quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Pedra Cancela — Selecção do Enólogo '2010

Lote de Touriga Nacional, Alfrocheiro e Tinta Roriz, estagiado durante seis meses em barricas usadas de carvalho Allier, este vinho foi engarrafado pelo eng. nº 4907, de Nelas, para João Coelho Gouveia, Quinta da Carreira Alta, de Oliveira de Barreiros, Viseu.

Ainda está jovem, pelo que não surpreende que nele predomine a fruta, de carácter silvestre e mais vermelha que preta: cereja, morango e bagas. Com ela vêm flores, mais violetas que quaisquer outras, ligeiro balsâmico fresco, a fazer lembrar bosque de pinheiros, e porção nítida, embora não ofensiva, de especiarias doces e tostados, contribuição certa das barricas onde estagiou. Ademais, é gordito e não esconde o toque morno do álcool. Guloso, foi escorregando pela noite dentro, até acabar.

5€.

15,5

segunda-feira, 7 de outubro de 2013


Em jeito de adenda ao post anterior, Deep Blue v. Kasparov, Rd.6; NY, 17/11/1997.

1. e4 c6 2. d4 d5 3. Cc3 dxe4 4. Cxe4 Cd7 5. Cg5 Cgf6 6. Bd3 e6 7. C1f3 h6?!


8. Cxe6 De7

(8. ... fxe6!? 9. Bg6+ Re7 10. O-O Dc7 11. Te1 Rd8)

9. O-O fxe6 10. Bg6+ Rd8 11. Bf4 b5

(11. ...Cd5 12. Bg3 Db4 13. Db1 Ce7 14. c3 Da5 15. Bh4 Rc7 16. Bg3+ Rd8 e o jogo acabou empatado bastante depois; Double Fritz 4 + Boss v. G. Timoschenko, Jena, 1996.)

12. a4 Bb7 13. Te1 Cd5 14. Bg3 Rc8 15. axb5 cxb5 16. Dd3 Bc6 17. Bf5 exf5 18. Txe7 Bxe7 19. c4 1-0

sábado, 5 de outubro de 2013

The game began the same way as game four, with a Caro Kann defense. Instead of playing a weird sideline as he did in Game four, this time Garry played the main line. Deep Blue also played the main line for White; in fact, the main line that Garry as White used against Anatoly. Garry was in a familiar territory, albeit from the opposite side of the chessboard. On Garry's seventh move, after spending nearly two minutes, he played 7. ... h6. Deep Blue instantly replied Nxe6, giving up a Knight for a pawn. Garry acted a little bit surprised, but then played the next few moves very fast, as did Deep Blue. Both sides were still in book. In the auditorium, Yasser was saying that Garry had blundered and transposed the move. He also said that Garry was in terror and distress. None of us in the operations room, including Ken, believed this. It was inconceivable that Garry, with his legendary memory, could have forgotten an opening line that he had played many times, albeit usually from the White side. Garry's expression was also more one of surprise rather than terror and distress. Those emotions would come later. So what did happen? An International Master in Kasparov's camp was quoted the next day in the newspaper that the 7. ... h6 move was one agreed upon earlier. Garry himself stated months later in an interview that he regretted the decision to play 7. ... h6. So the move was never a slip of the finger as it was characterized in news articles immediately following the match. It was played by design. So why did Garry play the move? Black's position was generally considered difficult at best after the Knight sacrifice. This is true in games played by human players, but it is not true in games played between computers and human players. The commercial chess programs apparently had serious problems avoiding losing the game as White! Several Grandmasters had tried playing the Black side of the game positions against the top commercial chess programs and were able to win every single game. This fact did not come out until well after the match, but by then the media had moved on to other stories. What Garry played in game six on move seven was a very risky anti-computer chess move. 

in Behind Deep Blue: Building the Computer that Defeated the World Chess Champion;
Feng-Hsiung Hsu; Princeton Univ. Press, 2002.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

José de Sousa Mayor '2009

Proveniente do Monte da Ribeira, herdade próxima de Reguengos de Monsaraz que até 1986 foi propriedade da Casa Agrícola de José de Sousa Rosado Fernandes, a edição de 2009 deste topo de gama da José Mª da Fonseca fermentou em talhas de barro e lagares, tendo posteriormente estagiado durante 11 meses em cascos novos de carvalho francês.

Uma curiosidade: de acordo com as notas do produtor, o presente lote é composto por 49% de Grand Noir, 28% de Trincadeira e 23% de Aragonês, completamente diferente, por exemplo, do da colheita de 2000, que também figura aqui no blog e que era constituído por 55% de Trincadeira, 33% de Aragonês e 12% de Grand Noir.

Isto leva-me a crer que mais que reproduzir o Tinto Velho de 1940, cujo método de produção, não tendo chegado devidamente documentado aos actuais proprietários por graça da estroinice e do comunismo, se conseguiu em boa parte recuperar em virtude de um bom trabalho de reconstituição, o mote será fazer algo no seu espírito, mas diferente, com espaço para a experimentação.

