segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Frou Frou — Details

Agora que ando com a neura "daquele tempo, daquela casa onde tenho a certeza que enlouqueci", uma musiquita a condizer.

Uma favorita dos meus tempos de acólito da Igreja do Imaculado Paliativo. Ah, música para o tão necessário down depois da loucura da noite, tão necessária como o próprio!

Às vezes, quando (ainda) penso nisso, reparo que ficaram mais sons que imagens. Muitos destes, cristalinos... aquelas, quase todas desfocadas.

So let go, just get in
Oh, it's so amazing here
It's alright
'Cause there's beauty in the breakdown


Oh, que raio! Quando um gajo mostra as músicas de que gosta ao mundo, é tão paneleiro citar bocadinhos "mais profundos, mais significativos" da letra...


Para terminar, um pouco de bláblá daquele a que vos tenho habituado:

A banda, que já se separou há muito tempo, tem uma página no MySpace.

E uma entrada na Wikipédia.

O álbum, o único que fizeram, chama-se Details.

domingo, 9 de novembro de 2008

José Maria da Fonseca — Garrafeira TE '1999

Palmela DOC, este TE — Tinto Especial — é um dos «Garrafeira» classificados com letras de código da José Maria da Fonseca.

Diz a página do produtor que este vinho provém dos solos argilo-calcários da Quinta de Camarate em Azeitão [ou seja, da Arrábida] e resulta da combinação da casta Castelão com outra internacionalmente conhecida: o Cabernet Sauvignon [75% da primeira e 25% da segunda]. Estagiou durante 11 meses em barricas novas de carvalho.

Foram feitas 32375 garrafas.

Quanto à prova — escusado será dizer que o bebi todo — revelou-se rubi transparente no copo com halo atijolado. Nariz leve e muito desenvolvido, de ataque indefinido, doce e terroso, que com o ar se foi transfigurando em morangos, muito rebuçado e folhas secas de eucalipto sobre fundo de cabedal, castanhas e restos de azeitona preta, daqueles que ficam para trás no lagar quando se faz azeite. Boca elegante, doce e não muito volumosa, cheiinha de fraises confites que aparentam estar já a recuar e taninos finos e poeirentos que começam a desvanecer-se num primeiro sinal de cansaço. Ainda delicioso, terá já passado o ponto óptimo de maturação.

Custou 20€.

16,5

sábado, 8 de novembro de 2008

Bifinhos Enrolados + Cogumelos

Há muito que não mostramos nada novo de comer aqui no blogue. Esta receita, interessante e versátil, é das que se têm repetido à nossa mesa desde sempre. Quase toda a gente tem a sua interpretação dela; aí vai a nossa:




Ingredientes:

6 bifinhos de vitela, finos;
6 fatias de queijo mozzarella;
½ chouriço de porco preto, sem pele;
250g de cogumelos frescos, cortados ao meio;
200ml de cerveja;
4 dentes de alho;
azeite;
sal, malagueta seca, cominhos e alho em pó, tudo a gosto.


E prepara-se assim:

Estendem-se os bifinhos e temperam-se com sal, cominhos, malagueta seca e alho em pó. Depois, por cima e no meio de cada um, coloca-se uma fatia de queijo mozzarella, dobrada no sentido do comprimento. E, por cima do queijo, três rodelas finas de chouriço. Enrolam-se então os bifinhos e atam-se.

Numa panela baixa e larga, em lume sempre forte, aquece-se muito bem um fundo de azeite. Aí se deitam os 4 dentes de alho, inteiros, e deixam-se tomar cor. Douram-se os bifinhos de ambos os lados neste fundo de azeite e juntam-se os cogumelos. Cozinha durante dois ou três minutos. Por fim, rega-se tudo com cerveja e deixa-se cozinhar até o molho reduzir.

Comeram-se com arroz de feijão, só que desta vez, em vez de feijão branco, usámos feijão canellini.

