quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Herdade dos Grous '2007

Outro vinho de Beja, este da Herdade dos Grous, e um dos novos clássicos da região, embora as primeiras vinhas da quinta se tenham começado a plantar apenas em 1987.

Vinificado a partir das castas Aragonês, Syrah, Alicante Bouschet e Touriga Nacional.

Cor escura. Fresco e sumarento. Amora, cassis, figo em passa, gelado de morango. Feno seco e folha de eucalipto, sobretudo no palato. A madeira do estágio, no ponto, nunca se intromete com a fruta. Redondo, elegante, dotado de bom volume e persistência, achei engraçado este vinho estar já tão maduro, tão oferecido e apetecível, sendo ainda tão jovem.

Ainda assim, para já, diria que gostei mais do de 2006. Se um bocadinho em garrafa o vai beneficiar, a ver vamos...

Custou 9€.

16

Herdade da Figueirinha — Reserva '2005

Outro vinho de menos de 4€ (de facto, menos de 3, se a memória não me atraiçoa) que bebi recentemente foi este alentejano da zona de Beja, da Sociedade Agrícola do Monte Novo e Figueirinha. Diz o contra-rótulo que foi produzido a partir das castas Trincadeira, Aragonês, Alicante Bouschet, Alfrocheiro e Cabernet Sauvignon. Quanto ao estágio, não dizem nada, nem na garrafa nem na página do produtor, mas é certo que o teve.

Cor rubi, não muito concentrada. Aroma franco, directo, com muita fruta vermelha pouco madura e elementos vegetais verdes, frescos e indefinidos, a fazerem lembrar salsa. Mostrou ainda evidentes notas de laranja amarga e chocolate preto. Corpo ligeiro, com a acidez, talvez no limite, a ajudar a integrar os 13,5% de álcool. Mais fruta verde. Mais verde vegetal. Estranhas sugestões animais, a fazerem lembrar porco estufado em vinha d'alhos. Final curto.

É um vinhito ligeiro, sem grandes pontos de interesse. Não está mal para o preço, mas ainda mais longe de impressionar.

14

Pingo Doce — Douro Reserva '2005

Douro DOC produzido pela Calheiros Cruz. O enólogo responsável por este vinho continua a ser Anselmo Mendes. Já tinha provado o de 2004. Para começar, noto que não existe mais informação disponível acerca deste que do anterior. Talvez continue a não valer a pena.

Tal como o seu predecessor, foi vinificado a partir de uvas das castas Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Barroca e Aragonês. Estagiou em madeira, mas não dizem quanto. Tem 13,5% v/v de álcool.

Cor rubi. Aroma simples, um pouco trôpego. Fruta silvestre madura, fogueira de lenha e/ou queijo azul. Na boca, mais fruta, e fruta mais expressiva. Mais barrica, e melhor definida. Saboroso. Porém, nota-se-lhe certa desarmonia estrutural: o álcool acaba por se evidenciar em demasia e os taninos, embora até bastantes, mostram-se um pouco duros, sem conseguirem, contudo dar outra envolvência ao vinho. O final é curto e limpa a boca.

Falta-lhe polimento. Pede comida pesada. Para mim, está claramente abaixo do de 2004.

Custa quase 4€.

13,5

domingo, 2 de novembro de 2008

Quinta dos Aciprestes '2004

Douro DOC da Real Companhia Velha.

Consta que é produzido «a partir de parcelas de vinhas velhas» situadas entre o Cima Corgo e o Alto Douro, passando depois por breve estágio em madeira de carvalho. As castas são várias, predominando a Tinta Barroca, Aragonês e Touriga Franca.

Servi-o a 14ºC e não o terei bebido, em momento algum, a mais de 16/17ºC.

Cor rubi profunda. Muita fruta doce — amoras, cerejas e ameixas — a desvanecer-se em caramelo especiado. Balsâmicos frescos e notas de farmácia, a fazerem lembrar tintura de iodo, transmitem seriedade ao conjunto. Madeira, pinho, lá muito no fundo, e só um pouco. Aroma muito intenso, guloso e extremamente apelativo. Macio. Tal como na boca, cheia de fruta silvestre, densa, sumarenta, um pouco ácida. Também algum vegetal seco. E mais balsâmico. Um conjunto muito saboroso, bem estruturado, com boa persistência. O final é amadeirado.

