segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Conventual — Reserva '2008

Lote de Aragonês, Trincadeira e Alicante Bouschet, feito com maceração pós-fermentativa e estágio de 10 meses em barricas usadas de carvalho francês, pela Adega Coop. de Portalegre. Vinho mais intenso que volumoso, macio e aconchegante, mostrou boa fruta preta, alguma da qual já com sinais de transformação, especiarias e chocolate, este mais no fim de boca. Aparenta ter mantido o estilo do seu antecessor da colheita de 2006, já apreciado nestas páginas. Dei por ele pouco menos de 5€.

15

Portou-se bem quando emparelhado com costeleta do cachaço na brasa, e salsicha de porco e ervas, reboluda e bem curada, e pão com alho e azeite. Mas não se ficou por aí. De barriga cheia, deixei-me ficar a bebê-lo à frente do computador pela tarde dentro, de tal forma que boa parte dele acabou por ir sem outra companhia que não a de uns interessantes jogos de xadrez entre motores antigos. Se pudesse, passava assim o resto da vida!

sábado, 6 de outubro de 2012

Colinas '2006

A principle of wine commentating is that certain consumers wish to learn about actual wines to purchase and also wine culture. A tough fact is that the higher-earning demographic sectors buy more wine and also higher priced wine and they are busy people who want a businesslike presentation of wine list suggestions and wine stories. Often they are time-poor. It is pretty clear from browsing blogs that the commentators and readers are not time-poor and they have a predilection for cheaper wines. (...) I've spent a lot of time reading blog reviews of wines I know. There are two problems. First, the reviews are very long, with lots of personal lifestyle comment that is irrelevant to the wine. Second, the reviews are not very good; they are usually gushing in enthusiasm and technically poor. I've read wonderful accounts of taste in wine that i know is faulty and smelly (and beginners in my wine appreciation class picked up this unpleasant taste immediately, so I'm not being obscure). I found it difficult to get a calibration on quality, because writers use terms such as "sound", "good booze", "serious booze", and a browser can't get a relative rating. in Writers, Bloggers & Tweeters, artigo de Andrew Corrigan, MW, na Winestate 33/4 de Jul/Ago 2010. E é mentira? Não estranhem a introdução: pouco tendo para vos dizer, sobre este vinho ou o que quer que seja, pareceu-me que a citação supra aqui encaixava como uma luva.

O vinho, bairradino, foi produzido e engarrafado por Colinas de S. Lourenço, de S. Loureço do Bairro, Anadia, ainda no tempo de Sílvio Cerveira. Não apurei quase nada sobre ele, também, mas não só, porque não perguntei. Do contra-rótulo, só a parte em português são 9 linhas cheias de nada e www.colinas.pt está offline. O seu correspondente de 2007 aparece explicado no sítio que a Idealdrinks mantém na internet, mas sobre este... Li por aí que terá levado Touriga Nacional, Baga, Merlot e mais qualquer coisa; depreendi da prova a possibilidade de ter passado algum tipo de estágio em madeira, à partida, curto. De cor ainda rubi, mostrou alguma fruta preta genérica, mas boa, secundada por notas de pinho, menta e baunilha. Mais forte que gordo, retendo algum do carácter que a influência atlântica traz aos vinhos da região, pareceu-me, no entanto, bastante acessível. Como se fosse um tipo grande e sério, mas simpático. (Como a comparação não surgiu espontaneamente no feminino, presumo tê-lo sentido um vinho masculino.) Enfim, adiante. A caminho da meia dúzia de anos, continua relativamente jovem, e nada indica que se vá estragar tão depressa. Termino bem à blogger: não tendo ficado espantado, gostei.

5€.

15,5

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Sempre colado ao muro (boa idéia, ter vestido a roupa clara) o ladrão aproximou-se dos sete esquifes. O primeiro deles, bem à frente do portão da entrada, era preto e havia sido trazido às cinco da tarde. O seguinte — o claro e pequeno — era o que procurava. Ajoelhou-se ao pé dele, desatarraxou-lhe a tampa e, contendo a respiração, ergueu-a, fazendo-a depois escorregar de mansinho para um lado. Tirou a lanterna do bolso e acendeu-a. Focou primeiro as mãos da morta, pois ouvira falar no famoso solitário de brilhante — Opa! Naqueles dedos cor de cera de abelha não viu nenhum anel. Os pulsos estavam sem pulseiras. Iluminou o peito da defunta e não viu nenhum broche. No pescoço, nenhum colar... Numa  relutância supersticiosa focou o rosto do cadáver da dama e estremeceu. Os olhos dela estavam abertos, seus lábios começaram a mover-se e deles saiu primeiro um ronco e depois estas palavras, nítidas: "Senhor, em vossas mãos entrego a minha alma". O ladrão soltou um grito abafado, ergueu-se rácido, deixou cair a lanterna acesa e o pé-de-cabra, e rompeu a correr na direção dos campos desertos...

