domingo, 8 de março de 2009

Alvarinho Cêpa Vélha '2006

Este vinho, de que actualmente pouco se ouve falar, é «engarrafado na zona de produção pela Vinhos de Monção, Lda.», empresa fundada em 1938 e que não só foi das primeiras marcas comerciais de Alvarinho a existir como consta ter sido a primeira a investir seriamente em divulgar os vinhos da região.


Lê-se no contra-rótulo da garrafa:

«Nas encostas ensoalheiradas de Monção, região vitícola que a sábia Natureza privilegiou, crescem as videiras cujo vinho patenteia uma personalidade distinta e uma perfeita harmonia entre a delicadeza do aroma e a suavidade do sabor, resultado feliz da combinação entre a Dádiva de Deus, a Arte, a Tradição e o Saber do Homem.»


Quanto ao conteúdo da dita, di-lo-ia simples e delicado, de cor citrina muito clarinha e aroma suave, contido na doçura, a oferecer primeiro notas de jasmim, logo ananás e maçã, e evoluindo depois para algo que me recordou banana seca. Surpreendentemente comprido na boca, tanto que, sem ser delgado, me chegou a parecer esguio. E pode ter começado um pouco ténue, mas terminou no seu melhor. Excelente para acompanhar pratos ligeiros de peixe... e porque não ostras... Boa surpresa, gostei.

Custou 6,50€.

16

sexta-feira, 6 de março de 2009

Soberana '2004

Lote de Aragonês (30%), Trincadeira (30%), Alicante Bouschet, (20%) Alfrocheiro (15%) e Tinta Caiada produzido no Monte das Soberanas, perto do Torrão, freguesia alentejana do concelho de Alcácer do Sal, incluída, contudo, na região vinícola das Terras do Sado.

Decantei-o uma hora antes de o servir (a 16ºC). Notei que apresentava bastante depósito. Também a cor, uma espécie de rosado muito escuro e opaco, indicava encontrar-me perante o produto de uma elevada extracção dos compostos das uvas que lhe deram origem. Depois vim a averiguar, sem surpresa, que após a fermentação alcoólica, este vinho passou por uma longa maceração que durou três semanas.

No nariz, mais intenso que complexo, predominava o odor de ameixas negras maduras. Também muita barrica de qualidade (estagiou durante um ano em carvalho francês novo), a oferecer um leque razoável de impressões amadeiradas e de especiarias. E, que curioso, pareceu-me ter-lhe notado algumas (leves) sugestões de cheiro a fumo aromático e enchidos de fumeiro.

Na boca, antes de tudo o mais, impressionou a macieza. Contudo, este vinho denso e concentrado não se revelou pesado, guloso ou madurão. Pelo contrário, fluiu muitíssimo bem, a fruta parecia viva, a frescura resultante da sua acidez surgiu sempre limpa e neutra, quase cristalina ao manifestar-se na boca. (Ah, que amigos, os frescos ventos do Atlântico, a cortar a canícula alentejana.) Foi revelando suculentos caramelos de leite à medida que evoluía no palato, terminando longo e amadeirado.

Pareceu-me no ponto, mas nada indica que haja qualquer impedimento a que ainda possa viver uns anitos em garrafa, se guardado em boas condições.

Custou 15€.

17

quinta-feira, 5 de março de 2009

Quinta do Castelinho — Porto Reserva

E só mais um, para terminar... Que também por aqui andou uma garrafa de Madeira Meio Seco do Pingo Doce — engarrafado por J. Faria & Filhos, Lda. — tão pobrezinho e ao mesmo tempo tão enjoativo, pouco ácido e tão flat como esta senhora, coitadinho, que... que acho não valer a pena dizer mais sobre ele. Adiante!

Este tawny da Quinta do Castelinho, blend de vinhos «com cerca de 7 anos de idade média» obtidos a partir de uvas Touriga Nacional, Tinta Roriz, Tinta Barroca e Touriga Franca e estagiados em cascos de carvalho, foi, destes todos, o que mais loirinho achei no copo.

Aroma a incidir, acima de tudo, nos frutos secos do costume, bem ligados com sugestões subtis de passas e café, também em licor. Corpo aceitável; discreta a acidez — não tanto a calidez alcoólica que deixa na boca. Mas bastante saboroso.

