sábado, 9 de maio de 2009

Tapada de Coelheiros '2005

A história do cultivo da vinha no Alentejo é curiosa. Sabe-se que já acontecia no tempo da ocupação Romana e apesar de uma data de retracções e expansões alternadas, o facto é que acabou por florescer com o passar dos anos. De tal forma que era a grande cultura da região no princípio do século XIX. Mas uma sucessão de pragas e, mais tarde, os sonhos de auto-suficiência do Estado Novo — que culminaram na chamada «Campanha do Trigo» — de novo a remeteram para segundo plano. Para sobreviver, surgiram soluções engenhosas: primeiro, a associação do cultivo da vinha ao de outras espécies — sobretudo oliveiras — trazia aos agricultores maior segurança no que ao retorno dos investimentos tocava. Depois, bem mais tarde, já na década de 1950, surgiram as primeiras Adegas Cooperativas. Entretanto, cai o Estado Novo e abrem-se as portas às importações. Num mercado mais livre, incapazes de concorrer com os preços do cereal vindo do exterior, os triticultores alentejanos — cujas produções razoáveis se deviam mais às grandes áreas cultivadas que ao rendimento das mesmas — viram-se forçados a nova reconversão. E novamente apoiados pelo Estado — dinheiro e água, essas coisas tão necessárias à vida — voltaram em força à vinha e ao vinho. Ainda bem.

Inserido nesta realidade, o percurso da Herdade dos Coelheiros, à primeira vista, pouco ou nada tem de excepcional. Lá se exploravam trigo e nogueiras quando Joaquim Silveira a comprou em 1981. Os primeiros vinhedos foram plantados em 1987 e só em 1992 se construiu uma adega com cave na propriedade. E sabendo como hoje em dia são encarados tanto os seus vinhos como a própria propriedade, surge, inevitável, a pergunta: como conseguiram eles tornar-se clássicos em tão pouco tempo?

Passando adiante, este Tapada de Coelheiros tinto é, claramente, a marca porta-estandarte do produtor. Pessoalmente, embora não tenha provado (ainda) todas as suas edições, posso dizer sem faltar à verdade que gosto muito. O de 2004, aliás, tem sido presença habitual na minha mesa.

Ora bem, não foi há muito que comprei os primeiros exemplares da colheita de 2005. Vinho este que, mistura de Cabernet Sauvignon (40%), Trincadeira (30%) e Aragonês, fermentou em cubas de inox a 28ºC e foi estagiado durante um ano em barricas de carvalho Allier — 30% das quais, novas.

Podia escrever bem mais sobre ele, mas começo a cansar-me. Para ser breve, trata-se de um pequeno monstro de cor e corpo, com muita fruta silvestre (sobretudo framboesas), muita madeira, muita acidez (a evocar laranja amarga?) e uma espinha dorsal — algo rugosa, há que dizê-lo — capaz de suportar tudo isto na perfeição e a prometer continuar a fazê-lo com brio durante pelo menos mais uma dezena de anos.

Encontrei-o um pouco mais assisado após ter passado a noite no frigorífico, apenas com a rolha enfiada até metade do gargalo da garrafa. Mais ordenado, mas também mais aberto, com fruta mais expressiva, mais cacau, menos amargor cítrico — mas também ligeiras notas de oxidação. Hmm, poria a mão no fogo em como ele precisa é de um par de anitos para reduzir...

Para terminar, e correndo o risco de me estar a repetir, numa palavra, este vinho é intenso. Comparando-o com o da colheita anterior, penso ter-se mantido no mesmo registo, mas — pelo menos para já — está menos cristalino na fruta, mais amadeirado e, acima de tudo, ainda mais indecoroso. Metaforizando, está para o de 2004 como Nicole Richie para Paris Hilton — será que me faço entender?

Custou 20€.

16,5

Adega de Pegões — Syrah '2007

Tenho bebido com frequência o de 2006 — gosto muito. Comprei há dias um espécime da colheita de 2007 e, imaginando-o à semelhança do do ano anterior, fresco e frutado, guloso e pouco pesado, resolvi emparelhá-lo com o prato do post anterior — convém não esquecer que o vinho recomendado pelo pessoal da York House para acompanhar o seu hambúrguer é um palhete...

