sábado, 16 de março de 2013

Animal Collective — Centipede Hz



When I want fruit I can find it wherever I please / What if I should wake up and find dudes on the street waiting in lines or scrounging for berries?

I'm losing things so fast / One day maybe I'll have a cool kid with a granny but I don't have a pose for applesauce on clothes / Reminisce of the days when my mom made it all seem delicious.

#4, Applesauce.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Quinta de Camarate — Branco Seco '2012

Ainda outro branco da José Maria da Fonseca. As uvas que constituem o lote, Alvarinho (75%) e Verdelho, provenientes da própria quinta, fermentaram em bica aberta, a 16ºC, tendo o vinho resultante sido engarrafado, sem estágio, em Dezembro de 2012.

Servido a 8ºC, pareceu-me essencialmente floral, apesar de trazer consigo notas persistentes, mas não impositivas, de ananás e baunilha. Também evidente certo toque fumado e de vegetal seco, em pano de fundo. Passou macio pela boca, revelando boa acidez. A dada altura, fez-me lembrar uvas brancas.

Gostou mais da companhia de pescada com espinafres (no forno) que do já costumeiro frango de churrasco, mas nunca comprometeu. É um bom vinho, fácil de gostar.

A garrafa foi oferecida pelo produtor, que recomenda um PVP de 6,99€.

16

terça-feira, 12 de março de 2013

Radix '2008

Este vinho pretende ser a proposta em estilo moderno do produtor, a Quinta da Bica, de Seia. Levou Touriga Nacional, Alfrocheiro, Jaen, Tinta Pinheira e Baga. Lote à partida interessante, digo eu. A ficha técnica fala de vinificação clássica e estágio de meio ano em meias barricas de carvalho francês, usadas.

Acompanhou um naco de lombo na pedra e couves de bruxelas, assadas, com alho e azeite. Touriga fina, com cereja preta. Uma presença muito característica do Dão. Com um pouco mais de atenção, encontrei flores e tostados. Tudo coberto, tudo bem arrumado. Fresco e bem macio na boca, de sabor ao mesmo tempo seco e guloso. Vá lá perceber-se isto! O final, quase longo. Acompanhou um naco de lombo na pedra e couves de bruxelas, assadas, e foi todo de uma vez.

10€

16,5

sexta-feira, 8 de março de 2013

Frangas, ou Galinhas novas de Escalope

"Peguem em quatro frangas, tirem-lhes os peitos, cortem-nos em filetes delgados, e iguaes, marinem-nos em azeite, e toucinho derretido, pouco sal, pimenta, salsa, chalota, hum dente de alho, tudo picado fino, cubrão o fundo de huma cassarola com fatias de presunto delgadas, arrumem-lhe por cima os filetes dos peitos das frangas com a sua marinada, cubra-se com pranchas de toucinho, e ponha-se a suar entre dois fogos hum pouco de tempo; tirem-se depois os filetes para outra cassarola, deite-se na bréza, em que se cozerão, huma pouca de substância, huma gota de vinho branco, e hum pouco de culi, e deixe-se ferver hum pouco de tempo; estando reduzido, passe-se pelo peneiro, tire-se-lhe toda a gordura, metão-lhe dentro os filetes da gallinha, sómente, a aquentar, e sirvão-se com çumo de limão."

in Cozinheiro Moderno, ou Nova Arte de Cozinha; Lucas Rigaud; 4a Ed, Tip. Lacerdina, 1807

quarta-feira, 6 de março de 2013

Periquita '2012 (Branco)

Não começarei o post afirmando o quão estranho me parece ver um Periquita branco depois de cinquenta anos de hábito ao tinto, viva-se o presente. O lote: 53% de Verdelho, 25% de Viosinho, 20% de Viognier e o resto, Moscatel de Setúbal. Fermentado em depósito de inox a 16ºC, foi engarrafado, sem estágio, em Dezembro de 2012.

Ainda mais fresco que o seu amigo BSE, rico em frutos de caroço e lima, com ligeiríssimo mas surpreendentemente distintivo travo de Moscatel (o vinho deste ano só levou 2% desta casta, redução considerável face aos 30% do lote do ano passado). Como o outro branco seco proletário da casa, trata-se de um peso-leve cuja graça reside essencialmente na simplicidade e equilíbrio. Versátil e francamente bem feito, muito capaz de dar prazer. Foi o vinho com que acompanhámos o frango de churrasco da passada segunda à noite. (O processo de obtenção desse frango foi deveras díspar do nosso quotidiano: tomámos a bica no Il Café di Roma do retail park enquanto esperávamos que a ave estivesse pronta. A noite, gélida. Entrámos em lojas de cangalhada do tamanho de hipermercados, com três ou quatro empregados à vista e ainda menos clientes, para comprar umas merdices para colar madeira, gomas, papel. Toda aquela luz branca, outra vez o frio. Adoro frio.) O vinho, ah, beba-se jovem.

