segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Marquês de Marialva — Colheita Seleccionada '2008

O produtor ganhou no outro dia o prémio "Adega Cooperativa do Ano", integrado n' "Os Melhores do Ano", da Revista de Vinhos. Boa, pessoal, lol. Este tinto partiu de uvas Touriga Nacional, Tinta Roriz e Baga de vinhas com idade superior a 30 anos, diz a ficha técnica, fermentou 5 dias a 25-30ºC e estagiou depois durante 4 meses em barricas de carvalho francês e americano.

Fruta preta, sobretudo ameixa, madeira, chocolate de leite, corpo. No bomb, but no flabby joe either — já sabem como me é difícil resistir a replicar destas pepitas de inspiração momentânea que às vezes ficam gravadas no caderninho negro do álcool. Por momentos, achei-o mais composto que este, de elaboração semelhante, pelo menos no papel: aparte o ano diferente, terá maior teor de Baga. . . e tudo o mais que terá ficado por dizer. É outro vinho, não liguem. Enfim, e para terminar, este vinho deixou-me muito bem impressionado, deu-me imenso prazer empurrar com ele umas alheiras de caça.

4€.

15

sábado, 18 de fevereiro de 2012

De tempos a tempos, quando me vêm saudades da minha infância oceânica — dos gritos das gaivotas e do cheiro a sal — um amigo mais solícito mete-me no carro e leva-me ao horizonte marinho mais próximo. Afinal de contas, não há ponto da Inglaterra que fique a mais de cem ou cento e poucos quilómetros do mar. «Pronto», dizem-me então, «lá está ele». Como se o mar fosse uma grande ostra que pudesse ser assim servida de bandeja, sempre com o mesmo sabor, em qualquer restaurante do mundo. Saio do carro, estico as pernas, farejo o ar à minha volta. O mar. Mas não é a mesma coisa, não é nada a mesma coisa.

A geografia está toda errada, para começar. Que é feito do polegar cinzento da estação elevatória à minha esquerda, do banco de areia (de pedras, mais precisamente) em forma de foice, no sopé da torre, e da prisão de Deer Island no extremo do promontório, lá longe, à direita? A estrada que eu conhecia avançava até às ondas numa curva larga, com o mar aberto de um lado e a baía do outro, e a casa da minha avó, a meio do promontório, era voltada a leste, cheia de sol vermelho e luzes marítimas.

Nunca mais me esqueço do número de telefone da minha avó: OCEAN 1212-W. Repetia-o à telefonista, do extremo mais abrigado da baía onde ficava a minha casa, como uma fórmula mágica, um belo verso, quase esperando que o auscultador preto me devolvesse, como um búzio, o murmúrio sussurrante do mar, lá fora, juntamente com o «Está lá» da minha avó.

E depis, a respiração do mar. E depois as luzes. Seria um gigantesco, um radioso animal? Mesmo de olhos fechados sentia as cintilações dos seus espelhos luminosos que me rendilhavam as pálpebras. Dormia num berço de água, e os lampejos do mar procuravam as frestas da persiana verde-escura, brincando e bailando, ou repousando e tremendo ao de leve. À hora da sesta entretinha-me a fazer tinir com a unha os varões ocos, de latão, da cabeceira da cama, para lhes ouvir a música, e um belo dia, num êxtase de descoberta e surpresa, encontrei a junta do novo papel de parede às rosinhas e, com a mesma unha curiosa, pus à mostra um grande espaço de parede nua. A proeza valeu-me um raspanete, além de umas boas palmadas, e depois o meu avô arrancou-me às fúrias domésticas para um longo passeio até à praia, por sobre montões e montões de pedras roxas que resvalavam e rangiam sob os nossos pés.

OCEAN 1212-W, Sylvia Plath, 1962

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Colinas de São Lourenço '2005

Este é um Colinas anterior à aquisição da empresa por Carlos Dias — para os que se importam com estas coisas, aí fica um enlace. Bairradino da nova escola, seja isso o que for, feito com Touriga Nacional, Aragonês e Baga. Os mostos fermentaram em cubas e parte do lote final estagiou durante um ano em barricas de carvalho francês. Mais detalhes não encontrei, até porque o sítio do produtor na internet aparenta estar desligado.