Tentarei ser sucinto. Pegando no da colheita anterior como termo de comparação — coisas que importam, coisas que dão jeito — posso dizer que, como o de 2006, é um Syrah de cor rubi carregada, nariz mediano em intensidade mas de boa profundidade, repleto de sugestões de frutos silvestres, azeitona verde, ervas frescas, mentol, resinas balsâmicas e especiarias, chocolate, madeira e fumo, tudo misturado numa espécie de «sopa» aromática complexa e que pessoalmente acho bastante agradável — aliás, em tudo seguindo um perfil que já me vai parecendo típico da casa. Bastante macio, a quase conseguir encher a boca sem pesar, razoavelmente persistente e, acima de tudo, muito fresco. De resto, pareceu-me muito jovem, consideravelmente mais herbáceo e vinoso no nariz e um bocadinho menos guloso na boca que o da colheita transacta.

Mas continua a valer bem o que custa... 15

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Quinta do Côro — Syrah + Touriga Nacional '2005

Vinho Regional Ribatejano produzido na Quinta do Côro — Sardoal. Estagiou durante 9 meses em barricas de carvalho francês (60%) e americano. Muito fruto silvestre bem maduro e em compota, junto com sensações de fumo e especiarias. Intenso e encorpado, maduro e razoavelmente integrado. Pena o relativo excesso de madeira, a acidez um bocadinho acima do pedido pelo contexto, alguma aspereza de taninos e ser pouco persistente. Desta quinta, até à data, foi o que melhor me impressionou — mas mesmo assim...

6€.

14,5

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Hambúrguer . . . a partir da receita do chefe Nuno Diniz (York House)

Este prato foi feito a partir da receita do hambúrguer gourmet da York House, originalmente colocada pelo autor aqui.


Na elaboração do hambúrguer propriamente dito e do molho que o acompanha, seguiu-se fielmente a receita. Já o empratamento escolhido foi diferente — por um lado, para simplificar as coisas; por outro, para ficar mais ao nosso gosto. As batatas fritas — e há que reconhecê-lo: ficam realmente boas quando preparadas segundo este método — foram dispensadas e em vez de bagel optou-se por pão de hambúrguer caseiro. O ovo manteve-se, gema aromatizada com um bocadinho de pimenta rosa, mas preferi colocá-lo sobre uma cama de rúcula ao natural.


Ficaram assim... o da S., no pão...




... e um dos meus, no prato




Com a devida vénia, aí fica a receita, junto com algumas observações que nos pareceram de eventual utilidade, estas colocadas entre parêntesis.


Hamburger:

130g de vazia, 50g de alcatra e 10g de toucinho fresco. [Pedimos para nos picarem a carne no talho; o toucinho é importante: torna o hambúrguer bem mais macio.]
Sal e pimenta.

Saltear em muito pouca manteiga com 1 ramo de tomilho e um alho.


Molho:

1 chalota muito bem picada, suada em manteiga durante 10 minutos.
Juntar um alho esmagado com casca.
Juntar uma pitada de orégãos.
Juntar pimenta rosa partida.
Juntar 1 colher de sopa de molho de pimento.
Juntar sumo de meio limão.
Juntar 1 colher de sopa de natas e um pouco de salsa muito bem picada.
Ligar com manteiga fria e rectificar os temperos.
Retirar o alho e a casca.

[Como gostamos muito, resolvemos fazer mais — duplicou-se a receita.]


Molho de pimento:

Hidratar 2 ameixas secas num cálice de Porto LBV [usou-se um Kopke de 2003] e numa colher de chá de vinagre de vinho tinto.
Suar em azeite um pimento vermelho previamente pelado e sem sementes.
Juntar as ameixas e o seu líquido, o sumo e raspa de meio limão, meio talo de aipo picado e caldo de frango.
Cozer em lume muito brando durante 1 hora.
Temperar com sal, pimenta e desfazer tudo no mixer.
Filtrar e reservar no frio.

