quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Quinta do Carmo '2003

É o tinto de gama média da Quinta do Carmo, uma das mais notáveis vinícolas nacionais.

Aragonês, Alicante Bouschet, Castelão, Trincadeira, Cabernet Sauvignon e Syrah são as castas habitualmente utilizadas — em proporções variáveis, conforme o ano — na elaboração deste vinho, envelhecido ainda durante 12 meses em barricas de carvalho.

Da colheita de 2003, diz o produtor:

«O ano da grande “canícula”, uma palavra que resume as condições de maturação e de vindimas do ano de colheita 2003. No Alentejo, no entanto, a colheita realizou-se às datas habituais e em óptimas condições.»

Canícula. Não se refere à estrela Sirius do Cão-Maior, mas a uma considerável vaga de calor.

A cor é bastante escura, granada.

O aroma começa preso, com notas vegetais que evocam rebentos de bambu e cipreste, tornando-se depois mais balsâmico e, por fim, revelando fruta escura seca — sobretudo figos — e torra e fumos de madeiras várias. Tudo muito contido. Persistentes, ainda que sempre em pano de fundo, ligeiras notas de especiarias acres, tabaco e gordura de porco preto.

Na boca, notas de carne assada e mais figos secos. Esperava mais sabor. De resto, pode dizer-se que é flexível e bem estruturada. Só o álcool me pareceu um pouco fora de tom. Os taninos são densos e aveludados, e a acidez, embora se revele com suavidade, nota-se pronunciada — notas de azeitona ajudam a evidenciar a terrosidade negra que se prolonga pelo fim de boca.

Este alentejano algo atípico é capaz de estar para durar — e melhorar. Mas, para já, não me impressionou...

15,5

Custou 13€.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Pão de Azeite

Baseado, até certo ponto, no pão dito rústico, «não sovado».


Ingredientes:

420g de farinha de trigo T65 / 300ml de água / 20g de fermento de padeiro / 2 colheres (de sopa) de azeite / 2 ou 3 colheres (de chá) de sal grosso / 2 colheres (de chá) de açúcar mascavado.




Preparação:

Aqueci a água a 35ºC, verti-a para dentro de uma grande taça de louça e lá dissolvi, tão bem quanto pude, o fermento, o azeite e o açúcar — este para potenciar a fermentação: as leveduras adoram-no.

Adicionei então pouco mais de metade da farinha — uns 250g, a olho — e misturei tudo com um garfo.

Deixei a papa resultante levedar durante duas horas, tapada, num sítio morno — a 30ºC — e livre de variações térmicas.

Depois juntei o sal e mexi novamente.

Misturei o resto da farinha e envolvi muito bem.

Trabalhei a massa resultante durante 15 minutos no programa «amassar» da máquina de fazer pão. É eficaz e dá um mínimo de trabalho. Contudo, claro está, pode amassar-se à mão ou com a batedeira eléctrica. Neste caso, cuidado com a escolha das varetas.

Verti a massa para cima de uma superficie enfarinhada e fiz uma bola.

Untei um recipiente próprio para ir ao forno — neste caso, de pyrex — coloquei lá o futuro pão e deixei-o fermentar novamente, em condições idênticas às da primeira vez, mas agora durante três horas.

Por fim, forno. Para os primeiros 25 minutos da cozedura, apenas liguei a resistência de baixo a 180ºC. Os restantes 20, passou-os com ambas as resistências, ligadas à mesma temperatura.

Não sendo o forno eléctrico, faça-se um lume algures entre médio e brando, e deixe-se cozer até o topo ficar dourado.

Deixei arrefecer o pãozinho dentro do forno e só depois o desenformei (para não abater).

Ficou com mais de meio quilo.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Marquês de Marialva — Reserva Seleccionada '2000

Varietal Baga da Adega Cooperativa de Cantanhede. Ficha técnica, aqui. É um vinho que tem ganho prémios nos últimos anos (vd. ficha técnica) e Kim Marcus deu-lhe 85 pontos em Maio de 2003.




Cinco anos (e tal) depois, o que encontrei pode resumir-se, essencialmente, no seguinte.

Cor vermelho-cereja esmaecido, típica da casta. Ataque fechado, revelando apenas uma ou outra subtil impressão floral. Nariz vivo e limpo, dominado por aromas a frutos vermelhos em whisky e com boas sugestões de mostarda, cedro e terra. Boca fresca, bem dimensionada, de acidez viva, com muita fruta vermelha madura e um final, di-lo-ia salino, deveras apelativo.

