terça-feira, 7 de maio de 2013

Serra Mãe — Reserva '2005

Produzido pela SIVIPA, Soc. Vinícola de Palmela, fermentou em depósitos de cimento, com autovinificadores, a 25ºC. Sem entrar em pormenores, o contra-rótulo menciona estágio em barricas de carvalho francês.

Quase completamente encoberta por densa capa de fruta vermelha, revelou a madurez melada de um Castelão de vinhas velhas, com notas de evolução. Com a fruta vinham flores, e tabaco e rebuçado mais lá adiante, embora não propriamente em pano de fundo.

E nem por um momento se mostrou desequilibrado ou mal saboroso, mas com o volume de boca, o peso, a mastigabilidade apenas pouco mais que medianos, acabaram por sobressair os taninos, numerosos e até um bocadito rudes, sobretudo no final.

No dia seguinte, esperava encontrar moribundo o terço de garrafa que deixara a pernoitar na porta do frigorífico. Mas estava na mesma. Às vezes fodido, este foi um vinho a que, contra as expectativas iniciais, por ser tão raçudo, achei difícil resistir.

6€.

15,5

domingo, 5 de maio de 2013

Compota de Morango / Trança Doce

Este ano está a ser fácil encontrar bons morangos. De tal forma que, há dias, a S fez compota. Para 2Kg de fruta, utilizou 1Kg de açúcar e a casca de dois limões e meio. Cortou os morangos depois de lavados e retirados os pedúnculos. Não muito finos, que cá em casa gostamos de textura. Depois levou tudo a ferver em lume brando, até o doce estar no ponto (ponto de estrada: quando passada uma colher por uma porção da calda no fundo de um pires, forma-se como que uma estrada). Juntou então o sumo dos dois limões supra, para engrossar um pouco mais, e enfrascou o produto resultante.

Sobrando tempo, também fez uma trança doce, para acompanhar. Levou 700g de farinha de trigo T65, 100g de açúcar, 260ml de leite, 110ml de óleo, 12,5g de fermento de padeiro, um ovo grande, a casca ralada de uma laranja e meia colher, das de chá, de sal. A massa foi amassada, uma hora e meia, na máquina de fazer pão. Como de costume, os líquidos foram os primeiros a entrar na cuba, cabendo o último lugar à farinha. Se alguém tivesse querido amassar à mão, ter-se-iam adicionado os ingredientes pela ordem inversa. Dividiu posteriormente a massa em três porções que se entrançaram e ficaram a levedar, em sítio morno, mais 20 minutos. No fim, pincelou a trança com leite (para um acabamento brilhante, usa-se ovo) e meteu-a no forno até dourar, a 200ºC.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Terras de Sto. António — Touriga Nacional '2009

Ao primeiro impacto, apenas flores e etanol. Vertido directamente da garrafa, ainda não tivera tempo para respirar. Bastante concentrado e repleto de sugestões de coisas escuras, nunca chegou, no entanto, a sugerir o peso químico dos exemplares mais corpulentos da casta.

Com o tempo, aquele bloco monolítico de álcool e coisas escuras abre-se, revelando primeiro uma generosa camada de ameixa, mais tarde fruta também vermelha (pareceu-me morango sobremaduro) e muito bonita. E tostados e fumados de barrica. E pinho, menta, um toque de noz.

Bem saboroso logo desde o primeiro gole, cheio mas não muito denso, com o álcool bem integrado e a madeira, mais presente com o vinho na boca, a complementar muito bem a fruta. Vivo, fino e porventura ainda mais limpo ao segundo dia.

Foi bebido com o frango estufado da avó da S, que não sei exactamente como se faz, embora suponha, e que é extraordinário. Juntámos-lhe uns cogumelos salteados e comemos tudo com batatas fritas. Parece simplório? Seja.

6€.

16,5

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Morgado de Sta. Catherina — Reserva '2009

Arinto de Bucelas, da Quinta da Romeira. As uvas fermentaram e estagiaram, dez meses, em carvalho francês. Demasiado frio no princípio. O passar do tempo trouxe-lhe frutos secos e madeira cheirosa. Também deixou perceber citrinos doces, de carácter maduro: laranja, lima e algum outro tipo de fruto tropical a que não consegui associar um nome. Continuando a evoluir, sugeriu a dada altura ananás-baunilha com toque de fumo e pinho. Fresco e persistente, tem uma untuosidade extremamente agradável, não se podendo dizer, no entanto, que seja um vinho muito extraído ou encorpado — à imagem do seu antecessor, relativamente ao qual será, eventualmente, um pouco mais leve.