A garrafa foi oferecida pelo produtor, que recomenda um PVP de 3,99€.

15,5

sexta-feira, 1 de março de 2013

Esmero '2006

Esmero, de Rui Xavier Soares. As vinhas, implantadas em socalcos de xisto, têm aproximadamente 80 anos de idade, com várias castas misturadas (Malvasia Preta, Tinta da Barca e Rufete são alguns dos nomes adiantados pelo produtor). As uvas, pisadas a pé, fermantaram e maceraram em lagares durante uma semana, tendo o vinho resultante estagiado dezoito meses em madeira nova e usada. Encheram-se 3800 garrafas, não numeradas.

Arejei-o em decantador aproximadamente meia hora antes de o trazer para a mesa. Matagal, alcaçuz e muita groselha. Também balsâmico e vagamente etéreo, com toque fumado e de armário de remédios, este é um vinho grande, entroncado, de taninos robustos que já vão reflectindo a acção refinadora do tempo. O final, bastante longo. Enfim, seis anos de bom e típico "vinhas velhas" duriense da new skool, eventualmente capaz de durar outro tanto, desde que bem guardado.

16€.

16,5

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

BSE '2012

Produzido desde 1947, este Branco Seco Especial é um clássico sobejamente conhecido, que dispensa apresentações de maior.

O vinho da colheita de 2012 foi obtido de uvas Antão Vaz (40%), Arinto (32%) e Fernão Pires, criadas em solos argilo-calcários e arenosos, por fermentação em depósito de inox, a 16ºC. O primeiro engarrafamento dos 250000 litros produzidos ocorreu em Dezembro de 2012.

Bebido bem fresco, a acompanhar uma cataplana de marisco, ao almoço de um dia de sol, daqueles em que não se teve de ir trabalhar, mostrou-se ligeiro e bastante fresco, de carácter essencialmente cítrico, com notas de ananás e carambola a trazerem-lhe certo ar de exotismo.

A garrafa foi oferecida pelo produtor, que recomenda um preço de 3,50€.

15

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Abatido pelo estado febril, Juliano passou a dormir mais de 12 horas por dia, sobretudo depois que ganhou um barraco para se esconder na favela do Falet. Aproveitou o abrigo para ficar três dias deitado, numa tentativa de se restabelecer, voltar a ter forças para enfrentar a vida de foragido. Em setenta horas de sono, acordou apenas duas vezes.

A vizinha, guardiã do barraco, assustada com os gritos dos pesadelos de Juliano, acordou-o uma vez para acalmá-lo e oferecer-lhe um prato de arroz, feijão, carne, batata fritas, servido junto com uma garrafa de guaraná e com uma sobremesa de doce de banana.

— Isso é melhor que sexo — disse ele à mulher, como forma de manifestar seu agradecimento.

Ele só seria novamente acordado vinte horas depois, quando o barraco foi invadido pelos policiais do Primeiro Batalhão do Serviço Reservado e da Divisão de Proteção à Criança e ao Adolescente. Ninguém acreditou, num primeiro momento, que aquele homem deitado num velho colchão, sem nenhuma roupa de cama, fosse o traficante que todos procuravam. Não havia nenhuma arma perto dele. Vestia apenas uma bermuda, sem nenhum volume nos bolsos, Tinha os cabelos enormes, encaracolados, amarrados na parte de trás da cabeça com um cordão, e usava cavanhaque. A seu redor, restos de velas queimadas ao lado das imagens de São Judas Tadeu, de Santo Expedito e de Nossa Senhora Aparecida. Ao acordar, assustado, Juliano também teve dificuldades de entender o que estava acontecendo. Por segundos acreditou que pudesse ser a continuidade de seus sonhos e pesadelos, sobretudo porque à frente dos policiais estava uma mulher, a delegada Márcia Julião, com uma pistola automática apontada para sua cabeça. Vistos do chão, os homens, que estavam ao lado da delegada, pareciam gigantes, e seus revólveres e fuzis engatilhados eram ainda mais assustadores.

— Perdi. Perdi. Não me matem. Não me matem — pediu Juliano. O seu apelo tirou as dúvidas dos policiais.

— A casa caiu, é o VP. Agora não tem banqueiro pra te tirar dessa, mermão — disse um policial, vibrando com o fim das buscas, que duraram 53 meses e 14 dias.


Abusado — O Dono do Morro Dona Marta, Caco Barcellos, Ed. Record, 2003