Foi uma maravilha a empurrar umas broinhas de frutos secos que fizemos no outro dia. Já aí deixo a receita, dê-me Deus não ter puto que fazer suficiente para tal. 11€. 15


P.S.

A S. descobriu montes de jogos novos para a DS, o tasco daqui de cima sempre a mesma merda, o Café Com Arte tem andado a saber tanto a oco, os ratinhos lá têm as vidas deles e a net tem andado uma seca... Poh, vida de cão! :\

Quinta do Infantado — Reserva «Dona Margarida»

Quanto se tem falado deste tawny! Ah, sim, tawny tanto pode ser adjectivo como nome. Porém, parece que o nome, que designa o mesmo ser/estar que o adjectivo, pesem as mudanças próprias da diferença de função do termo, só surgiu mais tarde. Etimologicamente, então, o adjectivo tawny — que significa fulvo, aloirado, amarelo torrado, castanho-amarelado — vem do Anglo-Normando tané, tauné — tostado, bronzeado — E tudo isto para poder mandar mais um coice de amargurado, que anda por aí muita gente a grafar a palavra com letra maiúscula no meio das frases, como se de nome próprio se tratasse. Parem lá de fazer isso, pá. Bem, mas falava-se do que se tem falado — ugh! — deste «Reserva Dona Margarida». Levou 17 valores da Revista de Vinhos. Deu que falar em fóruns e, que eu tenha visto, convenceu de suas virtudes o autor do sempre tão interessante Pingas no Copo — olhem que arrancar-lhe um 16 não é pêra doce! Face a uma promoção desta envergadura, tinha de experimentá-lo — Pessoal, vêem? Em Vós confio, «em Vossas mãos me abandono saciado como a criança que acabou de mamar» — Aroma compostinho: predominância de frutos secos, sobretudo nozes, com ligeiro toque râncido — para mim, esta foi uma coisa boa. E melaços e caramelo, passas e especiarias. Razoavelmente complexo, portanto. Consistente. Bastante fino e persistente. Custou menos de 8€ — para o preço, de facto, está muito bem.

15,5

Quinta da Pacheca — LBV '2002

Ora diz o produtor ser este um vinho resultante das castas Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Barroca, Tinta Amarela e Tinto Cão, provenientes de vinhas que dizem velhas — com 25 anos — quando se poderá considerar uma vinha velha, afinal? — interessante questão, mas vamos ao que importa (para aqui) — vinho esse posteriormente estagiado durante mais ou menos dois anos em cascos usados de carvalho português. Macio, bastante encorpado, essencialmente frutado e relativamente pouco doce, evoca muitas passas, também alguma tosta de barrica — e xisto molhado. Expressão engraçada da difícil questão da mineralidade: não lhe tendo encontrado nenhum cheiro objectivamente xistoso, não podendo dizer com clareza que me soube a xisto e, muito menos, sendo ele possuidor de taninos xistosos ou farinhentos, apenas posso concluir que, das duas uma: ou a referida sensação mineral, tão clara, esteve apenas na minha cabeça, ou na sua alma. Final longo e sólido, com picor alcoólico a que não consegui ficar indiferente. Pena. Bebi-o numa noite, sozinho e com um queijo de cabra bem suave, enquanto lia uma versão impressa disto. Vuuu!

14€.

15

quarta-feira, 4 de março de 2009

Quinta das Tecedeiras — LBV '2001

Provém de vinhas com mais de 55 anos, daquelas ditas velhas e que consistem em muitas castas autóctones misturadas, com predominância de Touriga Nacional, Tinta Roriz, Touriga Franca, Tinta Barroca, Tinta Amarela e Tinto Cão. Levou quase quatro anos de barrica, dizem eles na ficha técnica que disponibilizam online.

.
.
.

Impacto inicial a apontar flores e certo bafio peculiar que só me consegue sugerir queijo. Fruta invulgarmente fresca, pinho e cânfora, especiarias, madeira tostada, grafite. Complexo, mas reservado. Ademais, trata-se de um LBV realmente encorpado, amplo na boca como poucos, de taninos quase impressionantes, quase bem maduros, fresco, muito vivo e persistente.

.
.
.

