sábado, 20 de abril de 2013

Vale dos Barris — Syrah '2009

Da ficha técnica : "Por entre a Serra do Louro e a Serra de S. Luís estende-se em toda a sua plenitude o Vale dos Barris, um dos ex-libris naturais da região de Palmela, este vale termina o seu percurso no rochedo de onde se ergue o castelo de Palmela". Assim ficou explicado o nome do vinho. E a promessa a mim próprio: um dia irei ao Vale dos Barris com os sapatos de dread e a máquina fotográfica.

Sobre a coisa propriamente dita: Syrah escuro e maduro, de corpo firme, apesar do volume modesto. A madeira onde passou quatro meses antes de ser engarrafado pouco se nota. Vagamente terroso, mostrou álcool, cereja preta e notas de kirsch. Após basto arejamento, também caramelo e cacau. Fim de boca mediano.

Competente q.b. chegada a hora de acompanhar uma empada de coelho com molho béchamel e vários vegetais ao vapor, é mais um exemplar interessante da gama em que se insere.

4€.

15

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Velharias (36)


Online.

"Olá pequerrucho."
"Insignificante."
"Não sejas assim. Puxo-te as orelhas."
"Enfia-me antes uma algália, eu mereço."
"Não sejas parvo. Olha, o que é um empirista?"
"Pergunta ao Google."
"Não sejas mau."


Conversas de merda na net. Não sejas isto, não sejas aquilo. Sempre me disseram para não ser. Tanto que acabei mesmo por não querer ser nada. Nada interessava — interessa — interessará. O amanhã nunca vem, e nada de quases: pura e simplesmente não chega.

Faltavam doze dias.

Quando somos tomados por um arrepio "bhlugh" logo ao primeiro gole de whisky-cola e o copo que temos à frente é de 300ml, podem passar-nos ideias loucas pela cabeça. Teria falado, se tivesse com quem. Hoje saí. Comi fora. Sentia-me bem. Tomei café no Caraíbas e comprei quinze maços de Dunhill na tabacaria pequenina que fica por baixo do centro comercial. Há anos que lá passo para comprar tabaco, só quando calha. No princípio a senhora do balcão perguntava pela família, agora já não diz nada. Voltei para casa e fechei as persianas. Não vejo o meu gato desde ontem de manhã. Não vejo ninguém. Não estás aqui para me ouvir e a única luz que tenho é a que emana deste monitor.

O meu primeiro contacto com drogas aconteceu há cerca de seis anos, também em Agosto, neste mesmo quarto. Fazia um calor infernal, mais que agora. As persianas estavam corridas até ao fundo, nem uma nesga de luz. Como hoje, e ontem, e anteontem, e há um mês atrás. Decidi que a minha primeira pedrada seria feita de whisky com Coca Cola, acompanhada de Lexotan e ao som do Dark Side of the Moon. Hoje ouço Joy Division. Não mais os Floyd. Demasiadas memórias, a dada altura tornou-se penoso. Com o passar dos anos, eu não deixei de ser eu, apenas me tornei menos melódico. A harmonia manteve-se, mas tornou-se algo seco e cinzento. Em tempos quis libertar-me do que era. Mais tarde procurei fugir ao que tinha sido. Hoje aceito tudo tal como é. Há seis anos atrás eu odiava Deus ao ponto de apregoar que ele não existia. Hoje —

Lembro-me de rebolar no chão morno, completamente pedrado, enjoado pelo travo característico que nos fica na boca quando bebemos demasiadas coisas doces. Os meus pais estavam em casa. Lembro-me de ouvir a minha mãe gritar e bater à porta. Mas eu estava demasiado feliz para me deixar perturbar. A preocupação dela parecia-me mesquinha. Não era saber que um filho podia estar a morrer que a fazia gritar. Era, isso sim, a enormidade amoral que todo o meu acto representava, e o precedente que abria. Foi como um grande "basta" que lhe gritei de olhos nos olhos, essa primeira pedrada. E passadas umas horas, saí. Tudo havia mudado. Estava consciente. Via, ouvia, falava e andava, mas senti pela primeira vez que o mundo estava todo lá fora. Pela primeira vez na vida, senti o verdadeiro esplendor da leveza. Gostei tanto que decidi que seria esse o motor da minha vida. Nunca me arrependi. Hoje é apenas uma repetição ligeiramente diferente, de ontem e de sempre. E o amanhã, será mais que simplesmente possível?

