo isto em 2006.

Foi vinificado a partir de uvas Castelão, Alicante Bouschet, Touriga Nacional e Cabernet Sauvignon. Estagiou durante 6 meses em barricas novas de carvalho francês e americano, e mais 1 ano em garrafa.

Achei-o intenso e dotado de uma frescura muito peculiar. Aroma a frutos vermelhos parcialmente compotados, alguma tosta e um pouco de chocolate. Na boca, acidez vincada e taninos durinhos. Algo rústico, mas muito saboroso.

14,5

Compota de Ananás

Este é um doce que costumamos fazer. A receita, acho que é indiana. Já não sei onde a vimos e duvido, até, que seja a receita original tim tim por tim tim. Mas funciona bem, e aqui é isso o que mais importa.

Fez-se assim:

Comprei dois ananases médios que, com casca e coroas, perfaziam 3,400Kg. Descasquei-os cuidadosamente, cortando-os — centro lenhoso incluído — em pedaços muito pequenos, tendo deste modo ficado com cerca de 1,700Kg de polpa.




Deitei os cubinhos de ananás numa panela grande — realmente grande, de tal forma que o volume do ananás e da água, juntos, não superasse ¾ do seu volume interno. Isto porque, durante a cozedura, o ananás tende a libertar uma espuma característica que se acumula à tona da água, podendo transbordar... e que por isso convém remover-se — e juntei-lhes 3 litros de água. Deixei então ferver em lume brando até o volume da mistura de água e ananás — que, naturalmente, vai reduzindo à medida que coze — ocupar aproximadamente o mesmo volume que o ananás, cru, antes da cozedura. Desta vez, esteve ao lume pouco mais de uma hora até atingir este ponto.

Altura em que juntei ao cozimento 1,5Kg de açúcar branco, mexendo um pouco (e, de futuro, mexendo novamente de vez em quando) para se misturar. É de notar que a partir do momento em que se adiciona o açúcar, o ananás não coze mais. Assim, se a mistura reduzir para o volume pretendido (ou menos) mas o ananás ainda não aparentar a moleza suficiente, não há mal em ir-se juntando mais água, aos poucos, até se obter o ponto ideal.

Dado que a mistura que virá a ser o doce continua ao lume depois de adicionado o açúcar, este, ainda que diluído, começará a caramelizar, o que implicará um ligeiro escurecimento do doce. Foi nesta altura que lhe adicionei mais ou menos 400ml de sumo e polpa de limão, sem caroços. Passo fundamental, dado que a gelificação das compotas — esta e todas as outras — depende de uns polímeros chamados pectinas... que abundam no limão e o ananás quase não tem. Assim, para a compota de ananás poder ser compota propriamente dita e não uma espécie de caldo, torna-se necessário juntar-lhe algo de aroma e sabor compatível — e isto também depende da acidez do fruto: um ananás, mesmo bem maduro, tem sempre uma acidez vincada. Ora, nestes casos, quase faria mais sentido juntar-lhe um fruto rico em pectina mas de acidez mais baixa, como a maçã... Porém, por algum motivo achamos que fica melhor com limão! — e rico na dita pectina. Quem detestar limão pode juntar apenas metade desta quantidade, ou sumo e polpa de maçã ou manga — ou ainda pectina comercial... mas cá por casa temos a ideia de que isso é aldrabar um bocado. Grande.

Ainda com a mistura ao lume, passei-lhe ao de leve com a varinha mágica. Ao de leve: o suficiente para alguma polpa se tornar creme, mas também de modo a sobreviverem alguns, bastantes, pedacinhos inteiros.




Dado que o aquecimento não foi interrompido, as reacções de caramelização já mencionadas continuaram a decorrer. E o doce foi escurecendo. Quando estava mais ou menos da cor que se pode ver na foto abaixo... e lhe notei um barulho esporádico de bolhas grandes, isoladas, a emergir do fluido espesso, rebentando à superfície — qual caldeirão da bruxa, ka-plotsch! — estava pronto.




Retirei-o do lume, coloquei-o em frascos esterilizados e deixei arrefecer. Embora delicioso à temperatura ambiente, gosto ainda mais dele se servido frio, frio de frigorífico...

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Quinta das Tecedeiras — Reserva '2005

Outro vinho da Dão Sul e uma pinga recorrente por estes lados, foi dos primeiros que comprei para consumo próprio — a colheita de 2001, se a memória não me atraiçoa.

Vem lá bem do centro do Douro, do Cima-Corgo, zona de verões quentes e solo razoavelmente árido, onde as uvas atingem grandes concentrações de açúcar. Juntem-se vinhas muito velhas de uma panóplia de castas indígenas à equação e o resultado só pode ser interessante.




Servido a 16ºC.

A cor é rubi, retinta, opaca, muito escura. Abre com notas de verniz que logo se desdobram em aromas intensos e profundos a flores e frutos negros, e depois vegetal seco com um pico balsâmico, esteva e cardo e floritas multicolores por entre as ervas, como se da poderosa fruta se levantasse fresca aragem capaz de nos fazer percorrer as encostas de onde este vinho veio. Encorpado, espesso, enche a boca. Num registo potente, nem sempre suave mas muito agradável, com o álcool bem integrado e um belo final a evocar chocolate e madeiras.

Este é um daqueles vinhos que nos contam histórias, que nos falam da sua terra! E como vai crescer! Para mim, é um dos grandes do Douro.

Custou pouco menos de 20€.

18, para já.