domingo, 10 de março de 2013
sexta-feira, 8 de março de 2013
Frangas, ou Galinhas novas de Escalope
"Peguem em quatro frangas, tirem-lhes os peitos, cortem-nos em filetes delgados, e iguaes, marinem-nos em azeite, e toucinho derretido, pouco sal, pimenta, salsa, chalota, hum dente de alho, tudo picado fino, cubrão o fundo de huma cassarola com fatias de presunto delgadas, arrumem-lhe por cima os filetes dos peitos das frangas com a sua marinada, cubra-se com pranchas de toucinho, e ponha-se a suar entre dois fogos hum pouco de tempo; tirem-se depois os filetes para outra cassarola, deite-se na bréza, em que se cozerão, huma pouca de substância, huma gota de vinho branco, e hum pouco de culi, e deixe-se ferver hum pouco de tempo; estando reduzido, passe-se pelo peneiro, tire-se-lhe toda a gordura, metão-lhe dentro os filetes da gallinha, sómente, a aquentar, e sirvão-se com çumo de limão."
in Cozinheiro Moderno, ou Nova Arte de Cozinha; Lucas Rigaud; 4a Ed, Tip. Lacerdina, 1807
quarta-feira, 6 de março de 2013
Periquita '2012 (Branco)
Não começarei o post afirmando o quão estranho me parece ver um Periquita branco depois de cinquenta anos de hábito ao tinto, viva-se o presente. O lote: 53% de Verdelho, 25% de Viosinho, 20% de Viognier e o resto, Moscatel de Setúbal. Fermentado em depósito de inox a 16ºC, foi engarrafado, sem estágio, em Dezembro de 2012. Ainda mais fresco que o seu amigo BSE, rico em frutos de caroço e lima, com ligeiríssimo mas surpreendentemente distintivo travo de Moscatel (o vinho deste ano só levou 2% desta casta, redução considerável face aos 30% do lote do ano passado). Como o outro branco seco proletário da casa, trata-se de um peso-leve cuja graça reside essencialmente na simplicidade e equilíbrio. Versátil e francamente bem feito, muito capaz de dar prazer. Foi o vinho com que acompanhámos o frango de churrasco da passada segunda à noite. (O processo de obtenção desse frango foi deveras díspar do nosso quotidiano: tomámos a bica no Il Café di Roma do retail park enquanto esperávamos que a ave estivesse pronta. A noite, gélida. Entrámos em lojas de cangalhada do tamanho de hipermercados, com três ou quatro empregados à vista e ainda menos clientes, para comprar umas merdices para colar madeira, gomas, papel. Toda aquela luz branca, outra vez o frio. Adoro frio.) O vinho, ah, beba-se jovem.
A garrafa foi oferecida pelo produtor, que recomenda um PVP de 3,99€.
15,5
segunda-feira, 4 de março de 2013
sexta-feira, 1 de março de 2013
Esmero '2006
Esmero, de Rui Xavier Soares. As vinhas, implantadas em socalcos de xisto, têm aproximadamente 80 anos de idade, com várias castas misturadas (Malvasia Preta, Tinta da Barca e Rufete são alguns dos nomes adiantados pelo produtor). As uvas, pisadas a pé, fermantaram e maceraram em lagares durante uma semana, tendo o vinho resultante estagiado dezoito meses em madeira nova e usada. Encheram-se 3800 garrafas, não numeradas.Arejei-o em decantador aproximadamente meia hora antes de o trazer para a mesa. Matagal, alcaçuz e muita groselha. Também balsâmico e vagamente etéreo, com toque fumado e de armário de remédios, este é um vinho grande, entroncado, de taninos robustos que já vão reflectindo a acção refinadora do tempo. O final, bastante longo. Enfim, seis anos de bom e típico "vinhas velhas" duriense da new skool, eventualmente capaz de durar outro tanto, desde que bem guardado.
16€.
16,5
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
BSE '2012
Produzido desde 1947, este Branco Seco Especial é um clássico sobejamente conhecido, que dispensa apresentações de maior.O vinho da colheita de 2012 foi obtido de uvas Antão Vaz (40%), Arinto (32%) e Fernão Pires, criadas em solos argilo-calcários e arenosos, por fermentação em depósito de inox, a 16ºC. O primeiro engarrafamento dos 250000 litros produzidos ocorreu em Dezembro de 2012.
Bebido bem fresco, a acompanhar uma cataplana de marisco, ao almoço de um dia de sol, daqueles em que não se teve de ir trabalhar, mostrou-se ligeiro e bastante fresco, de carácter essencialmente cítrico, com notas de ananás e carambola a trazerem-lhe certo ar de exotismo.
A garrafa foi oferecida pelo produtor, que recomenda um preço de 3,50€.
15
sábado, 23 de fevereiro de 2013
Abatido pelo estado febril, Juliano passou a dormir mais de 12 horas por dia, sobretudo depois que ganhou um barraco para se esconder na favela do Falet. Aproveitou o abrigo para ficar três dias deitado, numa tentativa de se restabelecer, voltar a ter forças para enfrentar a vida de foragido. Em setenta horas de sono, acordou apenas duas vezes.
A vizinha, guardiã do barraco, assustada com os gritos dos pesadelos de Juliano, acordou-o uma vez para acalmá-lo e oferecer-lhe um prato de arroz, feijão, carne, batata fritas, servido junto com uma garrafa de guaraná e com uma sobremesa de doce de banana.
— Isso é melhor que sexo — disse ele à mulher, como forma de manifestar seu agradecimento.