Acompanhou arroz de polvo. A receita é sobejamente conhecida, um clássico muitas vezes reinterpretado. À nossa maneira, usualmente sem vinho tinto, mas com coentros frescos. Embora agora seja a S quem o prepara, aprendi-lhe as bases antes de a conhecer, com M, algarvio orgulhoso, o meu padrinho de praxe. Lembro-me de que se fazia ora equilibrado, ora estupidamente picante, dependendo de se contávamos com gente de fora para o jantar ou se iam ser só os da casa. Foi um destes arrozes de polvo o veículo de certa competição entre M e D, o degradado, que consistia em apurar quem era capaz de comer mais picante. M saiu vencedor, embora sem prémio nem honra, dado que ambos se fartaram de vomitar. Enfim, coisas da vida, de jovens.

9€.

17

sábado, 27 de abril de 2013

Domingos Soares Franco, Colecção Privada — Verdelho '2012

Branco bom entre partidas de xadrez. Fica também a nota de a foto da garrafa ter sido tirada com a máquina nova.

É o sucessor deste. E tal como ele apresenta-se fresco e jovem, de perfil delicado. Inicialmente, o verde predomina. Folha de limoeiro, louro. No entanto, a fruta presente, nectarina e ananás oportunamente colocadas sobre levíssimo fundo melado, não o deixa tornar-se austero. Para beber jovem.

Da ficha técnica: 95% Verdelho, 5% Verdejo — o que vai contra o que se disse aqui. Será seguro afirmar, então, que este vinho é 95% Gouveio e 5% Verdejo (daquele que abunda em Rueda)? O mosto fermentou em inox a 14ºC, tendo o vinho resultante sido engarrafado em Dezembro de 2012.

A garrafa foi oferecida pelo produtor, que recomenda um PVP de 9,49€.

16

terça-feira, 23 de abril de 2013

Vale dos Barris — Castelão '2011

Outro monocasta da Adega de Palmela. Mais ligeiro e jovial que o Syrah do post anterior, em relação ao qual mostrou mais fruta doce, mais alegria e menos de tudo o resto, seriedade incluída. (Em contrapartida, este trouxe flores.)

Enfim, são vinhos diferentes, por mais semelhantes que os respectivos métodos de produção pareçam no papel — existe um mundo de diferença nas uvas, mas não só! Isto para dizer que estou bem ciente de quão relativa é a propriedade de os sujeitar a uma comparação directa.

Diferentes, dizia. O Syrah mais pesado e profundo, mais nocturno, para acompanhar cartas e conversa até às tantas, ou mais simplesmente para o bifinho de todos os dias à mesa do jantar. O Castelão mais alegre, mais ensolarado, mais imediato também, quase perfeito para um piquenique e a generalidade das coisas que para eles se costumam levar.

Ah, e com sardinhas assadas.

2€.

15

sábado, 20 de abril de 2013

Vale dos Barris — Syrah '2009

Da ficha técnica : "Por entre a Serra do Louro e a Serra de S. Luís estende-se em toda a sua plenitude o Vale dos Barris, um dos ex-libris naturais da região de Palmela, este vale termina o seu percurso no rochedo de onde se ergue o castelo de Palmela". Assim ficou explicado o nome do vinho. E a promessa a mim próprio: um dia irei ao Vale dos Barris com os sapatos de dread e a máquina fotográfica.

Sobre a coisa propriamente dita: Syrah escuro e maduro, de corpo firme, apesar do volume modesto. A madeira onde passou quatro meses antes de ser engarrafado pouco se nota. Vagamente terroso, mostrou álcool, cereja preta e notas de kirsch. Após basto arejamento, também caramelo e cacau. Fim de boca mediano.

Competente q.b. chegada a hora de acompanhar uma empada de coelho com molho béchamel e vários vegetais ao vapor, é mais um exemplar interessante da gama em que se insere.

4€.

15

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Velharias (36)


Online.

"Olá pequerrucho."
"Insignificante."
"Não sejas assim. Puxo-te as orelhas."
"Enfia-me antes uma algália, eu mereço."
"Não sejas parvo. Olha, o que é um empirista?"
"Pergunta ao Google."
"Não sejas mau."


Conversas de merda na net. Não sejas isto, não sejas aquilo. Sempre me disseram para não ser. Tanto que acabei mesmo por não querer ser nada. Nada interessava — interessa — interessará. O amanhã nunca vem, e nada de quases: pura e simplesmente não chega.