"Tudo depende da dose."

O tempo habita em nós. E com ele tudo muda. E tudo permanece. E nada há a dizer de hoje. Hoje é uma projecção de ontem. Uma repetição de sempre. Lembro-me da última vez que ouvi Joy Division aos berros, como hoje. Aconteceu há eternidades, porque alguém me tinha deixado. Hoje aconteceu porque sim, sinceramente porque sim. Porque sim não é porquê, mas hoje também não tem de ser hoje. Hoje pode bem ser ontem ou outro dia qualquer. Como sempre. Que fiz eu de diferente? Envelheci mais vinte e quatro horas? Irrelevantes. E todos os dias serão ontem, até que voltes.

Ontem, às 22h50,

Alguém me telefonou de um número que não tinha memorizado no telemóvel. Não atendi porque tinha o telefone em silêncio e estava a ver televisão noutra sala, mas, quando dei conta da chamada, não pude deixar de pensar que podias ser tu. Ou qualquer outra pessoa. Mas quem mais me havia de ligar já bem de noite, ainda por cima de um número desconhecido? Em vez de ligar de volta, enviei uma mensagem escrita, quase meia hora depois. Foi o que consegui fazer. Ninguém respondeu. Nem pensar em ligar de volta. Depositei o telefone, agora com som, em cima da cómoda do meu quarto, depois deitei-me. Mais uma vez, abandonei-me a estranhos pensamentos. O impulso para conhecer seria, de facto, análogo ao impulso para procriar?

O misterioso número de telefone que fez o final do meu dia não voltou a dar sinal de si.


13/8/2004

terça-feira, 16 de abril de 2013

Herdade da Figueirinha — Reserva '2009

Foi o vinho que bebi com o filme do post anterior e uns bocaditos de pão, queijo, chouriço e outros que tais. Um lanchinho. Cada vez mais acho que os filmes são para ver, os vinhos para beber, os discos para ouvir, etc. Por isso cada vez mais tento mostrar em vez de dissecar. Os meus vinhos: uma foto e uma ou duas linhas. Já foi feito, apenas não por mim. Talvez a seu tempo. Para já, o boteco continua assim. O vinho do post, alentejano de Brissos, perto de Beja, fez-se em cubas pelo método de curtimenta, levou Trincadeira, Aragonês, Alicante Bouschet, Syrah e Cabernet Sauvignon, e foi engarrafado sem passagem por madeira. O produtor existe na internet, aqui.

Cheiroso, com flores e bagas maduras, ameixa e marmelo, feno e rama de tomateiro, balsâmico indefinido, talvez levemente abaunilhado, talvez também pele? — tem uma complexidade peculiar e bonita. Lembro-me de em Novembro de 2008 ter avaliado um espécime da colheita de 2005, que tanto quanto me lembro pouco diferia deste, com 14 valores. Desagradou na altura certa falta de lustro, de força, ficou a ideia de que este conjunto de aromas merecia ter-se desprendido de algo maior. Desde então, estes vinhos aparentam ter evoluído qualquer coisa nesse sentido. Pouco, mas o suficiente para se notar a diferença. Digo que aparentam porque não tenho a certeza. Ou então também fui eu que mudei.

3€.

15

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Álvaro Castro — Reserva '2007

Vinho elegante, insinua-se coisa de terra fria. (Na realidade, como se sabe, as coisas não são bem assim.) Traz consigo farta fruta silvestre, vermelha, caruma e bosque, especiarias. Mais intenso que troncudo, mostra taninos firmes e já maduros a par de um muito bom fim de boca. Tão expressivo, parece que tem o Dão lá dentro, só posso gostar.