Velharias (6)

Segunda-Feira, 22 de Agosto de 2005. Ardeu toda a noite. Fugimos. De automóvel, andámos a circundar o incêndio. Toda a noite. As cinzas chegaram a junto do rio. Os cães como que pressentiam a desgraça. A excitação e o medo.

Foi uma das noites mais bonitas da minha vida. O facto é que adoro ver coisas arder...





A Lua e as Fogueiras





*





Naquela noite, mesmo que Nora se deixasse derrubar sobre a erva, não me seria bastante. Os sapos não deixariam de coaxar, nem os automóveis de acelerar na descida, nem a América de acabar naquela estrada, com aquelas cidades iluminadas junto à costa. Compreendi, na obscuridade, por entre aquele aroma de jardins e pinheiros, que aquelas estrelas não eram as minhas, que, como Nora e os fregueses, me causavam medo. Pavese, 1950.





Fumo e fogo, aqui tão perto. Tão dentro da cidade, do lado de cá da circular, parece impossível.

Ouvem-se sirenes, tantas tantas.

Vizinhos a discutir...

Saímos. Ainda volto para fechar umas persianas. Mais vizinhos, consternados. Uma rapariga tenta conter as lágrimas no elevador.

Duas e meia ou três da manhã... Vento. Pessoas que fogem. Lá bem no fundo, ninguém deve acreditar que estes monstros de betão possam arder, mas o pânico é contagioso e, de mim para mim,

Só para mim,

Tantas luzes, sirenes, fumo negro, cheiro a fogueiras de mato e pinho,

Tanta gente que por um momento se esqueceu de ser mesquinha,

Tanto fumo tanto pânico

(Tanto medo?)

Sabe-me bem.

E não devia confessá-lo, mas...

Como é que uma coisa destas foi acontecer AQUI?

Ao cimo da avenida, do outro lado da rua, depois da rotunda aérea, lá no inferno, ardem pessoas e pertences de pessoas e animais e plantas e sonhos e aqui tão perto cheira bem.

Depois fomos embora. Volvidas umas horas, nada. Tudo acabado. Nem o mais leve resquício de fumo dentro de casa.

(Ciscos, cinzas, um raminho de pinheiro, carbonizado, que conservou a sua forma original.)




Comentava a Sara que as fotos dos fogos, ao longe, faziam lembrar um jovem planeta, ambiente em fase primordial... Rios de lava cortando colinas negras, pedras fundidas, géiseres luminescentes.

Quer queira quer não, um tipo acaba a lembrar-se do Sá-Carneiro...

. . . . . . . . . . .

Castelos desmantelados,
Leões alados sem juba...

. . . . . . . . . . .

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Herdade dos Grous '2007

Outro vinho de Beja, este da Herdade dos Grous, e um dos novos clássicos da região, embora as primeiras vinhas da quinta se tenham começado a plantar apenas em 1987.

Vinificado a partir das castas Aragonês, Syrah, Alicante Bouschet e Touriga Nacional.

Cor escura. Fresco e sumarento. Amora, cassis, figo em passa, gelado de morango. Feno seco e folha de eucalipto, sobretudo no palato. A madeira do estágio, no ponto, nunca se intromete com a fruta. Redondo, elegante, dotado de bom volume e persistência, achei engraçado este vinho estar já tão maduro, tão oferecido e apetecível, sendo ainda tão jovem.

Ainda assim, para já, diria que gostei mais do de 2006. Se um bocadinho em garrafa o vai beneficiar, a ver vamos...

Custou 9€.

16

Herdade da Figueirinha — Reserva '2005

Outro vinho de menos de 4€ (de facto, menos de 3, se a memória não me atraiçoa) que bebi recentemente foi este alentejano da zona de Beja, da Sociedade Agrícola do Monte Novo e Figueirinha. Diz o contra-rótulo que foi produzido a partir das castas Trincadeira, Aragonês, Alicante Bouschet, Alfrocheiro e Cabernet Sauvignon. Quanto ao estágio, não dizem nada, nem na garrafa nem na página do produtor, mas é certo que o teve.

