quarta-feira, 12 de setembro de 2012

O tipo-delinquente é o tipo do homem em condições desfavoráveis, um homem forte que adoeceu. Falta-lhe a jungla, uma certa natureza e forma de existência mais livre e mais perigosa em que tudo o que é arma e defesa no instinto do homem forte tenha existência legal. As suas virtudes são banidas pela sociedade; os seus impulsos mais vivos, que ele consigo traz, desenvolvem-se directamente com as emoções deprimentes, com a suspeita, o medo, a desonra. Mas esta é quase a receita para a degenerescência fisiológica. Quem tem de fazer secretamente, com tensão prolongada, prudência, astúcia, o que melhor pode e mais gostaria de fazer, torna-se anémico; e porque dos seus instintos unicamente colhe o perigo, a perseguição, a fatalidade, também o seu sentimento se vira contra estes instintos — experimenta-os de modo fatalista. É na sociedade, na nossa sociedade domesticada, medíocre, castrada, que um homem natural, o qual vem da montanha ou das aventuras do mar, degenera necessariamente em delinquente. Ou quase necessariamente, porque há casos em que tal homem se revela mais forte do que a sociedade: o corso Napoleão é o caso mais famoso. Para o problema que aqui se apresenta, é importante o testemunho de Dostoievski, sim, o único psicólogo, diga-se de passagem, de quem eu poderia aprender alguma coisa; é ele uma das mais felizes ocorrências da minha vida, mais ainda que a descoberta de Stendhal. Este homem profundo, que tinha dez vezes razões para subestimar os superficiais alemães, recebeu impressões muito diversas das que esperava por parte dos condenados siberianos, entre os quais viveu durante muito tempo, verdadeiros delinquentes graves, para os quais já não havia nenhum retorno à sociedade — quase como se fossem talhados da melhor, mais dura e mais valiosa madeira que, em geral, cresce no solo russo. Generalizemos o caso do delinquente: pensemos em naturezas a que, por qualquer razão, falta a aprovação pública, que sabem não ser consideradas como benéficas, como úteis, — esse sentimento Tschandala de não serem semelhantes, mas banidos, indignos, impuros. Todas as naturezas assim têm nos pensamentos e nas acções a cor do subterrâneo; tudo nelas é mais pálido do que naqueles sobre cuja existência se derrama a luz do dia. Mas quase todas as formas de existência, que hoje realçamos, viveram outrora na meia luz sepulcral: o cientista, o artista, o génio, o espírito livre, o comediante, o mercador, o grande descobridor... Enquanto o sacerdote surgiu como o tipo mais elevado, todo o tipo de homem superior foi desvalorizado... Chega o tempo — sou eu que o prometo — em que figurará como a espécie mais baixa, como o nosso Tschandala, como o tipo mais embusteiro, mais indecente de homem... Chamo a atenção para o facto de como, ainda hoje, sob o mais suave reino dos costumes que alguma vez dominou na terra, pelo menos na Europa, toda a separação, toda a subjacência longa, demasiado longa, toda a forma de existência excepcional e impenetrável se aproxima daquele tipo que consuma o delinquente. Todos os inovadores do espírito levaram por algum tempo na fronte o sinal lívido e fatal do Tschandala: não porque assim foram considerados, mas porque eles próprios sentiam o temível abismo que os separa de tudo o que é tradicional e persiste no meio de honras. Quase todo o génio conhece, como um dos seus desenvolvimentos, a "existência catilinária", um sentimento de ódio, de vingança e de rebelião contra tudo o que já é, o que não mais será... Catilina — a forma de preexistência de cada César.

Friedrich Nietzsche — Crepúsculo dos Ídolos, ou como se filosofa com o martelo (Götzen-Dämmerung oder Wie man mit dem Hammer philosophiert), 1888; versão portuguesa das Ed. 70, trad. por Artur Morão, imp. 1985.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Quinta da Alorna '2009

O animal chega moído e enervado da rua, sentiu no pêlo durante mais um dia aquilo a que o grande W. S. Burroughs certa vez chamou de "experiência embrutecedora da idade adulta". Costuma trazer fome. A comida, peito de frango aos bocadinhos, cozinhado com quiabos, feijões de soja e ervilhas, estes últimos previamente tratados na panela de vapor. Azeite, tempero, vinho branco para refrescar. Arroz. Tudo pronto em mais ou menos meia hora.

