terça-feira, 4 de setembro de 2012

Quinta de Camarate '2007

Lote de Touriga Nacional, Castelão e Aragonês, parcialmente estagiado em barrica, foi aberto aproximadamente um mês depois do da edição mais recente, de 2009, enviado pelo produtor para divulgação, e cuja nota de prova, caso assim lhe queiram chamar, se pode consultar aqui. Sim, o comportamento da amostra despertou-me a curiosidade para a prestação de um exemplar mais evoluído da mesma marca. As amostras também servem para isso, sabiam? :)

Denso, pesado até, de madurez pronunciada. Predominam notas de ginja, secundadas por compota e azeitona preta. Um pouco por todo o lado, cacau e especiarias; folha de tabaco mais no final. É morno e enche a boca — revela certa maturidade, sem sinais de decadência. Final agradável, bastante prolongado.

Acompanhou entrecosto no forno, preparado com azeite, alho e pimentón de la Vera, e acompanhado de batatas vermelhas, novas, cortadas com casca e ligeiramente cozidas antes de tostadas, também no forno, com azeite, alho, tomilho fresco e pimenta preta. Mais coisas simples. A vida não está para invenções.

7€.

15,5

domingo, 2 de setembro de 2012

Encostas de Estremoz — Grande Escolha '2008

Alentejano produzido por Encostas de Estremoz, a partir de Alicante Bouschet, Touriga Nacional, Touriga Franca e Cabernet Sauvignon. O mosto fermentou em cuba, tendo depois permanecido em contacto com as películas durante vinte dias, ao cabo dos quais ocorreu uma suave prensagem. O estágio deu-se em barricas de Allier, novas e usadas, e durou dezoito meses.

Nariz grande, farto, com frutos negros e especiarias, álcool vaporizado, folha de tabaco. Na boca é muito intenso, macio e volumoso, de generosidade considerável (não confundir com guloso). Inevitável o reparo a alguma madeira que talvez o tempo venha a integrar por completo. Final longo e cálido. Alentejano de boa raça, feito em estilo moderno, é para acompanhar comida com peso.

10€.

16,5

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Altas Quintas — Crescendo '2005

Lote de Aragonês (80%) e Trincadeira, fermentou em balseiros Seguin Moreau, tendo depois passado 12 meses em barricas de carvalho francês e americano.

Foi servido a 16ºC. Cor granada. Lembro-me de o ter provado há três ou quatro anos atrás. Redondo e gulosinho, tinha uma acidez relativamente discreta, que primava por bem medida face ao que se pretendia no produto acabado. Agora que se deixou evoluir em garrafa, aparenta ter ganho seriedade, um perfil mais seco, se é que tal coisa é possível. A fruta fresca deu lugar a tons mais pesados, com pele e passas a juntarem-se aos compotados de frutos pretos que esperava encontrar. Passou morno e harmonioso pela boca, com persistência mediana, mostrando uma estrutura já completamente madura. Para o meu gosto, não passou ainda o momento ideal de consumo. Porém, já não é o vinho que foi em novo. E daqui em diante, espera-se que tome o caminho descendente.

8€.

15,5

domingo, 26 de agosto de 2012

Venâncio da Costa Lima — Reserva '2008

Castelão de cor avermelhada, não muito carregada. A respectiva ficha técnica, disponível no sítio que o produtor mantém na internet, indica que fermentou com maceração prolongada e estagiou durante 8 meses em carvalho francês antes do engarrafamento (o contra-rótulo refere apenas 6 meses de estágio). Inicialmente a parecer querer afastar-se do lado mais melado da casta, o que acabou por não confirmar, mostrou-se, no entanto, sempre muito fresco, de estrutura firme, com boas notas de frutos silvestres bem maduros, vermelhos, especiarias quentes, algum químico aromático, a fazer lembrar cola, e interessantes notas florais, vincado aroma a alfazema. Intenso, de final longo. Acompanhou bife da vazia, grelhado, guarnecido com batata frita e salada — ligação tão previsível quanto feliz.

7€.