Quando viva, Quitéria Campolargo gostava de ficar às vezes contemplando o céu da noite — "garimpando estrelas", como ela própria costumava dizer. Era uma espécie de jogo divertido que de certo modo a aproximava mais de Deus. Mantinha longos namoros com as constelações — Orion, o Cão Maior, o Sagitário, o Triângulo Austral, o Centauro e principalmente o Cruzeiro do Sul que, por misteriosas artes do coração e da memória, ela não considerava uma constelação universal, mas parte do patrimônio brasileiro. Quando lhe acontecia alguma coisa que a entristecia, levando-a a descrer das criaturas humanas, ela procurava no céu o Escorpião e, se ele já estivesse visível, localizava a estrela Antares, pensava no seu diâmetro mais de quatrocentas vezes maior que o do Sol, comparava essas grandezas astronômicas com as mesquinharias de sua terra e de sua gente e acabava encontrando no confronto um profundo consolo que a punha de novo em paz com o mundo e a vida. E sempre que se sentia melancólica ou entediada e vinham dizer-lhe que alguém a chamava ao telefone, respondia: "Diga que não estou em casa, que fui para Aldebarã..."

Agora, estendida no seu esquife, D. Quitéria está de olhos abertos e parece contemplar um pedaço do firmamento da madrugada. Apalpa as contas do rosário, que tem entre as mãos enlaçadas, e seus lábios se movem formando as palavras duma prece.

Um vaga-lume esvoaça no campo de sua visão e acaba pousando na ponta de seu nariz. Ela o enxota com um movimento de cabeça. Depois, agarrando ambas as bordas do caixão, soergue-se devagarinho, permanece um instante sentada, olhando em torno — a solidão da esplanada e da noite, e aquela mancha luminosa e redonda num muro branco...


 Érico Veríssimo, Incidente em Antares, 1971

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Lavradores de Feitoria — Três Bagos '2007

"Um vinho de lote, proveniente das quintas associadas à empresa, distribuídas pelas três sub-regiões da região demarcada do Douro", nas palavras do produtor. Tinta Roriz, Touriga Nacional e Touriga Franca. Circunspecto, algo verde e duro, mau grado a franqueza com que se deixou beber. De relevar alguns bons apontamentos de frutos silvestres, também em compota, a par de cacau e especiarias, químico pesado, alcatrão, e fumo. Na boca, frescura e rugosidade. Manteve o estilo do seu antecessor de 2005, mas estará um furo acima dele.

Bebi-o com pernil fumado, primeiro cozido, depois levado ao forno com acompanhamentos vários. Algo mais ou menos assim. E o conjunto, de facto, não desiludiu.

7€.

15,5

domingo, 30 de setembro de 2012

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Reguengos — Reserva '2009

Versão de 2009 do tinto Reserva produzido pela coop. de Reguengos de Monsaraz. Lote de Trincadeira, Aragonês, Tinta Caiada e Alicante Bouschet, fermentou com curtimenta, tendo posteriormente descansado "de um a dois anos", conforme reza a respectiva ficha técnica, parte em depósitos de grande capacidade, parte em barricas de carvalho português e francês.

Franco, trouxe consigo boa fruta negra, fresca e madura, passas, um toque de especiaria, equilíbrio, alguma estrutura e um final razoável. Tanto quanto me pareceu, manteve o perfil fresco e jovem dos seus predecessores de 2007 e 2008, pouco diferindo deste último.

Acompanhou o nosso histórico frango com cogumelos e vinho tinto, que nunca desilude, desta vez acompanhado de batatas assadas com alecrim — aí fica uma possível receita, para os interessados.

4€.

15,5

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Catedral — Encruzado '2010

Varietal Encruzado das Caves Velhas. A respectiva ficha técnica refere "desengaçe total, prensagem pneumática, defecação estática natural [ou seja, débourbage, clarificação do mosto por floculação e sedimentação das partes sólidas, antes da fermentação] e fermentação alcoólica a 16ºC". Surpreendeu a ausência de nota a qualquer tipo de passagem por madeira, posto o que percebi do vinho quando o bebi — e sim, estou perfeitamente consciente de que posso ter percebido pouco ou mal.

Cor esmaecida. Simples mas agradável no nariz, com discreta acidez citrina a envolver frutos de polpa branca e suaves notas de baunilha a temperar o conjunto. Na boca, algum frescor, o suficiente, ia acompanhando a untuosidade que caracteriza os varietais da casta e que aqui apareceu com alguma timidez. Apesar de algumas impressões bonitas e do equilíbrio global evidenciado, a imagem que dele no fim prevaleceu foi a de um vinho pequeno e porventura mais débil que delicado, passe o abuso semântico. Acompanhou salema no forno, com batatas, que desta vez não terá provocado, tanto quanto conseguimos perceber, qualquer efeito ictioalienotóxico.

