segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Herdade do Meio — Cabernet Sauvignon & Syrah '2004

Vinho Regional Alentejano da Casa Agrícola João & António Pombo, de Portel, vila muito antiga — fundada em 1261, recebeu foral em 1262! — pertencente ao distrito de Évora.

Feito a partir «de uma rigorosa selecção de uvas das castas Cabernet Sauvignon e Syrah», estagiou 12 meses em barricas de carvalho francês. Foram produzidas 15000 garrafas.

Cor rubi, concentrada. Aroma rico, intenso e envolvente. Notas de PVC no ataque, a fazerem lembrar aquela lona com que se cobrem as piscinas. Depois, muita fruta em compota, pimenta preta e madeira. Bem enlaçadas, mas não na perfeição. De alguma forma, notei-lhe por toda a parte uma sensação mineral que fazia lembrar brisa marinha a correr sobre extenso relvado numa manhã fresca. Húmida e salgada, vibrante, etérea mas perpassante — em claro contraste com a fruta carregada, como que lhe indiferente. Cheiinho na boca, onde as características do nariz se prolongam. Acidez vincada, taninos agradáveis e 14% de álcool bem integrado. Final quase opulento, bastante marcado pela madeira.

Pode custar menos de 8€ — se comprado no Continente — ou quase 40€ — se no Jumbo. Uma diferença abismal que «eles» nem se preocupam muito a tentar mascarar. Já me apercebi de que, curiosamente:

1. Quase ninguém repara;

2. Metade dos que reparam não se importam;

3. Daqueles que se importam, a maioria aplaude — vinho bom e barato é vinho bom e barato!;

4. Os que não o fazem invocam que se está a desvalorizar o vinho e interrogam-se a que preço.

De facto, aparentam perguntar coisas legítimas. Porém, porque se havia de desvalorizar o vinho?

4.1. Por a empresa estar num (muito) mau momento, porventura o derradeiro. Os que gostam de alimentar histórias especulativas poderiam ver no facto de a página da empresa estar «em construção» desde sempre (mais) um indício negro dessa eventual realidade. Eu, pessoalmente, duvido.

4.2. Marketing agressivo e algo mais. Em tempos, parece que o projecto HdM foi apoiado (sim, dinheiro) pelo universo Sonae. Naturalmente havia de haver alguma forma de retorno. Já para não dizer que, assim, se está a popularizar um produto que, dado o preço, não teria, à partida, assim tantos compradores. Mas... não fica a sensação de faltar algo?

Que se lixe. Pessoalmente, sou adepto do lema do penny, «mind your business». Como tal, não só acho que não vale realmente a pena pensar «nisto» como... adivinhem lá onde é que vou continuar a comprar os bons vinhos desta casa?! 16,5

domingo, 26 de outubro de 2008

...










Moqueca de Camarão

A moqueca é um cozinhado de origem indígena, e originalmente feita numa grelha de varas ou ainda apenas folhas de árvores cobertas por cinzas quentes (o que era chamado moquém). A diferença básica da moqueca baiana para a capixaba é que a baiana leva azeite de dendê [óleo de palma] e leite de coco. (Fonte: Wikipédia)




1Kg de camarão cal. 10/20;
200g — ou seja, um «sabonete» — de creme de coco (creamed coconut);
2 tomates grandes;
2 cebolas médias;
3 dentes de alho;
sumo de 1 limão e meio;
5 colheres de sopa de óleo de palma;
3 colheres de sopa de azeite;
35g de coentros frescos;
sal e malagueta seca a gosto.


Cortam-se as cebolas e tomates em quartos e juntam-se ao alho, aos coentros e à malagueta seca dentro de um triturador de qualquer tipo. Desfazem-se.

Numa panela grande e, se possível, de barro, aquecem-se em lume forte o azeite e a gordura de palma. Junta-se-lhes o preparado anterior e deixa-se refogar um pouco. Tempera-se com sal e junta-se o creme de coco, cortado em fatias finas. Reduz-se o lume para o mínimo. Espera-se que o creme de coco se desfaça e junta-se o sumo de limão.