Vem na sequência deste. E agora um aparte: como a vida era diferente a 13/7/2008! Meu Deus! Um blogue também pode funcionar como cápsula do tempo, só que em movimento. Dentro do possível, claro está.

Dito pelo produtor: "Elaborado a partir de 65% vinha velha e 35% de Touriga Nacional e Tinta Roriz (...) fermentou em inox, a temperatura contolada, fazendo posteriormente a fermentação maloláctica em cascos de carvalho francês, onde permaneceu em estágio durante 14 meses." Acompanhou futebol na TV e itens de charcutaria.

12€.

17

domingo, 7 de abril de 2013

Marquês de Marialva — Arinto, Reserva '2011

Varietal Arinto de vinhas com 10 a 20 anos de idade, pouco difere do seu antecessor da colheita de 2010, tanto na origem como no resultado final. As uvas foram sujeitas a desengace total e fermentaram a baixa temperatura, com maceração, 30% do volume produzido em barricas de carvalho francês.

Gordinho e macio, segue a via da suavidade. Estão lá as flores brancas, a base citrina e verde, que desta vez me pareceu mais relacionada com casca de lima que com limão, e um bocadinho de mel de acácia também, a alegrar o conjunto, a transmitir-lhe outra envolvência. Alguns poderão argumentar que lhe falta força, mas estou em crer que é feitio, não defeito.

Acompanhou tintureira de cebolada. Cebola roxa, alho, azeite. Alourar, amaciar. Então, a carne bem seca com papel de cozinha e passada ao de leve por alho em pó, sal e farinha, três minutos de cada lado no fundo do panelão baixo e largo, de base espessa. Pimenta, batatas cozidas, limão — sumo e um pouco de casca ralada. Temi que o peixe se mostrasse seco, com travo de ureia (é um tubarão). Nada disso. Ficou húmido, ligeiro e suave q.b. ao paladar. Ligou mesmo bem com o vinho.


5€.

15,5

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Sneaker Pimps — Becoming X



Outro álbum que também anda comigo quase desde o princípio. Foi depois deste clip que os gajos se tornaram realmente famosos. Depois mandaram a Kelli Dayton embora e nunca mais fizeram nada sequer semelhante.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Adega Cooperativa de Mealhada — Escolha dos Sócios '2010

Garrafa nº 950 de 5718 produzidas. Tinto simples, redondo, de boa acidez e porte mediano. Bastante fruta madura, silvestre, escura. Variedades, não sei dizer. A madeira, apenas parcialmente coberta, traz-lhe coco e baunilha. Sugestões terrosas e vegetais fizeram pensar, a dada altura, que poderia ter levado Merlot.

Bairradino polido, feito em estilo moderno, embora novo, não está nada difícil de beber. No entanto, o seu antecessor de 2008, bebido em 2011, mostrou mais.

Foi com uma costeleta de vaca temperada com cominhos e pimentão, cozinhada em manteiga, acompanhada de arroz com vários vegetais. Estava a dar Pa Negre na 2. Filme sombrio mas bonito, gostei, não resisto a deixar a nota.

5€.

15

sábado, 30 de março de 2013

Velharias (35)


Sozinho, sempre sozinho.

Esperava que o centro de mensagens da TMN tivesse desentupido durante as horas que estivera sem olhar para o telemóvel, mas tudo na mesma. Em todo o caso, ainda era muito cedo para dizer qualquer coisa à S, a rapariga tem direito ao seu espaço. Podia distrair-me com blogues e música electrónica até à hora do almoço. Tentei ignorar que não sentia fome há quase uma semana, mas lembrei-me do cheesecake do dia anterior e não tardei a sentir uma garra no estômago, um vazio daqueles que querem não ser preenchidos.

Bastaram vinte minutos de internet para me fartar. Ocorreu-me que ler blogues faz mal. Endurece as ideias e estraga o estilo. Então, má ideia, resolvi tentar escrever.

