terça-feira, 29 de janeiro de 2013

The Velvet Underground — Loaded

14/1/2002. Gosto de droga. Nos últimos dias, pouco tenho feito para além do acto de consumir. De certa forma, isso entristece-me, mais do que por me sentir encaminhado para uma dependência a que não sei se conseguirei escapar, porque faz tempo que ela não me traz nada de novo.

Os estupefacientes, parece-me, agem pela indução de certos estados de espírito; aquilo que de objectivo possa advir desses estados tem muito mais do indivíduo que do efeito per se da substância. E se a princípio as drogas me pareciam engraçadas, mais que pelas sensações imediatas, pelos sentimentos que despertavam, devo confessar que tal já não acontece.

Mesmo assim, a vida continua. Na última sexta-feira, comprei 25€ de erva brasileira a um amigo e fui para casa ganzar-me sozinho, como de costume.

O ritual de preparação de um cigarro de marijuana é sempre o mesmo. Fiz quatro unidades com mortalhas king size, apenas um pouco de tabaco a servir de tempero, e condensadores descartáveis, aqueles que se aplicam nos cachimbos, na função de filtro, em vez do mais comum bocadinho de cartão enrolado em "s".

Pus o Loaded a tocar, diminuí a intensidade das luzes e deitei-me em cima da cama, caderno e esferográfica ao lado, acendendo logo de seguida o primeiro da noite.

[Carregar no play, sff.]


Fumei-o em pouco menos de vinte minutos. Não fiz intervalo entre o primeiro e o segundo, que acendi imediatamente. Lembro-me de ficar completamente imóvel, de olhos semicerrados, atento à música.

I found a reason to keep living / Oh and the reason, dear, is you / I found a reason to keep singing / Oh and the reason, dear, is you / Oh I do believe / If you don't like things you live / For some place you never gone before.

Sorriso plácido. A planície imensa, gelada e deserta, longe de tudo. Sem neve, sem terra. Nem uma montanha ao longe. E eu sozinho, filme envolvente, cabeça parada. Escrevi que nunca me senti tão bem!

Mas o disco acabou. O meu universo de ocasião desmoronou-se perante um eu perplexo, quase em estado de choque, e acordei de lágrimas nos olhos, ainda que nem sequer tivesse chegado a adormecer.

Levantei-me a custo, recolhi o disco e acendi o terceiro cigarro. Reparei que ainda tinha por consumir metade das doses de droga que preparara. Viva, Viva! Já estou todo fodido e ainda me falta outro tanto!

Que momento de glória! Naquele momento, senti que ninguém me podia fazer mal, que estava seguro, como quando era criança e jogava futebol com os bonecos que vinham nos bolos de aniversário e uma bola de grão de bico, alheio ao mundo de feras que me aguardava lá fora.

Quando dei por mim, estava a espojar-me no chão do quarto, a entoar risadas ridículas, todo babado, o cigarro apagado ainda na boca. De volta ao mundo do mundo, levantei-me e acendi-o outra vez. Depois sentei-me no parapeito interior da janela, a olhar para o céu.

O resto da erva esfumou-se num ápice. Nessa altura, apesar de muito drogado, sentia-me lúcido e com vontade de descrever just in time aquilo que sentia. O meu filme. Foi o que fiz.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Filipa Pato — Baga & Touriga Nacional '2009

Mistura de Baga (75%) com Touriga Nacional, provenientes de cepas com idades compreendidas entre os 20 e os 25 anos, criadas em solos argilosos e calcários, este tinto fermentou em lagares de carvalho francês e em tanques de inox, tendo posteriormente estagiado em madeira. A autora é filha do conhecido Luís Pato.

Marcadamente atlântico, mas não verde. Volvido o primeiro impacto, algo austero, mostrou bastante fruta, preta, groselha e coisas parecidas, junto com sugestões fumadas e de caramelo e café. Aparte a possível margem de evolução que nunca é de excluir nos vinhos da região, pareceu-me num bom momento para ser consumido.

Bebi-o com entrecosto, salsichas silesianas (kiełbasa Slaska) do Pingo Doce, cebola roxa e batatinhas vermelhas, tudo assado.

7€.

16

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Quinta de la Rosa — Tawny 10 Anos (Tonel nº12)

A referência ao tonel nº12, informa o produtor, remete-nos para um tonel de 25 pipas que a família Bergqvist tinha armazenado na cave, por baixo da casa, e de onde abastecia directamente a sua garrafeira deste tipo de vinho.

Engarrafado em 2010. Cor granada, escura para tawny. Aroma intenso a nozes pouco frescas e figos em passa, notas iodadas, evolução. O sabor retém bastante fruta não transformada, mais que o que a prova de nariz faria prever. Ameixa, talvez, e figo, de certeza. Enfim, não sendo um "dez anos" dos mais finos ou complexos, mostra pontos de interesse suficientes para justificar visitas futuras.

E com isto, ainda estou por descobrir o vinho desta quinta que me deixe "meh". Começo a convencer-me de que tal coisa poderá não existir.

17€.

16

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Quinta da Nave '2009

Produzido e engarrafado pela Soc. Agrícola Três Irmãs, de Valverde, Fundão, consiste num lote de Touriga Nacional, Touriga Franca e Tinta Roriz, estagiado em carvalho francês durante seis meses.

À semelhança do vinho do post anterior, do qual terá de se considerar próximo, apenas, a meu ver, um furo acima, trouxe consigo basta quantidade de fruta madura, parcialmente compotada, com fumados e baunilha de barrica a compor (esta última, no outro, não encontrei). Sério, dotado de alguma amplitude e robustez.

