quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Quinta do Cardo — Síria '2011

Varietal Síria de Figueira de Castelo Rodrigo, engarrafado sem ter passado por madeira, após um breve estágio sur lie.

Mineral, musgoso, sugere pedra fria e humidade, mau grado a presença inequívoca de notas citrinas. Com o tempo, também algo como melão aguado. É um vinho de tons limpos, verdes e amarelos, mais verdes que amarelos. Fresquinho e macio, deixa um pós-gosto ligeiramente amargo. Nada maduro, mas ainda menos acre, fará seguramente boa companhia a umas lulas grelhadas. No entanto, sozinho, como o bebi, também não compromete.

Para além de um bom vinho, é também uma curiosidade. Vale a pena atentar na diferença entre o seu carácter quase completamente frio e a tropicalidade directa da maior parte dos seus congéneres do Alentejo, onde é uma das castas mais populares, sob o nome de Roupeiro. Não completamente a despropósito, recordo ainda certo exemplar da colheita de 2006 da mesma quinta, que abatido a caminho dos 3 anos, proporcionou uma experiência organoléptica completamente díspar da presente. A guardar para ver.

5€.

15,5

domingo, 4 de agosto de 2013

Companhia das Lezírias '2008

Castelão, Alicante Bouschet, Touriga Nacional e Cabernet Sauvignon. As cepas, com uma média de idades de 25 anos, encontram-se implantadas nos solos arenosos da charneca do Catapereiro.

Relativamente a como foi feito, passo a citar a ficha técnica que o produtor disponibiliza no seu sítio da internet: "desengace, esmagamento, fermentação alcoólica em depósitos de inox, prensagem, fermentação maloláctica, estágio de 8 meses em barricas novas de carvalho francês e americano".

Trata-se, em poucas palavras, de um Ribatejano maduro, cheio de fruta vermelha, que não procura subterfúgios para tentar esconder a presença do álcool. Também a madeira onde estagiou se nota, sobretudo na boca, mas não destoa, julgo que acima de tudo pela força do conjunto. Apesar de frontal, não é taludo nem bruto, e não brilhando, tem os seus momentos.

4€.

15,5

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Velharias (37)

Sem data, no verso da capa de um livro.



dourado, o tom eléctrico do nosso amanhecer às portas da cidade que nos viu nascer, crescer, fugir

fugir, correr —

parados sob as árvores, ramagens negras soerguidas ao céu, como garras ressequidas

correr —

amanhecer ar e luz numa estradinha dos arredores, ao princípio da alvorada, ainda as luzes da cidade sobre o largo fundo negro

negro dos montes onde nos perdemos.

amanhecer ar e luz num pequeno cemitério de aldeia, assistir de perto ao desmembrar das trevas, o seu ronco de morte dissipado na claridade fria

depois das luzes da via rápida, para lá das casas, hortas, pinhais

por entre os montes, azul disperso —

cinzento, dourado.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Mc Chouffe "Scotch of the Ardennes"

Scotch ale belga, não filtrada e refermentada na garrafa, com 8% de teor alcoólico, é produzida pela Brasserie d'Achouffe.

É uma cerveja que sempre me pareceu algo outonal, provavelmente pela combinação da cor acastanhada que apresenta com o seu cheiro rico, que junto com o malte, a tosta e as leveduras que habitualmente se encontram nas cervejas do género, traz generosa porção de notas doces, de fruta e caramelo.

Num grande balão, apresenta generosa coroa de espuma e bolhas finas, bastante vivas. No entanto, ao contrário daquilo que a sua cor e cheiro levam inicialmente a adivinhar, não pesa na boca. Flui alegre e precisa, sem doçura solta, com um agradável travo frutado que se destaca, a fazer lembrar pêssego.

Não sendo nem querendo parecer um especialista nestas coisas, que cerveja tenho sempre bebido sem pensar, muito menos estudar, e apesar da quase total ausência de elementos amargos que alguns consideram necessários ao género, di-la-ia universal e completa — sem dúvida, uma das minhas cervejas preferidas.

3€/33cl.

domingo, 28 de julho de 2013

The Raincoats — Moving

I'm no one's little girl, oh no, I'm not,
I'm not gonna be — cause I don't wanna be,
I never shall be on your family tree —
Even if you ask me to.



I'm gonna turn you down,
I won't mess you around.
Oh no I'm not.

You can do it, you can choose it —
Trying on.

I'm no one's little girl —
Oh no, I'm not.
I'm not gonna be — cause I don't wanna be,
I never shall be on your family tree —
Even if you ask me to.


sexta-feira, 26 de julho de 2013

Vallado '2010

O produtor adianta que cerca de 80% do lote (30% Touriga Franca, 25% Touriga Nacional, 20% Tinta Roriz, 5% Sousão e 20% de vinhas velhas) estagiou durante 14 meses em cubas de aço inoxidável, tendo o restante passado o mesmo período em meias pipas de carvalho francês de 3º e 4º ano.

Bebi-o sem tomar notas. Foi em casa, à hora do costume, e o caderno estava lá, mas não apeteceu. Agora, alguns dias depois, lembro-me de um tinto jovem mas já feito, completamente adulto e claramente do Douro, de volume e persistência medianos, focado na fruta, sobretudo negra, com toque de pimenta, baunilha e mato rasteiro, taninos vivos e uma acidez muito refrescante a ligar todo o conjunto.