Descrever o momento. Complicado. Quando não fazemos ideia do que queremos, todos os pontos de partida parecem igualmente bons. Por onde começar? Ponto de partida, lugar-referência. Talvez devesse começar por dar corpo a esse lugar, tornando-o tão concreto quanto possível, tratando-o como o elemento estranho que olha para uma fotografia, sendo ele mesmo parte da própria fotografia.

Talvez o som. O som impõe-se. Ou talvez se imponha, simplesmente, o volume do som. Penetrante, como se as ondas sonoras fossem balas semi-materiais constantemente reflectidas pelas paredes, atravessando-me um sem fim de vezes.

Um infinito de quatro minutos? Parvoíce. E, afinal, não seria aquela infinidade enclausurada a projecção desejada por quem alinhara aquelas notas. . . espirais. . . habilmente enroladas, voltas. . . curvas. . . linhas. . . contínuas. . . movimento sobre linhas contínuas. . . movimento uniforme sobre linhas contínuas, paralelas, como carris, estendendo-se até ao infinito?

Um comboio em marcha para a eternidade?

Escrever por desporto pode ser libertador. Para mim. Forma, mensagem, não importa. O objectivo é pairar, distrair-me. E assim reduzi à irrelevância, mais uma vez, factos como não dormir há três dias ou ter recomeçado a ouvir vozes.

Ao meio-dia e vinte e dois.

Eu tinha estragado tudo, mais uma vez. Seria, de facto, culpa minha? Presumo que sim. Sei lá. No fundo, que interessa, se acaba sempre por sobrar para mim? E podia pôr cobro à situação, mas apenas estaria a piorar as coisas. Sim. Se sofria com ela, mais ainda sofreria sem ela. E era impossível voltar atrás no tempo, até antes de nos conhecermos.

Também por isso, sabia que tinha de suicidar-me. Sempre achei a morte algo necessário. Não como escape, mas como fim. Sabia perfeitamente que nada tinha de que fugir. Era tudo meu. Podia tudo, mas não queria nada.

Há muito que pensava em como me suicidaria quando chegasse a altura certa. Tinha em mente uma panóplia de formas mais ou menos seguras e indolores de o fazer. O meu suicídio não seria fruto do desespero, pelo que não estava nada disposto a abdicar do meu conforto físico até ao último momento. Isso reduzira um tanto o leque de processos considerados aceitáveis. Teria de ser algo como adormecer para sempre, sendo que o "para sempre" apenas se imporia como certeza depois de perdida a consciência.

Dormir. Vai ser como ir para a cama depois de um longo dia de trabalho.

Só que eu não conhecia a sensação de adormecer ao fim de um longo dia de trabalho. Não só nunca passara por nada parecido, como não conseguia livrar-me da sensação de ter deixado algo por fazer.

Algo que bem podia ser tudo.

E assim, qual seria a altura certa?

. . .

A esplanada do Património estava deserta. Corria um vento fresco. Os halogéneos próximos iluminavam os telhados recortados contra o céu das casas antigas do nosso bairro histórico antes de se desvanecerem na distância. Era noite de lua cheia, ou quase. Tinha combinado sair com A já há algum tempo, mas apenas hoje se proporcionara. Falávamos da vida, tínhamos duas Guinness como testemunhas. Não tanto das nossas vidas, mais da condição da vida para cada um de nós. Conversámos durante horas. Curiosamente, estávamos de acordo.

O nosso problema assenta no excesso de conforto. É dele que advém o tédio. Não procuramos desafios porque não necessitamos deles. Afinal, temos a vida que queremos. Os suicidas eficazes são as pessoas que têm um problema concreto, tão insustentável que não conseguem, sequer, pensar nele. Agem, e pronto. Chegam à beira de um viaduto e atiram-se para cima de um comboio, ou roubam uma pistola a alguém e dão um tiro na barriga. Pessoas como nós. . . têm sempre tendência a deixarem-se arrastar por um longo caminho. . . Temos de nos consumir, e de consumir, também, aqueles que nos são próximos, de modo a criarmos os problemas concretos que, finalmente, nos levarão ao suicídio. Por maior que seja o tédio, não procuraremos mudar enquanto tivermos a consciência de que podemos manter a nossa situação, nem mesmo procurando a morte.