Acompanhou-se com tinto. Este iluminou a noite. Só não digo que surpreendeu porque já esperava que se portasse bem. Tinta Roriz, Castelão, Syrah e Alicante Bouschet, parcialmente estagiado em barricas de carvalho americano. Cheiroso, gulosinho e macio, rico em fruta negra, madura, revelou-se um vinho alegre, feito ao estilo do novo mundo, para ser fácil de beber e gostar. Presentemente, será das melhores propostas disponíveis na gama de preços em que se insere. Aliás, o compromisso entre volume, preço e qualidade que o produtor tem vindo a conseguir com mais que razoável consistência dá que pensar. Ou devia, pelo menos a alguns.

3€.

15

sábado, 8 de setembro de 2012

Fiuza — Cabernet Sauvignon '2007

Monocasta Cabernet Sauvignon, de vinhas com aproximadamente dez anos, implantadas no solo argilo-calcário da Quinta da Granja, sita nas imediações da cidade de Santarém, fermentou em inox a 25ºC e estagiou durante 8 meses em barricas de carvalho francês e americano.

Nariz morno, com passas, especiarias e balsâmico. De tal forma que foi com relativa surpresa que o verifiquei de sabor seco e volume razoavelmente fresco na passagem pela boca, possuidor de uma estrutura ao mesmo tempo firme e madura, daquelas que agradecem comida com alguma substância. Cabernet evoluído, revelou alguma complexidade e, pareceu-me, toda a afinação a que alguma vez poderá ter aspirado. O pimento estava lá — aliás, nunca provei nenhum vinho da casta que, de todo, não o sugerisse, mesmo espécimes de zonas bem quentes, onde as uvas conseguem, supostamente, amadurecer o suficiente para que as quantidades de pirazinas presentes se deixem de poder notar — e bem ligado a especiarias várias: leque difuso, mas bastante engraçado. Poderá, assim, ser defeito? Final médio/longo.

7€.

15,5

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Coldfinger — Beauty of You

Sempre gostei de X. Não me arrogando a adivinhar ao pormenor a alma daqueles que comigo partilham ou partilharam momentos, arriscaria dizer, no entanto, que sempre lhe percebi uma enorme resignação, de tal forma que aparentava procurar viver em círculos, como se cada dia fosse por si só uma vida, sem passado e sem futuro. Ele dizia que só queria que o deixassem em paz, deixar toda a maluquice em que vivíamos e ter um casebre e uma horta, ver as couves crescer. Bem vistas as coisas, talvez X apenas quisesse poder viver no campo, comer, dormir e foder, como, aliás, qualquer outro animal. Quem poderia censurá-lo por isso?

Essa sua presença pacífica e complacente, aliada a possuirmos alguns interesses em comum, fazia dele um óptimo companheiro, sobretudo quando não apetecia andar em bolandas. Eram noites geralmente sem brilho, que provavelmente seriam de depressão caso me encontrasse só. Noites de loucura introspectiva, como começámos a chamar-lhes, a dada altura. Esta loucura introspectiva é coisa que vive connosco, mas não há como a registar. Sente-se num dado momento e por norma sabe bem, mas não perdura na memória por não ser algo que se pense. Evoco X neste momento e apenas consigo chamar reflexos daquilo que por vezes sentia quando discutíamos algo que nos fazia vibrar.

Tal como eu, X não se importava de ir ficar triste para lugares agradáveis, entre pratinhos de broa com queijo e taças de cerveja. Um dos nossos poisos favoritos era o Dixie: pouca gente, álcool de qualidade e um aquário, tudo imerso em luz azulada e música um bocado fora das escolhas habituais, mesmo em lugares do género, o que, de todo, não desagradava. Mais tarde fui lá com a S, mas por algum motivo ela não ficou fã do lugar. Depois descobri que tinha fechado.

