terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

BSE '2012

Produzido desde 1947, este Branco Seco Especial é um clássico sobejamente conhecido, que dispensa apresentações de maior.

O vinho da colheita de 2012 foi obtido de uvas Antão Vaz (40%), Arinto (32%) e Fernão Pires, criadas em solos argilo-calcários e arenosos, por fermentação em depósito de inox, a 16ºC. O primeiro engarrafamento dos 250000 litros produzidos ocorreu em Dezembro de 2012.

Bebido bem fresco, a acompanhar uma cataplana de marisco, ao almoço de um dia de sol, daqueles em que não se teve de ir trabalhar, mostrou-se ligeiro e bastante fresco, de carácter essencialmente cítrico, com notas de ananás e carambola a trazerem-lhe certo ar de exotismo.

A garrafa foi oferecida pelo produtor, que recomenda um preço de 3,50€.

15

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Abatido pelo estado febril, Juliano passou a dormir mais de 12 horas por dia, sobretudo depois que ganhou um barraco para se esconder na favela do Falet. Aproveitou o abrigo para ficar três dias deitado, numa tentativa de se restabelecer, voltar a ter forças para enfrentar a vida de foragido. Em setenta horas de sono, acordou apenas duas vezes.

A vizinha, guardiã do barraco, assustada com os gritos dos pesadelos de Juliano, acordou-o uma vez para acalmá-lo e oferecer-lhe um prato de arroz, feijão, carne, batata fritas, servido junto com uma garrafa de guaraná e com uma sobremesa de doce de banana.

— Isso é melhor que sexo — disse ele à mulher, como forma de manifestar seu agradecimento.

Ele só seria novamente acordado vinte horas depois, quando o barraco foi invadido pelos policiais do Primeiro Batalhão do Serviço Reservado e da Divisão de Proteção à Criança e ao Adolescente. Ninguém acreditou, num primeiro momento, que aquele homem deitado num velho colchão, sem nenhuma roupa de cama, fosse o traficante que todos procuravam. Não havia nenhuma arma perto dele. Vestia apenas uma bermuda, sem nenhum volume nos bolsos, Tinha os cabelos enormes, encaracolados, amarrados na parte de trás da cabeça com um cordão, e usava cavanhaque. A seu redor, restos de velas queimadas ao lado das imagens de São Judas Tadeu, de Santo Expedito e de Nossa Senhora Aparecida. Ao acordar, assustado, Juliano também teve dificuldades de entender o que estava acontecendo. Por segundos acreditou que pudesse ser a continuidade de seus sonhos e pesadelos, sobretudo porque à frente dos policiais estava uma mulher, a delegada Márcia Julião, com uma pistola automática apontada para sua cabeça. Vistos do chão, os homens, que estavam ao lado da delegada, pareciam gigantes, e seus revólveres e fuzis engatilhados eram ainda mais assustadores.

— Perdi. Perdi. Não me matem. Não me matem — pediu Juliano. O seu apelo tirou as dúvidas dos policiais.

— A casa caiu, é o VP. Agora não tem banqueiro pra te tirar dessa, mermão — disse um policial, vibrando com o fim das buscas, que duraram 53 meses e 14 dias.


Abusado — O Dono do Morro Dona Marta, Caco Barcellos, Ed. Record, 2003

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Messias — Unoaked '2009

Vinho do Douro, produzido e engarrafado pelas Caves Messias. Lote de Touriga Nacional, Touriga Franca e Tinta Roriz, tal como o nome indica, foi engarrafado sem passagem por madeira.

Álcool, ginja (bués) e chocolate preto, este ligeiramente mais perceptível na boca. Os taninos, espessos, não tornam o conjunto duro nem amargo. Como bom unoaked, continua um vinho intenso, focado na fruta. Mas já deixa notar a falta daquele extra de viço que apresentava quando mais jovem. Não resisto a recordar o princípio de Coates sobre a maturidade, que afirma que para um dado provador, um determinado vinho permanecerá no ponto por tanto tempo quanto aquele que levou a atingi-lo. Aqui, parece-me, não é preciso dizer mais.

Bebeu-se com gordos hambúrgueres de vaca (acém redondo, com um bocadinho de toucinho moído), preparados mais ou menos assim, propositadamente contidos na mostarda e picante, e com os elementos verdes em dose também moderada, no limite do que considero equilibrado.

5€.

15

domingo, 17 de fevereiro de 2013

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Casas do Côro '2011 (Branco)

Mais um branco, que tem estado sol. Este, originário de Vermiosa, foi produzido por Beyra para Casas do Côro, a partir de uvas das castas Fonte Cal, Rabo de Ovelha e Síria. O produtor não o lista no respectivo sítio da internet.

O primeiro embate é floral e mineral, branco e amarelo, fresco e algo indefinido. Com o tempo de exposição, mostra uma faceta algo mais pesada e doce, citrina, sem dúvida. Talvez toranja. Enche meia boca.

A primeira metade da garrafa acompanhou um jantar quotidiano, de naquitos de frango. No dia seguinte, tendo em conta a estrutura apresentada e flavour dominante, calculei que não se fosse dar mal com arroz de marisco. E não me enganei.

4€.

15,5

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Quinta dos Carvalhais '2008

Maioritariamente Touriga Nacional, com Tinta Roriz e Alfrocheiro. As uvas foram vinificadas em estreme e os respectivos vinhos estagiados em separado, um ano em barricas de carvalho francês e americano, adianta o produtor. Depois de composto, o lote final foi sujeito a colagem e filtração antes do engarrafamento.