Do caderno de provas: "Caldo envolvente. Já ligeiras passas no nariz. Texturado e gordo, sem doçura. Alguma complexidade, alguma persistência. Ok." Mais que para pensar, é vinho para ir bebendo despreocupadamente. Eu, por exemplo, usei o líquido do texto para empurrar frango assado em pyrex fechado (para ficar suculento) com puré de batata e uns tortilla chips: podem encontrar aqui uma possível receita. Depois vimos um filme giro, Dagon.

5€.

15,5

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Quinta do Cardo '2010 (Branco)

Lote de Síria (80%) e Arinto, provenientes da vinha mais alta de Portugal, plantada a 700m de altitude, conforme se lê no contra-rótulo. Fermentou 2 meses em inox, passou mais um em jeito de estágio, sur lie, e depois engarrafaram-no. Lembro-me de passar na quinta de carro, sem avisar, sem intenção de entrar. Tudo deserto, silêncio raro, um cão cor de mel. O céu prometia chuva. Se encontrar as fotos, publico.

Organolepticamente falando, que o blog se fez assim há muito e agora falta vontade de mudar, a cor ficou imortalizada na fotografia. De cheiros e sabores, quis parecer-me um vinho simples mas correcto, não completamente linear, com notas de citrinos amargos (limão, lima) a desprenderem-se com força de uma espinha dorsal mais doce e persistente, vagamente tropical, a fazer lembrar banana, alperce (ou isso) e ananás. Mediano em força, volume e comprimento, mostrou-se no entanto bastante generoso no que toca à frescura. Posso não ter muito a dizer sobre ele, mas isso não implica que tenha algo de mal.

4€.

15

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Don Caballero — Don Caballero 2

1) De 1995, bons tempos. Lê-se no livrito que acompanha o disco que "Don Caballero is rock not jazz, Don Caballero is free from solos." 2) Embora esta não seja das minhas faixas preferidas, é das mais curtas, o que aumentará, espero, as possibilidades de vir a ser ouvida por alguém.




#1, Stupid Puma.

O álbum tem entrada na Wiki e uma crítica bastante positiva no AllMusic, que a meu ver termina com uma frase que o define bem: "Music with a brain that rocks, full stop."

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Comportillo — Gran Reserva '2001

Rioja Gran Reserva feito com 90% tempranillo e 10% de Garnacha, uvas criadas em altitude, no Monte Yerga, Alfaro. Passou 24 meses em barrica. Pareceu-me partilhar com este mais que a proveniência.

Cor granada, de concentração mediana. A fruta, preta, ainda bem marcada, não aparece viçosa ou sumarenta, mas também não evidencia grandes sinais de transformação. A par com cacau, tabaco, café, alcaçuz e todo um sortido de especiarias, forma um conjunto apetitoso, aconchegante sem ser morno. Gran Reserva modesto, sem nada de monumental, é no entanto um vinho bonito e muito coeso, ainda com anos pela frente. Ah, e o preço.

Embora o produtor o indique como parceiro ideal para jamón y quesos curados, patés, asados y carnes fuertes, parece-me, definitivamente, vinho para assado. Uma última nota à ligação tinto + presunto, tão querida a alguns espanhóis: não gosto, não me parece bem, não conseguiria recomendá-la. E experimentei q.b.

8€.

16

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Fiuza — Três Castas '2010

Eis uma marca de que tenho andado afastado. Ela que foi presença assídua à minha mesa na altura em que comecei a interessar-me por vinho. Que me lembre, cumpriu sempre. Mas, com o tempo, outras propostas lhe tomaram o lugar. Num mercado tão diversificado, acaba por tornar-se inevitável. De qualquer forma, há dias, a caminho de casa, em passagem rápida pelo supermercado, ocorreu-me trazê-lo. O rótulo mudou e o lote também: parece que substituíram o Aragonês por Syrah.

Foi vertido directamente da garrafa. Continua o tinto jovem de que me lembrava, simples, macio e relativamente pouco extraído, de graduação alcoólica discreta — 12,5%. Quase exclusivamente frutado, assenta em bagas silvestres, vermelhas e pretas, em bom ponto de madurez, com um toque de fumo a compor. Também algum vegetal, mas (provavelmente) menos que o que me habituei a encontrar nos Três Castas da primeira metade da década de 2000. Face ao último deles que aqui publiquei, não existiu surpresa, e ainda bem.