Este é um vinho que justifica uma hora de arejamento prévio e que me tem agradado sempre mais em balões largos. O barro por onde passou, e que poderia parecer estranho noutras circunstâncias, aqui faz todo o sentido, com as tâmaras, os figos e outros frutos escuros, bem maduros, que sempre se me insinuam transformados pelo sol, com a folha de tabaco e a baunilha, sensações quentes que acabam invariavelmente por sugerir, por associação, retratos da sua terra.

Não chega, no entanto, a ser objectivamente gordo, muito menos pesado, e tem uma acidez que quase limpa a boca. No mais, é um Reserva na verdadeira acepção da palavra: volumoso, estruturado, com bom final e (certamente) alguma capacidade de guarda.

A garrafa foi oferecida pelo produtor, que recomenda um PVP de 18,95€.

17,5

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Viñas del Vero — Gewürztraminer '2012

Monocasta Gewürztraminer do Somontano (Huesca); o produtor existe na internet. Que branco bonito! Tem rosas e flores da montanha, líchias e casca de limão. Tem imensa frescura e um equilíbrio quase perfeito entre leveza e untuosidade. É um competentíssimo vinho jovem, alegre e preciso, tão apetecível sozinho quanto capaz de ligar toda uma refeição, sobremesas incluídas. Posto isto, que mais se lhe poderia pedir?


Capaz de ligar toda uma refeição, dizia eu antes, porque efectivamente foi o que fez. Acompanhou salada fria de salmão marinado e pepino cujo ponto alto foi, no entanto, uns cubinhos de beterraba maravilhosos que trazia, confit de bacalhau e bonito teriyaki, ambos no ponto, o segundo com umas sementes de sésamo para dar crunch, e esponjado de queijo de Las Arribes com espuma de alecrim, que se comeram no restaurante do museu DA2 de Salamanca, que por sinal também é porreiro.


Uma última nota: onde estávamos, foi o último dia antes de começar a chover. O vinho custou 14€; em loja andará um pouco abaixo dos dez.

17

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Sovina Amber

Refere o produtor ser esta cerveja com 6% de volume alcoólico "a recriação do estilo artesanal produzido apenas nas zonas cerealíferas francesas, junto à fronteira belga".

Vertida fresca numa tulipa grande, mostrou cor alaranjada e uma coroa de espuma viva, mas ligeira, algo fugaz. Quanto a flavour, não se afastou do esperado — malte e lúpulo quanto baste, tosta, um pouco de fruta, apimentados — excepto em certo singular amargor, mais evidente no fim de boca, e que marcou a prova.

Não se compara, de facto, às pilsener industriais, genéricas, que representam a maior parte da cerveja consumida em Portugal, mas também não é com essas que se deve comparar. Ora, colocada lado a lado com os seus presuntivos pares, aqueles em cujo perfil é inspirada, o que me pareceu, por alto e de memória, é que terá, por norma, alguma dificuldade em equalizar.

O preço por garrafa de 33cl anda entre os 2 e os 3€.

P.S. Consta que o nome foi escolhido à margem do significado da palavra, apenas porque soava bem e todas as outras opções estavam tomadas.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

.com Vinhas '2011

Alentejano de Estremoz, feito para o Pingo Doce pela Tiago Cabaço Wines, é um bivarietal de Aragonês e Touriga Nacional, de vinhas com menos de dez anos, engarrafado sem passagem por madeira.

Macio, de largura mediana e final a condizer, madurão, com toque alcoólico, muito embora não ardesse nem picasse, mesmo a 16ºC, apareceu marcado por fruta preta, flores e licor. Quais, não consegui precisar.

Acompanhou melhor o arroz de carne picada com que foi servido ao almoço que os enchidos do lanche, creio que mais pelo maior teor de gordura destes últimos que por questões de sabor puro e simples.

Em suma, é mais um na multidão de rótulos com algum interesse e ao mesmo tempo disponíveis e acessíveis o suficiente para se poderem considerar, em termos gerais, para consumo quotidiano.

Poderá também ser um bom ponto de partida para a evangelização de não apreciadores.

Custou menos de 3€.

14,5

sábado, 14 de setembro de 2013

Frei João '2009

O colheita. 40% Touriga Nacional, 30% Baga, 23% Syrah e 7% Cabernet Sauvignon.

Ao jantar do primeiro dia, servido directamente da garrafa, quase sem tempo de arejar, desde logo se mostrou uma surpresa de força e consistência. A robustez evidenciada, a riqueza da fruta, o simples facto de todo ele aparecer um pouco fechado — como pode este vinho custar menos de 3€? Aguentou perfeitamente um guisado de frango e salsicha fresca, com generoso toque de pimentón ocal, que sem dúvida lhe marcou o carácter.

Ao almoço do segundo dia, em balão mais largo e bojudo (mais borgonhês) que o utilizado na noite anterior, após umas horas na porta do frigorífico, vedado pela própria rolha, virada ao contrário, deixou finalmente perceber o carácter da fruta (preta, até algo sumarenta) a par de alcaçuz e outras especiarias que se costumam encontrar nos vinhos que levam Cabernet. Acompanhou fatias finas de lomo adobado com batatas fritas e ovo estrelado, junk food caseira.

2,50€

15,5