sábado, 9 de novembro de 2013

Herdade do Pombal '2009

Alentejano de Estremoz, composto por 60% de Aragonês, 15% de Trincadeira, 15% de Alicante Bouschet e 10% de Cabernet Sauvignon. Durante seis meses, 40% do lote estagiou em barricas de carvalho francês de terceiro ano.

Popped & poured, a acompanhar bôla de carnes frias e outras mastigações ligeiras, mostrou-se quente e macio, com boas notas de barrica.

Vinho de terra quente com a fruta sempre em primeiro plano, não me quis parecer, no entanto, nem uma bomba de álcool, nem um aborrecido frasco de compota sob disfarce.

Nota também francamente positiva para o seu sabor redondo, francamente especiado, aconchegante, que termina com razoável persistência.

Tendo sobrado para o jantar do dia seguinte, perna de peru assada a baixa temperatura, pela qual esperou na porta do frigorífico, vedado pela própria rolha voltada ao contrário, encontrei-o mais ou menos na mesma — primeiro, generosa amora silvestre e figo, depois, baunilha e o já mencionado perfume de madeira. A dada altura, começou a fazer lembrar azeitona preta.

7€.

16

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Velharias (39)

Castelo Branco, 3h20 da madrugada. Estão 34ºC, respira-se fumo. M droga-se enquanto joga xadrez com um gajo giro e bom, algures para os lados da Zambujeira. A envia-me Pablo Neruda por SMS. Sobre sonhos feitos desejos, desejos sonhados, sonhos desejados para lá do tempo. Mas afinal está apenas bêbeda e frita, algures pelas Caldas ou arredores.

E eu? Online. Passei a tarde a dormir. Sonhei com S. Andávamos fugidos de algo ou alguém pela
baixa da tal cidade que é sempre a mesma. A dada altura, entrámos no que parecia ser uma pequena pensão de província. Portas de alumínio, dois pisos, um cafezito que parecia a Locomotiva a servir de recepção e lobby.

Acordei quando de alguma forma tropeçámos num americano de t-shirt amarela e calções de praia que lá estava sentado a beber cerveja. Acordei meio em sobressalto e esqueci-me da maior parte dos pormenores, que curiosamente foram voltando com o café de depois do jantar.

A tarde fez-se sessão de blitz no ICC. Não correu mal de todo. Ainda assisti ao início do relay do Radjabov - Leko. O puto R joga mesmo bem. Simples e bonito. É um gosto vê-lo. Depois a cidade ficou às escuras.

Dois discos:
The White Stripes, White Blood Cells e Leftfield, Leftism.

E uma palavra:
retromingent. Adjectivo, diz-se dos animais que urinam para trás.


3/8/2003

domingo, 3 de novembro de 2013

Chaminé '2012

Foi este o vinho que começou tudo. Um dia fui comprar algo para o jantar ao supemercado do centro comercial que fica ao fundo da rua onde vivemos. O Outono já ia avançado, estava frio. Parei por acaso na prateleira dos vinhos e reparei nele. Colheita de 2005, se a memória me não atraiçoa. Achei o rótulo engraçado, decidi trazê-lo.

Até aí, o consumo era pontual. Quase só bebia fora das refeições, na noite, e a maioria daqueles com quem mais saía preferia cerveja.

Já em casa, o Chaminé aqueceu, animou, alegrou o jantar. Ainda por cima, como a S não gostava de tinto, podia ser todo só para mim. Assim nasceu o hábito de onde haviam de vir a derivar estas páginas.

O Chaminé de hoje continua mais ou menos como esse primeiro de que me lembro. Praticamente só mostra fruta, escura e doce, com toque de compota e algum álcool — conjunto não necessariamente alentejano, mas cheio de sol. Pena o fim de boca algo curto, apesar da redondez que por momentos promete mais.

Em jeito de nota, da ficha técnica disponibilizada online pelo produtor: 45% Aragonês, 30% Syrah, 12% Touriga Nacional, 7% Trincadeira, 6% Alicante Bouschet. Fermentou sem engaço e estagiou em cubas de inox antes de ser engarrafado.

4€.

15

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Encostas do Enxoé — Reserva '2007

Tinto Alentejano, produzido pela Soc. Agrícola de Pias a partir de Aragonês, destacada como casta predominante, junto com Trincadeira, Alicante Bouschet e Touriga Nacional. Foi engarrafado após meio ano de estágio em barrica.