Cor rubi, não muito concentrada. Aroma franco, directo, com muita fruta vermelha pouco madura e elementos vegetais verdes, frescos e indefinidos, a fazerem lembrar salsa. Mostrou ainda evidentes notas de laranja amarga e chocolate preto. Corpo ligeiro, com a acidez, talvez no limite, a ajudar a integrar os 13,5% de álcool. Mais fruta verde. Mais verde vegetal. Estranhas sugestões animais, a fazerem lembrar porco estufado em vinha d'alhos. Final curto.

É um vinhito ligeiro, sem grandes pontos de interesse. Não está mal para o preço, mas ainda mais longe de impressionar.

14

Pingo Doce — Douro Reserva '2005

Douro DOC produzido pela Calheiros Cruz. O enólogo responsável por este vinho continua a ser Anselmo Mendes. Já tinha provado o de 2004. Para começar, noto que não existe mais informação disponível acerca deste que do anterior. Talvez continue a não valer a pena.

Tal como o seu predecessor, foi vinificado a partir de uvas das castas Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Barroca e Aragonês. Estagiou em madeira, mas não dizem quanto. Tem 13,5% v/v de álcool.

Cor rubi. Aroma simples, um pouco trôpego. Fruta silvestre madura, fogueira de lenha e/ou queijo azul. Na boca, mais fruta, e fruta mais expressiva. Mais barrica, e melhor definida. Saboroso. Porém, nota-se-lhe certa desarmonia estrutural: o álcool acaba por se evidenciar em demasia e os taninos, embora até bastantes, mostram-se um pouco duros, sem conseguirem, contudo dar outra envolvência ao vinho. O final é curto e limpa a boca.

Falta-lhe polimento. Pede comida pesada. Para mim, está claramente abaixo do de 2004.

Custa quase 4€.

13,5

domingo, 2 de novembro de 2008

Quinta dos Aciprestes '2004

Douro DOC da Real Companhia Velha.

Consta que é produzido «a partir de parcelas de vinhas velhas» situadas entre o Cima Corgo e o Alto Douro, passando depois por breve estágio em madeira de carvalho. As castas são várias, predominando a Tinta Barroca, Aragonês e Touriga Franca.

Servi-o a 14ºC e não o terei bebido, em momento algum, a mais de 16/17ºC.

Cor rubi profunda. Muita fruta doce — amoras, cerejas e ameixas — a desvanecer-se em caramelo especiado. Balsâmicos frescos e notas de farmácia, a fazerem lembrar tintura de iodo, transmitem seriedade ao conjunto. Madeira, pinho, lá muito no fundo, e só um pouco. Aroma muito intenso, guloso e extremamente apelativo. Macio. Tal como na boca, cheia de fruta silvestre, densa, sumarenta, um pouco ácida. Também algum vegetal seco. E mais balsâmico. Um conjunto muito saboroso, bem estruturado, com boa persistência. O final é amadeirado.

Falta-lhe algo mais que apenas finura para poder ser considerado um grande vinho, mas é belo.

Custou menos de 7€ — uma excelente relação qualidade/preço. Nada a que este produtor não nos tenha já habituado.

Gostei muito.

16,5

Adega Cooperativa de Vila Nova de Tazém — Alfrocheiro '2002

Bebido no dia seguinte, o oposto do vinho do post anterior, este delicado Alfrocheiro da Adega Cooperativa de Vila Nova de Tazém mostrou no copo cor granada, pouco concentrada e a fugir para o laranja.

De aromas mais persistentes que intensos, ofereceu doces cerejas e morangos em fundo de rebuçado, com traços de especiarias.

Na boca, suave, fruta vermelha e licor de fruta vermelha, depois marmelo e por fim cabedal, tabaco fresco e nozes diluídas em algo a que não sei dar nome, que me levou até uma velha cave de granito, fria, escura, húmida, um pouco bafienta. Elegante por via da ligeireza, sem grande comprimento, tem pouco álcool (12,5%) e está bem redondo, mais que pronto a beber — aliás, mais que mais que pronto a beber, cansadito, já, apesar de ter apenas 6 anos.

