domingo, 11 de novembro de 2012

Bétula '2011

Bétula, da Quinta do Torgal, Barrô. Mais uma vez, mistura em partes iguais de Viognier fermentado em madeira e Sauvignon Blanc em inox. Segundo a respectiva ficha técnica, da vindima de 2011, resultaram 5000 garrafas.

Perfumado, limpo, complexo e cambiante, mostrou notas de nectarina, ananás e pêssego branco, mas também amêndoa, base de folhado e manteiga. Na boca, concentração e persistência, firmeza e frescor — ainda mais que na edição do ano passado, já de si excelente. Quando o produtor o enviou para prova, no princípio de Julho, recomendou-me que não fosse logo bebido, uma vez que havia sido engarrafado há pouco tempo. Passaram quatro meses, não podia aguardar mais para aqui deixar os meus apontamentos sobre ele. Mas, provavelmente, para o ver no seu melhor, não será ainda agora.

12-15€.

17,5

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

René Barbier — Reserva '2006

Catalão do Penedès, denominação de origem dos vinhos produzidos na zona situada entre as províncias de Barcelona e Tarragona. 85% Tempranillo, 15% Cabernet Sauvignon, consta que passou 14 meses em madeira antes de ser engarrafado. Apesar do nome, a marca pertence ao grupo Freixenet. Não tem nada a ver com Clos Mogador. Coisas do mundo.

Cor granada. Maduro, mas sempre, essencialmente, seco e coeso. Simples e relativamente ligeiro, apesar da expressão séria e do inegável equilíbrio apresentado, nunca deixou grande espaço para a imaginação: base de ameixa preta, seca e madura, algum pimento, baunilha, talvez também alcaçuz e, claro, tosta e café, torrefacção.

Cumpriu sem reservas, chegada a hora de acompanhar um daqueles jantares simples, de todos os dias: sopa de cenoura e abóbora com umas rodelas de chouriço, pão escuro, batatas fritas e moelas de pato.

6€.

15

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

CARM '2010

O presente vem do Douro Superior, de Almendra, Vila Nova de Foz Côa. Consiste, dizem, num lote de Touriga Nacional, Tinta Roriz e Touriga Franca, em partes aproximadamente iguais, uvas provenientes de várias propriedades da empresa que o produz, desengaçadas e fermentadas em cubas, com parte do vinho a fazer a maloláctica em madeira. Depois, um ano em barricas de carvalho americano e francês.

No nariz, o Douro: a expressão da fruta preta, ameixa e cereja, o mato seco, a flor de esteva. O sabor, sólido, com fruta, segue o cheiro. Apesar de ainda algo fechado, com ligeira aresta e acidez vivaz, deu uma prova bem agradável.

Bebi-o com peito de pato temperado com ervas (a S. é que sabe quais) e selado no panelão, com brandy de Jerez. Foda-se!

7€.

15,5

sábado, 3 de novembro de 2012

Quinta de la Rosa '2009

É o tinto padrão da quinta que lhe dá o nome. O contra-rótulo fala simples e claro: "empresa familiar, uvas de letra "A", Tinta Roriz, Touriga Nacional e Touriga Franca, apanha manual, envelhecido em cascos de carvalho francês", o que, sem deixar de ser boa publicidade ao produto da casa, é sem dúvida bem mais esclarecedor que certas merdas mega floreadas que se lêem em alguns dos seus pares.

Do vinho, gostei. Muito escuro. Grande e bem dimensionado, basto em sobriedade e persistência, e ao mesmo tempo fino, elegante mesmo. Ainda algo fechado, a prometer compensar a paciência daqueles que o deixarem repousar durante mais alguns anos. Com ginja, cereja preta e ameixa, fruta viva e fresca, às vezes com ligeiro toque lácteo e secundada por notas envolventes de toffee e baunilha. Trouxe de volta, por momentos, os (não tão) bons velhos tempos.

9€.

16,5

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Pulo do Lobo — Antão Vaz '2010

Pulo do Lobo é um lugar escarpado, a montante de Mértola, onde o rio Guadiana se estreita de tal forma que, dizem, os lobos aproveitavam para saltar entre margens. Outra lenda fala de um camponês que se transformava em lobo para ir ter com a princesa do seu coração. No fim, parece que morreram os dois. A sério. De qualquer forma, relevante será tratar-se de um lugar invulgarmente bonito, que merece uma visita.

O vinho, da Soc. Agrícola de Pias, monocasta Antão Vaz vinificado em bica aberta e engarrafado sem passagem por madeira, apareceu como esperado, simples e gordinho, com cheiros maduros, essencialmente tropicais, até um pouco pesados. Bastante fresco na boca, no entanto, mesmo agora, que já tem dois anos.

Foi com robalo, grelhado na brasa, só com um molho de sumo de limão, azeite, sal, louro e pimenta preta. Portou-se bem.

O preço surpreende, não chega aos 3€.

15,5

sábado, 27 de outubro de 2012

Velharias (34)

Estava em casa com M, sem nada que fazer. Enfim, mais uma noite de ganza, igual a tantas outras. Resolvemos ir beber um copo ao Dixie.

Assim que entrámos, tive o desprazer de descobrir o bar invadido por um grupo de jovens felizes, armados com uma guitarra. Tão desinibidos se mostravam, cantando e tocando à vontade sem a mínima objecção do barman que, a princípio, pensei tratar-se de uma banda ali caída em noite de copos com os amigos.

Talvez! O certo é que não se calaram nas quase duas horas que lá permaneci. Devíamos ir a meio do segundo ou terceiro fino quando, talvez por coincidência, lá chegou o meu primo T, que também não tardou a mostrar-se perturbado pelos jovens vivos.