16

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Kruder & Dorfmeister — The K & D Sessions

Foi um sonho recorrente ainda durante algum tempo. Dois anos ou três, talvez mais, já não consigo precisar. Estava longe, numa planície gelada e deserta. Não havia neve, não havia terra. Nem qualquer forma de vida, ou mesmo pedras. A imensidão da planície, completamente destituída de relevo, era avassaladora. Não descortinava sequer o perfil de uma montanha ao longe. Encontrava-me no meu Limbo pessoal, esse lugar que não é Céu, nem Terra, nem Inferno e onde dizem penar certas almas. Sozinho e talvez perdido, embora duvide que quando acontecia me sentisse mal com isso. Digo-o baseado na suposição de que tal teria gerado stress, e eu acordado e pensado no assunto. E agora, provavelmente, lembrar-me-ia. Não, só e perdido no meio do nada, curioso nada esse que fabricava, às vezes com coisas "não relacionadas" a entrarem-me pelos ouvidos. Podia ser a música que estava a ouvir ou outra coisa qualquer. Mais tarde, no princípio da fase má, comecei a encontrar elementos de dor neste lugar, mas no princípio, em '98, por exemplo, era, para mim, talvez o único verdadeiro recanto de paz disponível. Pelo menos, o melhor. E as coisas que a dada altura fiz para tentar chegar lá! Coitadinho :)


Enfim, dei por mim a ouvir este grande álbum e ocorreram-me as notas supra. O remix de Roni Size, Heroes, que aí deixo para quem quiser ouvir, continua a ser das minhas faixas de entrada preferidas. Devia tentar dizer mais?

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Adega de Borba '2011 (Branco)

Conforme percebi da ficha técnica que o produtor disponibiliza online, o mosto resultante o esmagamento das uvas Antão Vaz, Arinto e Roupeiro fermentou devagar, a temperatura relativamente baixa (falam de 14 dias a 18ºC). Deixaram-no descansar em cuba durante o Inverno e depois engarrafaram-no, tendo a produção atingido o milhão de unidades. Notável.

Cor pálida. Gordinho mas fresco, com acidez a morder ao de leve a ponta da língua e um final citrino e vagamente alcoólico. Maçã e pêssego pareceram-me predominar, e ananás, não abacaxi, também notei. Pelo meio, as possibilidades perdidas de fazer lembrar muitas outras coisas — por mais que isto tenha a sua quota-parte de objectividade, é preciso haver disposição!

No princípio, tinha um preconceito fodido contra os brancos do Alentejo. Pareciam-me sempre mais chochos e pesados que o recomendável, e quase certamente que mais chochos e pesados do que realmente eram, também. Com o passar do tempo, fui constatando que, afinal, as coisas não se passavam bem assim. Só que, comigo, um filme, quando dura, dura! E sei que o caminho para me reconquistar, embora longo, passa por muitos vinhos simples e bem feitos, para o dia-a-dia, como este.

3€.

15

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Catapereiro — Escolha '2009

Ribatejano da Companhia das Lezírias, feito de Alicante Bouschet, Syrah e Touriga Franca. Fermentou com maceração após prensagem pneumática das uvas, fez a maloláctica em inox e passou por um breve estágio em barricas novas, dizem que francesas. O de 2010 já anda no mercado e ainda não o provei. A seu tempo.

Segue o tratado organoléptico: Cor rubi de concentração mediana. Ainda repleto de ameixa preta e bagas, carregadas mas sumarentas, sem chegar a sugerir compota ou outros sinais, por assim dizer, mais pesados, de transformação. Na boca é morno e especiado, de tanino nervoso e acidez envolvente. Inequívoco toque tostado, bem medido, acresce complexidade ao conjunto, todo ele bastante engraçado. Estará no seu melhor, embora prometa aguentar mais um par de anos em garrafa sem qualquer problema.

3€, aprox.