Certa noite, discutíamos um pesado problema matemático, coisa completamente fora do nosso alcance, mas por isso mesmo especialmente apelativa aos jovens cromos que éramos na altura, ainda cheios de vontade. Era um dos problemas com que o famoso Ulam contribuiu para o chamado Livro Escocês, que na verdade nasceu polaco, numa terra que agora faz parte da Ucrânia. Enfim.

O enunciado era algo como: se um sólido permanecer em equilíbrio, independentemente da posição em que se encontrar, sobre uma superfície plana e horizontal, terá de ser necessariamente uma esfera? E X a tentar, com uma folhita, acho que um guardanapo, e eu a leste, a reparar na música. Lembro-me de ter pensado "eia, que coisa" quando o barman me disse ser produto nacional. Um dia, descobri que havia um videoclip. Com o tempo, esta noite e este pedaço de música de que vos falo, e o bom velho Stan Ulam também, foram-se diluindo no volumoso repositório de conhecidos fixes que alguém que viva nesta época inevitavelmente acaba por reunir. Hoje, assim de repente, lembrei-me.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Quinta de Camarate '2007

Lote de Touriga Nacional, Castelão e Aragonês, parcialmente estagiado em barrica, foi aberto aproximadamente um mês depois do da edição mais recente, de 2009, enviado pelo produtor para divulgação, e cuja nota de prova, caso assim lhe queiram chamar, se pode consultar aqui. Sim, o comportamento da amostra despertou-me a curiosidade para a prestação de um exemplar mais evoluído da mesma marca. As amostras também servem para isso, sabiam? :)

Denso, pesado até, de madurez pronunciada. Predominam notas de ginja, secundadas por compota e azeitona preta. Um pouco por todo o lado, cacau e especiarias; folha de tabaco mais no final. É morno e enche a boca — revela certa maturidade, sem sinais de decadência. Final agradável, bastante prolongado.

Acompanhou entrecosto no forno, preparado com azeite, alho e pimentón de la Vera, e acompanhado de batatas vermelhas, novas, cortadas com casca e ligeiramente cozidas antes de tostadas, também no forno, com azeite, alho, tomilho fresco e pimenta preta. Mais coisas simples. A vida não está para invenções.

7€.

15,5

domingo, 2 de setembro de 2012

Encostas de Estremoz — Grande Escolha '2008

Alentejano produzido por Encostas de Estremoz, a partir de Alicante Bouschet, Touriga Nacional, Touriga Franca e Cabernet Sauvignon. O mosto fermentou em cuba, tendo depois permanecido em contacto com as películas durante vinte dias, ao cabo dos quais ocorreu uma suave prensagem. O estágio deu-se em barricas de Allier, novas e usadas, e durou dezoito meses.

Nariz grande, farto, com frutos negros e especiarias, álcool vaporizado, folha de tabaco. Na boca é muito intenso, macio e volumoso, de generosidade considerável (não confundir com guloso). Inevitável o reparo a alguma madeira que talvez o tempo venha a integrar por completo. Final longo e cálido. Alentejano de boa raça, feito em estilo moderno, é para acompanhar comida com peso.

10€.

16,5

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Altas Quintas — Crescendo '2005

Lote de Aragonês (80%) e Trincadeira, fermentou em balseiros Seguin Moreau, tendo depois passado 12 meses em barricas de carvalho francês e americano.

Foi servido a 16ºC. Cor granada. Lembro-me de o ter provado há três ou quatro anos atrás. Redondo e gulosinho, tinha uma acidez relativamente discreta, que primava por bem medida face ao que se pretendia no produto acabado. Agora que se deixou evoluir em garrafa, aparenta ter ganho seriedade, um perfil mais seco, se é que tal coisa é possível. A fruta fresca deu lugar a tons mais pesados, com pele e passas a juntarem-se aos compotados de frutos pretos que esperava encontrar. Passou morno e harmonioso pela boca, com persistência mediana, mostrando uma estrutura já completamente madura. Para o meu gosto, não passou ainda o momento ideal de consumo. Porém, já não é o vinho que foi em novo. E daqui em diante, espera-se que tome o caminho descendente.

