quarta-feira, 18 de abril de 2012

Casa de Saima '2009

Lote de Baga, Touriga Nacional e Merlot, com predominância da primeira, foi fermentado em lagar e estagiado durante um ano em tonel clássico. Produzido por Graça M. S. Miranda; de vez em quando compro vinhos deles, costumo gostar do que fazem.

Rubi intenso. Potente e algo linear, encontrei-o tão generoso nas sugestões de ameixa e frutos vermelhos como nas marcas distintivas da casta que lhe deu origem: vegetal seco mas aromático, ora a fazer lembrar terra e coisas da terra, ora pinho e chá. Mostrou mais corpo e sabor que à partida esperava encontrar-lhe, acidez a condizer, taninos jovens a prometerem alguma capacidade de evolução e um final razoável. Para o preço, é impressionante.

Acompanhou bife e uma sopa simples, mas que achei muito boa, e que se preparou da seguinte forma: refogou-se uma cebola, meia abóbora butternut, seis cenouras, um tomate e seis dentes de alho, tudo de tamanho regular. Temperou-se o refogado com meia dúzia de grãos de pimenta preta, um quarto de colher de chá de tomilho seco e sal, cobriu-se com água e deixou-se cozinhar. Quando pronto, juntou-se-lhe uma lata (800g) de grão-de-bico, escorrido, e passou-se tudo.

2,50€.

15,5

sábado, 14 de abril de 2012

Lidl — Barbera d'Asti '2009

Relativamente a este vinho, no rótulo, de concreto, nada. Pelas internets, idem. Fica então a nota, em jeito de apresentação, de que Barbera d'Asti é um tinto italiano produzido nas províncias de Asti e Alessandria (Piemonte), com estatuto DOCG desde 2008. De acordo com as respectivas normas de produção, é obrigatória a utilização de um mínimo de 85% de uvas da casta Barbera, estando também autorizadas as variedades Freisa, Grignolino e Dolcetto. O vinho, que tem de apresentar uma graduação alcoólica superior a 12%, deve ser estagiado em barricas de carvalho, por um mínimo de 4 meses, a partir do dia 1 de Novembro do ano de colheita.

Vertido directamente da garrafa, foi provado e depois bebido com pedacinhos de frango, temperados com pimentón de la Vera e grelhados no panelão juntamente com cogumelos shiitake. Cor cereja, de concentração, com alguma boa vontade, mediana. Cheirou-me a pêras, cerejas mais ou menos maduras, pele, amêndoas amargas e, só ao de leve, pla ra. Na boca, mostrou-se curto, fresco e harmonioso, com taninos presentes. Pareceu-me, no entanto, algo ligeiro e fugaz, a sugerir diluição. O que, face ao resto, não deixa de ser pena.

Custou 2 ou 3€.

14

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Periquita — Reserva '2009

Lê-se no comunicado de imprensa com que fizeram acompanhar a garrafa:

"A história do Periquita remonta ao início da própria história da José Maria da Fonseca, quando o fundador da empresa, o Senhor José Maria da Fonseca, comprou, por volta de 1846, a propriedade Cova da Periquita. Foi nessa propriedade, hoje em dia quase engolida pelo desenvolvimento urbano, que José Maria da Fonseca plantou as primeiras uvas da casta Castelão, que ele próprio havia trazido da província do Ribatejo.

O vinho produzido na Cova da Periquita desde logo provou ser o melhor da região, dando origem a que os outros proprietários pedissem a José Maria da Fonseca varas daquela casta para plantarem nas suas próprias propriedades. Desta forma, o vinho tornou-se conhecido em Azeitão como o vinho da Periquita, passando a ser comercializado pela José Maria da Fonseca como Periquita."

Castelão, Touriga Nacional e Touriga Franca; a respectiva ficha técnica pode consultar-se aqui. Primeiro dia: vertido directamente no copo a aproximadamente 16ºC, talvez um pouco menos. Cor avermelhada, de concentração mediana. Nada de mais a acompanhar peru assado: apesar de pronto a beber, pareceu-me algo fechado, quase só mostrou frutos pretos e madeira, e esta, não se mostrando em demasia, ligeiramente desenquadrada. Na boca, redondez, peso médio, taninos maduros. Final satisfatório, no entanto. Pernoitou no frigorífico, à espera do dia seguinte.