15

sábado, 18 de agosto de 2012

"Mientras esto ocurre, han comenzado los pavorosos preparativos. Ya está la leña amontonada al pie del poste, ya chirrían las cadenas con las que Servet debe ser colgado del palo, ya el verdugo tiene amarradas las manos del condenado. Entonces, acércase por última vez Farel hasta Servet, el cual no hace más que suspirar en voz baja: "¡Dios mío! ¡Dios mío!", y le grita, con coléricas palabras: "¿No tienes otra cosa que decir?" Todavía espera aquel desalmado pedante que Servet, a la vista del poste del martirio, confesará la verdad única verdadera: la calvinista. Pero Servet responde: "¿Qué otra cosa podría hacer sino hablar de Dios?"

Desengañado abandona Farel a su víctima. Ahora no resta ya nada más sino que el otro verdugo, el del cuerpo, realice su función pavorosa. Con una cadena de hierro, es colgado Servet del poste, atado con una maroma que da cuatro o cinco vueltas alrededor del estenuado mártir. Entre el cuerpo viviente
y la soga que lo oprime cortándolo cruelmente, sujetan aún los ayudantes del verdugo un ejemplar del libro y aquel manuscrito que Servet, en otro tiempo, sub sigillo secreti, le había enviado a Calvino, pidiéndole su opinión fraternal; por último, todavía le plantan, como mofa, una repulsiva corona de dolor en la cabeza, una guirnalda de laurel untada con azufre. Con estos crudelísimos preparativos queda terminado el trabajo del verdugo. Ya no se necesita más que prender simplemente fuego al montón de leña y con ello queda ya comenzado el asesinato.

Cuando brotan por todas partes las llamas, lanza el martirizado un grito tan espantoso, que todo el mundo, durante un momento, vuelve la cabeza estremecido. Pronto, el humo y el fuego envuelven aquel cuerpo que se retuerce en su tormento; sin cesar y de modo cada vez más penetrante, brotado de la carne viviente lentamente devorada por el fuego, escúchase el estridente grito de dolor del que sufre de indecible modo. Por último, retumba su postrero y fervoroso clamor de angustia: "¡Jesús, hijo del eterno Dios, ten piedad de mí!" Media hora dura este indescriptible y horrendo combate con la muerte. Sólo entonces descienden las ya ahitas llamas, el humo fluye en desparramados chorros, y del ennegrecido poste, colgado de la cadena puesta al rojo, pende una masa negra, humeante, carbonizada, una horrenda pasta que en nada recuerda ya a lo humano. Lo que antes era una terrena criatura pensadora, consagrada apasionadamente a lo eterno, una palpitante porción del alma divina, no es ya más que una tremenda basura, está convertida en una masa tan horrible, repugnante y hedionda, que tal panorama acaso hubiera podido edificar durante un instante a Calvino acerca de lo inhumano de su pretensión de arrogarse el ser juez y verdugo de un prójimo suyo."


Stefan Zweig, Castalion Contra Calvino (Castellio gegen Calvin oder Ein Gewissen gegen die Gewaltt), 1936, trad. por Ramón María Tenreiro

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Aguardentes, Jun-Ago/2012

Lembram-se deste post? Na mesma toada, mas a cagar-me para os agregadores, segue uma pequena lista de impressões sobre as brancas que por aqui se têm consumido nos últimos tempos. Ah, nunca é de mais mencioná-lo: atenção, minha gente, não tomem estas opiniões como se de sentenças se tratassem: é que, aguardentes, também não provo — bebo.


Casa de Saima — Aguardente Vínica Velha

Certamente a menos mainstream das aguardentes mencionadas neste post, foi ela que abriu os portões do meu fígado às demais irmãs. Antes, na hora do espírito, bebia whisky, às vezes rum. Não que isso queira dizer o que quer que seja, só por si. Muitos frutos secos e caramelo, e mais ainda que não sei dizer, em corpo macio e razoavelmente volumoso, com travo levemente queimante. A boa relação qualidade/preço — aproximadamente 13€ por garrafa de meio litro — não é, de forma alguma, a mais relevante das suas virtudes. Jul/2012.


Fim de Século — Aguardente Vínica Velha

Das Caves Velhas. Lote de aguardentes envelhecidas em madeira durante, pelo menos, dez anos. Cor mais escura que o habitual, com laivos esverdeados. Redonda, de untuosidade agradável e boa persistência, mas demasiado torrada/fumada para o meu gosto. 12€/70cl. Jun/2012.