Adicionam-se os camarões e mexe-se. Deixa-se cozinhar em lume brando, de panela tapada, mexendo apenas de vez em quando, durante mais 5 ou 6 minutos. Os camarões estarão prontos quando adquirirem aquele característico tom alaranjado. Deixam-se repousar mais um pouco, sempre com a panela tapada. Querendo, pode deitar-lhes por cima uns coentros frescos, cortados aos bocadinhos na altura, antes de servir.

Comemo-los só assim, com cerveja.

Ainda do artigo da Wiki, não resisto a transcrever mais este bocadinho:

A primeira menção da moqueca num documento histórico foi numa carta do padre português Luís de Grã, datada de 1554, onde ele afirma que "quando se dispunham a comer carne humana, os índios assavam-na na labareda", isto é, no moquem.

sábado, 25 de outubro de 2008

Luxus — Reserva '2005

Ao contrário dos outros vinhos da Península de Setúbal que por aqui têm passado, este é produzido na Quinta de Catralvos, no sopé da Arrábida, cuja proximidade se faz sentir, não só ao nível do solo, mas também do clima, mais húmido, mais ameno — sendo, assim, natural que lá se façam vinhos de perfil mais fresco, mais ligeiro, mais ácido, de aromas menos maduros que os produzidos nas areias de Palmela.

Leituras interessantes sobre os vinhos desta zona, descobri na página da Rota de Vinhos da Península de Setúbal — sobretudo os mapas, que são deliciosos — e aqui.

Quanto a este vinho, e começando por fora, pelo rótulo, devo dizer que a S. lhe achou (muito) mais piada que eu. É um bling, porra.

Já o conteúdo da garrafa, que, afinal, é quase a única coisa que importa — combinação, evelhecida durante 8 meses em carvalho francês, de Cabernet Sauvignon, Aragonês, Syrah e Touriga Nacional — foi uma agradável surpresa. A cor, rubi, escura. O ataque evocou aromas de Porto Ruby. Depois, esvaecida boa parte do álcool volátil, ficou fruta negra madura, ainda jovem (!), violetas, algum vegetal a fazer lembrar ervas e folhas secas, e madeira. Alguma! De boca, achei-o fresco, com bom volume. A madeira e os verdes iam surgindo juntos, sobrepondo-se à fruta. Depois, elementos florais, aliados a algum álcool, iam fazendo lembrar tintura de genciana. A madeira, bem presente, ficou sempre no fundo, a transmitir austeridade, e para o fim, este longo, com retrogosto a sugerir frutos de casca rija. Muito interessante. Pena certo desequilíbrio entre as partes.

Já o tinha visto várias vezes nas prateleiras dos hipermercados. Mas, se não fosse ela, nunca lhe teria pegado. De alguma forma, ainda bem que o fiz.

Custou pouco menos de 5€.

15

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Quinta das Baceladas '2004

De não muito longe daqui, da Bairrada, da zona de Cantanhede, vem este tinto, sem dúvida um dos mais interessantes do produtor, as já históricas Caves Aliança.

Foi elaborado a partir de Baga, Cabernet Sauvignon e Merlot, e estagiou durante um ano em barricas novas de carvalho francês. Foram produzidas 37901 garrafas.

Em 2006, levou 17,5 valores (e prémio «Melhor Compra») numa prova da Revista de Vinhos e 91 pontos no livro de Aníbal Coutinho «220 Melhores Vinhos Para 2007».

Foi decantado 1h antes de ser servido a 16ºC.

Aroma cheio, intenso, generoso, com muitos frutos silvestres, vermelhos e negros, maduros e compotados. Ligeiro balsâmico e notas de fumo e tosta completam o cenário.

Dotado de boa presença na boca, mostra fruta densa e complexa, nem doce nem amarga. Depois, chocolate e (bastante) madeira. Encorpado, não pesado. Álcool bem integrado. Taninos ainda um pouco adstringentes. Final longo e saboroso.

Adivinha-se um vinho de boa longevidade, que ainda não atingiu o apogeu, como é, aliás, comum na Bairrada. Para já, e para os 10€ que custa, só posso dizer que me parece muito bom!