E não tentamos fazer nada, concluí. Naquela noite, compreendi que aparte todas as promessas auto-impostas, todas as decisões tomadas no sentido de me suprimir, ainda não estava seguro de qual seria a altura certa para o fazer. E pior, talvez nunca viesse a estar.



. . .

Agora, deitado na cama, quieto, ouvidos torturados pela música electrónica, não conseguia dormir, nem comer. Não conseguia sair à rua. Não conseguia estar com pessoas. Não conseguia ler, escrever, jogar ou ver televisão. Nem mudar de CD, o mesmo, há horas. Não queria nada disso. Só debitar cigarros uns atrás dos outros e recordar. Chorar, parar, recomeçar.

Não valia a pena continuar assim. Pela primeira vez na vida, senti pressa em morrer. Estaria, então, para breve.

Arrastei-me até à cozinha, beber água. Depois regressei ao meu quarto, e embora estivesse sozinho em casa, tranquei a porta, como sempre.


4/8/2004

quarta-feira, 27 de março de 2013

Dom Rafael '2009

Mais uma vez, o tinto mais simples da Herdade do Mouchão. A seu respeito, o produtor adianta que a fermentação ocorre em lagares abertos, com pisa a pé, e o estágio se prolonga durante pelo menos um ano, em tonéis de 5000l e barricas.

Da prova: Maduro, percorrido por certa calidez. No nariz, fruta cheirosa, preta, bem madura, com compota e rebuçado. Na boca, ampla, acidez vivaz e taninos robustos. É vinho para a mesa, para pratos com tempero e substância. Acompanhou muito bem o esparguete com frango da avó da S.

A propósito do aqui registado a respeito das suas edições de 2006 e 2007, não posso deixar de notar ser "rústico" adjectivo recorrente e até certo ponto definidor. E se não encontrei este vinho muito diferente daquilo que recordo destes seus antecessores, desta vez, a pergunta "mas rústico porquê?" ficou sem resposta.

7€.

16

segunda-feira, 25 de março de 2013

Fui profeta da sabedoria e da verdade. Possuía as chaves da cidade. Senhor dos mares e dos pescadores. Sou hoje um cemitério de terracota. O mais belo cemitério onde vem desenvolver-se a loucura, onde dormem homens loucos de bondade, doentes por amor, doentes de razão.

Eu sou o louco d'Aïcha
mais formosa que a lua
pura como a loucura
tivemos filhos mortos com as flores
aqui estão eles
suspensos na minha barba
eu sou o louco de Rahma
saborosa como o pão
fértil como a terra
pássaro dos meus olhos
eles dizem que estou doido
mas não é verdade
grito choro e calo-me
danço sobre a labareda
e falo com os mortos

eu sou um segredo que estremece
um livro aberto para crianças medrosas
sou o cemitério dos necessitados
mas não sou uma aparição
dizem
depois de eu ter adormecido no regaço de Rouhania
ele é filho da solidão
sabes
quando Nachoude, o velho pescador, morreu, levado
pela espuma suja
fizeram-lhe um pomposo funeral
os gatos choraram
e o mar retirou-se a perder de vista e a lua velou muito tempo
a sepultura

eu sou a inércia criminosa e o exílio dos cães
tenho a amizade dos gatos e dos pobres
todas as minhas esposas me foram infiéis
soçobraram numa insensível loucura
das imagens e não das almas
eles dizem que estou doido
mas o que estou é sozinho
um pouco triste
escutai-me
vou contar-vos tudo...
eu tinha-lhe dado uma cabra...
não
não estou doido
se me deres um cigarro eu continuo a história...


Arzila: Estação de Espuma, Tahar Ben Jelloun, Trad. de Al Berto, Hiena, 1987