Não tendo agradado tanto quanto o espécime da última colheita aqui registada, 2007, que adorei, é sem dúvida um vinho sólido, que consegue o recorte moderno sem comprometer noutros aspectos, como a tipicidade ou a elegância, coisa que imagino não trivial face à quantidade de experiências mais ou menos falhadas que se podem encontrar em circulação, mas a que a casa que o produz nos foi habituando com invulgar consistência, faz já algum tempo, mesmo nas gamas de entrada, de grande tiragem. A repetir.

7€.

16

terça-feira, 23 de julho de 2013

Quinta da Bica '2005

Beirão de Seia, produzido pela quinta de que leva o nome. O contra-rótulo refere um lote de castas típicas da região (Touriga Nacional, Alfrocheiro, Tinta Roriz e Jaen) do qual metade foi sujeito a um estágio de nove meses em carvalho francês. Do mesmo produtor, já por aqui passou um Radix da colheita de 2008, de que guardo boas memórias.

Abriu com fruta muito madura, acompanhada de uns apimentados e tingida por ligeiro mofo que acabou por se dissipar ao cabo de uns minutos no copo. Especiarias mais presentes na boca, esta de textura polida e final bem razoável. Cerebralizando, podia penalizá-lo por ser um peso-leve de contornos quentes, mas não posso negar que o conjunto resulta bem agradável. É daquelas coisas que talvez só se percebam bebendo.

Sobrou quase meia garrafa para o segundo dia, que acompanhou uns naquitos de frango com couve coração. A fruta manteve o seu perfil, mas surgiram bastantes notas de bosque que antes não havia notado. Aromas terciários, não. Oxidação, idem. Fiquei agradavelmente surpreendido com este vinho, que a caminho dos oito anos ainda não evidencia qualquer sinal de declínio. E claro, apresenta uma RQP imbatível.

3€.

16

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Adega de Vila Real — Grande Reserva '2009

A seu respeito, a apresentação que o produtor disponibiliza no respectivo sítio da internet refere Tinta Barroca, Tinta Roriz, Tinto Cão, Touriga Franca, Touriga Nacional, uma percentagem de vinhas velhas plantadas em altitude e estágio prolongado, sem definir com precisão o respectivo intervalo de tempo, em barricas de carvalho francês (75%) e americano.

Comprado após a boa experiência havida com o do post do passado dia 14/7, não desapontou. Trouxe consigo fruta com foco e profundidade, um toque de especiaria, alguns cheiros que conoto sempre com a presença de tourigas, chocolate preto, tosta e baunilha das barricas onde estagiou, e uma estrutura, sem surpresa, consideravelmente superior à do Reserva (maior e mais madura).

Ora, apesar de ser um vinho gordito que se fartou de sugerir coisas de carácter quente, até se mostrou bastante fresco durante as mais de duas horas que esteve aberto, não tendo o factor exposição contribuído para que a dada altura se tornasse mais morno ou pesado; primeiro a fazer companhia a um coto de peru assado, depois com Cheddar velho e o filme do próximo post.

7€.

16

domingo, 14 de julho de 2013

Adega de Vila Real — Reserva '2010

Foi adquirido por impulso em visita recente a um supermercado. Ia ao pão e lá estava ele. O preço, o factor novidade e o bem que a seu respeito já tinha ouvido dizer fizeram o resto, veio comigo para casa.

Face a um estufado de frango dos mais simples, daqueles com cebola, alho, tomate e vinho branco, mostrou uma razão entre concentração e leveza mais que apenas aceitável, fruta bastante, preta e roxa, com agradáveis notas de touriga, certo carácter silvestre, típico e que é sempre bom encontrar num tinto da região, e muito importante também, alegria.

Feito a partir de tourigas e tintas do Douro, passou por breve estágio em barrica, que me pareceu notar-se mais na maturidade revelada pelo vinho como um todo que por via de algum cheiro ou sabor característico. O produtor existe na internet.

3€.

15

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Não é impunemente que o fumador coloca a sua inteligência diante da ideia única e total: essa é uma contemplação fatigante, que pode tornar-se perigosa caso façamos dela uma rotina. Com efeito, em vez de se casar com a Ideia Única, o fumador arrisca-se a casar com uma só ideia, ideia talvez superior, talvez vulgar, mas que, no seu ilusório sonho, se reveste da perfeição suprema. Não se trata de uma crise de orgulho, estando o fumador tão despojado de si mesmo quanto do seu próximo; mas é a crise da ilusão e da ideia fixa. Em redor desta tudo se afunda, tudo é abolido, tudo desaparece. Depois, a faculdade de associação de ideias já não precisa de intervir; enferruja e a inteligência recusa-se (primeiro por desdém, depois por impotência) a considerar várias idieias nas suas relações e nas suas influências recíprocas. É uma diversão da atenção, da penetração, de todo o entendimento; é a dissociação intelectual no que ela tem de mais penoso; porque, ao fim de pouco tempo, tendo desaparecido o "desdém" superficial, o fumador toma consciência desta dissociação e da inferioridade geral a que ela o condena. Se quisermos transpor de forma um pouco ousada a terminologia médica, é exactamente a caquexia mental.

Devo no entanto dizer que nenhum destes efeitos é durável e profundo. Todos eles cessam (à excepção talvez da anemia nervosa) com a causa que lhes deu origem, ou seja, com a suspensão das sessões de fumo. Um organismo saturado de ópio liberta-se inteiramente em seis semanas... caso o queira; mas será que o quer, e, sobretudo, poderá querê-lo?



in O Livro do Ópio (Le Livre de l'Opium), de Albert de Pouvourville, sob o pseudónimo de Nguyen Ted Duc, 1925; trad. de Jorge P. Pires, ed. Frenesi, 2000.