Segundo dia: melhor. Fruta doce, bonita, ginja e amora, mais da primeira que da segunda. Madura, mas sem sinais de transformação. Globalmente bem dimensionado, com frescura mais que razoável e só um pouco de tosta de barrica no final. Resumindo, trata-se de um vinho redondo, frutado, fácil, desenhado num estilo consensual. Em retrospectiva, não me pareceu muito diferente dos seus predecessores das colheitas de 2004 e 2005, que já passaram por estas páginas.

A garrafa foi gentilmente cedida pelo produtor, que recomenda um PVP de 7,99€.

16

terça-feira, 10 de abril de 2012

Poderoso caballero es don Dinero.

Madre, yo al oro me humillo,
él es mi amante y mi amado,
pues de puro enamorado
de continuo anda amarillo;
que pues, doblón o sencillo,
hace todo cuanto quiero,
poderoso caballero
es don Dinero.

Nace en las Indias honrado
donde el mundo le acompaña;
viene a morir en España
y es en Génova enterrado;
y pues quien le trae al lado
es hermoso aunque sea fiero,
poderoso caballero
es don Dinero.

Es galán y es como un oro;
tiene quebrado el color,
persona de gran valor,
tan cristiano como moro;
pues que da y quita el decoro
y quebranta cualquier fuero,
poderoso caballero
es don Dinero.

Son sus padres principales,
y es de noble descendiente,
porque en las venas de oriente
todas las sangres son reales;
y pues es quien hace iguales
al duque y al ganadero,
poderoso caballero
es don Dinero.

Mas ¿a quién no maravilla
ver en su gloria sin tasa
que es lo menos de su casa
doña Blanca de Castilla?
Pero pues da al bajo silla,
y al cobarde hace guerrero,
poderoso caballero
es don Dinero.

Sus escudos de armas nobles
son siempre tan principales,
que sin sus escudos reales
no hay escudos de armas dobles;
y pues a los mismos robles
da codicia su minero,
poderoso caballero
es don Dinero.

Por importar en los tratos
y dar tan buenos consejos,
en las casas de los viejos
gatos le guardan de gatos;
y pues él rompe recatos
y ablanda al jüez más severo,
poderoso caballero
es don Dinero.

Y es tanta su majestad,
aunque son sus duelos hartos,
que con haberle hecho cuartos,
no pierde su autoridad;
pero, pues da calidad
al noble y al pordiosero,
poderoso caballero
es don Dinero.

Nunca vi damas ingratas
a su gusto y afición,
que a las caras de un doblón
hacen sus caras baratas;
y pues hace las bravatas
desde una bolsa de cuero,
poderoso caballero
es don Dinero.

Más valen en cualquier tierra
mirad si es harto sagaz,
sus escudos en la paz,
que rodelas en la guerra;
y pues al pobre le entierra
y hace propio al forastero,
poderoso caballero
es don Dinero.


domingo, 8 de abril de 2012

Quinta da Fata — Reserva '2007

Touriga Nacional, Tinta Roriz, Alfrocheiro e Jaen. As uvas foram pisadas a pé em lagares de pedra e o vinho resultante passou um ano em madeira de carvalho francês e americano.

Um vinho a caminho dos cincos anos que, sem surpresas após a prova do seu predecessor, não se revelou nada terciário. Tourigão jovem, com violetas e fruta preta em camadas. E caramelo, e montes de cheiro a verbena e bergamota, às vezes a parecer quase citrino. Face ao outro, menos entroncado, mais tenso e fresco e fino e preciso. Menos telúrico, mais polido, mais educado. Face ao outro, enfim, o Fata fresco.

O Fata quente, o Fata fresco — não encontro melhor maneira de os comparar em poucas palavras. Dar-lhes um número? Fodido. No momento presente, deixando de parte o tempo que este ainda tem para crescer, talvez mais meio valor que ao outro, pela afinação.

8€.

17

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Quinta da Fata — Reserva '2003

Outro vinho da Quinta da Fata. O contra-rótulo diz que "Na Quinta da Fata (...) a vinha é cultivada numa suave encosta com exposição a Sul. Com pequenas parcelas de Tinta Roriz, Alfrocheiro, Jaen e Trincadeira, predomina a casta Touriga Nacional". O mosto fermentou em lagares de granito, tendo o vinho resultante estagiado durante um ano em carvalho francês. Subsiste uma dúvida: terá levado Trincadeira? Abri a garrafa nº 6716 de 9900 produzidas.