Felizmente, o andar de cima ficou vago pouco depois. Pudemos finalmente mudar-nos para um lugar de onde já não podíamos ver aquelas criaturas. Quanto a ouvi-las, a história era outra.

Impossível não pensar neles, foda-se. Putos novos, alegres, que vão beber ice-tea entre dois dedos de conversa e muitas cantorias ao bar dos pseudos, da cena gay "30-50", do underground politicamente correcto.

— Pá, de onde é que saíram estes gajos? — atirei para a mesa. — Pá, são o pessoal do grupo de jovens, respondeu T. — Grupo de jovens? — insisti — Como o INTERACT? Parecem mais indie kids à solta. — Que merda é essa?

Achei algo estranho que T não soubesse o que era o INTERACT, muito menos indie kids, mas também não havia de ser eu a perder tempo a explicar-lhe. — Pá, o INTERACT é um grupo de jovens.

M e T jamais se darão bem. Sair com os dois faz-me voltar aos tempos do liceu, onde tínhamos turmas divididas em grupos de amigos segundo a lógica das matilhas: os do meu grupo são meus amigos, os dos outros grupos, em princípio, não. E assim partilhamos uma mesa, em silêncio, porque dois dos meus bons amigos se detestam. Ambos me respondem, mas, entre eles, a conversa não flui. T acha M desprezível, M acha T um verdadeiro imbecil. E ambos têm razão.

Os jovens do grupo de jovens. Fascinante. Aproveitei o intervalo entre duas dentadas numa tosta para acender um Virginia fornecido por T. Reparei que me fitava enquanto acendia o cigarro. — Sim, sou um porco. A besta, a fumar e a comer.

M também comia, não respondeu. T notou que "aqueles lá de baixo" não comiam nem bebiam. Saíam para estar juntos, ao invés de se consumirem em grupo, como nós. Num repente, pareceu-me bem partilhar que gostaria de ir ter com os putos. — São limpos, sobretudo as gajas. Gostava de conhecer alguns. Chegava aos trinta gordo e feliz, com um puto no mundo.

T continuava de olhos presos em mim, e assim permaneceu mais um bom bocado, antes de responder: — Não quero que sejas infeliz. Começa a frequentar o CUMN, ou o Justiça e Paz, logo fazes novos amigos. — Duvido — e acendi outro cigarro. — Já não tenho paciência para conhecer pessoas. E eles iam achar-me montes de estranho, também não iam gostar. — Tu és o Drácula — cortou M, taxativo.

Lá em baixo, a vida cantava a vida, a "Casinha", os "Filhos da Nação" e outras merdas assim. A dada altura, uma jovem viva, fresca e talvez pura como uma rosa, propôs um brinde às pessoas que não têm vergonha na cara. Brindaram com a algazarra contida dos meninos limpinhos e continuaram, ora a falar ora a cantar, como se as pilhas não acabassem senão quando a noite os comesse.

Entretanto, nós vegetávamos no piso de cima, quase sempre calados. Para o fim, T brincava com o telemóvel enquanto M bebia como se fosse o seu último dia neste mundo. Como de costume.

— Vais pedir outro? —perguntei-lhe. — Ainda aí tens metade.

Respondeu-me que os finos eram coisas vivas, unidades vitais, por assim dizer. Emborcou o resto do que tinha por diante antes de continuar:

— É esquisito ter à frente um copo vazio. Um cadáver.
— É esquisita a impressão de estarmos a beber um reflexo de nós próprios — retorqui com um sorriso.

Fomo-nos embora por volta das quatro menos dez.

23/10/2003

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Dona Maria '2008

Alentejano de Estremoz, produzido por Júlio Tassara de Bastos na Quinta do Carmo (ou Quinta Dona Maria). Composto por 50% de Aragonês, 20% de Cabernet Sauvignon, 15% de Alicante Bouschet e outro tanto de Syrah provenientes de cepas implantadas em solos argilosos e calcários, foi engarrafado em Abril de 2011, após estágio de meio ano em barricas de carvalho francês e americano. Desta colheita de 2008, resultaram 114000 garrafas.

Nariz bonito, perfumado por bosque e especiarias. A fruta, preta, ameixa e assim, bem envolvida pelo demais, sem tostados ou fumados a quererem destaque, o cipreste, as notas de Cabernet, o vago floral que vai aparecendo em segundo plano, tudo muito agradável. Na boca mostrou-se um vinho sápido, de boa intensidade, com alguma estrutura, largura e final. Peso médio com um extra de complexidade, pareceu-me porreiro.

7,5€.

16

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Taylor's — LBV '2005

Primeiro fez lembrar cereja e ameixa, cobertas de chocolate com passas e pimenta preta. Com o tempo, percebi alcatrão, coisa pesada, de pendor mais vegetal. Bem firme e persistente na boca, com fruta carnuda, bonita, e o álcool a notar-se um bocado, sobretudo no final. Melhor ao segundo dia, e no seguinte, mais solto, mais expressivo, ou pelo menos foi o que me pareceu.

Veio vedado com uma daquelas rolhas que têm o topo de plástico, fácil de puxar, o que logo sugeriu tratar-se de um LBV filtrado, pensado para consumo imediato. Posteriormente, o resto veio a confirmá-lo. E a ser assim, embora este vinho, como coisa viva, programada para morrer, vá envelhecer na garrafa, existem boas possibilidades de tal amadurecimento não se revelar proveitoso — só por si, o polir de umas arestas acaba por não compensar a fruta e força que se perdem. Em todo o caso, pareceu-me um dos melhores LBV dos últimos tempos.

12€.

16,5