É um vinho sereno, equilibrado em tudo. No tamanho, no peso, na persistência, no binómio madurez/frescura. No estado de maturidade em que se encontra. Assentando em notas de frutos negros, não esconde certo lado terroso (barro) e vegetal muito interessante.

Na noite em que foi bebido, arranjámos espetadas de peru no forno. Grelhou-se um queijo Halloumi. Fez-se salada com tomates e pimentos baby, assaram-se outros maiores. Temperaram-se umas azeitonas pretas com alho e paprika. E ele acompanhou tudo bem.

5€.

15,5

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

INTERVIEWER: What do cut-ups offer the reader that conventional narrative doesn't?

BURROUGHS: Any narrative passage or any passage, say, of poetic images s subject to any number of variations, all of which may be interesting and valid in their own right. A page of Rimbaud cut up and rearranged will give you quite new images. Rimbaud images — real Rimbaud images — but new ones.

(...)

INTERVIEWER: Instead of going to the trouble of working with scissors and all those pieces of paper, couldn't you obtain the same effect by simply free-associating at the typewriter?

BURROUGHS: One's mind can't cover it that way. Now,for example, if I wanted to make a cut-up of this [picking up a copy of the Nation], there are many ways I could do it. I could read cross column; I could say: "Today's men's nerves surround us. Each technological extension gone outside is electrical involves an act of collective environment. The human nervous environment system itself can be reprogrammed with all its private and social values because it is content. He programs logically as readily as any radio net is swallowed by the new environment. The sensory order." You find it often makes quite as much sense as the original. You learn to leave out words and to make connections. [Gesturing] Suppose I should cut this down the middle here, and put this up here. Your mind simply could not manage it. It's like trying to keep so many chess moves in mind, you just couldn't do it. The mental mechanisms of repression and selection are also operating against you.

Extracto de uma entrevista com William.S. Burroughs publicada em
Writers at Work, 3rd Series: The "Paris Review" Interviews;
Penguin, 1978.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Evel '2011 (Branco)

O nome é a palavra leve, ao contrário. A respeito da sua composição, o contra-rótulo indica Moscatel Galego, Viosinho, Arinto e Fernão Pires, embora conste que na  apresentação oficial desta colheita, o enólogo responsável tenha referido a substituição do Moscatel por outras coisas.

Cor palha. Muito fresco, trouxe consigo generosa quantidade de maracujá e goiaba, flores rasteiras e raspa de limão maduro. Cheiros e sabores desenvoltos, a fluir com naturalidade. Gordinho, texturado, pareceu-me ser daqueles vinhos em que o perfil deliberadamente fácil não um carácter de alguma forma fugaz.

Acompanhou, em sucessão, carapaus no forno e frango de churrasco. Tendo ligado bem com ambos, como não podia deixar de se esperar, gostei mais dele com o segundo prato.

4€.

16

sábado, 19 de outubro de 2013

Mark Lanegan — The Winding Sheet

Saw God staring from the wall / I was alone and lost / Here to take me from this world / Still alone and lost.

Night when the dogs from hell come out / Roam my house in chains of gold / The darkness dares my eyes to close / With the setting sun.



Saw a ghost in the shadows smile / I was sick in my soul / All tied up in a winding sheet / Still sick in my soul.

Tired I lay me back on thorns / Full of fear in my head / Lay me back so I could not rise / Full of fear in my head.

The night is born, my time has come / Jesus touch my hand / Please touch my hand / With the setting sun.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Quinta das Bágeiras — Reserva '2009

Proveniente de Fogueira, Sangalhos, este clássico da Bairrada é composto por 60% de Baga e 40% de Touriga Nacional, uvas provenientes de vinhas plantadas em solos argilo-calcários, fermentou em lagares abertos, sem desengace, e estagiou em grandes tonéis de madeira avinhada até ao engarrafamento, realizado sem colagem ou filtração. As notas que se seguem referem-se à garrafa nº 3792 das 7454 produzidas.

Intenso e muito fresco, com as flores da Touriga Nacional e o pinho resinoso da Baga, de entre os quais me pareceu prevalecer o segundo. Apesar da percentagem relativamente elevada de Touriga presente, tem tudo aquilo que se espera de um bom Baga, só que mais ligeiro, mais macio, quase elegante já em novo.

Não lhe bastando ter agradado tanto sozinho, ainda deixou o estufado de coelho com que o acompanhei depois da prova brilhar. É um vinho que não cansa, e por conseguinte um perigo.

9€.

16,5