[Este molho é um puto sonho.]


Batatas:

Cortar em rectângulos de 2x7cm.
Cozer em água com sal, a 90ºC, durante 50 minutos.
Retirar e deixar arrefecer completamente.
Fritar a 125ºC durante 30 minutos.
Retirar e arrefecer completamente.
Fritar a 185º.
Temperar com flor de sal.

[Como já foi dito, desta vez não se fizeram.]


Acabamento:

Colocar, por ordem, alface, meio bagel, o hamburger, uma rodela de tomate temperado de sal, o molho e um ovo estrelado aparado.
Colocar 3 batatas ao lado.

[Aqui sim, há diferenças significativas. Como não gosto de trincar uma coisa e sentir logo muitos sabores misturados, sempre preferi comer «por pecinhas». . . um bocadinho de carne, um de batata. . . um bocadinho de tomate, outro bocadinho de carne, outro de batata. . . o meu foi servido no prato. Já a S. prefere comê-los num registo mais, sei lá, tradicional? — as fotos falam por si. A salada — tomate, alface, cenoura e rúcula — foi temperada apenas com um bocadinho de sumo de limão e flor de sal.]

[Note-se que esta receita, molho incluído, rende um único hambúrguer. Querendo mais (eu como sempre dois, por exemplo), há que efectuar os ajustes necessários.]


Quanto aos pães de hambúrguer, também eles excelentes...

Deitaram-se na cuba da máquina de fazer pão, por esta ordem, uma gema misturada com leite a 40ºC até se perfazerem 120ml, meia colher (de chá) de sal, 1 colher (de sopa) de açúcar, 10g de fermento de padeiro (fresco), 1 colher (de sopa) de manteiga e 210g de farinha de trigo.

Deixou-se a máquina amassar durante cerca de meia hora. Depois levedou durante 45 minutos, ainda dentro da máquina. Com a massa resultante moldaram-se bolinhas, que se pincelaram com leite e polvilharam com sementes de sésamo antes se colocarem num tabuleiro untado com óleo de girassol — descobrimos que os pães ficam mais estaladiços e de sabor um pouco menos abafado do que os cozidos em tabuleiro untado com óleo de amendoim — onde repousaram (dentro do forno desligado) durante 5 minutos. Por fim cozeram-se a 190ºC. Primeiro, 10/15 minutos com ambas as resistências ligadas. Depois, mais 5 minutos, só com a de cima. Estes ingredientes renderam 4 pãezinhos.

A acompanhar, bebeu-se o vinho do post seguinte.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Arrobeiros — Reserva '2005

Douro DOC da Quinta da Fonte Nova. Mescla de Touriga Nacional, Tinta Roriz, Tinta Barroca e Touriga Franca com passagem de um ano por madeira. Aromas a esteva e frutos vermelhos e negros; barrica presente, mas suave. Corpo mediano em volume e intensidade, saboroso e razoavelmente equilibrado. Muito fresco; alguns taninos rebeldes. Bonitas, as sensações de fluidez que conseguiu transmitir. Ainda mais, a mineralidade que o percorria de lés a lés. Final curto. Rústico? Talvez. Fino à sua maneira!

Custou menos de 3€.

15

terça-feira, 5 de maio de 2009

Touriz '1999

Touriz — Touriga + Roriz — a palavra-blend está na moda. O nome define o produto — lote de Tourigas — Nacional e Francesa — e Tinta Roriz. Da Estremadura, produzido pela Casa Santos Lima.

Cor granada e nariz bastante intenso, repleto de sinais de evolução. Bouquet razoavelmente amplo, dominado por aromas a amoras e ameixas muito maduras, à mistura com sugestões compotadas e de passas, tabaco, fumo de mato seco e azinho, licor de café e anis. Infelizmente, também algumas sugestões (ainda bem que suaves) da presença de etanotiol e escatol — o primeiro a trazer notas de gás combustível, alcatrão e couves pouco frescas; o segundo... Na boca encontrei-o morno, um pouco chocho, e muito taninoso. Mas também de sabor agradável e persistente, a fruta amadeirada, com café e fumo no final.