Ele só seria novamente acordado vinte horas depois, quando o barraco foi invadido pelos policiais do Primeiro Batalhão do Serviço Reservado e da Divisão de Proteção à Criança e ao Adolescente. Ninguém acreditou, num primeiro momento, que aquele homem deitado num velho colchão, sem nenhuma roupa de cama, fosse o traficante que todos procuravam. Não havia nenhuma arma perto dele. Vestia apenas uma bermuda, sem nenhum volume nos bolsos, Tinha os cabelos enormes, encaracolados, amarrados na parte de trás da cabeça com um cordão, e usava cavanhaque. A seu redor, restos de velas queimadas ao lado das imagens de São Judas Tadeu, de Santo Expedito e de Nossa Senhora Aparecida. Ao acordar, assustado, Juliano também teve dificuldades de entender o que estava acontecendo. Por segundos acreditou que pudesse ser a continuidade de seus sonhos e pesadelos, sobretudo porque à frente dos policiais estava uma mulher, a delegada Márcia Julião, com uma pistola automática apontada para sua cabeça. Vistos do chão, os homens, que estavam ao lado da delegada, pareciam gigantes, e seus revólveres e fuzis engatilhados eram ainda mais assustadores.
— Perdi. Perdi. Não me matem. Não me matem — pediu Juliano. O seu apelo tirou as dúvidas dos policiais.
— A casa caiu, é o VP. Agora não tem banqueiro pra te tirar dessa, mermão — disse um policial, vibrando com o fim das buscas, que duraram 53 meses e 14 dias.
A vizinha, guardiã do barraco, assustada com os gritos dos pesadelos de Juliano, acordou-o uma vez para acalmá-lo e oferecer-lhe um prato de arroz, feijão, carne, batata fritas, servido junto com uma garrafa de guaraná e com uma sobremesa de doce de banana.
— Isso é melhor que sexo — disse ele à mulher, como forma de manifestar seu agradecimento.
Ele só seria novamente acordado vinte horas depois, quando o barraco foi invadido pelos policiais do Primeiro Batalhão do Serviço Reservado e da Divisão de Proteção à Criança e ao Adolescente. Ninguém acreditou, num primeiro momento, que aquele homem deitado num velho colchão, sem nenhuma roupa de cama, fosse o traficante que todos procuravam. Não havia nenhuma arma perto dele. Vestia apenas uma bermuda, sem nenhum volume nos bolsos, Tinha os cabelos enormes, encaracolados, amarrados na parte de trás da cabeça com um cordão, e usava cavanhaque. A seu redor, restos de velas queimadas ao lado das imagens de São Judas Tadeu, de Santo Expedito e de Nossa Senhora Aparecida. Ao acordar, assustado, Juliano também teve dificuldades de entender o que estava acontecendo. Por segundos acreditou que pudesse ser a continuidade de seus sonhos e pesadelos, sobretudo porque à frente dos policiais estava uma mulher, a delegada Márcia Julião, com uma pistola automática apontada para sua cabeça. Vistos do chão, os homens, que estavam ao lado da delegada, pareciam gigantes, e seus revólveres e fuzis engatilhados eram ainda mais assustadores.
— Perdi. Perdi. Não me matem. Não me matem — pediu Juliano. O seu apelo tirou as dúvidas dos policiais.
— A casa caiu, é o VP. Agora não tem banqueiro pra te tirar dessa, mermão — disse um policial, vibrando com o fim das buscas, que duraram 53 meses e 14 dias.
Abusado — O Dono do Morro Dona Marta, Caco Barcellos, Ed. Record, 2003
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
Messias — Unoaked '2009
Vinho do Douro, produzido e engarrafado pelas Caves Messias. Lote de Touriga Nacional, Touriga Franca e Tinta Roriz, tal como o nome indica, foi engarrafado sem passagem por madeira.Álcool, ginja (bués) e chocolate preto, este ligeiramente mais perceptível na boca. Os taninos, espessos, não tornam o conjunto duro nem amargo. Como bom unoaked, continua um vinho intenso, focado na fruta. Mas já deixa notar a falta daquele extra de viço que apresentava quando mais jovem. Não resisto a recordar o princípio de Coates sobre a maturidade, que afirma que para um dado provador, um determinado vinho permanecerá no ponto por tanto tempo quanto aquele que levou a atingi-lo. Aqui, parece-me, não é preciso dizer mais.
Bebeu-se com gordos hambúrgueres de vaca (acém redondo, com um bocadinho de toucinho moído), preparados mais ou menos assim, propositadamente contidos na mostarda e picante, e com os elementos verdes em dose também moderada, no limite do que considero equilibrado.
5€.
15
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
Casas do Côro '2011 (Branco)
Mais um branco, que tem estado sol. Este, originário de Vermiosa, foi produzido por Beyra para Casas do Côro, a partir de uvas das castas Fonte Cal, Rabo de Ovelha e Síria. O produtor não o lista no respectivo sítio da internet.O primeiro embate é floral e mineral, branco e amarelo, fresco e algo indefinido. Com o tempo de exposição, mostra uma faceta algo mais pesada e doce, citrina, sem dúvida. Talvez toranja. Enche meia boca.
A primeira metade da garrafa acompanhou um jantar quotidiano, de naquitos de frango. No dia seguinte, tendo em conta a estrutura apresentada e flavour dominante, calculei que não se fosse dar mal com arroz de marisco. E não me enganei.
4€.
15,5
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