"Potência contida" podia muito bem ser a epígrafe da região do Douro. E este, um espécime modelo. Bom, bom! Então com este bolo, tem sido de chorar por mais.

15€.

16,5

Portos de abrigo

Cada vez mais isolado, sempre a mais, sempre o mau, sempre mal, assim me encontro. Tento e nada funciona. Sinto novamente que a vida é um fio de tempo que se escoa para não sei onde — e atrás de si, apenas cinzas — meia dúzia de recordações amargas — a galeria de retratos desfocados, a vergonha das coisas que se fizeram — o amargor daquelas que ficaram por fazer.

Tardes passadas a escrevinhar solidão num lar que não...

BUH

Oh, que nota introdutória deprimente. Lixo. Nada mais que lixo!

Enfim, sem mais me alongar naquilo que a ninguém interessa, digamos apenas que continuo meio deprimido porque na minha vida nunca acontece nada realmente novo. Tenho, contudo, encontrado algum alívio nos vinhos generosos. Aí fica um punhado de impressões acerca dos que me têm acompanhado nestas últimas noites.

terça-feira, 3 de março de 2009

EN334 — Luís Pato, Vinha Barrio '2000 & Muralhas de Monção '2007

Saímos ao fim da tarde sem destino traçado — É assim que gostamos dos nossos passeios, às vezes capazes de proporcionar gratas surpresas, quase sempre repletos de lugares desilusórios — Começamos por rumar a Norte, na direcção das terras dos leitões — Depois subimos a serra do Buçaco; paramos no Luso para tomar café, criar também a «oportunidade urbana» fora de Coimbra à nova peta impingida pelo telefone a meus ilustríssimos progenitores — Pois claro que sim, que estou muito doente, muito desanimado — E veja-se só, injustiça das injustiças, aguardo um autocarro urbano de fim-de-semana, apinhado, claro, só pode — É esta a minha aproximação romantizada ao cúmulo do azar — Pois encontrava-me sozinho em casa e muito deprimido e fui comprar qualquer coisinha à Telepizza por estar incapaz de cozinhar uma merda qualquer — E como se tal não chegasse, estar sozinho em casa enquanto a Sara apajeia (a duzentos quilómetros de distância!) a pobre mãe moribunda, ainda chuvisca e os cães ladram e os drogados e mitrosos passam com aqueles seus ares de quem me mataria de bom grado só para me roubar as moedas naquela sinistra paragem de autocarro perdida no quase escuro de lugar nenhum — Que filme à H.P. Lovecraft! — Mas a coisa pega, pega sempre, beijinhos beijinhos e as melhoras para vocês também, e desligo, vamos tomar café e resolvemos subir até ao Buçaco para tirar umas fotografias — Na verdade, o crepúsculo adivinha-se glorioso e há que aproveitar a luz.



Monumento à Batalha do Buçaco


Foi apenas o início de uma longa noite — Muitas voltas depois — Olha, caralho, tão giras as luzes lá em cima! É aquilo a adega da Quinta do Encontro! Não é o máximo? E ela responde-me que «para adega é gira, mas...» — Oh!, vamos mas é encostar e sair e fotografá-la também — E ao homenzinho que lá dentro, tão diminuto por força da distância, como que nos vigiava os movimentos — É que nós tínhamos zoom e ele não — Ou pelo menos era o que pensávamos! — Partimos em direcção ao mar mas paramos num cruzamento algures numa terriola próxima só porque sim ou para voltar para trás — Ou não, mas é assim que me lembro das coisas — Por fim (salvo seja), volvido um bom bocado, claro está, repleto de situações do mesmo género, capazes de encher o momento mas, objectivamente, dotadas de pouco interesse, de alguma forma acabamos mais uma vez na estrada que parte de Anadia e vai dar a Mira e que pelo caminho atravessa Vilarinho do Bairro, entre muitas outras pequenas terriolas mais ou menos engraçadas.





E é a Sara que vê o pequeno letreiro, discreto na sua ténue luminosidade branca, a anunciar qualquer coisa como "O Chicote, Restaurante Típico" — A princípio deixamo-lo passar — Não deve ser nada de especial, vamos antes voltar para trás e comer no hotel do (de!) Luso ou em algum daqueles monstruosos processadores semi-industriais de porcos bebés na Mealhada ou noutro sítio qualquer — Mas nem meia hora depois estamos de regresso.