Faltavam doze dias.

Quando somos tomados por um arrepio "bhlugh" logo ao primeiro gole de whisky-cola e o copo que temos à frente é de 300ml, podem passar-nos ideias loucas pela cabeça. Teria falado, se tivesse com quem. Hoje saí. Comi fora. Sentia-me bem. Tomei café no Caraíbas e comprei quinze maços de Dunhill na tabacaria pequenina que fica por baixo do centro comercial. Há anos que lá passo para comprar tabaco, só quando calha. No princípio a senhora do balcão perguntava pela família, agora já não diz nada. Voltei para casa e fechei as persianas. Não vejo o meu gato desde ontem de manhã. Não vejo ninguém. Não estás aqui para me ouvir e a única luz que tenho é a que emana deste monitor.

O meu primeiro contacto com drogas aconteceu há cerca de seis anos, também em Agosto, neste mesmo quarto. Fazia um calor infernal, mais que agora. As persianas estavam corridas até ao fundo, nem uma nesga de luz. Como hoje, e ontem, e anteontem, e há um mês atrás. Decidi que a minha primeira pedrada seria feita de whisky com Coca Cola, acompanhada de Lexotan e ao som do Dark Side of the Moon. Hoje ouço Joy Division. Não mais os Floyd. Demasiadas memórias, a dada altura tornou-se penoso. Com o passar dos anos, eu não deixei de ser eu, apenas me tornei menos melódico. A harmonia manteve-se, mas tornou-se algo seco e cinzento. Em tempos quis libertar-me do que era. Mais tarde procurei fugir ao que tinha sido. Hoje aceito tudo tal como é. Há seis anos atrás eu odiava Deus ao ponto de apregoar que ele não existia. Hoje —

Lembro-me de rebolar no chão morno, completamente pedrado, enjoado pelo travo característico que nos fica na boca quando bebemos demasiadas coisas doces. Os meus pais estavam em casa. Lembro-me de ouvir a minha mãe gritar e bater à porta. Mas eu estava demasiado feliz para me deixar perturbar. A preocupação dela parecia-me mesquinha. Não era saber que um filho podia estar a morrer que a fazia gritar. Era, isso sim, a enormidade amoral que todo o meu acto representava, e o precedente que abria. Foi como um grande "basta" que lhe gritei de olhos nos olhos, essa primeira pedrada. E passadas umas horas, saí. Tudo havia mudado. Estava consciente. Via, ouvia, falava e andava, mas senti pela primeira vez que o mundo estava todo lá fora. Pela primeira vez na vida, senti o verdadeiro esplendor da leveza. Gostei tanto que decidi que seria esse o motor da minha vida. Nunca me arrependi. Hoje é apenas uma repetição ligeiramente diferente, de ontem e de sempre. E o amanhã, será mais que simplesmente possível?

"Tudo depende da dose."

O tempo habita em nós. E com ele tudo muda. E tudo permanece. E nada há a dizer de hoje. Hoje é uma projecção de ontem. Uma repetição de sempre. Lembro-me da última vez que ouvi Joy Division aos berros, como hoje. Aconteceu há eternidades, porque alguém me tinha deixado. Hoje aconteceu porque sim, sinceramente porque sim. Porque sim não é porquê, mas hoje também não tem de ser hoje. Hoje pode bem ser ontem ou outro dia qualquer. Como sempre. Que fiz eu de diferente? Envelheci mais vinte e quatro horas? Irrelevantes. E todos os dias serão ontem, até que voltes.

Ontem, às 22h50,

Alguém me telefonou de um número que não tinha memorizado no telemóvel. Não atendi porque tinha o telefone em silêncio e estava a ver televisão noutra sala, mas, quando dei conta da chamada, não pude deixar de pensar que podias ser tu. Ou qualquer outra pessoa. Mas quem mais me havia de ligar já bem de noite, ainda por cima de um número desconhecido? Em vez de ligar de volta, enviei uma mensagem escrita, quase meia hora depois. Foi o que consegui fazer. Ninguém respondeu. Nem pensar em ligar de volta. Depositei o telefone, agora com som, em cima da cómoda do meu quarto, depois deitei-me. Mais uma vez, abandonei-me a estranhos pensamentos. O impulso para conhecer seria, de facto, análogo ao impulso para procriar?

O misterioso número de telefone que fez o final do meu dia não voltou a dar sinal de si.


13/8/2004