Falta-lhe algo mais que apenas finura para poder ser considerado um grande vinho, mas é belo.

Custou menos de 7€ — uma excelente relação qualidade/preço. Nada a que este produtor não nos tenha já habituado.

Gostei muito.

16,5

Adega Cooperativa de Vila Nova de Tazém — Alfrocheiro '2002

Bebido no dia seguinte, o oposto do vinho do post anterior, este delicado Alfrocheiro da Adega Cooperativa de Vila Nova de Tazém mostrou no copo cor granada, pouco concentrada e a fugir para o laranja.

De aromas mais persistentes que intensos, ofereceu doces cerejas e morangos em fundo de rebuçado, com traços de especiarias.

Na boca, suave, fruta vermelha e licor de fruta vermelha, depois marmelo e por fim cabedal, tabaco fresco e nozes diluídas em algo a que não sei dar nome, que me levou até uma velha cave de granito, fria, escura, húmida, um pouco bafienta. Elegante por via da ligeireza, sem grande comprimento, tem pouco álcool (12,5%) e está bem redondo, mais que pronto a beber — aliás, mais que mais que pronto a beber, cansadito, já, apesar de ter apenas 6 anos.

Custou 14€ e tal. Cumpriu com êxito a sua missão, acompanhar um franguinho assado só com alho, sal e umas ervitas.

15,5

Uma das favoritas do Dão, Alfrocheiro é casta de cacho pequeno e compacto, de produção alta e regular, que se presume originária daqui, do nosso país, ainda que as suas origens sejam incertas — há, inclusive, quem afirme poder tratar-se de uma mutação de Pinot Noir.

As opiniões relativas à sua apetência para a longevidade divergem: no sítio web do "Dão Digital", a páginas tantas, lê-se que possui "muito bom potencial para envelhecimento, principalmente quando feito em madeira nova de carvalho".

Porém, no nº 144 da "Revista de Vinhos", de Novembro de 2001, o respeitado João Paulo Martins afirma, em artigo dedicado à casta, que "vivo enquanto jovem, o Alfrocheiro resiste mal ao tempo e, como varietal, não deve ser vinho de guarda".

A este respeito, pessoalmente, e apenas pelo que este espécime me mostrou, sinto-me mais inclinado a concordar com a segunda opinião. Agora, venha um contra-exemplo!

sábado, 1 de novembro de 2008

Protos — Crianza '2004

Voltei, voltámos. Aweh!

Mas, um aviso! — ando preguiçoso e desinspirado.

Postos os preliminares, aí vai qualquer coisa sobre bebida:

Após longo interregno, tão longo que este é o primeiro vinho de tal origem que coloco neste blogue, voltei há dias aos espanhóis da Ribera del Duero. Vem das Bodegas Protos, de Peñafiel, cidadezinha pequenina, muito antiga e cheia de tipicidade, que fica a 56Km de Valladolid.

Meia dúzia de linhas sobre o produtor: é uma cooperativa que surgiu em 1927 e cresceu muito depressa. Por ter sido a primeira e por os seus vinhos — bons mas acessíveis, também porque produzidos em larga escala — terem, sem dúvida, contribuído para o aumento de visibilidade da região, o seu contributo para como as coisas do vinho aí correram — para os desinformados, han ido de puta madre — desde então não pode ser ignorado. Uma adega histórica, portanto.

Consta que este Crianza é um clássico da sua denominação de origem. Não por ser o nec plus ultra do que por lá se faz, muito longe disso, mas pela forma simples e honesta, e com qualidade, com que revela o carácter da zona no que a vinho toca. É um varietal de Aragonês — ou seja, Tempranillo, Cencibel, Tinto Fino, Tinta de Toro, Tinta del País, Tinta Roriz... et caetera! — envelhecido durante 12 meses em madeira de carvalho (branco, já agora) americano e outro tanto tempo em garrafa. Pelo menos.