Foi servido de um decantador, para ir arejando, a mais ou menos 16ºC. Escuro, quase retinto. Tourigão, cheio de ameixa e violetas no ataque ao nariz. Com o passar do tempo, foi ficando mais arrumado. Fruta silvestre variada, mais vermelha que preta, alcaçuz, toque tostado de barrica. Notas de mentol e bergamota que entretanto se tornaram mais presentes reforçaram as sugestões de frescura que o conjunto evidenciou sempre de forma muito bonita. De paladar seco e firme, com taninos polidos, terminou longo. Começa a revelar sinais de evolução. Acompanhou ainda outra versão do clássico bife com cogumelos.

8€.

16,5

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Quinta do Ortigão — Sauvignon Blanc '2011

Varietal Sauvignon Blanc produzido pela Quinta do Ortigão, de Anadia, engarrafado sem passagem por madeira.

Cor de sumo de maçã, com uma ou outra pequena partícula em suspensão, tem um aspecto super jovem e nota-se que não foi filtrado.

Vinho de recorte austero e cheio de garra, a princípio algo fechado, com muitos espargos e leveduras. Melhor manter-se frio: nota-se que a leveza não é o foco, aqui.

Bebeu-se com camarões tigre assados no forno, temperados com azeite e alho, cebolinho, paprika, manjericão, etc., e pãozinho tostado com alho, azeite e orégãos, e pico de gallo.

Embora pertença a um género que me agrada mais que muito, há que reconhecer que não foi feito para ser fácil. E ainda terá bastante vida pela frente.

6€.

16

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Álvaro Castro '2011 (Branco)

Encruzado, Malvasia Fina e Cercial, fermentou devagar, com bâtonnage. Floral e limonado, todo ele em tons brancos e amarelos, campestres, e um bocadinho de baunilha a perfumar, que lhe fica bem, embora não pertença ali. Fresco, mineral, de porte mediano, toque vagamente untuoso, limpo e agradável mesmo após algum tempo à mesa, a temperatura um pouco acima do ideal. Simples e sólido. Para o preço, está muito bem.

Acompanhou um risotto de pimento vermelho, singelo, quase pobre, e que agradou muito. Fez-se da seguinte forma: refogou-se uma cebola, picada, com uma folha de louro e um dente de alho. Juntou-se então arroz arborio, que se deixou ambientar ao refogado, mexendo sempre, sem deixar escurecer. Depois, um pouco de vinho branco, até praticamente ter evaporado, e caldo de legumes, uma concha de cada vez, mexendo sempre. Perto do ponto, o pimento cortado em tiras, sem casca, e sal, malagueta seca e paprika.

5€.

15,5

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

The Velvet Underground — Loaded

14/1/2002. Gosto de droga. Nos últimos dias, pouco tenho feito para além do acto de consumir. De certa forma, isso entristece-me, mais do que por me sentir encaminhado para uma dependência a que não sei se conseguirei escapar, porque faz tempo que ela não me traz nada de novo.

Os estupefacientes, parece-me, agem pela indução de certos estados de espírito; aquilo que de objectivo possa advir desses estados tem muito mais do indivíduo que do efeito per se da substância. E se a princípio as drogas me pareciam engraçadas, mais que pelas sensações imediatas, pelos sentimentos que despertavam, devo confessar que tal já não acontece.

Mesmo assim, a vida continua. Na última sexta-feira, comprei 25€ de erva brasileira a um amigo e fui para casa ganzar-me sozinho, como de costume.

O ritual de preparação de um cigarro de marijuana é sempre o mesmo. Fiz quatro unidades com mortalhas king size, apenas um pouco de tabaco a servir de tempero, e condensadores descartáveis, aqueles que se aplicam nos cachimbos, na função de filtro, em vez do mais comum bocadinho de cartão enrolado em "s".

Pus o Loaded a tocar, diminuí a intensidade das luzes e deitei-me em cima da cama, caderno e esferográfica ao lado, acendendo logo de seguida o primeiro da noite.

[Carregar no play, sff.]


Fumei-o em pouco menos de vinte minutos. Não fiz intervalo entre o primeiro e o segundo, que acendi imediatamente. Lembro-me de ficar completamente imóvel, de olhos semicerrados, atento à música.

I found a reason to keep living / Oh and the reason, dear, is you / I found a reason to keep singing / Oh and the reason, dear, is you / Oh I do believe / If you don't like things you live / For some place you never gone before.

Sorriso plácido. A planície imensa, gelada e deserta, longe de tudo. Sem neve, sem terra. Nem uma montanha ao longe. E eu sozinho, filme envolvente, cabeça parada. Escrevi que nunca me senti tão bem!

Mas o disco acabou. O meu universo de ocasião desmoronou-se perante um eu perplexo, quase em estado de choque, e acordei de lágrimas nos olhos, ainda que nem sequer tivesse chegado a adormecer.

Levantei-me a custo, recolhi o disco e acendi o terceiro cigarro. Reparei que ainda tinha por consumir metade das doses de droga que preparara. Viva, Viva! Já estou todo fodido e ainda me falta outro tanto!

Que momento de glória! Naquele momento, senti que ninguém me podia fazer mal, que estava seguro, como quando era criança e jogava futebol com os bonecos que vinham nos bolos de aniversário e uma bola de grão de bico, alheio ao mundo de feras que me aguardava lá fora.

Quando dei por mim, estava a espojar-me no chão do quarto, a entoar risadas ridículas, todo babado, o cigarro apagado ainda na boca. De volta ao mundo do mundo, levantei-me e acendi-o outra vez. Depois sentei-me no parapeito interior da janela, a olhar para o céu.

O resto da erva esfumou-se num ápice. Nessa altura, apesar de muito drogado, sentia-me lúcido e com vontade de descrever just in time aquilo que sentia. O meu filme. Foi o que fiz.