Ainda rubi, escuro, mas não retinto. Frutos pretos, doces, transformados, flores, bergamota e começos de pele: inequívocos (tanto quanto ainda ligeiros) traços de idade. Foi abrindo com o tempo no copo, sem perder vigor.

Os anos trouxeram-lhe finura, é verdade, mas continua com um porte notável e uma presença viva, animada por uma acidez espectacular. Taninoso, de toque empoeirado? Rústico? Talvez, um pouco. Mas que importa? A impressão deixada foi a de um robusto vinho do Dão, polido pela idade.

8€.

16,5

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Hardy's — Mill Cellars, Chardonnay '2010

Chardonnay meio seco produzido por Thomas Hardy & Sons. Sobre a marca, pode ler-se algo aqui. Sobre a região de origem, lê-se em wineaustralia.com que:

"The Geographical Indication "SOUTH EASTERN AUSTRALIA" is located within the Commonwealth of Australia.

The area so enclosed includes all of the State of New South Wales, all of the State of Victoria, all of the State of Tasmania, all of the Australian Capital Territory, and those parts of the State of Queensland lying to the south and the east of the described boundary, and those parts of the State of South Australia lying to the south and the east of the described boundary, and all of those off-shore islands under Australian Government control lying to the south and east of the described boundary."

Ficamos então a saber que as uvas com que se fez este vinho podem provir de milhentos sítios, numa área enorme. Diz a respectiva ficha técnica que foram colhidas durante a noite, sujeitas a prensagem mecânica e fermentadas em cubas, sob acção de leveduras seleccionadas. O produto final foi engarrafado sem estágio, após estabilização.

Servido frio. A cor é a que se pode ver na fotografia. O nariz, rico em sugestões cítricas — lima e limão — e de pêssego, leque aromático pouco impressionante, tanto em extensão como em expressão. Na boca achei-o pequeno e leve, quase fugaz, com o açúcar residual a notar-se. Notei este, no entanto, efectivamente compensado por intensa acidez, o que deixou o conjunto final fresco, bebível. Bebível, mas nem por isso interessante.

4€.

13

domingo, 1 de abril de 2012

Espantos de Agosto

Llegamos a Arezzo un poco antes del medio día, y perdimos más de dos horas buscando el castillo renacencista que el escritor venezolano Miguel Otero Silva había comprado en aquel recodo idílico de la campina toscana. Era un domingo de principios de agosto, ardiente y bullicioso, y no era fácil encontrar a alguien que supiera algo en las calles abarrotadas de turistas. Al cabo de muchas tentativas inútiles volvimos al automóvil, abandonamos la ciudad por un sendero de cipreses sin indicaciones viales, y una vieja pastora de gansos nos indicó con precisión dónde estaba el castillo. Antes de despedirse nos preguntó si pensábamos dormir allí, y le contestamos, como lo teníamos previsto, que sólo íbamos a almorzar.

— Menos mal — dijo ella — porque en esa casa espantan.

Mi esposa y yo, que no creemos en aparecidos del medio día, nos burlamos de su credulidad. Pero nuestros dos hijos, de nueve y siete años, se pusieron dichosos con la idea de conocer un fantasma de cuerpo presente.

Miguel Otero Silva, que además de buen escritor era un anfitrión espléndido y un comedor refinado, nos esperaba con un almuerzo de nunca olvidar. Como se nos había hecho tarde no tuvimos tiempo de conocer el interior del castillo antes de sentarnos a la mesa, pero su aspecto desde fuera no tenía nada de pavoroso, y cualquier inquietud se disipaba con la visión completa de la ciudad desde la terraza florida donde estábamos almorzando. Era difícil creer que en aquella colina de casas encaramadas, donde apenas cabían noventa mil personas, hubieran nacido tantos hombres de genio perdurable. Sin embargo, Miguel Otero Silva nos dijo con su humor caribe que ninguno de tantos era el más insigne de Arezzo.

— El más grande — sentenció — fue Ludovico.