Resumindo: este vinho — muito mais interessante no nariz que na boca — apesar de alguns bons apontamentos, é perfeitamente vulgar e não vai melhorar com a idade — estou fortemente convencido de que terá, aliás, começado já o caminho descendente. Bebeu-se e não ofendeu — tinha-o comprado por mera curiosidade, as expectativas eram baixas — mas, sinceramente, não penso repetir. Pelo menos, não esta colheita.

7€.

13

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Amo-te '2006

Amo-tefood, drink, music, love and lifestyle, dizem eles. Beh! Tenho de ser sincero: não gosto da marca. Parece-me tão de plástico, tão «eu também queria ser um vip da Vip»! Adiante. Outro reparo vai para a rolhita aglomerada que usaram para vedar as garrafas. Traz estampado um cacho de uvas, e em cada bago uma representação estilizada do que pretenderá ser o escudo das Armas de Portugal. Como se tal não bastasse, a senhora dona rolha ainda tinha de trazer, lado a lado com o belo desenho de que acabei de falar, a frase «só castas PORTUGUESAS»! Olhar para ela leva-me a imaginar alguém muito parolo numa circunstância nacional-ruralista clássica, talvez o Saúl Ricardo ainda criança, vestido de campino, em plena lezíria — sem toiros bravos por perto — a dizer com aquela vozinha ordinária com que cantava o «bacalhau» . . . «Só castas portuguesas! 'arelho! É do bom! . . . e do melhore! Oié!» — Terrível, bem sei.

Já agora, Aragonês não é um dos nomes que damos ao Tempranillo, uva (tanto quanto se sabe) originária do norte de Espanha? Oh, Portugal, Espanha, Roménia, lâminas, póneis, estrelas, Xzibit... é tudo a mesma coisa.

Volvidas estas linhas, não ficará o meu caro leitor surpreendido se lhe disser que foi de coração pesado que, aberta a garrafa, passei ao vinho. Mas há que tentar ser objectivo.

Nariz simples, correcto, agradável até, dotado de certa tipicidade — sobretudo de autor, diga-se sem veneno. Fruta madura, bastante madura, e muito balsâmico em fundo de leve tosta e chocolate. Quente e doce, definitivamente guloso. A passar lesto pela boca, um pouco agressivo, com acidez e adstringência pronunciadas. Também certo calor alcoólico, que nem a 15ºC deixou realmente de se notar. De resto, pareceu-me saber ao que cheirava — e isso, por norma, é bom. Em suma: embora nada de especial, agradável. Por mais deprimente que possa achar a imagem com que o apresentam, aqueles a quem faz olhinhos e aquilo que significa, o facto é que não posso penalizar o líquido por isso.

6,50€.

14

domingo, 3 de maio de 2009

:)

«About thirty minutes after our brush with the Okies we pulled into an all-night diner on the Tonopah highway, on the kirts of a mean/scag ghetto called "North Las Vegas." Which is actually outside the city limits of Vegas proper. North Vegas is where you go when you've fucked up once too often on the Strip, and when you're not even welcome in the cut-rate downtown places around Casino Center.

This is Nevada's answer to East St. Louis — a slum and a graveyard, last stop before permanent exile to Ely or Winnemuca. North Vegas is where you go if you're a hooker turning thirty and the syndicate men on the Strip decide you're no longer much good for business out there with the high rollers... or if you're a pimp with bad credit at the Sands... or what they still call, in Vegas, "a hophead." This can mean almost anything from a mean drunk to a junkie, but in terms of commercial acceptability, it means you're finished all the right places.

The big hotels and casinos pay a lot of muscle to make sure high rollers don't have even momentary hassles with "undesirables." Security in a place like Caesar's Palace is super tense and strict. Probably a third of the people on the floor at given time are either shills or watchdogs. Public drunks known pickpockets are dealt with instantly — hustled out parking lot by Secret Service type thugs and given an impersonal lecture about the cost of dental work and of trying to make a living with two broken arms.