Custou 8€.

15,5

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Versus '2004 e '2005

«A terra é severa, dir-se-ia até indomesticável como um potro selvagem. O granito impõe-se sobre a paisagem e pouco espaço liberta para a vegetação, que desponta fugidia entre as fragas. Nas serranias da Beira Interior, a inclemência dos elementos desafia a resistência dos que se expõem aos caprichos da Natureza. Invernos rigorosos golpeiam o solo, estremecem as árvores, resolvem as pedras. Verões tórridos secam os cursos de água, fendem os troncos, arrepanham as folhas. Mas o carácter industrioso de três gerações da mesma família fez fecundas estas terras graníticas. Em Vermiosa, Figueira de Castelo Rodrigo, o vinhedo viceja indiferente à rudeza da morfologia e do clima. Por estes lugares, o cultivo da vinha é quase uma fatalidade. Algo que acomete o Homem enquanto condição da sua própria existência. E assim nasce o vinho, com a mesma espontaneidade com que o orvalho filtra a luz da manhã. Um ofício de pureza, um labor de coisas simples, uma sabedoria quase visceral encerra o ciclo iniciado no aconchego da terra. O vinho Versus é o testemunho deste avatar.»




Este vinho é produzido pela Vinhos Andrade de Almeida em Vermiosa, localidade próxima de Figueira de Castelo Rodrigo. Bonito lugar!

Ora, como desta vez tive quem me ajudasse a virar copos, proporcionou-se este comparativo em jeito de mini-vertical. Aí vai:

Ambos possuem cor avermelhada, densa e muito escura — mas mais o de 2004, onde se evidencia ainda um grande rebordo violeta.

O da colheita de 2004 começa um pouco fechado no nariz. Depois desdobra-se em intensos aromas a cerejas e bagas maduras e em ligeira compota, com sugestões florais e de verniz, anis e notas de barrica — madeira torrada e muito café.

Na boca revela-se pujante, cheio de fruta especiada, muito saboroso, muito encorpado, quase untuoso na língua, com taninos grandes e suculentos perfeitamente integrados num conjunto francamente elegante. Fina, fria vibração mineral a todo o comprimento na prova de boca — faz lembrar granito! Final longo e persistente.

16,5, ou mais. Custa cerca de 8€. Tem de ainda ter uns quantos anos pela frente!


Já o da colheita de 2005 apresenta um perfil mais dócil, com o nariz mais fácil, mais quente, doce e disponível, cheio de frutos vermelhos e que a dada altura evoca rebuçados floco-de-neve, caramelos de leite e resina seca de eucalipto.

Na boca é equilibrado, embora bastante menos encorpado que o da colheita anterior. Também a mineralidade surge bem mais discreta. Algo guloso, oferece muita fruta e rebuçado, algum balsâmico e madeira sólida, tudo bem misturado e a prolongar-se por um final longo q.b..

Embora tenha melhorado nos últimos meses — ou assim me pareceu — nasceu uns furos abaixo do de 2004 e não o vai apanhar. Mas continua a ser um belo vinho!

16

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Luís Pato — Baga '2004

Feito de Baga e Touriga Nacional.

Página do produtor, ›>


Cor avermelhada, escura.

Muito ácido, convém deixá-lo respirar.

Fruta com expressão — sobretudo gustativa — típica da casta, concentrada e sem grande complexidade. Traz a reboque um punhado de flores secas. Corpo macio, de final bastante longo, mineral, «salgadinho».

4,50€

14,5


P.S.

Baga is not Grand Noir!

& por «Tinta Fina» não quererão dizer «Tinto Fino», Aragonês?

Caralho, turvas correm as águas em certos meandros do mundo do vinho!

sábado, 6 de dezembro de 2008

Grilos '2006

Da Soc. Agrícola do Casal de Tonda (Tondela), agora parte da Dão Sul. Um pouco de história, tal como surge aqui, contada pelo produtor:


«A marca da Quinta dos Grilos é sobejamente conhecida dos enófilos portugueses, dando nome a um vinho do Dão, produzido na pequena aldeia de Tonda, desde meados da década de noventa.
O seu proprietário era o Dr. Manuel Ferraz da Costa, que a partir de 1988 deu início a um projecto vitivinícola com a criação da empresa Sociedade Agrícola do Casal de Tonda, S A .
Em Setembro de 2001, nas vésperas de mais uma vindima, um dos accionistas da Dão Sul adquiriu todas as parcelas de vinha da dita sociedade aos herdeiros de Ferraz da Costa, iniciando, então, mais um projecto de produção de vinhos de quinta na região do Dão.
A área de vinha ronda os 17 hectares , distribuída por 7 parcelas distintas, entre as quais a Quinta dos Grilos, que os novos proprietários decidiram adoptar como nome genérico de todas as parcelas de vinha.»