4€.

15

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Terrorists have or could develop the capability of using biological agents to attack crops and livestock; biological agents include viruses such as the highly contagious FMD and rinderpest, which kill or weaken cattle, sheep, pigs, and other livestock. Anti-plant agents include fungi such as rice blast and stem rust that attack rice, wheat, and other important crops. Many of these diseases are endemic in various parts of the world, particularly in countries without well-developed procedures to monitor crop and animal health.

Early detection is necessary to cull infected animals and destroy infected crops to keep diseases from spreading. Many of the diseases that terrorists are most likely to use occur naturally, thus a terrorist team could travel to the scene of an outbreak to obtain infectious material from a sick animal or crop. At the attack site, the pathogen could be administered clandestinely — any resulting sickness would appear to be the result of natural causes. One expert has said, "If I wanted to spread foot-and-mouth disease, I would just get a saliva smear from a sick cow and then rub it on the noses of some healthy cows in the country I wanted to attack."

The development of biological agents explicitly for use against animals and crops has a long history. Germany used anthrax and glanders against pack and food animals in World War I. Germany and Japan conducted active research during World War II to develop anticrop and antianimal weapons. They rarely used them, however, probably because they feared retaliation in kind from the United States and its allies, which were engaged in similar research. Some nations may have refrained from using biological agents only because they feared the prospect of having the diseases spread to their own homelands.

The United States ended its bioweapon program in 1969 and has honored its commitment to the Biological and Toxin Weapons Convention of 1972 (BWC); this agreement outlawed offensive bioweapon research and development and required signatories to destroy their stockpiles. In the 1990s, citizens of the Soviet Union and Iraq reported that their countries continued clandestine research programs. Some of those bioweapons may still exist in stockpile sites or laboratories, and in any case the knowledge needed to cultivate these organisms is widespread and relatively easy to acquire.

in AGRICULTURAL TERRORISM, TOOLS OF THE AGROTERRORIST,
Encyclopedia of Terrorism,
Harvey W. Kushner,
Sage Publications, 2003.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Periquita '2011 (Branco)

A marca, parte do portfolio da José Maria da Fonseca (link), dispensa apresentações. Feito a partir de Moscatel de Setúbal, Viognier e Verdelho, 30% de cada, mais uns pós de Viosinho, fermentou a 18ºC e foi engarrafado quase de seguida, em Outubro de 2011.

Mais floral no nariz, marcado pelos traços distintivos do Moscatel. Na boca é essencialmente cítrico, de dimensões medianas. E o contraste entre o apresentado ao nariz e à boca funciona. Apesar do binómio frescura/intensidade se apresentar na proporção adequada, creio que o conjunto só ganharia se houvesse um pouco mais dos dois. Bebeu-se com robalo assado em sal grosso.

A garrafa foi enviada pelo produtor. O preço rondará os 4€. Mais que a RQP decente, louvo-lhe o perfil diferenciado. Se o tinto também estiver assim. . .

15

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Primavera — Merlot e Syrah '2007

Este vinho foi produzido pelas Caves Primavera a partir de uvas das castas Merlot e Syrah, criadas numa encosta argilo-calcária e vinificadas juntas, em lagar. Estagiou durante 8 meses em carvalho francês antes de engarrafado. Das 5500 garrafas que se encheram, abati a nº 612. Não compreendo o rótulo: fora eu sociável, pediria, por favor, ajuda.

Primeiro dia: aberto e vertido directamente no copo à temperatura da praxe. Vinho sério, mas não sisudo, e ainda menos bruto. Pareceu-me delinearem-lhe o carácter as notas varietais do Merlot, cortadas por um Syrah frio, atlântico. Alguma barrica, bem colocada, trouxe outra complexidade ao conjunto. Vinho sério, por um lado jovem e estruturado, por outro já maduro, pronto a beber. Segundo dia: menos tosta. Pimenta preta e Cabernet sóbrio, sem carne nem pimento, em conjunto simples mas equilibrado. Não tendo encantado, convenceu. Acompanhou um estufado de coelho, com menta fresca e tomilho. Bom.

7€.

16