The "high side" of Vegas is probably the most closed society west of Sicily — and it makes no difference, in terms of the lay life-style of the place, whether the Man at the Top is Lucky Luciano or Howard Hughes. In an economy where Tom Jones can make $75,000 a week for two shows a night at Caesar’s, the palace guard is indispensable, and they don't care who signs their paychecks. A gold mine like Vegas breeds it’s own army, like any other gold mine. Hired muscle tends to accumulate in fast layers around money/power poles... and big money, in Vegas, is synonymous with the Power to protect it.

So once you get blacklisted on the Strip, for any reason at all, you either get out of town or retire to nurse your act along, on the cheap, in the shoddy limbo of North Vegas... out there with the gunsels, the hustlers, the drug cripples and all the other losers. North Vegas, for instance, is where you go if you need to score smack before midnight with no references. But if you're looking for cocaine, and you're ready up front with some bills and the proper code words, you want to stay on the Strip and get next to a well-connected hooker, which will take at least one bill for starters.

And so much for all that. We didn't fit the mold. There is no formula for finding yourself in 69 Vegas with a white Cadillac full of drugs and nothing to mix with properly. The Fillmore style never quite caught on here. People like Sinatra and Dean Martin are still considered "far out" in Vegas. The "underground newspaper" here — the Las Vegas Free Press — is a cautious echo of The People's World, or maybe the National Guardian.

A week in Vegas is like stumbling into a Time Warp, a regression to the late fifties. Which is wholly understandable when you see the people who come here, the Big Spenders from places like Denver and Dallas. Along with National Elks Club conventions (no niggers allowed) and the All-West Volunteer Sheepherders' Rally. These are people who go absolutely crazy at the sight of an old hooker stripping down to her pasties and prancing out on the runway to the big-beat sound of a dozen 50-year-old junkies kicking out the jams on "September Song."»

Hunter S. Thompson — Fear and Loathing in Las Vegas (1971)

sábado, 2 de maio de 2009

Altano '2005

Retaste — as impressões da primeira vez que o provei estão registadas aqui. Fiquei com a ideia de que esta garrafa se encontrava já um pouco mais evoluída que aquelas que bebi com relativa frequência até há mais ou menos meio ano atrás, altura em que esta colheita foi quase completamente substituída pela de 2006 nas prateleiras dos supermercados. Menos floral, mais balsâmico quente e complexo, mais sugestões ensanguentadas. Ademais, talvez tenha amaciado qualquer coisa. Fico contente por constatar que continua em boa forma.

2,70€.

16

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Penfolds — Koonunga Hill (Shiraz & Cabernet Sauvignon) '2006

Esta mistura de Syrah e Cabernet Sauvignon — 78/22%, respectivamente — da Penfolds foi feita com uvas provenientes das regiões de Barossa, McLaren Vale e Coonawarra. Tanto quanto consegui apurar por essa web fora, e a prova confirmou-o, parte do lote final — quanto? — passou uns meses — quantos? — em grandes barris de carvalho avinhado. Ah, esta garrafa vinha vedada com uma rolha de borracha mole, em tudo semelhante à que, faz algum tempo, encontrei nesta. Hmpf.

Decantei-o durante aproximadamente duas horas — e isto é importante, que ele precisa mesmo de tomar algum ar depois de sair da garrafa — antes de o servir a 16ºC. Certinhos.

Notas verdes típicas do Cabernet no ataque — vá lá que suaves — rapidamente engolfadas pelas cerejas e ameixas negras do Syrah. Ainda tabaco, baunilha, pimenta preta e notas de tosta exemplarmente integradas. E com o tempo, sempre sem tirar o protagonismo à fruta, chocolate amargo. Decente em variedade, um pouquinho melhor em intensidade, raso em profundidade — assim descreveria, às três pancadas, este nariz.

Já na boca me pareceu melhor — fresco, fino e generoso, de bom porte e trato agradável, com fruta saborosa e taninos firmes mas macios. Bastante equilibrado e dotado de um final bem razoável, mais uma vez entregue aos tostados. A apontar-lhe, apenas certa falta de complexidade — que aquilo que mostrou, e definitivamente não foi muito, achei bem bom.

Custou 10€.

16