8€.

15,5

domingo, 26 de agosto de 2012

Venâncio da Costa Lima — Reserva '2008

Castelão de cor avermelhada, não muito carregada. A respectiva ficha técnica, disponível no sítio que o produtor mantém na internet, indica que fermentou com maceração prolongada e estagiou durante 8 meses em carvalho francês antes do engarrafamento (o contra-rótulo refere apenas 6 meses de estágio). Inicialmente a parecer querer afastar-se do lado mais melado da casta, o que acabou por não confirmar, mostrou-se, no entanto, sempre muito fresco, de estrutura firme, com boas notas de frutos silvestres bem maduros, vermelhos, especiarias quentes, algum químico aromático, a fazer lembrar cola, e interessantes notas florais, vincado aroma a alfazema. Intenso, de final longo. Acompanhou bife da vazia, grelhado, guarnecido com batata frita e salada — ligação tão previsível quanto feliz.

7€.

16

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Kruder & Dorfmeister — The K & D Sessions

Foi um sonho recorrente ainda durante algum tempo. Dois anos ou três, talvez mais, já não consigo precisar. Estava longe, numa planície gelada e deserta. Não havia neve, não havia terra. Nem qualquer forma de vida, ou mesmo pedras. A imensidão da planície, completamente destituída de relevo, era avassaladora. Não descortinava sequer o perfil de uma montanha ao longe. Encontrava-me no meu Limbo pessoal, esse lugar que não é Céu, nem Terra, nem Inferno e onde dizem penar certas almas. Sozinho e talvez perdido, embora duvide que quando acontecia me sentisse mal com isso. Digo-o baseado na suposição de que tal teria gerado stress, e eu acordado e pensado no assunto. E agora, provavelmente, lembrar-me-ia. Não, só e perdido no meio do nada, curioso nada esse que fabricava, às vezes com coisas "não relacionadas" a entrarem-me pelos ouvidos. Podia ser a música que estava a ouvir ou outra coisa qualquer. Mais tarde, no princípio da fase má, comecei a encontrar elementos de dor neste lugar, mas no princípio, em '98, por exemplo, era, para mim, talvez o único verdadeiro recanto de paz disponível. Pelo menos, o melhor. E as coisas que a dada altura fiz para tentar chegar lá! Coitadinho :)


Enfim, dei por mim a ouvir este grande álbum e ocorreram-me as notas supra. O remix de Roni Size, Heroes, que aí deixo para quem quiser ouvir, continua a ser das minhas faixas de entrada preferidas. Devia tentar dizer mais?

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Adega de Borba '2011 (Branco)

Conforme percebi da ficha técnica que o produtor disponibiliza online, o mosto resultante o esmagamento das uvas Antão Vaz, Arinto e Roupeiro fermentou devagar, a temperatura relativamente baixa (falam de 14 dias a 18ºC). Deixaram-no descansar em cuba durante o Inverno e depois engarrafaram-no, tendo a produção atingido o milhão de unidades. Notável.

Cor pálida. Gordinho mas fresco, com acidez a morder ao de leve a ponta da língua e um final citrino e vagamente alcoólico. Maçã e pêssego pareceram-me predominar, e ananás, não abacaxi, também notei. Pelo meio, as possibilidades perdidas de fazer lembrar muitas outras coisas — por mais que isto tenha a sua quota-parte de objectividade, é preciso haver disposição!

No princípio, tinha um preconceito fodido contra os brancos do Alentejo. Pareciam-me sempre mais chochos e pesados que o recomendável, e quase certamente que mais chochos e pesados do que realmente eram, também. Com o passar do tempo, fui constatando que, afinal, as coisas não se passavam bem assim. Só que, comigo, um filme, quando dura, dura! E sei que o caminho para me reconquistar, embora longo, passa por muitos vinhos simples e bem feitos, para o dia-a-dia, como este.

3€.

15