Também aparentou preferir a presença de comida com substância. Para terminar, o inevitável reparo à falta de projecção que aparenta ter, pelo menos na web, o que é, em todo o caso, uma pena.

4€.

15,5

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Quinta dos Termos '2009

Neste post e no próximo, dois tintos colheita da Cova da Beira, já a caminho dos três anos. Este, proposta de entrada de gama da quinta que lhe dá o nome, foi feito a partir de Rufete, Touriga Nacional, Trincadeira Preta e Jaen.

Maduro mas não requentado, mostrou cheiros por vezes algo carregados, com compota de frutos silvestres, vermelhos, algum fumo, indício de breve estágio em madeira, e um interessante toque especiado, quente e picante. Na boca, sabor seco, alguma estrutura, acidez suficiente, simplicidade e equilíbrio q.b.. O final, longo e bom, quase surpreendente. Embora tenha deixado claro ainda poder viver em garrafa, será de questionar o que poderão mais alguns anos de envelhecimento adicional trazer-lhe de positivo, tanto mais que agora aparenta estar no ponto, ou perto.

4€.

15

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Granja-Amareleja — Moreto "Pé-Franco" ' 2009

Varietal de Moreto antigo, não enxertado. O contra-rótulo chama à casta "o ex-libris da viticultura da margem esquerda do Guadiana".

Por os seus vinhos costumarem ser relativamente parcos em cor e corpo, é habitual loteá-los com outros. Não é o que acontece neste caso.

Mais sério que o Alfrocheiro do post anterior, partilha com ele a ameixa, a amora preta, a estrutura firme e o volume mediano.

Aqui, contudo, os taninos estão mais finos e polidos, bem enrolados no corpo do vinho, e não existe ponta de doçura. Aliás, marca-o um verdor algo agreste, que a mim, pessoalmente, agrada bastante.

De salientar, ainda, a sua muito boa acidez, que equilibra 14% de álcool sem que algum deles (ou o seu confronto) chame a si demasiada atenção.

Posto isto, será inevitável concluir que muito mais que uma curiosidade, este é um bom vinho.

Acompanhou uma receita simples de peito de pato no forno e cogumelos shimeji salteados em manteiga.

12€.

16,5

domingo, 6 de janeiro de 2013

Granja-Amareleja — Alfrocheiro ' 2009

Varietal Alfrocheiro da Coop. Agrícola de Granja, estagiado durante um ano em barricas de carvalho francês.

Foi vertido directamente da garrafa, a acompanhar peito de frango panado, com batatas fritas e molhos vários.

Para um deles, juntaram-se dois dentes de alho, picados, a um pouco de sumo de lima, azeite e alguma maionese. Mexeu-se e foi para a mesa.

Para outro, descaroçaram-se umas azeitonas que depois se cortaram em rodelas finas e se misturaram com maionese e um pouco de azeite.

Outros ainda foram comprados.

O vinho, maduro e fino, com montes de cheiro a amora preta e uma mineralidade muito particular. Madeira, quase não senti.

Sem grande potência ou complexidade, transmitiu em expressão correcta o lado delicado da casta. Bonito e inequivocamente original, deixou, no entanto, que o dono o bebesse pacificamente, quase sem pensar. E isso só pode ser bom.

Doze horas depois, servido num balão maior e mais bojudo, tipo Borgonha, mostrou-se ainda mais doce. Mais flores, mais ameixa, mais compota. Em termos de carácter, no entanto, praticamente igual.

Empurrou, então, caldo verde e broa de chouriço.

8€.

15,5

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Celeda — The Underground

No princípio, ficava mesmerizado com a aparência que as coisas tomavam sob as luzes das casas da noite. Fascinavam-me especialmente as luzes UV, que faziam as coisas brancas parecer ter luz própria e davam um aspecto peculiar aos fumos e partículas de cinza de tabaco que pairavam, suspensos, sobre a pista de dança.



L' é um sentimento. Frio, sem grandes características. Não frio como um gelado, mais como um sorvete, mas menos frio, esmagado ao ponto de ficar com uma consistência quase líquida, e a escorrer-me pelos miolos abaixo. Um sorvete azul e branco — como o casaco que costuma usar — que vem em camadas sobrepostas e alternadas. Curiosamente, o branco mistura-se no azul pois há camadas de azul muito mais claro que o original, enquanto o branco permanece branco. O branco mistura-se com o azul tornando-o mais claro, mas continua a ser branco, imaculado. O azul perde parte do seu carácter.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Periquita — Reserva '2010

De acordo com a respectiva ficha técnica, a composição deste tinto "Regional Península de Setúbal" é a seguinte: 38% de Castelão, 34% de Touriga Nacional e 28% de Touriga Francesa. As uvas, provenientes de cepas implantadas em solos arenosos, fermentaram com maceração, tendo o vinho daí resultante estagiado durante 8 meses em carvalho francês, novo e usado. O engarrafamento deu-se em Outubro de 2012. Da mesma marca, já por aqui passaram as edições de 2004, 2005 e 2009, sempre dentro do mesmo perfil e nível de qualidade.

Este não se distancia dos seus antecessores. Continua fácil e generoso, rico em fruta silvestre, negra, madura, até algo gulosa, a fazer lembrar figos e amoras, e outras, com toque de especiaria. Envolvente na prova de boca, de volume e persistência satisfatórios, com taninos bem trabalhados. Enfim, um vinho alegre, que certamente agradará a muitos.

8€.

16