5€.

15

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Sobre as gajas burras (e outros pequenos animalejos desta casta)

I would more willingly, quoth Panurge, consult with and be advised by a dumb woman, were it not that I am afraid of two things. The first is, that the greater part of women, whatever be that they see, do always represent unto their fancies, think, and imagine, that it hath some relation to the sugared entering of the goodly ithyphallos, and graffing in the cleft of the overturned tree the quickset imp of the pin of copulation. Whatever signs, shows, or gestures we shall make, or whatever our behaviour, carriage, or demeanour shall happen to be in their view and presence, they will interpret the whole in reference to the act of androgynation and the culbutizing exercise, by which means we shall be abusively disappointed of our designs, in regard that she will take all our signs for nothing else but tokens and representations of our desire to entice her unto the lists of a Cyprian combat or catsenconny skirmish. Do you remember what happened at Rome two hundred and threescore years after the foundation thereof? A young Roman gentleman encountering by chance, at the foot of Mount Celion, with a beautiful Latin lady named Verona, who from her very cradle upwards had always been both deaf and dumb, very civilly asked her, not without a chironomatic Italianizing of his demand, with various jectigation of his fingers and other gesticulations as yet customary amongst the speakers of that country, what senators in her descent from the top of the hill she had met with going up thither. For you are to conceive that he, knowing no more of her deafness than dumbness, was ignorant of both. She in the meantime, who neither heard nor understood so much as one word of what he had said, straight imagined, by all that she could apprehend in the lovely gesture of his manual signs, that what he then required of her was what herself had a great mind to, even that which a young man doth naturally desire of a woman. Then was it that by signs, which in all occurrences of venereal love are incomparably more attractive, valid, and efficacious than words, she beckoned to him to come along with her to her house; which when he had done, she drew him aside to a privy room, and then made a most lively alluring sign unto him to show that the game did please her. Whereupon, without any more advertisement, or so much as the uttering of one word on either side, they fell to and bringuardized it lustily.

The other cause of my being averse from consulting with dumb women is, that to our signs they would make no answer at all, but suddenly fall backwards in a divarication posture, to intimate thereby unto us the reality of their consent to the supposed motion of our tacit demands. Or if they should chance to make any countersigns responsory to our propositions, they would prove so foolish, impertinent, and ridiculous, that by them ourselves should easily judge their thoughts to have no excursion beyond the duffling academy. You know very well how at Brignoles, when the religious nun, Sister Fatbum, was made big with child by the young Stiffly-stand-to't, her pregnancy came to be known, and she cited by the abbess, and, in a full convention of the convent, accused of incest. Her excuse was that she did not consent thereto, but that it was done by the violence and impetuous force of the Friar Stiffly-stand-to't. Hereto the abbess very austerely replying, Thou naughty wicked girl, why didst thou not cry, A rape, a rape! then should all of us have run to thy succour. Her answer was that the rape was committed in the dortour, where she durst not cry because it was a place of sempiternal silence. But, quoth the abbess, thou roguish wench, why didst not thou then make some sign to those that were in the next chamber beside thee? To this she answered that with her buttocks she made a sign unto them as vigorously as she could, yet never one of them did so much as offer to come to her help and assistance. But, quoth the abbess, thou scurvy baggage, why didst thou not tell it me immediately after the perpetration of the fact, that so we might orderly, regularly, and canonically have accused him? I would have done so, had the case been mine, for the clearer manifestation of mine innocency. I truly, madam, would have done the like with all my heart and soul, quoth Sister Fatbum, but that fearing I should remain in sin, and in the hazard of eternal damnation, if prevented by a sudden death, I did confess myself to the father friar before he went out of the room, who, for my penance, enjoined me not to tell it, or reveal the matter unto any. It were a most enormous and horrid offence, detestable before God and the angels, to reveal a confession. Such an abominable wickedness would have possibly brought down fire from heaven, wherewith to have burnt the whole nunnery, and sent us all headlong to the bottomless pit, to bear company with Korah, Dathan, and Abiram.

You will not, quoth Pantagruel, with all your jesting, make me laugh. I know that all the monks, friars, and nuns had rather violate and infringe the highest of the commandments of God than break the least of their provincial statutes. Take you therefore Goatsnose, a man very fit for your present purpose; for he is, and hath been, both dumb and deaf from the very remotest infancy of his childhood.