Quanto a que tal me pareceu, mais ou menos sucintamente: Cor rubi. De aroma franco a frutos negros muito maduros — amoras, cerejas e sobretudo uvas — e baunilha. Muito mais complexo na boca, a desdobrar-se num sem fim de impressões animais: sangue, suor, banha de porco cozinhada, pêlo... e outras sugestões mais ou menos exóticas: chocolate e goiabada, anis e amêndoas, cravinho e madeira resinosa — exuberância cativante mas um pouco agressiva, que aparenta surgir apoiada na vincada acidez do vinho — esta, infelizmente, em boa parte, volátil. Não o bebendo todo ao almoço, ao lanche encontrei um vinho muito mais simples e macio, muito menos estimulante. De corpo, está bem. Volume aprazível, com taninos finos e os 14% de álcool a fazerem-se sentir mais nos lábios e garganta que na boca. Tal como tudo o mais, o final, longo, surge marcado pela madeira.

Enfim, é bom, mas não brilha. E precisa de comida.

Comprei-o por 10€ na última feira de vinhos do Jumbo. E, mesmo assim, para o que cá há nessa faixa de preços, achei carote. Agora, os 16€ e qualquer coisa que costuma custar quando não está em promoção... são um claro exagero.

15,5

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Herdade do Meio — Cabernet Sauvignon & Syrah '2004

Vinho Regional Alentejano da Casa Agrícola João & António Pombo, de Portel, vila muito antiga — fundada em 1261, recebeu foral em 1262! — pertencente ao distrito de Évora.

Feito a partir «de uma rigorosa selecção de uvas das castas Cabernet Sauvignon e Syrah», estagiou 12 meses em barricas de carvalho francês. Foram produzidas 15000 garrafas.

Cor rubi, concentrada. Aroma rico, intenso e envolvente. Notas de PVC no ataque, a fazerem lembrar aquela lona com que se cobrem as piscinas. Depois, muita fruta em compota, pimenta preta e madeira. Bem enlaçadas, mas não na perfeição. De alguma forma, notei-lhe por toda a parte uma sensação mineral que fazia lembrar brisa marinha a correr sobre extenso relvado numa manhã fresca. Húmida e salgada, vibrante, etérea mas perpassante — em claro contraste com a fruta carregada, como que lhe indiferente. Cheiinho na boca, onde as características do nariz se prolongam. Acidez vincada, taninos agradáveis e 14% de álcool bem integrado. Final quase opulento, bastante marcado pela madeira.

Pode custar menos de 8€ — se comprado no Continente — ou quase 40€ — se no Jumbo. Uma diferença abismal que «eles» nem se preocupam muito a tentar mascarar. Já me apercebi de que, curiosamente:

1. Quase ninguém repara;

2. Metade dos que reparam não se importam;

3. Daqueles que se importam, a maioria aplaude — vinho bom e barato é vinho bom e barato!;

4. Os que não o fazem invocam que se está a desvalorizar o vinho e interrogam-se a que preço.

De facto, aparentam perguntar coisas legítimas. Porém, porque se havia de desvalorizar o vinho?

4.1. Por a empresa estar num (muito) mau momento, porventura o derradeiro. Os que gostam de alimentar histórias especulativas poderiam ver no facto de a página da empresa estar «em construção» desde sempre (mais) um indício negro dessa eventual realidade. Eu, pessoalmente, duvido.

4.2. Marketing agressivo e algo mais. Em tempos, parece que o projecto HdM foi apoiado (sim, dinheiro) pelo universo Sonae. Naturalmente havia de haver alguma forma de retorno. Já para não dizer que, assim, se está a popularizar um produto que, dado o preço, não teria, à partida, assim tantos compradores. Mas... não fica a sensação de faltar algo?

Que se lixe. Pessoalmente, sou adepto do lema do penny, «mind your business». Como tal, não só acho que não vale realmente a pena pensar «nisto» como... adivinhem lá onde é que vou continuar a comprar os bons vinhos desta casa?! 16,5

domingo, 26 de outubro de 2008

...