Estacionamos então no quintalzito ajardinado (ou isso) do restaurante — Tudo muito parcamente iluminado e nem vivalma — Mas o mundo é quase sempre previsível, quase chato, e bastou aplicar um pouco de senso comum para, pouco depois, já nos encontrarmos comodamente instalados junto à lareira de uma salinha acolhedora e, mais importante ainda, completamente às moscas — Chegada a hora de escolher a bebida, folheio a carta e dou com um Luís Pato "Vinha Barrio" de 2000, coisa de que nunca tinha ouvido falar — Acabo a pensar tratar-se, provavelmente, de um Vinha Barrosa mal grafado — Olha só que básicos, merda para eles — Mas por via das dúvidas, e como também não me importava nada de empurrar o naco de vaca que entretanto decidira que ia ser o meu jantar com um Vinha Barrosa de 2000, chamo o empregado e atiro à queima: este Luís Pato — Aponto para a entrada na lista — É o Vinha Barrosa ou é outro? — Era outro — Sancta simplicitas! — Outro mas também muito bom, a surgir num tom granada pouco opaco que fazia adivinhar algo mais ligeiro e evoluído do que aquilo que realmente ali tinha — Bouquet de fundo terroso, bem constituído, repleto de sensações suaves de madeira e castanhas — Delicado (mas firme) suporte aos aromas florais finos e muito persistentes — E que acidez! Que capacidade de se bater com um tornedó com queijo da serra sem, no entanto, por uma única vez parecer verdadeiramente cheio, objectivamente intenso! — Quanta elegância a deste Baga que (vim depois a descobri-lo) veio de uma vinha que já não existe — À transparência, ainda se lhe notavam cerejas, e muitas! — 33€ — 17,5.

E a Sara não me acompanha a bebê-lo (mais uma vez, diz que não gosta) — Pede antes quatro coisas que, constando da lista, o restaurante já não tinha — Lá acaba por se resignar a um verde branco muito simples, quase proletário, mas que, de facto, raramente compromete — um Muralhas de Monção '2007 — De aroma herbáceo, herbáceo de ervas de cheiro — Sobretudo anis-estrelado e erva doce — Algures entre o cítrico e o tropical, pejado de impressões de melão e tangerina, limão e pêssego — Muito suave na boca — A fugir para o delgado, até — Um pouco oco, convenhamos — E levemente gaseificado — Mas, mesmo assim, com acidez suficiente para segurar o prato de bacalhau — Vinho de cooperativa, mistura de Alvarinho e Trajadura sem madeira — Numa palavra, di-lo-ia fácil — 14,5 — 4,50€ por garrafa de 375ml — Bem-aventurados os condutores responsáveis!



In conspectu Dei...


Para abreviar as coisas, apenas vos direi que saímos de lá sem sobremesa — Não tinham nada de jeito — Metemo-nos de novo ao caminho — Os peculiares acontecimentos que se seguiram talvez venham a ser assunto para outro post.

domingo, 1 de março de 2009

Bolo Nuvem de Chocolate

Ingredientes:

Bolo: 360g de farinha; 300g de açúcar; 100g de cacau magro em pó; 5 ovos médios; 1,5dl de óleo; 3,5dl de água morna; 1 colher (de sopa) de fermento.

Cobertura: 100g de chocolate de culinária em barra; 200ml de nata.




Bolo:

Barrar e polvilhar uma forma. Juntar os ovos, o óleo, o açúcar, o cacau e metade da água morna no copo de um liquidificador ou afim. Bater bem. Peneirar a farinha para dentro de uma tigela — para evitar a formação de grumos —, acrescentar o fermento e misturar. Adicionar ao conteúdo do copo do liquidificador, juntamente com o resto da água, e envolver delicadamente sem bater — utilizando a colher de pau, por exemplo. Verter na forma — usei uma com chaminé — e levar ao forno durante 50 minutos a 180ºC. Deixar arrefecer antes de desenformar.




Cobertura:

Levar o chocolate a lume brando juntamente com a nata, mexendo sempre até a mistura engrossar um pouco; verter por cima do bolo. Deixar arrefecer. Comer.

Cowboy Junkies — Trinity Revisited