É o segundo Bairrada à maneira de Bordéus que provo em relativamente pouco tempo — parece que existem parecenças a não desprezar entre os dois terroirs — e gostei muito de ambos. E por mais que goste dos bairradinos clássicos, tenho de reconhecer que este é um caminho muito interessante que certos produtores estão a seguir... pode ser que algo muito grande aguarde nas sombras, ainda em estado incipiente...

17

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Duas Quintas — Reserva '2004

Acompanhou o coelho este Reserva da Ramos Pinto, tinto duriense elaborado com uvas Touriga Nacional (80%), Touriga Franca (15%) e Tinta Barroca (5%), provenientes das duas quintas que dão o nome ao vinho, Ervamoira e Bons Ares.

A primeira «localiza-se na região do Douro, sub-região do Douro Superior, na freguesia de Muxagata, Vila Nova de Foz Côa. Possuindo 200 ha de área total, que oscila entre os 110 m e os 340 m de altitude, esta Quinta detém 150 ha de área de vinha onde estão plantados cerca de 450 000 pés de videira com uma média de 15 anos de idade.»

A segunda, igualmente no Douro Superior, próxima da outra, situa-se contudo a muito maior altitude — 600m — sendo assim mais fresca durante o Verão, o que não só a torna mais indicada para o armazenamento e envelhecimento dos vinhos — é lá que este Reserva envelhece durante um ano, depois de engarrafado — como leva à «produção de uvas mais ácidas e frescas que as produzidas na outra quinta, mais maduras e concentradas, com as quais se atinge um extraordinário blend.»

Envelheceu durante 18 meses em tonéis e barricas — novas e de segundo ano — de carvalho francês. Para satisfazer a curiosidade no que tocar a outros detalhes, pode sempre consultar a ficha técnica disponibilizada pelo produtor, que está aqui.

Cor carmim muito escura. Aroma profundo e complexo, mostrando, como que por camadas, frutos silvestres intensos mas não muito doces, passas, mato e chocolate amargo, baunilha e resinas de madeira, fumo e tosta de barrica. Textura interessante, cheia, com muitos taninos finos, mas sem chegar a poder considerar-se cremosa. Álcool muito bem integrado e acidez perfeitamente afinada, a manter tudo sempre muito fresco, vibrante, a ajudar à sensação de mineralidade. Final saboroso e prolongado, mas não opulento. Cheio mas muito fresco, potente mas contido, elegante acima de tudo, é um vinho bem diferente das poderosíssimas torrentes de fruta e químico a que o novo Douro «bom» nos tem habituado. Ainda tem uns anitos pela frente.

Com os cerca de 25€ que custa, será muito difícil encontrar melhor.

18

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Coelho & Tinto + Arroz de Cogumelos

Com três horas de antecedência, marinaram-se quatro pernas de coelho com 6 dentes de alho e 3 colheres de sopa de azeite.




Chegada a hora de as cozinhar, levaram-se a lume forte, num tacho largo, 2 colheres de sopa de banha de porco, uma cebola grande, picada, e a marinada do coelho. Estando a mistura a ferver, juntaram-se-lhe as pernas, que, virando-se conforme necessário, se deixaram alourar de ambos os lados. Deitou-se, então, no tacho uma colher de café de malagueta seca, desfeita, 3 folhas de louro, 4 colheres de sopa de massa de tomate, 1 colher de chá de colorau, 1 colher de café de cominhos moídos e sal a gosto. Continuaram a ir-se virando as pernas, de modo a que os temperos se pudessem dissolver uniformemente no cozinhado. Estando tudo bem dourado, verteu-se para dentro do tacho meio litro de vinho tinto e voltaram a virar-se as pernas. Por fim, passados mais ou menos 15 minutos, juntou-se mais meio litro de água e baixou-se o lume para o mínimo. Cozinhou em lume muito brando durante hora e meia: de tacho tapado durante os primeiros 40 minutos, e destapado — para o molho reduzir — o resto do tempo. Foram-se ainda virando as pernas de vez em quando, de modo a proporcionar-se-lhes uma cozedura tão uniforme quanto possível.