Moqueca de Camarão

A moqueca é um cozinhado de origem indígena, e originalmente feita numa grelha de varas ou ainda apenas folhas de árvores cobertas por cinzas quentes (o que era chamado moquém). A diferença básica da moqueca baiana para a capixaba é que a baiana leva azeite de dendê [óleo de palma] e leite de coco. (Fonte: Wikipédia)




1Kg de camarão cal. 10/20;
200g — ou seja, um «sabonete» — de creme de coco (creamed coconut);
2 tomates grandes;
2 cebolas médias;
3 dentes de alho;
sumo de 1 limão e meio;
5 colheres de sopa de óleo de palma;
3 colheres de sopa de azeite;
35g de coentros frescos;
sal e malagueta seca a gosto.


Cortam-se as cebolas e tomates em quartos e juntam-se ao alho, aos coentros e à malagueta seca dentro de um triturador de qualquer tipo. Desfazem-se.

Numa panela grande e, se possível, de barro, aquecem-se em lume forte o azeite e a gordura de palma. Junta-se-lhes o preparado anterior e deixa-se refogar um pouco. Tempera-se com sal e junta-se o creme de coco, cortado em fatias finas. Reduz-se o lume para o mínimo. Espera-se que o creme de coco se desfaça e junta-se o sumo de limão.

Adicionam-se os camarões e mexe-se. Deixa-se cozinhar em lume brando, de panela tapada, mexendo apenas de vez em quando, durante mais 5 ou 6 minutos. Os camarões estarão prontos quando adquirirem aquele característico tom alaranjado. Deixam-se repousar mais um pouco, sempre com a panela tapada. Querendo, pode deitar-lhes por cima uns coentros frescos, cortados aos bocadinhos na altura, antes de servir.

Comemo-los só assim, com cerveja.

Ainda do artigo da Wiki, não resisto a transcrever mais este bocadinho:

A primeira menção da moqueca num documento histórico foi numa carta do padre português Luís de Grã, datada de 1554, onde ele afirma que "quando se dispunham a comer carne humana, os índios assavam-na na labareda", isto é, no moquem.

sábado, 25 de outubro de 2008

Luxus — Reserva '2005

Ao contrário dos outros vinhos da Península de Setúbal que por aqui têm passado, este é produzido na Quinta de Catralvos, no sopé da Arrábida, cuja proximidade se faz sentir, não só ao nível do solo, mas também do clima, mais húmido, mais ameno — sendo, assim, natural que lá se façam vinhos de perfil mais fresco, mais ligeiro, mais ácido, de aromas menos maduros que os produzidos nas areias de Palmela.

Leituras interessantes sobre os vinhos desta zona, descobri na página da Rota de Vinhos da Península de Setúbal — sobretudo os mapas, que são deliciosos — e aqui.

Quanto a este vinho, e começando por fora, pelo rótulo, devo dizer que a S. lhe achou (muito) mais piada que eu. É um bling, porra.

Já o conteúdo da garrafa, que, afinal, é quase a única coisa que importa — combinação, evelhecida durante 8 meses em carvalho francês, de Cabernet Sauvignon, Aragonês, Syrah e Touriga Nacional — foi uma agradável surpresa. A cor, rubi, escura. O ataque evocou aromas de Porto Ruby. Depois, esvaecida boa parte do álcool volátil, ficou fruta negra madura, ainda jovem (!), violetas, algum vegetal a fazer lembrar ervas e folhas secas, e madeira. Alguma! De boca, achei-o fresco, com bom volume. A madeira e os verdes iam surgindo juntos, sobrepondo-se à fruta. Depois, elementos florais, aliados a algum álcool, iam fazendo lembrar tintura de genciana. A madeira, bem presente, ficou sempre no fundo, a transmitir austeridade, e para o fim, este longo, com retrogosto a sugerir frutos de casca rija. Muito interessante. Pena certo desequilíbrio entre as partes.

Já o tinha visto várias vezes nas prateleiras dos hipermercados. Mas, se não fosse ela, nunca lhe teria pegado. De alguma forma, ainda bem que o fiz.

Custou pouco menos de 5€.

15