Antiqua V.S.O.P.

Produzida pelas Caves Aliança, passou cinco anos em barricas de carvalho português antes do engarrafamento. Cor topázio/âmbar. Intensa e razoavelmente complexa, com notas de café e passas bem mesclados no químico, ao mesmo tempo etéreo e adocicado, característico deste tipo de bebida. Redondinha, mas com estrutura (taninos) e nada agressiva. Ok! 15€/70cl. Ago/2012.


São Domingos — Aguardente Vínica Velhíssima

Produzida pelas Caves do Solar de S. Domingos. Estagiou em cascos de carvalho limousin durante cinco anos. No nariz, bom conjunto de notas etéreas e adocicadas, mais ou menos de farmácia. Fruta? Frutinha, passinhas. Diria que faz lembrar a Antiqua, mas um furo acima. 17€/70cl. Jun/2012.


Caves São João — Aguardente Vínica Velha "Grande Reserva"

A média de idades das aguardentes que lhe deram origem andará por volta dos dezassete anos. Cor topázio. Etérea e especiada, de cheiro rico e sabor amplo e aveludado, será, provavelmente, a mais suave das aguardentes aqui comentadas. Tem um final que sempre me pareceu digno de nota, longo e quente, mas não ardente, com sugestões vívidas de baunilha. E embora não agrade como a de Saima, também é, claramente, uma das minhas aguardentes "proletárias" favoritas. 13€/70cl. Jun-Jul/2012.


Encosta de Mouros — Aguardente Vínica Velha

Da Adega Coop. de Mealhada. Cor topázio, carregada. Álcool, cola, toffee, baunilha. . . alguma estrutura, ligeiríssimo amargor no final. Um pouco menos ampla que a das Caves S. João, mas de perfil semelhante. 14€/70cl. Jul/2012.


Havana Club — Añejo Reserva

Para terminar, uma alegre aguardente de cana, lote de runs cubanos, envelhecidos (em média, dizem eles) durante cinco anos em barris usados, usualmente de whisky. Difere das outras aqui colocadas na génese — enquanto as vínicas são destiladas a partir de vinhos brancos de baixa graduação, produzidos para o efeito, os runs são-no a partir do mosto fermentado do caldo da cana-de-açúcar — e no fim — ao passo que as aguardentes vínicas se devem beber a mais ou menos 20ºC, aquecidas pelas mãos do utilizador, o rum tolera sempre bem o frigorífico ou um cubo de gelo. Um ponto transversal importante será, neste caso, porque se trata de um rum envelhecido, o balão, usualmente baixo e tão mais gordo e fechado quanto velho o líquido nele contido. Como de costume, bebi este rum "semi-novo" simples e fresco, em balão de boca aberta, para amenizar o álcool. Açúcar e caramelo, banana seca, especiarias. Apesar de realmente possuir substância, é indubitavelmente mais ligeiro que qualquer das aguardentes antes expostas, com um final mais curto e alcoólico, mas também mais limpo. Enfim, outro favorito pessoal! 18€/70cl. Ago/2012.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Encosta de Mouros — Baga '2007

Depois deste, outro monocasta da Adega Coop. de Mealhada. O contra-rótulo diz que "estagiou cerca de 6 meses em barricas de carvalho francês". Abri a garrafa nº 3881 de 6618 produzidas.

Cor granada, de concentração relativamente discreta. Aqui, o aspecto visual acabou por se revelar reflexo fiel de tudo o mais. Claramente Baga, trouxe consigo os cheiros e sabores esperados, sem grande complexidade. A fruta resinosa, alguma erva seca, um bocadinho de café. Mais assertivo na boca, mas ainda assim razoavelmente polido, de proporções correctas, a evidenciar ligeira evolução — ou deveria dizer maturidade? E para quê tentar semear a dúvida quando o texto se quer descritivo, minimamente objectivo? Segundo dia, igual.

Mereceu umas bifanas na brasa, no pão, com mostarda. Também não irá mal com uma piza valente, robusta, de cobertura farta, como às vezes fazemos cá em casa.

4€.

14,5