Feito de uvas das castas Touriga Nacional, Aragonês e Alfrocheiro, estagiou meio ano em barricas de carvalho francês. Aos interessados, o produtor disponibiliza a sua ficha técnica aqui.

Para isto ficar como de costume, só falta dizer que tal me pareceu...

No copo, densa cor rubi. Ataque verde vegetal de feno fresco, a fazer lembrar este. Muito jovem. Depois, cereja ultramadura, ginja e chocolate preto, numa segunda vaga que se estende a todo o comprimento do vinho. Robusto e concentrado, apresenta certa pujança alcoólica, mas a fruta aparece sempre generosa o suficiente para a suportar. Boa acidez — que aqui e ali parece libertar uns pozinhos especiados. Muitos taninos que ainda precisam de tempo. Final razoável.

4€ — RQP imbatível, ou quase.

16

Tapada do Chaves — Reserva '2002

Produzido pela Tapada do Chaves, Sociedade Agrícola e Comercial S.A., este tinto é um dos clássicos do Alentejo.

Combinação de Trincadeira, Aragonês e Castelão, estagiou 15 meses em madeira de carvalho português e 12 em garrafa antes de ser posto à venda.

Tem 13,5% Vol.


Cor granada.

Boa intensidade aromática. Frutos vermelhos e pretos maduros, baunilha e outras especiarias, terra quente e suaves seivas e citrinos amargos, tudo muito bem envolvido por fumado complexo e elegante que, sem se impor, acaba por modelar o conjunto. É este o traço que, a meu ver, mais marca o carácter deste vinho.

Que também está porreiro na boca: bem estruturado, com a fruta a aparecer fresca e doce, persistente, e sempre sob a batuta das excelentes madeiras, que ora se mostram "cruas", evocando seiva amarga e fresca, ora surgem torradas, fumadas, num belo exercício de continuidade do que se passa no nariz.

Pela negativa, o álcool pareceu-me um bocadinho desenquadrado. Mas só um bocadinho. Pequenino.

Custou 12,50€.

Recomendado.

16,5

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Caixas de Origami e Brigadeiros

Temos reparado que muita gente anda a gostar da ideia de fazer pequenos presentes pessoais para trocar pelo Natal. Então, aos interessados, e mais ou menos por acaso, aqui fica uma sugestão:

Caixas de origami — a S. gosta de as fazer — com coisas lá dentro. Apenas para ilustrar o post, resolvemos rechear as caixinhas com brigadeiros embrulhados, primeiro em película aderente — como se costuma fazer com as bolotas de haxixe, por exemplo — depois em celofane colorido e/ou papel de seda.

Então, para começar, a receita dos brigadeiros que fizemos. Muito simples.

Misturaram-se 370g de leite condensado, 3 colheres de sopa de cacau magro em pó e outra de manteiga. Levou-se a mistura a lume brando, mexendo sempre até ficar bem espessa, e verteu-se para dentro de um recipiente previamente untado com margarina. Deixou-se arrefecer até à temperatura ambiente e moldaram-se pequenas bolinhas: umas simples, outras recheadas com amêndoa. Estes ingredientes resultaram em mais ou menos 30 bolinhas.

Que se podem rechear ou cobrir com as mais variadas coisas. Os nossos ficaram assim:




Uma variante engraçada destes docinhos pode fazer-se substituindo o cacau por 100 ou 150g (a gosto) de coco ralado.

Despachado o recheio, aí estão as caixitas que a S. andou a dobrar... Por baixo de cada caixa, o link para os esquemas das ditas, onde c define o esquema do corpo da caixa e t o da tampa. É de notar o nível de modularidade possível em origami: a tampa de uma caixa pode muito bem ser o corpo de outra e daí por diante. E, claro, as decorações exteriores podem ser o que quisermos.

Para começar, uma caixa de rebuçados feita com papel de engenheiro azul e transparente. Os esquemas estão nos links que seguem: parte 1; parte 2.