Custou 14€ e tal. Cumpriu com êxito a sua missão, acompanhar um franguinho assado só com alho, sal e umas ervitas.

15,5

Uma das favoritas do Dão, Alfrocheiro é casta de cacho pequeno e compacto, de produção alta e regular, que se presume originária daqui, do nosso país, ainda que as suas origens sejam incertas — há, inclusive, quem afirme poder tratar-se de uma mutação de Pinot Noir.

As opiniões relativas à sua apetência para a longevidade divergem: no sítio web do "Dão Digital", a páginas tantas, lê-se que possui "muito bom potencial para envelhecimento, principalmente quando feito em madeira nova de carvalho".

Porém, no nº 144 da "Revista de Vinhos", de Novembro de 2001, o respeitado João Paulo Martins afirma, em artigo dedicado à casta, que "vivo enquanto jovem, o Alfrocheiro resiste mal ao tempo e, como varietal, não deve ser vinho de guarda".

A este respeito, pessoalmente, e apenas pelo que este espécime me mostrou, sinto-me mais inclinado a concordar com a segunda opinião. Agora, venha um contra-exemplo!

sábado, 1 de novembro de 2008

Protos — Crianza '2004

Voltei, voltámos. Aweh!

Mas, um aviso! — ando preguiçoso e desinspirado.

Postos os preliminares, aí vai qualquer coisa sobre bebida:

Após longo interregno, tão longo que este é o primeiro vinho de tal origem que coloco neste blogue, voltei há dias aos espanhóis da Ribera del Duero. Vem das Bodegas Protos, de Peñafiel, cidadezinha pequenina, muito antiga e cheia de tipicidade, que fica a 56Km de Valladolid.

Meia dúzia de linhas sobre o produtor: é uma cooperativa que surgiu em 1927 e cresceu muito depressa. Por ter sido a primeira e por os seus vinhos — bons mas acessíveis, também porque produzidos em larga escala — terem, sem dúvida, contribuído para o aumento de visibilidade da região, o seu contributo para como as coisas do vinho aí correram — para os desinformados, han ido de puta madre — desde então não pode ser ignorado. Uma adega histórica, portanto.

Consta que este Crianza é um clássico da sua denominação de origem. Não por ser o nec plus ultra do que por lá se faz, muito longe disso, mas pela forma simples e honesta, e com qualidade, com que revela o carácter da zona no que a vinho toca. É um varietal de Aragonês — ou seja, Tempranillo, Cencibel, Tinto Fino, Tinta de Toro, Tinta del País, Tinta Roriz... et caetera! — envelhecido durante 12 meses em madeira de carvalho (branco, já agora) americano e outro tanto tempo em garrafa. Pelo menos.

Quanto a que tal me pareceu, mais ou menos sucintamente: Cor rubi. De aroma franco a frutos negros muito maduros — amoras, cerejas e sobretudo uvas — e baunilha. Muito mais complexo na boca, a desdobrar-se num sem fim de impressões animais: sangue, suor, banha de porco cozinhada, pêlo... e outras sugestões mais ou menos exóticas: chocolate e goiabada, anis e amêndoas, cravinho e madeira resinosa — exuberância cativante mas um pouco agressiva, que aparenta surgir apoiada na vincada acidez do vinho — esta, infelizmente, em boa parte, volátil. Não o bebendo todo ao almoço, ao lanche encontrei um vinho muito mais simples e macio, muito menos estimulante. De corpo, está bem. Volume aprazível, com taninos finos e os 14% de álcool a fazerem-se sentir mais nos lábios e garganta que na boca. Tal como tudo o mais, o final, longo, surge marcado pela madeira.

Enfim, é bom, mas não brilha. E precisa de comida.

Comprei-o por 10€ na última feira de vinhos do Jumbo. E, mesmo assim, para o que cá há nessa faixa de preços, achei carote. Agora, os 16€ e qualquer coisa que costuma custar quando não está em promoção... são um claro exagero.

15,5