F. Rabelais, Gargantua and Pantagruel, Book III, ed. 1546, trad. por Sir Thomas Urquhart of Cromarty e Peter Antony Motteux, 1693.

sábado, 22 de setembro de 2012

Amoras — Reserva '2008

Outro vinho consensual, que me deixou a ideia de ser melhor bebido jovem, este tinto da Casa Santos Lima, de Alenquer. O contra-rótulo diz serem a Touriga Nacional, o Castelão e o Syrah os constituintes principais do lote, que após a vinificação passou 9 meses em barricas de carvalho português e francês.

Fruta negra no ataque, doce, com traços de compota, sempre a par de algum álcool. Caramelo e chocolate de leite com a evolução no copo. Passou fácil na boca, sem grande volume mas boa concentração de sabores, acidez equilibrada e taninos maduros. Final mediano.

Acompanhou a nossa piza, desta vez com uma variação ao nível da massa, que levou alguma farinha integral e foi polvilhada com carolo de milho, aquando da montagem, como vimos certo tasqueiro de sucesso explicar num episódio recente de Diners, Drive-Ins and Dives.

2€.

14,5



terça-feira, 18 de setembro de 2012

Flor de Nelas — Reserva '2008

Quando este vinho se popularizou, há um ano ou ano e meio atrás, mais coisa menos coisa, foi provado por quase todos os i-enófilos da nossa praça, tendo os elogios sido unânimes. Era um honesto tinto do Dão, sóbrio, com fruta e equilíbrio, a que se adivinhava alguma capacidade de guarda, e custava mais ou menos 3€ por garrafa, sendo que por vezes era possível adquiri-lo em regime de "leve dois, pague um".

Ora, na altura também o provei, mas não publiquei nada. E isto porque apesar da sua incontornável relação qualidade/preço, não me convenceu. Embora fosse um vinho limpo, sem pontas soltas, apresentava certo abaunilhado parasita, mais límpido que intenso, é verdade, mas terrivelmente deslocado, a tingir o conjunto de artificialidade. Algo que, sem ser inédito ou objectivamente feio, e que, pior ainda, não constituiu objecção noutras situações, ali, por algum motivo, me causou não negligenciável dose de repulsa. E não voltei a ele, talvez pela experiência menos boa, talvez pela diversidade de coisas para provar e beber, talvez por preconceito, talvez por um pouco de tudo isto e mais.

No que concerne ao preconceito, importa relevar que não o sinto — acho — relativamente a este vinho ou aos seus congéneres de marca branca em geral, antes ao caminho que na maioria das vezes os levam a tomar. O distribuidor x pretende vender n garrafas de um vinho dirigido ao público y num determinado intervalo de tempo. Uns contactos depois, algum produtor, usualmente conhecido, de dimensão considerável, aloca à tarefa parte do seu mar de vinho excedentário, a preço de saldo. Inventam um rótulo, emprestam-lhe elementos que — esperam — o vão aproximar do respectivo público-alvo. Normalmente, as manobras de lançamento ficam por aí. A relação qualidade/preço vai fazer o resto.

Este processo terá as suas semelhanças com o de construir um personagem, e poucos são os personagens convincentes que foram inventados de um dia para o outro. Que representam estas marcas? Que garantem? Que implicam a médio ou longo prazo, tanto para a concorrência como para o consumidor? Só que estas são questões que, por norma, a audiência não costuma colocar. A saúde do mercado pouco lhe diz, os seus problemas são outros. Premiar a inovação? A perseverança? Valores? Meh. Nasceu mais uma estrela das prateleiras dos hipermercados.

Acontece que isto me deixa doente, e não sei porquê. Porque reconheço que se trata de um recurso legítimo, compreensível e até desejável, nem que seja porque um produtor não pode comer princípios ou pagar aos seus fornecedores com, por exemplo, distinção. Se é verdade que um produtor mítico, falido, está condenado a desaparecer, deixando de fazer as coisas que o tornaram mítico, tenha muita ou pouca originalidade, história, ou o que for, e se, tantas vezes, é preciso recorrer a isto para rentabilizar o negócio, porquê achar feio? Que merda de mundo este!

Enfim, voltando ao tinto que serviu de mote a estas divagações, aconteceu que há dias, também não vos sei dizer porquê, de passagem por um Lidl aqui das redondezas, voltei a trazê-lo comigo. Abri-o sem reservas e gostei. Acima de tudo, claro, porque a madeira me pareceu ter-se fundido no corpo do vinho. Comparando com há um ano e meio atrás, se a fruta perdeu viço, ganhou notas de evolução e a companhia de um leque de especiarias quentes e escuras, de bosque, humidade, não mais aquela irritante vanilina de síntese. Ligeiras notas de pele. Delgadito, algo curto, ainda fresco. De facto, não dá para dizer mal.

15,5