Fácil, hein? A seguir, uma caixa de aspecto um pouco mais arrojado:




Para a fazerem, podem seguir o tutorial em vídeo disponível aqui.




Mais caixas: Nesta, a tampa é a peça t1 [parte 1; parte 2] e o corpo, aquela a que achei conveniente chamar c1 [parte 1; parte 2].




Mais do mesmo — apenas mudou a decoração: Tampa: t1 [parte 1; parte 2]; corpo: c1 [parte 1; parte 2].




Tampa: c1 [parte 1; parte 2]; corpo: c2; Nota: nesta caixa, para descobrir o tamanho da tampa (sendo o do corpo a folha inteira), usa-se o processo descrito no seguinte diagrama.




Tampa: c1 [parte 1; parte 2]; corpo: c2.

Nota: nesta caixa, para descobrir o tamanho da tampa (sendo o do corpo a folha inteira), usa-se o processo descrito no seguinte diagrama.




Tampa: c2, sendo o corpo a peça c1 [parte 1; parte 2]. Ah, e a flor, claro. Nota: nesta caixa, para descobrir o tamanho do corpo (sendo o da tampa a folha inteira), usa-se o processo descrito no seguinte diagrama.

As duas caixas que se seguem pertencem ao domínio do origami dito modular — consistem em várias folhas dobradas e encaixadas umas nas outras. Aí vai:




Feita com dois tipos distintos de papel de origami. O vídeo que ensina a fazê-la está aqui.




E por fim, esta, feita com 8 folhas — quatro para a tampa e outras tantas para o corpo. As instruções de dobragem da tampa estão aqui e as do corpo, aqui.

Como nota final, talvez convenha referir que os diagramas destas dobragens pertencem ao livro «Home Decorating With Origami» de Tomoko Fuse (Japan Publications, 2000; ISBN 4-88996-059-7).

Quinta do Crasto '2007

Este tinto DOC vem da Quinta do Crasto, uma das mais antigas do Douro — as suas primeiras referências remontam a 1615!

Foram utilizadas na sua elaboração uvas das castas Aragonês, Tinta Barroca, Touriga Franca e Touriga Nacional. Não estagiou em madeira. Engarrafaram-se 450000 garrafas de 75cl.

Ficha técnica, aqui.

Interessante a cor, um violeta escuro que não se vê assim tanto.

Bebendo-o, pareceu-me um vinho simples e equilibrado. Tanto no nariz como na boca, predomina a fruta, fresca, densa e francamente gostosa. Muitas (mas mesmo muitas) cerejas pretas perfeitamente maduras e com caroço, algumas amoras, algumas bagas e pouco mais. Um bocadinho de cacau, outro de esteva seca, talvez sugestões xistosas... tudo na medida certa.

É daqueles vinhos sumarentos — este possui certa ligeira untuosidade que ajuda à ideia — que oferecem pouco mas bom e que, acima de tudo, escorregam maravilhosamente com comida.

Continuasse a adjectivá-lo, di-lo-ia elegante, equilibrado... por aí.

A meu ver (e que vale tal coisa?!), está para o Douro como este para o Alentejo.

Custou 9€.

16


Amanhã vamos postar coisas diferentes. Origami e isso...

Ah, e o blog já não é surdo. Vêem o endereço de email que juntei ali à barrita lateral? Ali ao fundo, heh? Qualquer coisinha, digam.

Granja-Amareleja — Reserva '2002

Quando Grandgousier, o bom homem, bebia e se divertia com os seus amigos, ouviu o horrível grito que seu filho soltara ao ver a luz deste mundo, pois bramou pedindo de beber, de beber! Então disse: «Grandes os tens!»

F.R.



Este alentejano DOC foi produzido pela Cooperativa Agrícola de Granja (Mourão, distrito de Évora). As castas que o compõem não aparecem discriminadas no rótulo. Quanto ao estágio, pode ler-se que foi efectuado em pipas de carvalho francês.

Cor granada alaranjada. Aroma que surge em camadas bem diferenciadas de frutos negros e licor de frutos negros, malte e madeira — cedro, pinho. Toque de acidez bem definida, a fazer lembrar azeite. Boca redonda, suave, delicada — dá a ideia de estar a começar a perder corpo. Contudo, fruta ainda bem presente, persistente. Apesar de só ter 6 anos, está, talvez, um bocadinho «mais que no ponto».

Custou 10€.

16,5