Nota: O tempo de cozedura depende, naturalmente e pelo menos, da intensidade da chama — fogões diferentes têm «máximos» e «mínimos» diferentes — e do tamanho e constituição da panela. Tendo isto em conta, talvez seja conveniente, a partir de dada altura, quando se suspeitar que o coelho poderá já estar cozido, espetar-se-lhe um garfo à superfície do músculo, tentando depois, na sequência desse gesto, separar um pedaço de carne do resto da perna. Quando o dito pedaço vier atrás do garfo sem oferecer grande resistência, como se a perna se desfiasse, o coelho está pronto.

Uma vez preparado o coelho, apagou-se o lume e deixou-se descansar, tapado, durante cerca de 15 minutos antes de se servir.

Enquanto o coelho ia cozinhando, preparou-se o arroz de cogumelos. Em lume forte, refogou-se uma cebola pequena, picada, e duas colheres de sopa de azeite. Juntaram-se ao refogado 200ml de arroz carolino, 150g de cogumelos frescos cortados em metades, duas conchas de molho do coelho e um pouco de sal. Por fim, 650ml de água, e deixou-se cozer destapado, em lume brando, sem mexer. Tendo o arroz já pouca água, apagou-se o lume.

Depois foi só servir e acompanhar com um vinho giraço do Douro. Muito bom!

Palha-Canas '2006

Este vem da Casa Santos Lima, uma vinícola bastante antiga do concelho de Alenquer. Como tantas outras empresas familiares, com muitas terras e alguma história, cheias de potencial por realizar, apostou a dada altura na comercialização de vinhos engarrafados de qualidade. Assim, e realizados os melhoramentos na adega que são costumários nestas situações, reentrou no mercado em 1996 e, hoje em dia, exporta a grande maioria — 90%, dizem! — do vinho que produz.

O terroir é o típico da zona. Encostas suaves situadas a altitude moderada — 100 a 200m — de solo argilo-calcário capaz de reter bem a água, e depois muito sol, moderado pelas brisas do Atlântico próximo, sendo as Primaveras chuvosas e os Verões secos.

Foi vinificado a partir de Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz, Castelão e Camarate. Parte do lote final foi envelhecido em meias-pipas de carvalho francês e português. Ficha técnica, aqui.

Não o decantei. Cor rubi de intensidade moderada. O ataque, achei-o fortemente animal, o que surpreendeu. Depois, esvaído todo aquele ensanguentado, couro e suor de animais de pêlo — ratos e afins — revelou-se fruta doce, madura, diria eu vermelha, alguma dela em compota, e chocolate, mais perceptível na prova de boca. É vinho de estrutura ligeira e final discreto, mas ainda assim muito agradável, muito sugestivo, que não cansa.

Custa pouco mais de 4€.

14,5

Quinta do Infantado — Vintage '2003

Pois é, voltámos.

Vamos lá, então, pôr a pinga em dia.

Já devem ter reparado que se fazem uns quantos bolinhos cá por casa. E agora digo-vos que ainda são mais os que vêm da rua. Sim, raramente dispensamos algo doce à sobremesa. Que gosto muito de acompanhar com Porto.

De facto, só não consumo mais para evitar ficar gordo como um porco chino.

Não que tenha assim tantos motivos concretos para me preocupar. Afinal, em 10 anos, passei de uma cintura 40 para uma 42. Que me desculpem a nota, quid sapit pedante, aqueles que por ela se sentirem ofendidos, mas... Calma. O aparte justifica-se. Pela importância da profilaxia.

Adiante.

O Porto que hoje aqui coloco é o Vintage de 2003 da Quinta do Infantado, de Gontelho, no Cima Corgo. Não lhe encontrei página web.

Retinto bonito, com reflexos arroxeados. Denso, doce, profundo. Em camadas, muita fruta — uvas em passa, figo, tâmaras, talvez papaia, abóbora cristalizada. Morangos e xisto na boca. Estrutura de respeito. Banana seca e pinhões no fim.

Ainda é uma criança. Vai durar mais que eu!

25€, mais ou menos.

Foi a garrafa nº 11812

17