Así, sin apellidos: Ludovico, el gran señor de las artes y de la guerra, que había construido aquel castillo de su desgracia, y de quien Miguel nos habló durante todo el almuerzo. Nos habló de su poder inmenso, de su amor contrariado y de su muerte espantosa. Nos contó cómo fue que en un instante de locura del corazón había apuñalado a su dama en el lecho donde acababan de amarse, y luego azuzó contra sí mismo a sus feroces perros de guerra que lo despedazaron a dentelladas. Nos aseguró, muy en serio, que a partir de la media noche el espectro de Ludovico deambulaba por la casa en tinieblas tratando de conseguir el sosiego en su purgatorio de amor.

El castillo, en realidad, era inmenso y sombrío. Pero a pleno día, con el estómago lleno y el corazón contento, el relato de Miguel no podía parecer sino una broma como tantas otras suyas para entretener a sus invitados. Los ochenta y dos cuartos que recorrimos sin asombro después de la siesta, habían padecido toda clase de mudanzas de sus dueños sucesivos. Miguel había restaurado por completo la planta baja y se había hecho construir un dormitorio moderno con suelos de mármol e instalaciones para sauna y cultura física, y la terraza de flores intensas donde habíamos almorzado. La segunda planta, que había sido la más usada en el curso de los siglos, era una sucesión de cuartos sin ningún carácter, con muebles de diferentes épocas abandonados a su suerte. Pero en la última se conservaba una habitación intacta por donde el tiempo se había olvidado de pasar. Era el dormitorio de Ludovico.

Fue un instante mágico. Allí estaba la cama de cortinas bordadas con hilos de oro, y el sobrecama de prodigios de pasamanería todavía acartonado por la sangre seca de la amante sacrificada. Estaba la chimenea con las cenizas heladas y el último leño convertido en piedra, el armario con sus armas bien cebadas, y el retrato al óleo del caballero pensativo en un marco de oro, pintado por alguno de los maestros florentinos que no tuvieron la fortuna de sobrevivir a su tiempo. Sin embargo, lo que más me impresionó fue el olor de fresas recientes que permanecía estancado sin explicación posible en el ámbito del dormitorio.

Los días del verano son largos y parsimoniosos en la Toscana, y el horizonte se mantiene en su sitio hasta las nueve de la noche. Cuando terminamos de conocer el castillo eran más de las cinco, pero Miguel insistió en llevarnos a ver los frescos de Piero della Francesca en la Iglesia de San Francisco, luego nos tomamos un café bien conversado bajo las pérgolas de la plaza, y cuando regresamos para recoger las maletas encontramos la cena servida. De modo que nos quedamos a cenar.

Mientras lo hacíamos, bajo un cielo malva con una sola estrella, los niños prendieron unas antorchas en la cocina, y se fueron a explorar las tinieblas en los pisos altos. Desde la mesa oíamos sus galopes de caballos cerreros por las escaleras, los lamentos de las puertas, los gritos felices llamando a Ludovico en los cuartos tenebrosos. Fue a ellos a quienes se les ocurrió la mala idea de quedarnos a dormir. Miguel Otero Silva los apoyó encantado, y nosotros no tuvimos el valor civil de decirles que no.

Al contrario de lo que yo temía, dormimos muy bien, mi esposa y yo en un dormitorio de la planta baja y mis hijos en el cuarto contiguo. Ambos habían sido modernizados y no tenían nada de tenebrosos. Mientras trataba de conseguir el sueño conté los doce toques insomnes del reloj de péndulo de la sala, y me acordé de la advertencia pavorosa de la pastora de gansos. Pero estábamos tan cansados que nos dormimos muy pronto, en un sueño denso y continuo, y desperté después de las siete con un sol espléndido entre las enredaderas de la ventana. A mi lado, mi esposa navegaba en el mas apacible de los inocentes. "Qué tontería — me dije —, que alguien siga creyendo en fantasmas por estos tiempos". Sólo entonces me estremeció el olor de fresas recién cortadas, y vi la chimenea con las cenizas frías y el último leño convertido en piedra, y el retrato del caballero triste que nos miraba desde tres siglos antes en el marco de oro. Pues no estábamos en la alcoba de la planta baja donde nos habíamos acostado la noche anterior, sino en el dormitorio de Ludovico, bajo la cornisa y las cortinas polvorientas y las sábanas empapadas de sangre todavía caliente de su cama maldita.

Oct/1980


'n Doce Cuentos Peregrinos, Gabriel García Márquez, 1992